30.12.08

Coisas de partida

Há uns anos, quando era obrigado a freqüentar a rodoviária de Campinas todas as noites de sexta, algo no qual eu nunca havia reparado me apareceu com força: o caráter expiatório das partidas e das chegadas.

Eu ficava esperando e observando, por algum tempo, no lugar onde os carros encostavam para que as pessoas fossem pêgas ou deixadas. Abismava: quantos sorrisos, quanta felicidade corporeamente demonstrada. Todos os problemas pareciam encontrar seu fim ali, naqueles últimos ou primeiros abraços, naqueles ois ou tchaus, nos acenos.

Não há como negar que este seja um padrão: sempre que há uma quebra, uma passagem, uma possibilidade de mudança, um bom montante ou quase tudo o que foi vivido é observado através de um ponderamento torto. Num dito popular aproximado: basta morrer pra virar santo.

E no réveillon todo o nosso ano tende a ser tornar santo. Todos os acontecimentos, por mais absurdos que tenham sido, ganham firulas ternas de interpretação. É o momento do perdão dos outros e de nós mesmos. É o momento da reconfiguração dos fatos para algo aceitável; é a hora para nos esbaldarmos no uso daquilo a que costumamos dar o nome de racionalização.

Deliramos a fim de tornar a vida mais admissível. Criamos estórias para que a espera do que vem seja mais suportável. E se o que vier for cáustico, destruidor? - nada que dure mais do que 365 dias, a medida a qual nos acostumamos como período máximo para o suporte da realidade, para seu encaramento verdadeiro, para a vivência dos nossos diferentes tipos de luto.

O réveillon é a rodoviária do ano.

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A palavra latina para porta é ianua*. Isto se deu pelo seguinte: a principal característica física de um dos mais importantes deuses romanos é a de ter duas faces, uma em cada "lado" do crânio. O nome do deus: Ianus.

Mas porta não foi a única coisa que recebeu termo inspirado neste deus. Havia uma outra palavra latina bastante usada e que tem nele a sua origem: Ianuarius. Ianuarius é como se designava o primeiro mês do ano. Não é preciso fazer muitos malabarismos pra perceber que Ianuarius é o nosso Janeiro. E o que é Janeiro, então?
É o mês que tem duas caras: uma para quem fica, e outra para quem chega. Uma face para o ano que finda e outra para o que se inicia.

Janeiro é a porta da rodoviária.



*Há uma versão que inverte a ordem: Ianus teria este nome, então, por conta de ianua. Eu obviamente acredito mais e prefiro a que eu narrei.

2 comentários:

guisalla disse...

Picotei meus bilhetes, vi e revi o número da poltrona na passagem...
Genial o lance da rodoviária... feliz 2009 amigo!

gris-gris disse...

Se eu fosse editora, publicaria.
Continue mesmo levando fé nos seus dons de cronista/poeta.

outros,
Cris.