25.11.09

Para Fefê (amore mio), duas do Mauricio Pereira

Trova by fsaconte


Ser boi by fsaconte

Enquanto eu não devolvo o CD...

2.11.09

Blue Rondo A La Turk - Dave Brubeck

Dave Brubeck não faz música: faz hipnose. Seu piano é causa de redemoinhos mentais, confusões voluptuosas, exposição indeferida, torpor.

O trabalho brubeckiano é metódico: os temas fluem circularmente à nossa volta, avançando a uma inversão que nos coloca em transe - é a cabeça então, a um dado momento, o que parece girar, o lugar de onde vem as batidas e notas precisas é descentrado e não se sabe mais onde se está e de onde o mundo vem.

O saxofone aparece para dar a textura e o cheiro. A música nos carrega por aí, no duplo movimento de avanço e circularidade. O contrabaixo e a bateria realizam uma espécie de contraponto: sim, é possível que percebamos técnica absoluta ainda que em confusa vigília, e há por demais prazer no acesso a este gênero de matemática irregular que se acopla ao pseudodelírio.

Dave Brubeck não faz música: faz naves espaciais.

28.10.09

Razão, crença e dúvida

Contardo Calligaris, na Folha de alguns dias atrás:


MEU PRIMEIRO contato com a história que segue foi em junho passado, no blog de Richard Dawkins (www.richarddawkins.net, site que se autodenomina "um oásis de pensamento claro"). Dawkins é o evolucionista britânico que se tornou apóstolo do racionalismo ateu e cético, escrevendo, entre outros livros, o best-seller mundial "Deus - Um Delírio" (Companhia das Letras, 2007).

Mas eis a história. Em 2002, na Austrália, o casal Sam, de origem indiana, perdeu a filha, Gloria, de nove meses.

A menina, a partir do quarto mês, apresentou sintomas de eczema infantil, que é uma condição alérgica que afeta mais de 10% dos bebês e, geralmente, acalma-se ou some aos seis anos ou na adolescência. As causas do eczema infantil não são bem conhecidas; a medicina administra a condição da melhor maneira possível, esperando que passe. O problema é que o eczema (pele seca com prurido) dá uma vontade de se coçar à qual as crianças não resistem, e a pele, ferida, abre-se para qualquer infecção. Foi o que aconteceu com Gloria, que morreu de septicemia.

Não foi falta de sorte: o pai de Gloria é homeopata e, em total acordo com a mulher, medicou a menina só com remédios homeopáticos (insuficientes na condição da menina). Isso até o fim, quando ela definhava pelas infecções internas e externas. Gloria foi levada a um hospital três dias antes de morrer: as bactérias já estavam destruindo suas córneas, e os médicos só puderam lhe administrar morfina para aliviar seu sofrimento.

Os pais de Gloria foram presos, acusados de homicídio por negligência e, no fim de setembro, condenados pela Justiça australiana: o pai, a oito anos de prisão, a mãe, a cinco anos e quatro meses. Segundo o juiz, Peter Johnson, ambos os pais "faltaram gravemente com suas obrigações diante da filha": o marido pela "arrogância" de sua preferência pela homeopatia e a mulher pela excessiva "deferência" às decisões do marido.

Os termos da decisão de Johnson são admiráveis. A obediência -ao marido, no caso-, seja qual for seu fundamento cultural, nunca é desculpa; ela pode ser, ao contrário, o próprio crime. E, sobretudo, o marido é condenado não por recorrer à homeopatia, mas pela "arrogância" que lhe permitiu perseverar em sua crença e em sua decisão diante do calvário pelo qual passava a menina.

A sentença de Peter Johnson é, para mim, um modelo de racionalidade, porque estigmatiza a certeza independentemente do objeto de crença. Ou seja, o juiz não discute o bem fundado da autoridade do marido e, ainda menos, os méritos respectivos da homeopatia e da medicina alopática. Tampouco ele quer limitar a liberdade de opinião, garantida pela Constituição; a sentença penaliza apenas, por assim dizer, a rigidez.

Se me coloco no lugar dos pais de Gloria, não consigo imaginar uma crença, por mais que ela possa ser crucial para mim, que resista à visão do corpinho de minha filha transformado numa ferida aberta e purulenta.

Antes disso, eu (embora confiando, a princípio, na medicina alopática) já teria convocado não só os homeopatas (o que, aliás, seria uma banalidade, visto que a homeopatia é uma especialidade médica reconhecida) mas também todos os xamãs, feiticeiros e curandeiros que me parecessem minimamente confiáveis. E, é claro, embora agnóstico, eu rezaria, sem nenhuma vergonha e sem o sentimento de trair minhas "convicções", pois a primeira delas, a que resume minha racionalidade, diz, humildemente, que há muito no mundo que minha razão não alcança.

Se fosse testemunha de Jeová, e minha filha precisasse de uma transfusão (que a religião proíbe), abriria imediatamente uma exceção. Mesma coisa se fosse cientologista, e minha filha precisasse de ajuda psiquiátrica. Sou volúvel e irracional? O fato é que tenho poucas crenças (provavelmente, nenhuma absoluta), e acontece que, para mim, a razão é uma prática concreta, específica: um jeito de pesar e decidir em cada momento da vida.

O surpreendente é que, ao ler os comentários dos leitores no blog de Dawkins, os "racionalistas" parecem tão "rígidos" quanto o pai de Gloria. "A razão" (que eles confundem com uma visão aproximativa do estado atual da arte médica) é, para eles, um objeto de fé, uma crença pela qual facilmente condenariam os "infiéis" à fogueira.

Com o juiz Johnson, pergunto: onde se manifesta a razão? Na arrogância das certezas ou na capacidade de duvidar?

7.10.09

Presente de aniversário - Natalis Getuli

14 Jardim da Fantasia  by  fsaconte

Há dias aniversário de um amigo dos bons. Ainda não consegui falar com ele. Vai o presente, então. Depois a gente toma uma cerveja perto da ferroviária, velhinho... hehe

P.S - Veja lá, meu caro: seu nome está no genitivo da segunda declinação, e o natalis deve ser da terceira - então esse é nominativo da terceira... rsrsrs

1.10.09

Semana "Chamem o capitão Nascimento"



Na terça-feira ligaram aqui em casa. Já passava da meia-noite e o telefone do quarto do meu avô tocou. Como ligações recebidas a essa hora costumam não ser boa coisa, fiquei ouvindo atrás da porta. Hã? Quê? João? - disse "seu" Ludovico, já quase surdo, o que me fez entrar no quatro e pegar o fone. Uma voz infantil do outro lado:

- Eu tô aqui com eles!
- Peraí: eu quem?
- Sou eu, sou eu! Fala aqui com eles!!!

A ficha caiu na hora. Um sujeito com voz de pastor da Universal e sussurando à la Paulo Ricardo do mal começou a soltar:

- Eu vou acabar com ele!
- Ele quem?
- Vou matá-lo. Vou enfiar uma faca no coração, vou colocar fogo nele.

Assim, bem brega mesmo.

- Rapaz, vai dormir vai.
- Você acha que é brincadeira? Vou dar um tiro na cabeça dele. Eu vou...
- Vai dormir, vai. Vai dormir porque você já acordou todo mundo aqui. Deixa de ser tonto.

Hoje, quinta-feira, não houve tempo nem distância suficientes para que eu fosse irônico. Rua Marechal Deodoro, centro da cidade, 8h20. Fabiano distraído, sonolento, olhando pro chão. Bate um sujeito de frente, já chega outro pelas costas, uma arma no bolso do casaco, carteira e celular arrancados, arma na barriga: - Vai suave. Vai, meu irmão... E e eu fui. Meu celular - velhinho, coitado - foi jogado pra trás, descartado. Terei ainda que ir à delegacia, coisa para qual não estou com um pingo de vontade.

Sei não: acho que se possível ficarei trancado aqui até sábado, dia no qual acredito que irá - finalmente - expirar a minha semana de contatos com foras-da-lei. Boa sorte pra mim.

P.S - Ah, sim: estou apavorado, é claro. Aquelas idéias normais sobre o tema: um escorregão, um milésimo de insanidade, e tchau.

28.9.09

Wyclef Jean with Eric Clapton - My Song

20.9.09

Godspell - 1992

Em 1992 - acredito eu - fizemos uma montagem de Godspell. Já disse bastante sobre isso por aqui. Ficou bom pra dedéu. Esta foto parece meio boba, sim, mas é porque foi uma das primeiras que foram tiradas para a elaboração do programa. Lembro-me de que era um dia chuvoso, e fizemos na quadra mesmo. Aliás, é bom que se esclareça esta coisa de quadra: a parte final dos ensaios foi feita em uma quadra, e isto porque trabalhamos com andaimes nos quais - fazendo parte do cenário - fomos obrigados a subir e a descer com a desenvoltura de chimpanzés. Tudo culpa, obra e sonho do senhor Jesus Sêda.

Na foto estão, sempre da esquerda para a direita: Amanda, Carlos, Emílio, Anadora, Ramiro, Cláudia Dubard e eu (os que estão em pé); Milady, Rodrigo e Bruno (os de joelho, ou quase); Vanessa e Denise (sentadas).

O post foi porque acabei de encontrar a foto: estava em meio a coisas interessantes para a minha memória, e que gerarão outros posts.








14.9.09

Trafalgar Square - Hey Jude

31.8.09

Claudio Willer e suas anotações


22.8.09

Dá-lhe, Mr. Garner

My silent love - 1962

19.8.09

EJR lança currículo Guevara

Da redação de Trezenhum
(com colaboradores)

A EJR, Empresa Júnior Revolucionária, em parceria com a Faculdade dos Computadores, lançou oficialmente o Currículo Guevara. Trata-se de um banco de dados inspirado no Currículo Lattas, que tem por objetivo sistematizar a ação revolucionária dos revolucionários acadêmicos. "É uma revolução no paramento revolucionário", comenta, esfuziante, D, da EJR e do Grupo Público Ldta. S/A. Ela também nos conta como surgiu a idéia: "foi jogando o SimUni 2007 (veja TZN12). A gente notou que para estar ganhando o jogo, a gente precisava estar se unindo com o que no jogo está aparecendo como "alunos rebeldes". O difícil era estar identificando esses alunos rebeldes para estar chamando eles a estarem fazendo certo tipos de rebeldias bem comportadas, de forma que estivessem contribuindo para a imagem do Reitor (no jogo) e fossem o elemento vital para a gente estar ganhando o jogo com um cargo de secretário de qualquer coisa no estado". Sabendo da grande fidedignidade do jogo para com a realidade - uma vez que contou com a colaboração do ex-Reitor no seu desenvolvimento -, D disse que a EJR , durante a greve, sentiu a necessidade (ou melhor, "esteve sentindo a necessidade") de preparar um banco de dados, de forma a contribuir com a reitoria e assim garantir a contribuição da reitoria para com o paramento estudantil. Além de dados pessoais, tais nome, foto, orkut, formação acadêmica, tom de vermelho favorito, o currículo permite ao revolucionário especificar suas atividades revolucionárias : ocupação profissional burguesa utilizada para financiar a revolução, carro burguês que utiliza para chegar mais rápido à revolução, projetos de pesquisa revolucionários, prêmios e títulos (como Medalha Peter Pan de resistência ou cicatriz por cacetada da Polícia, por exemplo), participação em eventos (como manifestação na Avenida Paulista, pedindo fora Sir Ney, fora Alca e o FMI, fora Lula, fora FHC, fora Quércia, fora Geisel, fora Getúlio, e por aí vai), frases que compreende (abaixo algo!, fora alguém!, é um descalabro!, a gente precisa estar discutindo, até frases mais refinadas como esse pelego só lê hebdomadários, não entende uma linha das verdades proferidas por São Marx ou Santo Stálin (só se pede que não se espume quando for falar em hebdomadários)), além de novos campos a serem complementados no currículo conforme surgirem novas idéias ou novas necessidades.
O Currículo Guevara entrou tão forte na cena revolucionária estudantil que até mesmo Milosa Portugal, integrante da juventude do PSTI e dona de uma empresa de consultoria revolucionária, a EsTrident Revolutionary - ocupações, manifestações, slogans e treinamentos, admite que a idéia dos concorrentes do Grupo Público Ltda. S/A é muito útil e que ela também usará "para estar recrutando novos revolucionários". Mas adverte: "somente os revolucionários da revolução verdadeira eu vou estar aceitando na minha empresa".
O reitor FF Casto é outro que se animou com a idéia. Ele disse que em breve incluirá o currículo Guevara no grande currículo que sua equipe de governo está elaborando para que os clientes universitários possam controlar sua vida quantitativamente (veja TZN46). Até lá, ele disse que já recebeu indicações do ex-Reitor de que os alunos que mais gritam são os que melhor ajudam a reitoria: "a velha, cão que ladra não morde", resume, em sua sábia sabedoria.
O Currículo Guevara é mais um produto agregado ao portfólio da EJR, que já contém a balada forte The Party (TZN11), e a cueca do Che Guevara (tá um TZN recente, se vira). Novos produtos revolucionários são esperados para breve.


Veja mais em: Trezenhum. Humor sem graça.

7.8.09

fabianescas - dia dos pais ( dois dias antes)

Tomar aula de placidez pelo GTalk.


eu: o que será?
o que será?
conta aí...
conta aí...

João: vou te dar uma dica

eu: manda

João: é uma coisa que vc talvez precise como eu precisarei no futuro

eu: bengala?

João: ah vai se !@#$%¨&*&¨%#@!
zoeira
eu entendi como uma brincadeira
desculpe

eu: vixe, nem imagino...
peruca? coisa pra deixar o cabelo escuro?

João: não

eu: não sei...

João: nao custa nada esperar

eu: ah, moleque!!!

João: é só a paciência e ansiedade

31.7.09

Cinco poemas concretos

"Cinco" (de José Lino Grunewald, 1964),
"Velocidade" (de Ronald Azeredo, 1957),
"Cidade" (de Augusto de Campos, 1963),
"Pêndulo" (de E.M. de Melo e Castro, 1961/62)
e "O Organismo" (de Décio Pignatari, 1960), pois hoje é dia daquilo que o organismo quer.

21.7.09

Rasidão; ainda

A rasidão não é algo que aparece de surpresa. Assim como um balde furado se esvazia, uma piscina se esvazia, uma latrina se esvazia, você também é capaz de esvaziar-se. E mais: assim como os objetos citados, você não tem a mínima consciência de estar a perder algo. A sua, ou a nossa diferença para com os baldes e as piscinas e as latrinas se dá apenas quando a coisa já se perdeu, esvaiu-se, morteceu.

Quando este ponto é chegado, a renitência das coisas diárias força o surgimento de uma consciência que é trazida de fora. O que se exige não encontra onde nadar, se angustia e se bate, bate em você, que sufoca e só então repara.

Só poder reproduzir automatismos é um dos primeiros sinaisintomas da rasidão. Ele não dói, não pode ser percebido comportamentalmente e, portanto, não exige, segundo as psicologias ditas eficazes, remédios ou terapias.

Já o segundo sinalsintoma da rasidão machuca bastante, muito. É quando ela se torna reflexiva, ou seja, você reconhece com todos os pregos, arames farpados, agulhas, alfinetes e lanças que são inerentes ao reconhecer, que perdeu a manivela do ímpeto.

E o que sou eu sem alavanca? Boçal, é mais do que provável.

Um rato.

Uma semilatrina, um semibalde, uma semipiscina.

A rasidão impede, dentre todas as outras isquemias geradas, que se articule o suficiente a seu respeito.

P.S - Ela pode durar mais do que se imagina.

18.7.09

Bleuler em Brasília

Existe aquela seriíssima teoria a respeito da criação literária que diz o seguinte: se o realismo fantástico não fez muito sucesso no Brasil enquanto forma de expressão, isso se deu justamente por conta de nossa capacidade ímpar de produzir bizarrices no mundo real.

Quando vejo a figura de Lula, toda vez que ouço ou leio a respeito das coisas que ele diz, essa teoria me vem à cabeça. Deve acontecer com a maior parte das pessoas, mas devo admitir que em mim a coisa tem ganho um caráter tamanho que não consigo mais, sequer, classificar o que se passa em termos de intuição ou percepção: insólito, absurdo, insano, esquizofrênico - nada é capaz de traduzir aquela coceira no córtex que sinto quando entram por meus tímpanos as declarações psicóticas de nosso presidente; e aqui não exagero. O universo de Lula é absolutamente descolado de qualquer evento exterior à sua presunção, e as falas que se geram deste estado têm, há muito, extrapolado qualquer tipo de verificação, seja ela estatística ou ética.

Acredito que algumas coisas devam ser ditas a este respeito; coisas que, como veremos, acabarão dando em outro lugar. Mas vamos lá.

Primeiro - parece não haver mais necessidade alguma de que os números que Lula informa em suas aparições se liguem a tabelas de um instituto qualquer, sejam algum dado sério e/ou que tenham vindo de um lugar a partir do qual eles se justifiquem: a única necessidade é de que eles possuam, à moda dos alienados, uma existência mental, que tenham se gestado na cachola do homem. E só. É esta a metodologia do DataLula. Do PAC – que praticamente não existe – à extração do petróleo, há pouquíssimos dados que correspondam à realidade, por mais que esta possa ser recriada.

Segundo - a quantidade de absurdos morais que este homem tem dito e com o assente de todos, inclusive daqueles que são ultrajados, não é normal. Para ficarmos apenas nos últimos exemplos, citarei cinco falas, as mais graves, sendo que mais tarde voltarei à terceira:

a) Lá (nos EUA), ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.
b) Um país que acha petróleo a seis mil metros de profundidade pode achar um avião a dois mil.
c) Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas, sabe, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos.
d) Tem uma, duas ou três denúncias em fase de apuração. Apura-se e toma-se as medidas. O que não pode é um país com tantas coisas importantes como o Brasil ficar discutindo coisas menores que o Tribunal de Contas [da União] pode investigar.
e) Depende. Todos eles são bons pizzaiolos.

Pensem com carinho em cada linha destas aí. É preciso estômago para suportá-las sem uma estremecida.

Terceiro – há uma brincadeira que todos conhecemos que é a seguinte: quando dizemos que alguém está louco, logo em seguida soltamos um – o médico falou que é para não contrariar! Pois então: o que há com Lula é que, a partir do óbvio momento em que todas as suas excentricidades descompassadas são deixadas para lá, atravessam a linha que deveria contê-las e se tornam ululâncias. Cada criação despreocupada ou mesmo indecente, quando afirmada pelo universo exterior, ganha o carimbo da realidade. E assim Lula vive e caminha em seu País das Maravilhas, enquanto que a maioria esquece de se perguntar: qual é a função de um presidente, mesmo?

Quarto – quem captou esta composição toda de forma esplendorosa e vem sabendo dela se aproveitar foi Barack Obama e sua equipe. Mais do que qualquer outra coisa, Obama percebeu que Lula adora ser adulado, que adora ser reafirmado, e que acaso necessite jogar com o Brasil, seja de qual maneira for, tudo deve se iniciar no fortalecimento da alucinação lulista. É como se dissesse: “Vai aí falando suas bobalhadas, meu amigo, porque internacionalmente elas não fazem efeito, mesmo. Mas você é um grande líder, uma cabeça pensante e eu te admiro, muito. Cof... Cof...”. E então lemos os jornais e nos sentimos felizes, sorrimos marotamente e achamos bonito: um se ilude, o outro afirma a ilusão para dela tirar proveito e nós, que adoramos os dois sujeitos, que os vemos como os supra-sumos da pureza da alma, nos regozijamos; além de exercemos, é claro, a nossa bocozisse com a coisa estrangeira, jacus que somos.


Continua...

para o sábado, uma galáxia haroldiana

reza calla y trabaja em um muro de granada trabaja y calla y reza y calla y trabaja y reza em granada um muro da casa del chapiz ningún holgazán ganará el cielo olhando para baixo um muro interno la educación es obra de todos ave maria em granada mirad en su granada e aquele dia a casa del chapiz deserta nenhum arabista para os arabescos uma mulher cuidando de uma criança por trás de uma porta baixa y reza y trabaja y calla não sabia de nada y trabaja não podia informar sobre nada y reza e depois a plazuela san nicolás o branco do branco do branco y calla no branco no branco no branco a cal um enxame de branco o branco um enxame de cal pedras redondas do calçamento e o arco branco contendo o branco a cal calla e o branco trabalha um muro de alvura e adiante no longe lálonge o perfil vermelho do generalife e a alhambra a plazuela branca contendo-se contendo-se como um grito de cal e o generalife e a alhambra vermelhos entre ciprestes negros cariz mudéjar de granada e agora o cármene de priestley carros parando los guardias civiles o embaixador inglês fazendo turismo entre as galas do caudillo e do cármene de priestley sai priestley ou poderia ser para recebê-lo aparato de viaturas escandalizando a cal calada o embaixador de sua majestade britânica visita um patrício em granada crianças correndo fugindo para os vãos das portas e o branco violado a medula do branco ferida a fúria a alvúria do branco refluída sobre si mesma plazuela san nicolás já não mais o que fora o que era há dois minutos já rompido o sigilo do branco arisco árido do cálcio branco da cal que calla y trabaja y estamos sentados sobre un volcán dissera o chofer no pátio da cartuja sentados no pátio da alhambra bautizada sob o sol da tarde esperando que abrissem um vulcão coração batendo em granada e por isso no muro reza trabaja y calla san bernardo religión y pátria e de novo o albaicín com seus cármenes y glorietas o albaicín despencando de centenas de miradouros minúsculos sobre a vista da alhambra e do generalife vermelho recortado de negro escarlate cambiando em ouro o sol mouro os muros mauros de granada mas o silêncio na plazuela ou plazeta san nicolás rompido para sempre um minuto para sempre nunca mais a calma cal a calma cal calada do primeiro momento do primeiro branco assomado e assomando nos lançando catapulta de alvura alba-candidíssima mola de brancura nos jogando branquíssima elástico de candura nos alvíssimo atirando contra o horizonte rojonegro patamar de outro horizonte o semprencanecido esfumadonevado da sierra nevada agora escrevo agora a visão é papel e tinta sobre o papel o branco é papel yeserías atauriques y mocárabes de papel não devolvem senão a cuncula do tempo a lúnula da unha do tempo e por isso escrevo e por isso escravo roo a unha do tempo até o sabugo até o refugo até o sugo e não revogo a patina de papel a pevide de papel a cascara de papel a cortiça de papel que envolve o coração carnado de granada onde um vulcão sentados sobre explode e por isso calla y por eso trabaja y por eso

17.7.09

You've got to hide your love away

Cheguei agora em casa. Estou comendo bolacha água e sal com requeijão e geléia de damasco, a atual configuaração do meu TOC. Saí com um grande amigo, daqueles que moram bem lá no fundo. Nós divertimos bastante, discutimos até sobre etologia, e ouvimos esta música na volta pra casa. Eu disse que não sairia do carro enquanto o refrão não viesse. Isto pode ficar .

2.7.09

fabianescas

Ter no avô a pessoa mais Agenda 21 que se conhece. Depois de assassinar a árvore que fica em frente de casa porque dela caíam muitas folhas - o que também conferiu um visual Addams à nossa residência -, agora ele descobriu uma maneira por demais eficiente para secar a toalha no inverno: liga o carro, espera o motor esquentar e coloca a dita sobre o capô. Fica seca e quentinha, segundo ele.

E assim segue o Brudtland do Parque Industrial...

1.7.09

Drifting on a sea of old heartbreaks, on a lifeboat, sailing for...

29.6.09

E quando é preciso falar a sério...

Do blog do Casseta Cláudio Manoel. Não deixem de ler.

No último domingo, Simonal foi, mais uma vez, julgado e condenado. Desta vez, pela Folha de São Paulo, numa matéria sensacionalista e exageradamente grande (com destaque na primeira página e tudo), assinada pelo “jornalista” Mário Magalhães.

Foram diversas páginas, todas provocadas pela “descoberta de um fato novo”, um documento inédito que provaria de maneira cabal e definitiva que Simonal era um informante do DOPS.

Simonal está morto há quase 10 anos. A Lei de Anistia tem uns 30. Mas o “fato” era tão importante, que por si só justificava não só a “reabertura do caso”, mas também provava, “por A mais B”, que o cantor era mesmo um dedo-duro juramentado. Afinal, no tal documento inédito, o próprio Simonal assumia suas ligações pra lá de perigosas.

Então tá ! Só que existem alguns probleminhas no “raciocínio” do “jornalista”.

Em primeiro lugar, o documento inédito não é inédito. Ao tentar se defender da acusação que teria sido mandante do seqüestro do seu ex-contador, Simonal (orientado pelos seus advogados, segundo depoimento da própria vítima, no documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, meu, de Micael Langer e Calvito Leal) afirmou que havia prestado queixa anterior de supostas ameaças terroristas e, por isso, tinha pedido que o DOPS investigasse.

O que o tal documento usado como base na imensa reportagem do caderno Mais diz é, mais ou menos, isso: Simonal tenta tirar o corpo fora do imbroglio policial que se meteu, dizendo que era alvo constante dos subversivos, porque ele simpatizava com o regime de 64 e acreditava que o DOPS poderia ajudá-lo, já que aquele órgão também atuava no meio artístico, à procura de opositores, etc e tal… por isso, ele emprestou o seu carro (um Opala) para a ajudar nessa “operação”.

Nosso documentário, inclusive, exibe duas matérias, publicadas pela grande imprensa da época com as manchetes “Terror ameaça Simonal” e “Simonal se diz de direita e com bom serviços prestados à Revolução”.

Quando fui procurado pelo autor da já citada reportagem (“O Informante”), seu tom era grave. Ele havia descoberto documentos, tinha tido acesso a mais de 600 páginas, lido vários depoimentos que acusavam Simonal e, o mais importante, num documento (o tal) anterior ao caso do seqüestro de Rafael Viviani (o contador), o “Rei da Pilantragem” assume que tinha vínculos com o DOPS.

Respondi que conhecia direitinho as tais 600 páginas, já que possuo cópias do processo inteiro há mais de 5 anos e que não lembrava mesmo de nenhuma menção com data anterior ao seqüestro. Mário, com a maior cara de pau, me afirmou que o documento foi lavrado às 15 horas do mesmo dia em que Viviani seria seqüestrado (às 23 horas).

A princípio não entendi. Disse pra ele que, exatamente, pela coincidência do dia, isso provaria o oposto. Que o tal depoimento comprometedor tinha a maior cara de ser meio “construído”, ser alguma espécie de álibi, de história de cobertura. Simonal, pra dar coerência à sua linha de defesa, apresenta uma queixa dada anteriormente (que também poderia ser “fabricada a posteriori”). Ou seja, o tal documento não é anterior ao caso do seqüestro, ele é parte tão fundamental do mesmo que o próprio Simonal o divulga, na grande imprensa, em 1971.

Também perguntei ao “jornalista”, já que ele estava tão interessado nos aspectos jurídicos do caso, se ele não tinha lido o arrazoado do Juiz ao proferir a sentença que condenou Simonal. Em sua argumentação final, o ilustre meritíssimo alega que não tem como julgar os agentes do DOPS, já que estávamos vivendo um estado de exceção e, por isso, não era da competência dele avaliar atos que poderiam ser de “segurança nacional”, mas Wilson Simonal, que era civil, não tinha esse tipo de “cobertura”, portanto pena de 5 anos e 4 meses pra ele.

Essa questão não seria um pouco mais intrigante para um jornalista? Se Simonal pertencesse, de fato, a algum mecanismo de repressão em plena “Era Médici”, porque ele não teve nenhuma proteção ? Seu caso foi o único processo que envolveu agentes do DOPS, tortura, prisão ilegal, que saiu em toda mídia da época. No período de censura mais dura, Simonal apanhou sem ser socorrido. Para um cara que era “amigo dos hômi” ele não foi uma presa fácil demais ?

Lendo os depoimentos do processo, testemunhos de defesa e acusação no julgamento, fica-se com a nítida impressão de uma grande confusão, uma vendeta boçal que degringolou. O improviso e precariedade das argumentações servem mais para provar a grande quantidade de estupidez envolvida, do que para jogar luz em possíveis ligações políticas bizarras.

Exatamente, por acharmos que esse era um terreno pantanoso demais para semearmos certezas, que, no nosso documentário, nesse momento do julgamento e das acusações policiais, passamos para uma montagem mais fragmentada, mais confusa. Nunca quisemos julgar. Nunca nos motivou conseguir a redenção, nem provar a culpa do ex-ídolo nacional. Nunca tivemos certeza onde íamos chegar. Apenas seguimos as pistas.

Procuramos, achamos e demos voz, pela primeira vez, a Rafael Viviani. Apesar do “jornalista” ironizar o fato que achou com muita facilidade o contador (se era tão fácil porque o contato só foi feito 5 anos depois que nós o encontramos ?), fomos nós que o ouvimos com todo respeito e também fomos os únicos a mostrar que Simonal tinha, realmente, cometido um crime bárbaro, uma violência condenável.

E ele foi condenado. Merecidamente. Por esse crime.

Mas a argumentação fajuta, citando promotores e juízes (e depois desmentindo en passant centenas de linhas depois) que, na época, a justiça aceitou as provas que ele era informante ou colaborador é outra enorme cascata. Só pra explicar, Simonal não poderia ter sido condenado por ser informante, simplesmente, porque isso não é crime. E mais, se em 1971 fosse provado que ele era um colaborador, ele não seria julgado por isso, seria condecorado.

Mas veio a anistia, né? Já passaram uns 30 anos. Pois é, mas a lei só vale para um lado, não é verdade? Para os amigos, anistia e indenizações, para os inimigos (os que não forem aliados de ocasião) , a danação eterna.

Nosso filme nunca teve como ponto de partida, nem de chegada, essa questão mais óbvia. Nossa (dos diretores) melhor pergunta nunca foi se ele era ou não era dedo-duro. Preferimos outras.

Por que um “crime” (delação), que além de não ser crime e de ser, praticamente, impossível de provar, não prescreve nunca? Por que, depois de décadas, de esquecimentos, perdões e mudanças de conjuntura a pergunta que todos fazem é se “ele era ou não era”?

Não fica meio subentendido que “se ele fosse” então era merecedor de todo castigo e muito mais? Delatar é a coisa mais imperdoável que um ser humano pode fazer?

Além disso, naquela época a luta era, realmente, entre democratas X autoritários? Os que queriam pluralidade, diversidade de opiniões, liberdade de expressão não eram, na verdade, minoria? No espectro político-ideológico da época quem, ao alcançar o poder, não queria prender e eliminar opositores? Quantos, em nome da luta contra a ditadura, tinham seus próprios projetos totalitários e defendiam com ardor (e também com posters e camisetas) genocidas de vários calibres?

E voltando ao velho Simona e a questão dele ser um famigerado colaborador da ditadura. Era, realmente, justo se esperar que um negro, pobre, favelado tivesse a mesma percepção dos “anos de chumbo”, quanto alguém com formação universitária, classe média alta, etc e tal?

Ditadura é quando são caçadas liberdades individuais, quando o estado policial invade domicílios, dilacera famílias, prendendo e barbarizando ao seu bel prazer? Pra quem é preto-pobre-favelado isso é sempre. Isso é hoje. Como entender que a pior época do país é, justamente, quando se possui as maiores liberdades individuais que já se teve na vida?

Algumas (poucas) pessoas (entre elas, o “jornalista” Magalhães), nos perguntaram, desconfiadas, qual era a nossa “real” motivação, por que falar desse caso? Sempre respondemos: “por que não falar ?”. Sempre acreditamos que tínhamos descoberto um tesouro: uma grande história, praticamente inédita. Portanto, precisávamos contá-la. Por isso, procuramos depoimentos antagônicos, checamos fontes, pesquisamos anos, levamos mais de 40 semanas editando. Trabalhamos duro, mas fizemos um bom filme. E, de quebra, fizemos também jornalismo de verdade.

20.6.09

E no mundo do desporto...

Nunca Serão 0 x 1 Guarani




Torcida espirituosa, capaz de produzir chistes como este que se vê acima.



O chute que terminou lá dentro.




A comemoração no casebre.





Agora estamos 6 vitórias e 11 gols à frente do Grêmio Recreativo Nunca Serão. Ah: além do fato de já termos sido, é claro...

19.6.09

É que, às vezes, o privado precisa se tornar público ou: é isso mesmo, preciso desabafar!

Acabei de receber uma ligação da minha ex-sogra. Ela está no Rio de Janeiro. Foi pra lá na semana passada e entrou em contato pra dizer a mãe do meu filho, a Flávia de Moraes, não poderá ficar com ele neste final de semana.

Aliás, não poderá ficar não é a forma correta de se dizer a coisa. Ela falou o seguinte: "A Flávia de Moraes pediu pra que alguém, ou você ou sua mãe, ficasse com o João no final de semana porque ela estará trabalhando no barracão (uma pausa agora - trabalhar no barracão significa estar em um lugar gelado, sem ter o que fazer, sem se alimentar direito e sem conforto, ou seja, a palavra barracão significa "seu filho ficará, se você não se dispuser a cuidar dele no final de semana, em um sítio lúgubre - fim de pausa), e isto porque as festas juninas estão aí, e você sabe." Não sei se sou uma pessoa muito sensível, mas há algo mais do que um pedido aí, não é não? Costumo chamar de ameaça. Mas sigamos...

Pra quem não sabe da história, a situação é a seguinte: eu sempre cuidei do João desde que ele nasceu. É meu filho, o amo quase que incondicionalmente e não consigo passar muito tempo sem ele. Fico nervoso, acabrunhado, estranho quando ele não está por perto. Há um dever afetivo e moral em nossa relação, assim como deveria ocorrer em todas as relações entre pais e filhos. Depois da separação ele ficou comigo. Passa a semana toda aqui. Passa quase todas as férias aqui. Quando a avó dele está em Campinas, costuma ir para a casa dela nos finais de semana.

O meu desabafo vem do seguinte: a avó do João, mãe da Flávia de Moraes, cumpre um papel que é, na verdade, de sua filha. Busca o João aos finais de semana, ficando com ele neste período. A mãe dele? "Ah, pai, ela aparece no sábado à tarde, passa uma horas comigo, e depois vai embora". Mas devo ser sincero: não é sempre assim. Às vezes ele passa um dia ou dois com ela, ou ela o leva a alguma festa coisa e tal.

No começo do ano arrumei um trabalho e (aliás, banco 85% das coisas do João - a avó banca os outros 15%, e o argumento do outro lado é: a obrigação é sua - volto já nesta questão) precisava que Flávia de Moraes ficasse com ele uma ou duas noites por semana, quando minha mãe não estivesse em casa. Disse não a menina, sem abrir possibilidade de acordo, pois ela não tinha tempo - estudava a semana toda (durante o dia, claro) e trabalhava às vezes. Tudo bem, tudo bem: eu pago as contas todas sem trabalhar mesmo, oras bolas! Eu trabalho e estudo e cuido dele, oras bolas! Tem uma planta grande de dinheiro aqui no fundo de casa e tempo e espaço para mim são apenas detalhes ontológicos.

Dias depois, vem a lista de material escolar. Quase R$ 500,00. Olha, eu disse, acho correto dividirmos isso - já que eu pago quase tudo mesmo, tá -, isso eu não disse (no ano passado eu havia pago tudo sozinho). Flávia de Moraes falou que iria pensar. Pensou e me respondeu: não tenho o dinheiro - preciso pagar as minhas despesas do semestre, da faculdade, e não vou ajudar. OK, OK. Ela precisa estudar, o filho não. OK, OK. Um mês e meio depois disso Flávia de Moraes Franklin foi para a Europa. Passou um mês lá, mais ou menos. Londres, Barcelona, Amsterdã. Trouxe para o João um brinquedo pequeno, três pacotes de salgadinho e, o que eu achei mais legal, os folders de todos os lugares legais que ela visitou, inclusive de um estádio de futebol espanhol que o João sonha conhecer. Sadism...? De qualquer forma: um mês com tempo, sem precisar estudar e/ou trabalhar, e com dinheiro. Fanstástico.

Quando Flávia de Moraes foi viajar a mãe dela ficou aqui para estar com o João - que é sem dúvidas o menino mais doce que eu já conheci, um cara legal mesmo - aos finais de semana. Ficou até semana passada, período no qual sem faltas cumpria o papel que não é o seu.

Indo ela para o Rio...

E assim eu vou ficando estressado com apenas uma ligação telefônica. E assim eu vou ficando cansado. Como explicar para uma mãe que, se afetivamente ela não se interessa pelo filho, ao menos moralmente ela tem obrigações para com ele? Que ela deve estar perto mesmo não gostando, ou que deve se responsabilizar economicamente? Será que isto não é algo do campo da obviedade? Esta posição negativa é, para mim, tão desconcertantemente absurda que me é difícil até de simbolizá-la. Por isso não sei o que faço, por isso reclamo aqui, com pessoas que nada têm a ver com isso.

P.S - E ainda corro o risco de ser preso por esse texto.

15.6.09

Piccoli versi - 10/2006

6.6.09

Sly And The Family Stone - Stand

27.5.09

Doce de abóbora com coco

Faz tempo que eu estou com vontade de comer doce de abóbora com coco. Aquele pastoso, sabe? O problema é que o doce de abóbora com coco pra mim é o doce de abóbora com coco daquele domingo gelado, que se foi há uns 26 anos, no qual eu fiquei um bom tempo sentado na cozinha esperando minha avó terminar de fazer: sentindo o calor do fogão, batendo papo, admirando o trabalho.

Tão logo deu o ponto, dona Elza colocou um bom tanto num pote de louça e pediu que eu fosse comer em casa. Comer ali na cozinha não era bom porque o cheiro do doce impediria que eu sentisse o gosto de verdade... o paladar ficaria atrapalhado com o exagero.

Eu peguei o pote e fui (morava na casa dos fundos). Sentei-me no sofá, cobri minhas pernas magras com uma manta azul e comi tudo. Voltei e ela me deu mais, com um leve sorriso - o de sempre.

É esse o doce de abóbora com coco que eu quero. Sei que estou enrolado. Ontem não tive coragem de pegar aquele pote no supermercado. Preciso aprender a lidar com os outros doces de abóbora com coco.





P.S - Aí em cima, ela e eu. Nesta semana comemoramos o seu octagésimo segundo aniversário. O décimo nono sem que ela esteja presente.