Respondendo à minha amiga Cris: o Paulo Roberto Martins eu não conheço, nunca tinha ouvido falar. Já o Laymert Garcia dos Santos foi meu professor em um curso que fiz na economia e no qual, aliás, lemos Marx. Posso dizer que é um ótimo professor, ótimo mesmo, com uma leitura interessante e menos ideológica do marxismo.
Não sei ainda o motivo da pergunta, mas se eles acreditam que a ciência é uma questão que se resolve também no campo da política e da ética, melhor. Se não, não posso fazer nada, hehe.
Aliás, há algumas coisas a serem ditas sobre isso. Ficam para o próximo post.
20.7.08
19.7.08
SBPC: Sociedade de Bundinhas e Petralhas Comunas
Hoje visitei rapidamente a SBPC. Como tinha que tratar do meu reingresso a fim integralizar a licenciatura, aproveitei e fui dar uma olhada. Resultado: depois as pessoas se perguntam porque é que Wittegenstein foi ser porteiro e jardineiro na Áustria e Nietzsche decidiu ser enfermeiro na guerra franco-prussiana. Aquilo é uma chatice só, uma chatice ditada por um agenda no mínimo estúpida.
Do lado de fora, milhões de camisetas do Che e um pessoal vendendo um jornaleco comunista. Olha o que esse povo dizia: que não temos que deixar de acreditar na revolução, e que o neoliberalismo do governo FHC blá blá blá blá blá blá... Se eu estivesse irritado iria arrumar uma confusão, botar fogo naquela merda toda, fazer a barba de todo mundo, trocar os bonezinhos de anarquista por viseiras, arrumar emprego de verdade pra galera (quem sabe guardar os carros), além de arrumar análise coletiva, pra ver se esse povo sai da tal "infância do pensamento". Se o Getúlio estivesse lá, no mínimo umas bicudas sairiam (putz cara, agora não dá mais).
A princípio, fiquei com vergonha de pertencer às tais ciências humanas. Putz, os caras ali dentro falando de ciência, e os coiós aqui querendo fazer a revolução: nem ler um autor tosco como Marx os caras conseguem, e os outros falando de luz síncrotron. Ora, ora, Fabiano tolinho. Bastaram 20min na tenda e mais um tanto na ginásio para ver claramente que a agenda do povo exato era ditada pelo lado jacu do povo das humanas.
Sim, eu li Nietzsche, eu li Adorno e Horkheimer, eu li Habermas: técnica e ciência como ideologia, eu já sabia. Mas tudo ficou muito claro naquele momento. Como um pensamento de fundo tão despreparado pode ditar caminhos para uma quantidade gigantesca de pesquisas? Parecia um encontro de ONG´s dispostas a salvar a tartaruguinha caolha e barrabenta de Mossoró: caceta!
É impressionante como a extrema tecnicização das ciências exatas acabou produzindo indivíduos que não fazem a mínima idéia de seus lugares no mundo, quiçá o de suas pesquisas. O ditame é fornecido pelo levante do interesse geral e, por assim, pela boniteza do ato científico. Se ele é capaz de emocionar as pessoas, de fazê-las suspirarem, é algo que deve ser pensado. Um exemplo? O nome do projeto que ganhou o prêmio cientistas do amanhã: Teste de disponibilização da produção do biodiesel para pequenos produtores de forma artesanal através de gordura animal. E bota o MST pra produzir biodiesel, hahaha... Só não pensaram no fato de que agora não é mais in comer animais.
Outros ganhadores:
Microbiologia Democrática - das gêmeas Ana Cláudia e Ana Clara Cassanti – Trata do ensino da microbiologia a partir de experimentos e jogos para escolas que não possuem laboratório.
Parâmetros analisados da água de Londrina após a utilização e tratamento de esgoto - Júlia Carvalho (Londrina) – Análise de parâmetros e conscientização da importância dos rios. Integra o projeto da prefeitura de Londrina “O rio da minha rua”.
Enquanto isso os jovens do resto do mundo desenvolvem Napsters, criam formas de aproveitamento de água salgada e barateiam diversas formas de tecnologia, "democratizando-as".
Confundimos ciência e tecnologia com educação básica e projetos sociais caducos: alguém aí quer algo mais alinhado com o fato de sermos um país quem tem um presidente apedeuta e aético, e ainda se orgulha disso?
Infelizmente, esta é a nossa Weltanschauung.
Do lado de fora, milhões de camisetas do Che e um pessoal vendendo um jornaleco comunista. Olha o que esse povo dizia: que não temos que deixar de acreditar na revolução, e que o neoliberalismo do governo FHC blá blá blá blá blá blá... Se eu estivesse irritado iria arrumar uma confusão, botar fogo naquela merda toda, fazer a barba de todo mundo, trocar os bonezinhos de anarquista por viseiras, arrumar emprego de verdade pra galera (quem sabe guardar os carros), além de arrumar análise coletiva, pra ver se esse povo sai da tal "infância do pensamento". Se o Getúlio estivesse lá, no mínimo umas bicudas sairiam (putz cara, agora não dá mais).
A princípio, fiquei com vergonha de pertencer às tais ciências humanas. Putz, os caras ali dentro falando de ciência, e os coiós aqui querendo fazer a revolução: nem ler um autor tosco como Marx os caras conseguem, e os outros falando de luz síncrotron. Ora, ora, Fabiano tolinho. Bastaram 20min na tenda e mais um tanto na ginásio para ver claramente que a agenda do povo exato era ditada pelo lado jacu do povo das humanas.
Sim, eu li Nietzsche, eu li Adorno e Horkheimer, eu li Habermas: técnica e ciência como ideologia, eu já sabia. Mas tudo ficou muito claro naquele momento. Como um pensamento de fundo tão despreparado pode ditar caminhos para uma quantidade gigantesca de pesquisas? Parecia um encontro de ONG´s dispostas a salvar a tartaruguinha caolha e barrabenta de Mossoró: caceta!
É impressionante como a extrema tecnicização das ciências exatas acabou produzindo indivíduos que não fazem a mínima idéia de seus lugares no mundo, quiçá o de suas pesquisas. O ditame é fornecido pelo levante do interesse geral e, por assim, pela boniteza do ato científico. Se ele é capaz de emocionar as pessoas, de fazê-las suspirarem, é algo que deve ser pensado. Um exemplo? O nome do projeto que ganhou o prêmio cientistas do amanhã: Teste de disponibilização da produção do biodiesel para pequenos produtores de forma artesanal através de gordura animal. E bota o MST pra produzir biodiesel, hahaha... Só não pensaram no fato de que agora não é mais in comer animais.
Outros ganhadores:
Microbiologia Democrática - das gêmeas Ana Cláudia e Ana Clara Cassanti – Trata do ensino da microbiologia a partir de experimentos e jogos para escolas que não possuem laboratório.
Parâmetros analisados da água de Londrina após a utilização e tratamento de esgoto - Júlia Carvalho (Londrina) – Análise de parâmetros e conscientização da importância dos rios. Integra o projeto da prefeitura de Londrina “O rio da minha rua”.
Enquanto isso os jovens do resto do mundo desenvolvem Napsters, criam formas de aproveitamento de água salgada e barateiam diversas formas de tecnologia, "democratizando-as".
Confundimos ciência e tecnologia com educação básica e projetos sociais caducos: alguém aí quer algo mais alinhado com o fato de sermos um país quem tem um presidente apedeuta e aético, e ainda se orgulha disso?
Infelizmente, esta é a nossa Weltanschauung.
18.7.08
Loro Beto Conte, o meu irmão verde
Como alguns de vocês sabem, eu tenho um papagaio. O nome dele é Loro Roberto Conte, vulgo Loro Beto.
Loro Beto tem 39 anos e fala pouquíssimas coisas. Ele é bom mesmo é de imitar sons: cachorro grande, cachorro pequeno, ronco, falatório e tosse. É só meu avô abrir a porta do quarto que ele começa a tossir, sacaneando. Já avisei que qualquer dia desses ele leva uma porrada. Claro que não adiantou.
Escrevo sobre ele hoje por um motivo estranho: Loro Beto está se humanizando. Sim, senhores: Loro Beto acha que é uma pessoa, e não vejo mais motivos para que não seja considerado como tal. Tudo começou quando minha mãe, acho que porque fui morar fora, resolveu substituir o filho.
Com isso, Loro Beto começou a ficar na sala, a almoçar com a família, a dormir quase no quarto. A situação, na verdade, é a seguinte: quando minha mãe acorda, pega o Loro e o coloca na sala. Lá ele assiste à Ana Maria Braga e aos desenhos globais. Enquanto faz isso, ganha um naco de pão e meia banana de café da manhã. Como já disse, almoça conosco, o que inclui comer macarrão, arroz, e até batata frita.
Aliás, a questão “alimentação” é um caso à parte: já disse que deve ser o primeiro caso de colesterol alto e, por conseguinte, infarto, da história dos papagaios. Ele é vidrado por: Fandangos, pizza, macarrão, pão, pastel, esfirra do Habib’s e qualquer outra junkie food que você coma na frente dele. Se você não dá, ele berra. Simples.
A única coisa ligada à natureza que Loro Beto faz é dar umas voltas na árvore que há no meu quintal no finalzinho da tarde. Às 18h ele é colocado de novo na cozinha, para o lanche-jantar, e depois volta para a sala, para assistir às novelas. E quando volta para a sala, há um porém: considere que a gaiola é colocada em frente ao sofá, o que faz com que ocupe uma posição no móvel, o que lhe dá, logo, o status de membro da família.
Acredito que chegue o momento no qual Loro Beto começará a usar o vaso sanitário e fuçar aqui no micro. Talvez eu tente um RG e um CPF. Se eu desse à Aristóteles as características psicológicas do Loro, ele teria que admitir que existem, sim, pessoas verdes e com penas.
____________________________________________________________________________________
Devo achar que é sorte o fato do Loro estar se humanizando. O meu mais novo vizinho também tem um papagaio, só que lá a coisa parece estar se invertendo: a pessoas estão de papagaizando. As ouço, constantemente, passar pelo corredor falando assim: perau folitó perstiraolhaquibo fortlastes pricaranha uergranamas... sendo que o papagaio lhes responde na mesma língua papagaiesa. Estou prestes a chamar o IBAMA.
Loro Beto tem 39 anos e fala pouquíssimas coisas. Ele é bom mesmo é de imitar sons: cachorro grande, cachorro pequeno, ronco, falatório e tosse. É só meu avô abrir a porta do quarto que ele começa a tossir, sacaneando. Já avisei que qualquer dia desses ele leva uma porrada. Claro que não adiantou.
Escrevo sobre ele hoje por um motivo estranho: Loro Beto está se humanizando. Sim, senhores: Loro Beto acha que é uma pessoa, e não vejo mais motivos para que não seja considerado como tal. Tudo começou quando minha mãe, acho que porque fui morar fora, resolveu substituir o filho.
Com isso, Loro Beto começou a ficar na sala, a almoçar com a família, a dormir quase no quarto. A situação, na verdade, é a seguinte: quando minha mãe acorda, pega o Loro e o coloca na sala. Lá ele assiste à Ana Maria Braga e aos desenhos globais. Enquanto faz isso, ganha um naco de pão e meia banana de café da manhã. Como já disse, almoça conosco, o que inclui comer macarrão, arroz, e até batata frita.
Aliás, a questão “alimentação” é um caso à parte: já disse que deve ser o primeiro caso de colesterol alto e, por conseguinte, infarto, da história dos papagaios. Ele é vidrado por: Fandangos, pizza, macarrão, pão, pastel, esfirra do Habib’s e qualquer outra junkie food que você coma na frente dele. Se você não dá, ele berra. Simples.
A única coisa ligada à natureza que Loro Beto faz é dar umas voltas na árvore que há no meu quintal no finalzinho da tarde. Às 18h ele é colocado de novo na cozinha, para o lanche-jantar, e depois volta para a sala, para assistir às novelas. E quando volta para a sala, há um porém: considere que a gaiola é colocada em frente ao sofá, o que faz com que ocupe uma posição no móvel, o que lhe dá, logo, o status de membro da família.
Acredito que chegue o momento no qual Loro Beto começará a usar o vaso sanitário e fuçar aqui no micro. Talvez eu tente um RG e um CPF. Se eu desse à Aristóteles as características psicológicas do Loro, ele teria que admitir que existem, sim, pessoas verdes e com penas.
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Devo achar que é sorte o fato do Loro estar se humanizando. O meu mais novo vizinho também tem um papagaio, só que lá a coisa parece estar se invertendo: a pessoas estão de papagaizando. As ouço, constantemente, passar pelo corredor falando assim: perau folitó perstiraolhaquibo fortlastes pricaranha uergranamas... sendo que o papagaio lhes responde na mesma língua papagaiesa. Estou prestes a chamar o IBAMA.
13.7.08
Ai que chatice!
“Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinqüenta anos de idade, ou então mais cinqüenta de reflexão."
Adoro este texto acima. Foi escrito pelo poeta lusitano Antero de Quental (1842-1891) para alfinetar um outro poeta, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875).
Primeiro, o que se vê é muita ironia. E depois, uma infeliz verdade. Que chatice é uma criança querendo se passar por adulto. Que horrendo é um velhinho dando uma de bacana. Os dois são espetáculo fácil na TV. Carregam o tom do inusitado, do diferente, do bom. O que haverá de bom nisso? Pra mim é só tolice.
E vem o menininho de 8 anos falar de política, de economia, de religião. E vem o velhinho dar cambalhotas, tocar bumbo e jogar bola com sua roupa brilhante.
Ambos vindo do campo dos horrores como a mulher barbada, o homem elástico, os anões siameses.
Tudo até que suportável se o horror não tivesse hoje se transformado em objetivo cultural, virado moda.
- Vai Pedrinho, analisa a queda do Renan Calheiros.
- Aí bisavô, me empresta essa regata colada e os alteres.
Hummm, e eu tranco as portas para o mundo. Hummm, e eu dou uma de Antero de Quental. Menos idade ou menos reflexão pra mim? Ainda não sei, mas tirem estes moleques logo da minha frente pelo amor de Deus!
Adoro este texto acima. Foi escrito pelo poeta lusitano Antero de Quental (1842-1891) para alfinetar um outro poeta, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875).
Primeiro, o que se vê é muita ironia. E depois, uma infeliz verdade. Que chatice é uma criança querendo se passar por adulto. Que horrendo é um velhinho dando uma de bacana. Os dois são espetáculo fácil na TV. Carregam o tom do inusitado, do diferente, do bom. O que haverá de bom nisso? Pra mim é só tolice.
E vem o menininho de 8 anos falar de política, de economia, de religião. E vem o velhinho dar cambalhotas, tocar bumbo e jogar bola com sua roupa brilhante.
Ambos vindo do campo dos horrores como a mulher barbada, o homem elástico, os anões siameses.
Tudo até que suportável se o horror não tivesse hoje se transformado em objetivo cultural, virado moda.
- Vai Pedrinho, analisa a queda do Renan Calheiros.
- Aí bisavô, me empresta essa regata colada e os alteres.
Hummm, e eu tranco as portas para o mundo. Hummm, e eu dou uma de Antero de Quental. Menos idade ou menos reflexão pra mim? Ainda não sei, mas tirem estes moleques logo da minha frente pelo amor de Deus!
4.7.08
Lições sobre morte e imortalidade
Então povo: segundo meu avô, que por conta do fato acendeu uma vela e quase pôs fogo na casa, ontem fez 17 anos que minha avó morreu. Estranho pensar que agora, aos 33, posso dizer que passei mais da metade da vida sem a presença física daquela que me foi a principal referência. Física digo não porque acredite em espíritos, mas porque a memória vai-se esvaindo e por vezes fica só o principal, só a estrutura, uma lembrança boa que é quase um lapso. Se eu fosse uma fenomenólogo, talvez tivesse mais coisas a dizer sobre isso. Como não... vai um texto que escrevi há um tempinho atrás.
Beijos vó...
Ontem choveu granizo. E granizo me lembra Dona Elza, a avó que me colocava sobre a mesa antes do almoço pra fritar bifes de fígado que segundo ela me tornariam mais forte. A avó que que me colocava sobre a mesa durante a tarde pra fazer bolinhos de chuva em formato de charutos, aqueles que tinham um sabor diferente e os quais nunca mais vou voltar a comer na minha vida. A avó que fazia jarros e jarros de suco de laranja.
Dona Elza foi-se cedo. Acho que com 63 anos. A reincidência de um tumor a levou. Da primeira vez que ficou doente passei meses na cama ao seu lado. Da segunda, tinha tanto medo que ela se fosse que não conseguia vê-la. Arrependo-me por isso.
Dona Elza foi a pessoa mais importante da minha infância. Filha de um português e de uma espanhola, tinha o carisma de um e a força do outro. Era viva, inteligente, irônica, engraçada, esplendorosa e linda. Fazia amigos como quem troca de meias. Ainda sou parado nas ruas por quem, como eu, sente saudades dela.
Sempre que chovia granizo, corríamos pra porta da cozinha pra pegar algumas pedras. Segundo ela, gelo celeste faz bem à pele. Passávamos aquilo no rosto, morríamos de rir, e voltávamos pra sala.
Fazemos isso até hoje, só que agora com o João junto. Devo acreditar que a coisa funciona. Quando ela morreu parecia ter 40 anos, ou 35. Não se encontrava uma ruga no rosto risonho.
Da última vez que a vi, algumas horas antes de ir, num quarto de hospital, com sede e sem poder se alimentar, disse que quando sairia dali tomaria um balde de laranjada e enfiaria um sorvete na testa pra que ele escorresse até a boca. Não deu.
Entretanto, toda vez que chove granizo passamos umas pedras no rosto e ela insiste em colocar umas na boca. Digo a ela que faz mal. Dona Elza não liga, ela é teimosa, e voltamos pra sala, agora os três, rindo à toa.
Beijos vó...
Ontem choveu granizo. E granizo me lembra Dona Elza, a avó que me colocava sobre a mesa antes do almoço pra fritar bifes de fígado que segundo ela me tornariam mais forte. A avó que que me colocava sobre a mesa durante a tarde pra fazer bolinhos de chuva em formato de charutos, aqueles que tinham um sabor diferente e os quais nunca mais vou voltar a comer na minha vida. A avó que fazia jarros e jarros de suco de laranja.
Dona Elza foi-se cedo. Acho que com 63 anos. A reincidência de um tumor a levou. Da primeira vez que ficou doente passei meses na cama ao seu lado. Da segunda, tinha tanto medo que ela se fosse que não conseguia vê-la. Arrependo-me por isso.
Dona Elza foi a pessoa mais importante da minha infância. Filha de um português e de uma espanhola, tinha o carisma de um e a força do outro. Era viva, inteligente, irônica, engraçada, esplendorosa e linda. Fazia amigos como quem troca de meias. Ainda sou parado nas ruas por quem, como eu, sente saudades dela.
Sempre que chovia granizo, corríamos pra porta da cozinha pra pegar algumas pedras. Segundo ela, gelo celeste faz bem à pele. Passávamos aquilo no rosto, morríamos de rir, e voltávamos pra sala.
Fazemos isso até hoje, só que agora com o João junto. Devo acreditar que a coisa funciona. Quando ela morreu parecia ter 40 anos, ou 35. Não se encontrava uma ruga no rosto risonho.
Da última vez que a vi, algumas horas antes de ir, num quarto de hospital, com sede e sem poder se alimentar, disse que quando sairia dali tomaria um balde de laranjada e enfiaria um sorvete na testa pra que ele escorresse até a boca. Não deu.
Entretanto, toda vez que chove granizo passamos umas pedras no rosto e ela insiste em colocar umas na boca. Digo a ela que faz mal. Dona Elza não liga, ela é teimosa, e voltamos pra sala, agora os três, rindo à toa.
28.6.08
Gostei!
Do blog do Reinaldo:
Tio Rei exercita o seu lado legiferante e exige teste de bafômetro para dirigir o país.
Tio Rei exercita o seu lado legiferante e exige teste de bafômetro para dirigir o país.
17.6.08
Textinho do Click
Quando a filosofia trata da questão do tempo, dificilmente ele aparece como o conhecemos: aquele tempo do relógio, dos segundos após segundos; aquele tempo como a gente usa na física, mensurável, e com o qual é possível medir outras coisas, como velocidade ou espaço.
O tempo na filosofia surge para tratar de questões de outra ordem, com outros significados. Vamos a um exemplo: o tempo em Kant.
Para Kant, o tempo é algo cuja representação, cuja percepção, é algo que temos a priori. Parece que estou falando grego, não é?
Calma que eu explico melhor: para Kant, o tempo – assim como espaço - é algo anterior a qualquer percepção que temos das outras coisas.
Para um exemplo, imagine, pense numa bola. Ao pensar numa bola, esta bola estava onde? Estava em algum lugar, não estava?
Ainda que você imagine um fundo preto e coloque a bola neste lugar, a bola é pensada em algum lugar no espaço. Pois bem: quando Kant diz que o espaço é uma representação a priori, é isto que ele quer dizer. Que sempre pensamos o espaço antes de pensarmos nos outros objetos do mundo, e que quando pensamos estes objetos, é impossível que eles não estejam no espaço.
Pois bem: com o tempo acontece a mesma coisa. A mesma bola que você pensou estando em algum lugar teve que estar neste lugar em um determinado momento, em um determinado espaço de tempo. É impossível que a gente pense em um objeto estando ele em momento algum.
Será que você conseguiria fazer isso? Pensar um objeto fora do tempo? Eu não consigo.
Já para um outro filósofo, Husserl, o tempo diz respeito à percepção que temos das coisas em nossa consciência, não precisando que este tempo corresponda àquele do mundo externo à nossa mente.
Um exemplo disso?
Você já se deve ter perguntado: por que alguns momentos passam tão rápido e outros demoram tanto para passar? Mas ora, o tempo não é sempre o mesmo?
Pois então: segundo Husserl, o tempo é uma questão de percepção, uma questão de consciência.
Isso significa que o tempo possui divisões diferentes, e que você pode viver muito tempo em um momento mínimo, ou nada em um momento enorme. O que define o tempo é portanto o que se passa na mente, a forma como percebemos as coisas, e não o cuco que está na parede.
O tempo da física serviria então só para questões práticas, como não chegar atrasado a um lugar ou medir uma velocidade. Aliás, quando você está em um carro, na estrada, você percebe a velocidade sempre da mesma maneira?
Até a próxima semana!
O tempo na filosofia surge para tratar de questões de outra ordem, com outros significados. Vamos a um exemplo: o tempo em Kant.
Para Kant, o tempo é algo cuja representação, cuja percepção, é algo que temos a priori. Parece que estou falando grego, não é?
Calma que eu explico melhor: para Kant, o tempo – assim como espaço - é algo anterior a qualquer percepção que temos das outras coisas.
Para um exemplo, imagine, pense numa bola. Ao pensar numa bola, esta bola estava onde? Estava em algum lugar, não estava?
Ainda que você imagine um fundo preto e coloque a bola neste lugar, a bola é pensada em algum lugar no espaço. Pois bem: quando Kant diz que o espaço é uma representação a priori, é isto que ele quer dizer. Que sempre pensamos o espaço antes de pensarmos nos outros objetos do mundo, e que quando pensamos estes objetos, é impossível que eles não estejam no espaço.
Pois bem: com o tempo acontece a mesma coisa. A mesma bola que você pensou estando em algum lugar teve que estar neste lugar em um determinado momento, em um determinado espaço de tempo. É impossível que a gente pense em um objeto estando ele em momento algum.
Será que você conseguiria fazer isso? Pensar um objeto fora do tempo? Eu não consigo.
Já para um outro filósofo, Husserl, o tempo diz respeito à percepção que temos das coisas em nossa consciência, não precisando que este tempo corresponda àquele do mundo externo à nossa mente.
Um exemplo disso?
Você já se deve ter perguntado: por que alguns momentos passam tão rápido e outros demoram tanto para passar? Mas ora, o tempo não é sempre o mesmo?
Pois então: segundo Husserl, o tempo é uma questão de percepção, uma questão de consciência.
Isso significa que o tempo possui divisões diferentes, e que você pode viver muito tempo em um momento mínimo, ou nada em um momento enorme. O que define o tempo é portanto o que se passa na mente, a forma como percebemos as coisas, e não o cuco que está na parede.
O tempo da física serviria então só para questões práticas, como não chegar atrasado a um lugar ou medir uma velocidade. Aliás, quando você está em um carro, na estrada, você percebe a velocidade sempre da mesma maneira?
Até a próxima semana!
11.6.08
O que eu ando fazendo, ou, porque não escrevo mais com freqüência neste blog
O manuscrito K, anexado à carta datada em 1 de janeiro de 1896 , e cujo subtítulo é Um conto de Natal, compõe-se basicamente no mesmo modelo esquemático e pelos mesmos dados que irão ser apresentados em Novas observações.... O texto, contudo, não é idêntico, e traz, assim como o manuscrito H, certas tentativas de entendimento das afecções que acabaram sendo omitidas no artigo publicado, sendo que uma delas é realmente expressiva para a nossa questão, e isso por conta do papel que ela desempenhará na evolução das idéias de Freud sobre o tema.
Estamos falando obviamente de uma hipótese levantada sobre a paranóia, e que diz respeito tanto àquilo que é reprimido por projeção quanto às conseqüências desta repressão para a formação dos sintomas.
Ainda no início do texto Freud aventa a possibilidade – e aqui está o passo adiante deste escrito - de que em um caso de paranóia apenas o afeto seja reprimido por projeção, sendo mantidas na consciência as representações a ele ligadas, ou seja, o conteúdo da vivência desprazerosa. Ocorrência puramente conjetural, pois não há um caso que comprove tal possibilidade. Acontece que, para que possamos entender como as coisas se dão neste momento e quais as questões que aqui surgem, devemos nos ater em outro ponto – e este grandemente delicado e significante, a saber: como se configura no exterior, e aparece ao eu, o conteúdo representacional projetado. Voltemos, pois, aos textos analisados sobre a projeção para um melhor vislumbre do problema.
No texto publicado, quando da análise do trâmite do conteúdo das representações - e aí tanto na histeria quanto na neurose obsessiva - a afirmação é clara: em ambos os casos o conteúdo, ao ser reprimido, se encontra ausente da consciência. Já no que diz respeito à paranóia, a lembrança da cena originária se encontrará presente, mas projetada. A questão que surge aqui é: ora, mas como isto se daria concretamente? O conteúdo seria plenamente mantido, com a preservação das imagens, só que agora instauradas através das interpretadas falas alheias?
Freud, em nenhum momento e em nenhum dos textos, é claro sobre a questão. A estrutura da neurose é consecutivamente, ou seja, em ambos os textos anteriormente analisados, reiterada, e nela a projeção aparece como o mecanismo que gera o sintoma primário. Este, por sua vez, parece ser sempre algo do campo afetivo, ou seja: não há referência às lembranças quando Freud trata do primärsympton, somente auto-acusações transfiguradas. Os delírios, então, ocorreriam não mais do que como formas de adequação da realidade externa à realidade psíquica: uma forma de dar sentido à sensação de ser perseguido. As representações começariam pois a surgir apenas quando a doença se instalasse concretamente, sendo que as alucinações apareceriam como fatos reajustados pela formação de compromisso.
Para articular as questões postas aqui em jogo, a fim de que na projeção afeto e conteúdo representacional fossem tratados com igual aprofundamento e que ainda se esclarecessem as suas relações com a formação dos sintomas, algo teria que mudar de estatuto como, por exemplo, a atuação da formação de compromisso já no aparecimento do sintoma primário. E não é isso o que Freud, ao que nos parece, faz no manuscrito K. Vejamos nesta longa citação:
“O sintoma primário formado é a desconfiança... o conteúdo da experiência retorna sob a forma de um pensamento que ocorre ao paciente como alucinação visual ou sensorial. O afeto reprimido parece retornar invariavelmente nas alucinações auditivas.
As partes das lembranças que retornam sofrem uma distorção ao serem substituídas por imagens análogas, extraídas do momento presente - isto é, são simplesmente distorcidas por uma substituição cronológica, e não pela formação de um substituto. As vozes, igualmente, lembram a autocensura, como sintoma de compromisso, e o fazem, em primeiro lugar, distorcidas em seu enunciado a ponto de se tornarem indefinidas e de se transformarem em ameaças; e, em segundo lugar, relacionadas não com a experiência primária, mas justamente com a desconfiança - isto é, com o sintoma primário.
Como a crença foi separada da autocensura primária, ela assume o comando irrestrito dos sintomas de compromisso. O eu não os considera como estranhos a si mesmo, mas é impelido por eles a fazer tentativas de explicá-los, tentativas que podem ser descritas como delírios assimilatórios.
Nesse ponto, com o retorno do recalcado sob forma distorcida, a defesa fracassa de vez; e os delírios assimilatórios não podem ser interpretados como sintomas de defesa secundária, mas como o início de uma modificação do eu, expressão do fato de ter sido ele subjugado.”
Tal pendência, conforme apontada por nós, terá de esperar alguns anos para que possa ser, ainda que não totalmente, resolvida.
Estamos falando obviamente de uma hipótese levantada sobre a paranóia, e que diz respeito tanto àquilo que é reprimido por projeção quanto às conseqüências desta repressão para a formação dos sintomas.
Ainda no início do texto Freud aventa a possibilidade – e aqui está o passo adiante deste escrito - de que em um caso de paranóia apenas o afeto seja reprimido por projeção, sendo mantidas na consciência as representações a ele ligadas, ou seja, o conteúdo da vivência desprazerosa. Ocorrência puramente conjetural, pois não há um caso que comprove tal possibilidade. Acontece que, para que possamos entender como as coisas se dão neste momento e quais as questões que aqui surgem, devemos nos ater em outro ponto – e este grandemente delicado e significante, a saber: como se configura no exterior, e aparece ao eu, o conteúdo representacional projetado. Voltemos, pois, aos textos analisados sobre a projeção para um melhor vislumbre do problema.
No texto publicado, quando da análise do trâmite do conteúdo das representações - e aí tanto na histeria quanto na neurose obsessiva - a afirmação é clara: em ambos os casos o conteúdo, ao ser reprimido, se encontra ausente da consciência. Já no que diz respeito à paranóia, a lembrança da cena originária se encontrará presente, mas projetada. A questão que surge aqui é: ora, mas como isto se daria concretamente? O conteúdo seria plenamente mantido, com a preservação das imagens, só que agora instauradas através das interpretadas falas alheias?
Freud, em nenhum momento e em nenhum dos textos, é claro sobre a questão. A estrutura da neurose é consecutivamente, ou seja, em ambos os textos anteriormente analisados, reiterada, e nela a projeção aparece como o mecanismo que gera o sintoma primário. Este, por sua vez, parece ser sempre algo do campo afetivo, ou seja: não há referência às lembranças quando Freud trata do primärsympton, somente auto-acusações transfiguradas. Os delírios, então, ocorreriam não mais do que como formas de adequação da realidade externa à realidade psíquica: uma forma de dar sentido à sensação de ser perseguido. As representações começariam pois a surgir apenas quando a doença se instalasse concretamente, sendo que as alucinações apareceriam como fatos reajustados pela formação de compromisso.
Para articular as questões postas aqui em jogo, a fim de que na projeção afeto e conteúdo representacional fossem tratados com igual aprofundamento e que ainda se esclarecessem as suas relações com a formação dos sintomas, algo teria que mudar de estatuto como, por exemplo, a atuação da formação de compromisso já no aparecimento do sintoma primário. E não é isso o que Freud, ao que nos parece, faz no manuscrito K. Vejamos nesta longa citação:
“O sintoma primário formado é a desconfiança... o conteúdo da experiência retorna sob a forma de um pensamento que ocorre ao paciente como alucinação visual ou sensorial. O afeto reprimido parece retornar invariavelmente nas alucinações auditivas.
As partes das lembranças que retornam sofrem uma distorção ao serem substituídas por imagens análogas, extraídas do momento presente - isto é, são simplesmente distorcidas por uma substituição cronológica, e não pela formação de um substituto. As vozes, igualmente, lembram a autocensura, como sintoma de compromisso, e o fazem, em primeiro lugar, distorcidas em seu enunciado a ponto de se tornarem indefinidas e de se transformarem em ameaças; e, em segundo lugar, relacionadas não com a experiência primária, mas justamente com a desconfiança - isto é, com o sintoma primário.
Como a crença foi separada da autocensura primária, ela assume o comando irrestrito dos sintomas de compromisso. O eu não os considera como estranhos a si mesmo, mas é impelido por eles a fazer tentativas de explicá-los, tentativas que podem ser descritas como delírios assimilatórios.
Nesse ponto, com o retorno do recalcado sob forma distorcida, a defesa fracassa de vez; e os delírios assimilatórios não podem ser interpretados como sintomas de defesa secundária, mas como o início de uma modificação do eu, expressão do fato de ter sido ele subjugado.”
Tal pendência, conforme apontada por nós, terá de esperar alguns anos para que possa ser, ainda que não totalmente, resolvida.
6.6.08
Um texto dos bons, com argumentos dos bons, para calar os bocós
O sujeito que escreveu o texto abaixo, Gustavo Ioschpe, costuma produzir umas coisas bem das ruizinhas. Mas neste aqui ele acertou. Aliás, acho que deixou tudo o que tinha para acertar para usar de uma cacetada só. Não deixem de ler...
Virou consenso no Brasil associar o nosso fracasso educacional com as maquinações do sistema capitalista/neoliberal. Segundo essa leitura, calcada em Marx, interessaria aos "poderosos", à "elite", que o proletariado não fosse instruído ou, no máximo, recebesse uma educação totalmente "alienante", para que não questionasse suas mazelas nem incomodasse o status quo e apenas continuasse fornecendo sua mão-de-obra barata para a manutenção do sistema. Essa leitura da situação se tornou absolutamente hegemônica: vai da imprensa à academia, dos mais louvados pensadores do tema à correspondência enviada a este articulista por professores dos grotões do Brasil. Vejamos alguns exemplos. De Emir Sader: "A educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: ‘fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes’. Em outras palavras, tornou-se uma peça do processo de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que torna possível a reprodução do injusto sistema de classes. (...) No reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital (...)". Lucyelle Pasqualotto: "Podemos analisar que a educação como vem sendo, historicamente, organizada está para atender ao capital, numa sociedade inerentemente excludente e contraditória. (...) Oferece diferentes níveis, modalidades, métodos educacionais, a fim de dar continuidade ao seu elemento diferenciador e, ao mesmo tempo, apregoando o discurso da unificação e universalização da educação. Discurso este que, em uma sociedade capitalista, onde os meios de produção, inclusive o conhecimento[,] são propriedade privada, quanto muito pode proporcionar uma educação mercantilizada, excludente e diferencial". Amelia Hamze: "Proporcionar a qualidade de ensino e a gestão democrática da escola levaria a invalidação da sustentação do poder amparada pelo estado capitalista".
Essas teses, como de costume, são apenas frutos da verborragia dos "pesquisadores" que as produzem. Não vêm embasadas por nenhuma tentativa de comprovação quantitativa – até porque a maioria de seus autores se confunde com qualquer operação matemática ou estatística que requeira sofisticação maior do que calcular o troco do táxi e costuma, convenientemente, mascarar essas deficiências sob um discurso ideológico segundo o qual a própria quantificação, do que quer que seja, seria uma vitória da superestrutura neoliberal, mercantilista. É pena, porque essa teoria – de que o capitalismo requer a falta de educação, ou a educação de baixa qualidade – é facilmente conversível em uma hipótese testável. Se esses pensadores estiverem certos, espera-se que os países mais capitalistas sejam aqueles com os piores e mais excludentes sistemas educacionais, enquanto aqueles em que o capitalismo não conseguiu estender seus tentáculos malévolos deveriam ter populações formadas por cidadãos altamente instruídos e intelectualizados.
Em realidade, o que ocorre é exatamente o oposto: quanto mais capitalista o país, melhor e mais abrangente é o seu sistema educacional. Cruzei os dados referentes a educação e capitalismo de 167 países. Usando o instrumento da estatística de regressão, descobre-se que o desempenho educacional explica, por si só, 47% da posição de um país na escala do capitalismo. A relação é estatisticamente fortíssima: a probabilidade que a percebida ligação entre as duas variáveis seja fruto de erro é inferior a 0,00000001%. Essa robustez não é casual: indica que o sistema capitalista exige sociedades com alto nível educacional, e, quanto mais instruída é a população, mais capitalista o país tende a ser, e vice-versa.
Por que no Brasil ainda se acredita no oposto? É a junção do mofo intelectual com a vigarice. Marx já cometia erros de interpretação da realidade quando escrevia seu Manifesto Comunista e O Capital, há 150 anos. O que se aplicava àquela realidade histórica, porém, não se aplica à nossa – o capitalismo mudou, e muito, neste século e meio. O período do início da Revolução Industrial era, sim, uma época em que a competência necessária ao trabalhador era mínima e sua jornada de trabalho era desumana. Para apertar parafusos em uma linha de montagem esfumaçada por dezesseis ou vinte horas por dia, em repetição incessante, era apenas necessário alguém que soubesse ler, se tanto. O capitalismo do século XXI, porém, é outro. O conjunto de habilidades e conhecimentos necessários é muito maior – até para trabalhar em uma linha de montagem de uma fábrica é preciso capacidade analítica para lidar com um maquinário cada vez mais sofisticado. E, quanto mais capitalista e desenvolvido um país se torna, mais diminui a importância das áreas fabril e de produção de commodities e aumenta o peso de setores de serviço e de alta tecnologia, em que o principal insumo é o cérebro das pessoas. Não é por acaso que alguns campeões do capitalismo, como Coréia do Sul e Estados Unidos, hoje se aproximam da massificação da matrícula de ensino universitário, com taxas beirando os 90%. O profissional de sucesso do mercado internacional de hoje é a antítese do proletário da Inglaterra de Marx: precisa ser altamente capacitado em sua área e, ao mesmo tempo, ter uma formação multidisciplinar e abrangente. Enquanto isso, nossos pensadores continuam recebendo soldo dos nossos impostos para suas análises em que até hoje, quase vinte anos depois da falência do socialismo, tentam mostrar como Marx tinha razão. A essa incapacidade de alguns, soma-se o oportunismo de muitos. Esse tipo de análise reverbera no professorado porque o seu corolário é simples: o insucesso educacional é resultado de uma sociedade corrompida pelo capitalismo. Eu quero ensinar, mas a superestrutura não me permite. A única maneira de produzir uma mudança efetiva na educação é através da revolução social, e acreditar que o esforço individual de um professor ou diretor pode fazer qualquer diferença diante de forças sociais e históricas tão poderosas já seria uma rendição ao espírito atomista, ilusório, que é a marca do capitalismo. A falência intelectual pavimenta o caminho do conformismo e cinismo de cada um.
Essa prisão mental em que nos encontramos acaba por prender em amarras o próprio país. Esperando pela revolução social, abandonamos a possibilidade da revolução mais maravilhosa que existe: a que se dá pelo conhecimento. Silenciosa e pacífica, é a verdadeira redentora: perto de dominar a eternidade representada pelo saber, desapropriar uma fábrica ou fazenda parece brincadeira de criança.
E essa é uma revolução em que não há perdedores. Todos os setores se beneficiam de uma população mais instruída. Em um mundo globalizado, a idéia de que a elite gostaria de confinar a população à ignorância para não ver sua posição ameaçada é fajuta. Se o empresário não tiver trabalhadores competentes, será destruído pela competição das empresas de outros países, com gente qualificada. Só há, estranhamente, um único tipo de organização, que eu saiba, que se beneficie de uma população iletrada: são os partidos de esquerda. Nas últimas eleições presidenciais, segundo o Datafolha, Lula só perdeu em um grupo: o dos eleitores com ensino superior. Entre eles, em pesquisa de 17 de outubro – doze dias antes da eleição, portanto – Lula tinha 40% das preferências, contra 50% de Alckmin. Felizmente, para ele, a maioria de nossa população só tem ensino fundamental, grupo em que o petista liderava por 57% a 28%.
Virou consenso no Brasil associar o nosso fracasso educacional com as maquinações do sistema capitalista/neoliberal. Segundo essa leitura, calcada em Marx, interessaria aos "poderosos", à "elite", que o proletariado não fosse instruído ou, no máximo, recebesse uma educação totalmente "alienante", para que não questionasse suas mazelas nem incomodasse o status quo e apenas continuasse fornecendo sua mão-de-obra barata para a manutenção do sistema. Essa leitura da situação se tornou absolutamente hegemônica: vai da imprensa à academia, dos mais louvados pensadores do tema à correspondência enviada a este articulista por professores dos grotões do Brasil. Vejamos alguns exemplos. De Emir Sader: "A educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: ‘fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes’. Em outras palavras, tornou-se uma peça do processo de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que torna possível a reprodução do injusto sistema de classes. (...) No reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital (...)". Lucyelle Pasqualotto: "Podemos analisar que a educação como vem sendo, historicamente, organizada está para atender ao capital, numa sociedade inerentemente excludente e contraditória. (...) Oferece diferentes níveis, modalidades, métodos educacionais, a fim de dar continuidade ao seu elemento diferenciador e, ao mesmo tempo, apregoando o discurso da unificação e universalização da educação. Discurso este que, em uma sociedade capitalista, onde os meios de produção, inclusive o conhecimento[,] são propriedade privada, quanto muito pode proporcionar uma educação mercantilizada, excludente e diferencial". Amelia Hamze: "Proporcionar a qualidade de ensino e a gestão democrática da escola levaria a invalidação da sustentação do poder amparada pelo estado capitalista".
Essas teses, como de costume, são apenas frutos da verborragia dos "pesquisadores" que as produzem. Não vêm embasadas por nenhuma tentativa de comprovação quantitativa – até porque a maioria de seus autores se confunde com qualquer operação matemática ou estatística que requeira sofisticação maior do que calcular o troco do táxi e costuma, convenientemente, mascarar essas deficiências sob um discurso ideológico segundo o qual a própria quantificação, do que quer que seja, seria uma vitória da superestrutura neoliberal, mercantilista. É pena, porque essa teoria – de que o capitalismo requer a falta de educação, ou a educação de baixa qualidade – é facilmente conversível em uma hipótese testável. Se esses pensadores estiverem certos, espera-se que os países mais capitalistas sejam aqueles com os piores e mais excludentes sistemas educacionais, enquanto aqueles em que o capitalismo não conseguiu estender seus tentáculos malévolos deveriam ter populações formadas por cidadãos altamente instruídos e intelectualizados.
Em realidade, o que ocorre é exatamente o oposto: quanto mais capitalista o país, melhor e mais abrangente é o seu sistema educacional. Cruzei os dados referentes a educação e capitalismo de 167 países. Usando o instrumento da estatística de regressão, descobre-se que o desempenho educacional explica, por si só, 47% da posição de um país na escala do capitalismo. A relação é estatisticamente fortíssima: a probabilidade que a percebida ligação entre as duas variáveis seja fruto de erro é inferior a 0,00000001%. Essa robustez não é casual: indica que o sistema capitalista exige sociedades com alto nível educacional, e, quanto mais instruída é a população, mais capitalista o país tende a ser, e vice-versa.
Por que no Brasil ainda se acredita no oposto? É a junção do mofo intelectual com a vigarice. Marx já cometia erros de interpretação da realidade quando escrevia seu Manifesto Comunista e O Capital, há 150 anos. O que se aplicava àquela realidade histórica, porém, não se aplica à nossa – o capitalismo mudou, e muito, neste século e meio. O período do início da Revolução Industrial era, sim, uma época em que a competência necessária ao trabalhador era mínima e sua jornada de trabalho era desumana. Para apertar parafusos em uma linha de montagem esfumaçada por dezesseis ou vinte horas por dia, em repetição incessante, era apenas necessário alguém que soubesse ler, se tanto. O capitalismo do século XXI, porém, é outro. O conjunto de habilidades e conhecimentos necessários é muito maior – até para trabalhar em uma linha de montagem de uma fábrica é preciso capacidade analítica para lidar com um maquinário cada vez mais sofisticado. E, quanto mais capitalista e desenvolvido um país se torna, mais diminui a importância das áreas fabril e de produção de commodities e aumenta o peso de setores de serviço e de alta tecnologia, em que o principal insumo é o cérebro das pessoas. Não é por acaso que alguns campeões do capitalismo, como Coréia do Sul e Estados Unidos, hoje se aproximam da massificação da matrícula de ensino universitário, com taxas beirando os 90%. O profissional de sucesso do mercado internacional de hoje é a antítese do proletário da Inglaterra de Marx: precisa ser altamente capacitado em sua área e, ao mesmo tempo, ter uma formação multidisciplinar e abrangente. Enquanto isso, nossos pensadores continuam recebendo soldo dos nossos impostos para suas análises em que até hoje, quase vinte anos depois da falência do socialismo, tentam mostrar como Marx tinha razão. A essa incapacidade de alguns, soma-se o oportunismo de muitos. Esse tipo de análise reverbera no professorado porque o seu corolário é simples: o insucesso educacional é resultado de uma sociedade corrompida pelo capitalismo. Eu quero ensinar, mas a superestrutura não me permite. A única maneira de produzir uma mudança efetiva na educação é através da revolução social, e acreditar que o esforço individual de um professor ou diretor pode fazer qualquer diferença diante de forças sociais e históricas tão poderosas já seria uma rendição ao espírito atomista, ilusório, que é a marca do capitalismo. A falência intelectual pavimenta o caminho do conformismo e cinismo de cada um.
Essa prisão mental em que nos encontramos acaba por prender em amarras o próprio país. Esperando pela revolução social, abandonamos a possibilidade da revolução mais maravilhosa que existe: a que se dá pelo conhecimento. Silenciosa e pacífica, é a verdadeira redentora: perto de dominar a eternidade representada pelo saber, desapropriar uma fábrica ou fazenda parece brincadeira de criança.
E essa é uma revolução em que não há perdedores. Todos os setores se beneficiam de uma população mais instruída. Em um mundo globalizado, a idéia de que a elite gostaria de confinar a população à ignorância para não ver sua posição ameaçada é fajuta. Se o empresário não tiver trabalhadores competentes, será destruído pela competição das empresas de outros países, com gente qualificada. Só há, estranhamente, um único tipo de organização, que eu saiba, que se beneficie de uma população iletrada: são os partidos de esquerda. Nas últimas eleições presidenciais, segundo o Datafolha, Lula só perdeu em um grupo: o dos eleitores com ensino superior. Entre eles, em pesquisa de 17 de outubro – doze dias antes da eleição, portanto – Lula tinha 40% das preferências, contra 50% de Alckmin. Felizmente, para ele, a maioria de nossa população só tem ensino fundamental, grupo em que o petista liderava por 57% a 28%.
2.6.08
fabianescas
1 - Ficar muito, mas muito feliz mesmo, com o sorriso até a nuca, por ter descoberto - em um domingo gelado e depois de meio quilo de jujuba - que Feuerbach também fez uso da lei de Haeckel (a ontogênese repete invariavelmente as etapas da filogênese).
2 - Abrir uma Fanta Mundo Tailândia pra comemorar.
2 - Abrir uma Fanta Mundo Tailândia pra comemorar.
25.5.08
O texto
FERNANDO MEIRELLES
ESPECIAL PARA A FOLHA
Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa emocional, saí de Cannes no sábado e fui para Lisboa mostrar o filme "Ensaio sobre a Cegueira" para o autor da história, José Saramago.
Por meses, antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso -e não estava errado. Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado, não tinha projeção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste da projeção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso, achei melhor ir em frente.
Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começamos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que uma música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reação nenhuma. Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar, debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu, emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reação, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.
Deu tudo errado, pensei. Toquei seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse, pausadamente: "Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever "O Ensaio sobre a Cegueira'". Apenas agradeci e ficamos ali quietos. Dois marmanjos segurando as próprias lágrimas em silêncio. Ele passou a mão nos olhos, disfarçando a sua. Pensei no meu pai. Emoção sólida, dessas que se pode cortar em fatias com uma faca. Num impulso, beijei sua testa.
Na conversa e no jantar que se seguiram, ele disse que não considera o filme um espelho de seu trabalho e que nem poderia ser assim, pois cada pessoa tem uma sensibilidade diferente.
Disse ter gostado da experiência de ver algo que conhecia, mas que, ao mesmo tempo, não conhecia. Falou que o filme não era perfeito, mas que nunca havia assistido a um filme perfeito. Comentou algumas imagens que o emocionaram especialmente e disse ter achado o nosso Cão das Lágrimas muito doce; preferia que fosse mais agressivo.
Quando lhe contei sobre as críticas favoráveis e contrárias ao filme em Cannes, incluindo a da Folha, ele imediatamente lembrou e recontou aquela historinha do velho que vem puxando um burro montado por uma criança. Um passante vê aquilo e acha absurdo a criança estar montada enquanto um velho caminha, então eles invertem a posição. Outro passante cruza com o grupo e reclama da situação: "Como um adulto deixa uma criança a pé enquanto vai confortavelmente montado?".
Então, os dois montam no burro, mas alguém acha aquilo uma crueldade com um animal tão pequeno.
Finalmente, resolvem ambos carregar o burro nas costas, até que outro passante observa como são estúpidos por carregar o animal. E, enfim, o velho decide voltar para a primeira situação e parar de dar importância ao que dizem. "É isso que faço sempre", concluiu o escritor.
Acabo de deixar José Saramago e sua mulher no Ministério da Cultura de Portugal, onde está sendo exibida uma retrospectiva de seu trabalho e sua vida.
Houve uma pequena coletiva de imprensa ali, depois de visitarmos juntos a exposição. Meu filminho de menos de duas horas me pareceu muito insignificante ao ser colocado ao lado daquela obra de uma vida inteira.
ESPECIAL PARA A FOLHA
Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa emocional, saí de Cannes no sábado e fui para Lisboa mostrar o filme "Ensaio sobre a Cegueira" para o autor da história, José Saramago.
Por meses, antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso -e não estava errado. Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado, não tinha projeção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste da projeção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso, achei melhor ir em frente.
Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começamos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que uma música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reação nenhuma. Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar, debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu, emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reação, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.
Deu tudo errado, pensei. Toquei seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse, pausadamente: "Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever "O Ensaio sobre a Cegueira'". Apenas agradeci e ficamos ali quietos. Dois marmanjos segurando as próprias lágrimas em silêncio. Ele passou a mão nos olhos, disfarçando a sua. Pensei no meu pai. Emoção sólida, dessas que se pode cortar em fatias com uma faca. Num impulso, beijei sua testa.
Na conversa e no jantar que se seguiram, ele disse que não considera o filme um espelho de seu trabalho e que nem poderia ser assim, pois cada pessoa tem uma sensibilidade diferente.
Disse ter gostado da experiência de ver algo que conhecia, mas que, ao mesmo tempo, não conhecia. Falou que o filme não era perfeito, mas que nunca havia assistido a um filme perfeito. Comentou algumas imagens que o emocionaram especialmente e disse ter achado o nosso Cão das Lágrimas muito doce; preferia que fosse mais agressivo.
Quando lhe contei sobre as críticas favoráveis e contrárias ao filme em Cannes, incluindo a da Folha, ele imediatamente lembrou e recontou aquela historinha do velho que vem puxando um burro montado por uma criança. Um passante vê aquilo e acha absurdo a criança estar montada enquanto um velho caminha, então eles invertem a posição. Outro passante cruza com o grupo e reclama da situação: "Como um adulto deixa uma criança a pé enquanto vai confortavelmente montado?".
Então, os dois montam no burro, mas alguém acha aquilo uma crueldade com um animal tão pequeno.
Finalmente, resolvem ambos carregar o burro nas costas, até que outro passante observa como são estúpidos por carregar o animal. E, enfim, o velho decide voltar para a primeira situação e parar de dar importância ao que dizem. "É isso que faço sempre", concluiu o escritor.
Acabo de deixar José Saramago e sua mulher no Ministério da Cultura de Portugal, onde está sendo exibida uma retrospectiva de seu trabalho e sua vida.
Houve uma pequena coletiva de imprensa ali, depois de visitarmos juntos a exposição. Meu filminho de menos de duas horas me pareceu muito insignificante ao ser colocado ao lado daquela obra de uma vida inteira.
23.5.08
21.5.08
Vou dizer o quê?
Este é um e-mail da minha amiga Crisinha. Sei que é algo que faz parte do campo do privado, mas tive que torná-lo público porque não é sempre que estas coisas acontecem.
Scuse Cris!!!
Querido amigo Fabiano.
Hoje passei por uma experiencia que pensei em vc o tempo todo.... Vc esteve aqui comigo hoje a noite num show do Roger Waters (Pink Floyd)!!!
Ele veio fazer o unico show da escandinavia aqui do lado da minah casa, literalmente (eu moro perto do estadio de futebol da cidade). Nao comprei o ingresso pois estava muito caro, mas hoje resolvi dar uma volta por lá na hora que o show comecou. Sabe aquele ditado: estar no lugar certo, na hora certa?. Pois bem, foi isso que aconteceu comigo hoje. Fui chegando, chegando e derepente estava no back stage do show...o mais surreal foi ter me enturmado com a mulher de um dos musicos e lá vou eu cumprimentar o proprio Roger Waters...surreal!. Nao tenho nem foto nem autografo pois inventei uma historia absurda para estar lá e por isso tinha que manter uma certa classe. Mas te digo que pensei em vc o tempo todo!!!!!
uhuuuuuuuu!!!!!
Nunca imaginei que viveria isso!!
Bom amigo, era isso...sinta-se abracado pela sua amigona, agora amiga também de Roger Waters hahahahahhaha
Beijocas, crisinha!
Essa moçoila, além de linda e genial, nasceu com o traseiro virado pra lua, como vocês podem ver.
Beijos pra ela!!!
Scuse Cris!!!
Querido amigo Fabiano.
Hoje passei por uma experiencia que pensei em vc o tempo todo.... Vc esteve aqui comigo hoje a noite num show do Roger Waters (Pink Floyd)!!!
Ele veio fazer o unico show da escandinavia aqui do lado da minah casa, literalmente (eu moro perto do estadio de futebol da cidade). Nao comprei o ingresso pois estava muito caro, mas hoje resolvi dar uma volta por lá na hora que o show comecou. Sabe aquele ditado: estar no lugar certo, na hora certa?. Pois bem, foi isso que aconteceu comigo hoje. Fui chegando, chegando e derepente estava no back stage do show...o mais surreal foi ter me enturmado com a mulher de um dos musicos e lá vou eu cumprimentar o proprio Roger Waters...surreal!. Nao tenho nem foto nem autografo pois inventei uma historia absurda para estar lá e por isso tinha que manter uma certa classe. Mas te digo que pensei em vc o tempo todo!!!!!
uhuuuuuuuu!!!!!
Nunca imaginei que viveria isso!!
Bom amigo, era isso...sinta-se abracado pela sua amigona, agora amiga também de Roger Waters hahahahahhaha
Beijocas, crisinha!
Essa moçoila, além de linda e genial, nasceu com o traseiro virado pra lua, como vocês podem ver.
Beijos pra ela!!!
19.5.08
Falácias sobre a luta armada na ditadura
Na Folha de hoje:
A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva.
Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo.
O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão.
Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva.
Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução". Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único.
Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. Rentável, é verdade.
Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo.
O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão.
Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
MARCO ANTONIO VILLA, 51, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
12.5.08
O trauma do amor
por Contardo Calligaris
NESTES DIAS, reencontrei Gérard Pommier, um colega e amigo que não via há quase 15 anos. Ele está de passagem pelo Brasil, palestrando.
Num fim de tarde, sentados na minha cozinha, colocamos a conversa em dia: filhos, trabalho e, claro, divórcios, separações e novos amores.
No capítulo "divórcios e separações", prevaleceu o tema (tragicômico) das indenizações financeiras. Como era de se esperar numa conversa entre homens, constatamos a curiosa contradição entre a reivindicação feminina de autonomia e, por outro lado, o fato de que muitas mulheres, ao se separarem, exigem uma reparação monetária.
Por estarmos ambos sóbrios, não discutimos o fundamento das pensões alimentícias para as crianças nem o da retribuição pelos anos em que uma mulher pode ter renunciado à sua vida profissional para se dedicar ao lar. Apenas estranhávamos o tipo de demanda raivosa que dá a impressão de pedir indenização pelo amor perdido.
Nos homens como nas mulheres, os amores que acabam deixam a sensação de um dano quase físico, material ("retiraram uma parte de mim") -um dano, portanto, que poderia ser compensado. Deve ser por isso que tanto os homens quanto as mulheres, às vezes, "curam" as dores de uma separação com aquisições extravagantes. "Ela me deixou? Compro uma moto."
Mas as mulheres, freqüentemente, preferem que a reparação do dano seja o ônus do ex-parceiro. Mesmo quando a iniciativa da separação foi da própria mulher (ou compartilhada por ela) e não houve "infidelidade" do lado do homem, as mulheres tendem a viver a separação como uma traição, como uma crueldade que lhes foi feita, uma sacanagem.
Há como explicar essa diferença, mas isso, hoje, não vem ao caso. O fato é que a conversa com Pommier foi interrompida porque eu fui assistir ao filme de Wong Kar-wai, "Um Beijo Roubado", que acaba de estrear. Pommier, que já tinha visto o filme na França, prometeu que ele tinha a maior relação com nossa conversa daquela noite.
De fato, o filme de Kar-wai é uma esplêndida elegia sobre o trauma amoroso. Os quatro personagens principais são todos inválidos da guerra das paixões. Ficam num canto lambendo suas feridas ou saem pelo mundo afora para esquecê-las ou cicatrizá-las, mas, de qualquer forma, para eles, um novo amor é a tentativa de compensar um desastre passado, que os deixou sem chaves para as portas da vida.
Para um psicanalista, é um prato cheio: confirma-se, indiretamente, a idéia de que nos apaixonamos pelos outros porque não nos foi permitido ficar com a mãe e ou com o pai. Todo amor corrigiria uma grande decepção amorosa, forçada e originária, todo amor seria um paliativo contra as dores da renúncia a nossas paixões edipianas. Ou seja, atrás de nossa vida amorosa, sempre há um dano inicial. "Será que alguém paga um dia?", diriam as mulheres evocadas na conversa com Pommier.
Tudo bem, mas o complexo de Édipo, que se tornou sabedoria psicológica comum, não deixa de ser um mistério. Por que seríamos saudosos de uma única relação que nos foi proibida para que todas as outras fossem permitidas? Por que seríamos para sempre queixosos de uma única perda que nos libertou e nos soltou pelo mundo?
Mais misterioso: é raro que a lembrança de nossos primeiros afetos amorosos (com a mãe, especialmente) seja a de um idílio; em geral, ela vem junto com a queixa de termos sido, de uma maneira ou de outra, preteridos ou mesmo traídos. Talvez essa lembrança queixosa seja influenciada pelo que vem depois: a gente veria nossa primeira infância pelo prisma das dores da autonomia, do crescimento e da separação.
Mas talvez haja algo mais, algo que nos torna feridos antes da batalha, queixosos de ter sofrido um dano antes de qualquer amor, inclusive antes daquela primeira relação, miticamente feliz, com a mãe. Talvez a sensação de que fomos traídos, e não nos foi dado o que queríamos e esperávamos anteceda o amor e suas frustrações. Talvez todos os amores, inclusive o edipiano, sejam apenas compensações frustrantes por um dano que, aliás, inevitavelmente, eles renovam. Mas de que dano estou falando?
De qual sensação originária de que o mundo sempre nos priva porque nunca responde à altura de nossos pedidos?
NESTES DIAS, reencontrei Gérard Pommier, um colega e amigo que não via há quase 15 anos. Ele está de passagem pelo Brasil, palestrando.
Num fim de tarde, sentados na minha cozinha, colocamos a conversa em dia: filhos, trabalho e, claro, divórcios, separações e novos amores.
No capítulo "divórcios e separações", prevaleceu o tema (tragicômico) das indenizações financeiras. Como era de se esperar numa conversa entre homens, constatamos a curiosa contradição entre a reivindicação feminina de autonomia e, por outro lado, o fato de que muitas mulheres, ao se separarem, exigem uma reparação monetária.
Por estarmos ambos sóbrios, não discutimos o fundamento das pensões alimentícias para as crianças nem o da retribuição pelos anos em que uma mulher pode ter renunciado à sua vida profissional para se dedicar ao lar. Apenas estranhávamos o tipo de demanda raivosa que dá a impressão de pedir indenização pelo amor perdido.
Nos homens como nas mulheres, os amores que acabam deixam a sensação de um dano quase físico, material ("retiraram uma parte de mim") -um dano, portanto, que poderia ser compensado. Deve ser por isso que tanto os homens quanto as mulheres, às vezes, "curam" as dores de uma separação com aquisições extravagantes. "Ela me deixou? Compro uma moto."
Mas as mulheres, freqüentemente, preferem que a reparação do dano seja o ônus do ex-parceiro. Mesmo quando a iniciativa da separação foi da própria mulher (ou compartilhada por ela) e não houve "infidelidade" do lado do homem, as mulheres tendem a viver a separação como uma traição, como uma crueldade que lhes foi feita, uma sacanagem.
Há como explicar essa diferença, mas isso, hoje, não vem ao caso. O fato é que a conversa com Pommier foi interrompida porque eu fui assistir ao filme de Wong Kar-wai, "Um Beijo Roubado", que acaba de estrear. Pommier, que já tinha visto o filme na França, prometeu que ele tinha a maior relação com nossa conversa daquela noite.
De fato, o filme de Kar-wai é uma esplêndida elegia sobre o trauma amoroso. Os quatro personagens principais são todos inválidos da guerra das paixões. Ficam num canto lambendo suas feridas ou saem pelo mundo afora para esquecê-las ou cicatrizá-las, mas, de qualquer forma, para eles, um novo amor é a tentativa de compensar um desastre passado, que os deixou sem chaves para as portas da vida.
Para um psicanalista, é um prato cheio: confirma-se, indiretamente, a idéia de que nos apaixonamos pelos outros porque não nos foi permitido ficar com a mãe e ou com o pai. Todo amor corrigiria uma grande decepção amorosa, forçada e originária, todo amor seria um paliativo contra as dores da renúncia a nossas paixões edipianas. Ou seja, atrás de nossa vida amorosa, sempre há um dano inicial. "Será que alguém paga um dia?", diriam as mulheres evocadas na conversa com Pommier.
Tudo bem, mas o complexo de Édipo, que se tornou sabedoria psicológica comum, não deixa de ser um mistério. Por que seríamos saudosos de uma única relação que nos foi proibida para que todas as outras fossem permitidas? Por que seríamos para sempre queixosos de uma única perda que nos libertou e nos soltou pelo mundo?
Mais misterioso: é raro que a lembrança de nossos primeiros afetos amorosos (com a mãe, especialmente) seja a de um idílio; em geral, ela vem junto com a queixa de termos sido, de uma maneira ou de outra, preteridos ou mesmo traídos. Talvez essa lembrança queixosa seja influenciada pelo que vem depois: a gente veria nossa primeira infância pelo prisma das dores da autonomia, do crescimento e da separação.
Mas talvez haja algo mais, algo que nos torna feridos antes da batalha, queixosos de ter sofrido um dano antes de qualquer amor, inclusive antes daquela primeira relação, miticamente feliz, com a mãe. Talvez a sensação de que fomos traídos, e não nos foi dado o que queríamos e esperávamos anteceda o amor e suas frustrações. Talvez todos os amores, inclusive o edipiano, sejam apenas compensações frustrantes por um dano que, aliás, inevitavelmente, eles renovam. Mas de que dano estou falando?
De qual sensação originária de que o mundo sempre nos priva porque nunca responde à altura de nossos pedidos?
9.5.08
8.5.08
Aulas de sociologia e filosofia serão obrigatórias por lei
O Senado Federal aprovou nesta quinta-feira (8) o projeto de lei da Câmara que altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e torna as disciplinas de filosofia e sociologia obrigatórias no ensino médio. Para entrar em vigor, a lei depende de sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com o secretário Júlio Ricardo Borges Linhares, da Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado, se a lei for sancionada, as disciplinas serão obrigatórias no currículo escolar.
Ambas as disciplinas já são obrigatórias, segundo um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE). No entanto, para o conselheiro Cesar Callegari, que esteve à frente do processo de implantação das disciplinas, a mudança da LDB é mais firme do que o parecer do conselho já em vigor.
"No meio do ano passado, todas as redes de ensino tinham de mostrar como implantariam as aulas de filosofia e sociologia. Houve contestação do parecer do Conselho, que não deveria ter sido contestado. Mas a mudança possibilita menos contestação", afirma Callegari.
Disciplinas já fizeram parte do currículo
As disciplinas de sociologia e filosofia foram excluídas do currículo por decisão do regime militar que governou o país (1964-1985). À época, elas foram substituídas pela disciplina de educação moral e cívica.
A proposta de reinclusão das disciplinas como obrigatórias tramitou durante 11 anos. "As duas disciplinas permitem à juventude acessar todas as matérias do conhecimento, permite que se formem conceitos, caráter moral e que as pessoas tenham uma visão humanista. Fizemos um acordo e votamos por unanimidade. Hoje fizemos um grande benefício à juventude brasileira", disse a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).
As questões
Que há uma melhora aqui, não há dúvida. A coisa saltou de uma simples resolução, que vinha sendo contestada por sindicatos de colégios particulares, para algo que fará parte da LDB.
As questões que me ficam são:
a) Qual será o conteúdo determinado pela LDB para que seja aplicado aos alunos? Isto refletirá, obviamente, na quantidade de aulas semanais a serem trabalhadas. Uma aula por semana, por experiência, não chega a ser suficiente. E isto até por questões pedagógicas, não somente as de conteúdo. Na outra semana o aluno nem se lembra do seu nome, quanto mais do que foi passado.
b) Quem poderá ministrar estas aulas? Sim, porque 99% dos colégios que acataram a resolução o fizeram da seguinte forma: pega aí o professor de história, geografia ou pintura em gesso e coloca para dar a aula de filosofia. Péssimo para as disciplinas, péssimo para as categorias.
Será que agora vai?
De acordo com o secretário Júlio Ricardo Borges Linhares, da Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado, se a lei for sancionada, as disciplinas serão obrigatórias no currículo escolar.
Ambas as disciplinas já são obrigatórias, segundo um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE). No entanto, para o conselheiro Cesar Callegari, que esteve à frente do processo de implantação das disciplinas, a mudança da LDB é mais firme do que o parecer do conselho já em vigor.
"No meio do ano passado, todas as redes de ensino tinham de mostrar como implantariam as aulas de filosofia e sociologia. Houve contestação do parecer do Conselho, que não deveria ter sido contestado. Mas a mudança possibilita menos contestação", afirma Callegari.
Disciplinas já fizeram parte do currículo
As disciplinas de sociologia e filosofia foram excluídas do currículo por decisão do regime militar que governou o país (1964-1985). À época, elas foram substituídas pela disciplina de educação moral e cívica.
A proposta de reinclusão das disciplinas como obrigatórias tramitou durante 11 anos. "As duas disciplinas permitem à juventude acessar todas as matérias do conhecimento, permite que se formem conceitos, caráter moral e que as pessoas tenham uma visão humanista. Fizemos um acordo e votamos por unanimidade. Hoje fizemos um grande benefício à juventude brasileira", disse a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).
As questões
Que há uma melhora aqui, não há dúvida. A coisa saltou de uma simples resolução, que vinha sendo contestada por sindicatos de colégios particulares, para algo que fará parte da LDB.
As questões que me ficam são:
a) Qual será o conteúdo determinado pela LDB para que seja aplicado aos alunos? Isto refletirá, obviamente, na quantidade de aulas semanais a serem trabalhadas. Uma aula por semana, por experiência, não chega a ser suficiente. E isto até por questões pedagógicas, não somente as de conteúdo. Na outra semana o aluno nem se lembra do seu nome, quanto mais do que foi passado.
b) Quem poderá ministrar estas aulas? Sim, porque 99% dos colégios que acataram a resolução o fizeram da seguinte forma: pega aí o professor de história, geografia ou pintura em gesso e coloca para dar a aula de filosofia. Péssimo para as disciplinas, péssimo para as categorias.
Será que agora vai?
2.5.08
Cento e treze cidadãos anti-racistas contra as leis raciais
ÍNTEGRA DA CARTA ENTREGUE AO MINISTRO GILMAR MENDES
Excelentíssimo Sr. Ministro,
Duas ações diretas de inconstitucionalidade (ADI 3.330 e ADI 3.197) promovidas pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), a primeira contra o programa PROUNI e a segunda contra a lei de cotas nos concursos vestibulares das universidades estaduais do Rio de Janeiro, serão apreciadas proximamente pelo STF. Os julgamentos terão significado histórico, pois podem criar jurisprudência sobre a constitucionalidade de cotas raciais não só para o financiamento de cursos no ensino superior particular e para concursos de ingresso no ensino superior público como para concursos públicos em geral. Mais ainda: os julgamentos têm o potencial de enviar uma mensagem decisiva sobre a constitucionalidade da produção de leis raciais.
Nós, intelectuais da sociedade civil, sindicalistas, empresários e ativistas dos movimentos negros e outros movimentos sociais, dirigimo-nos respeitosamente aos Juízes da corte mais alta, que recebeu do povo constituinte a prerrogativa de guardiã da Constituição, para oferecer argumentos contrários à admissão de cotas raciais na ordem política e jurídica da República.
Na seara do que Vossas Excelências dominam, apontamos a Constituição Federal, no seu Artigo 19, que estabelece: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”. O Artigo 208 dispõe que: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”. Alinhada com os princípios e garantias da Constituição Federal, a Constituição Estadual do Rio de Janeiro, no seu Artigo 9, § 1º, determina que: “Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição”.
As palavras da Lei emanam de uma tradição brasileira, que cumpre exatos 120 anos desde a Abolição da escravidão, de não dar amparo a leis e políticas raciais. No intuito de justificar o rompimento dessa tradição, os proponentes das cotas raciais sustentam que o princípio da igualdade de todos perante a lei exige tratar desigualmente os desiguais. Ritualmente, eles citam a Oração aos Moços, na qual Rui Barbosa, inspirado em Aristóteles, explica que: “A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade.” O método de tratar desigualmente os desiguais, a que se refere, é aquele aplicado, com justiça, em campos tão distintos quanto o sistema tributário, por meio da tributação progressiva, e as políticas sociais de transferência de renda. Mas a sua invocação para sustentar leis raciais não é mais que um sofisma.
Os concursos vestibulares, pelos quais se dá o ingresso no ensino superior de qualidade “segundo a capacidade de cada um”, não são promotores de desigualdades, mas se realizam no terreno semeado por desigualdades sociais prévias. A pobreza no Brasil tem todas as cores. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, entre 43 milhões de pessoas de 18 a 30 anos de idade, 12,9 milhões tinham renda familiar per capita de meio salário mínimo ou menos. Neste grupo mais pobre, 30% classificavam-se a si mesmos como “brancos”, 9% como “pretos”, e 60% como “pardos”. Desses 12,9 milhões, apenas 21% dos “brancos” e 16% dos “pretos” e “pardos” haviam completado o ensino médio, mas muito poucos, de qualquer cor, continuaram estudando depois disso. Basicamente, são diferenças de renda, com tudo que vem associado a elas, e não de cor, que limitam o acesso ao ensino superior.
Apresentadas como maneira de reduzir as desigualdades sociais, as cotas raciais não contribuem para isso, ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções dos desafios imensos e das urgências, sociais e educacionais, com os quais se defronta a nação. E, contudo, mesmo no universo menor dos jovens que têm a oportunidade de almejar o ensino superior de qualidade, as cotas raciais não promovem a igualdade, mas apenas acentuam desigualdades prévias ou produzem novas desigualdades:
As cotas raciais exclusivas, como aplicadas, entre outras, na Universidade de Brasília (UnB), proporcionam a um candidato definido como “negro” a oportunidade de ingresso por menor número de pontos que um candidato definido como “branco”, mesmo se o primeiro provém de família de alta renda e cursou colégios particulares de excelência e o segundo provém de família de baixa renda e cursou escolas públicas arruinadas. No fim, o sistema concede um privilégio para candidatos de classe média arbitrariamente classificados como “negros”.
As cotas raciais embutidas no interior de cotas para candidatos de escolas públicas, como aplicadas, entre outras, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), separam os alunos proveniente de famílias com faixas de renda semelhantes em dois grupos “raciais” polares, gerando uma desigualdade “natural” num meio caracterizado pela igualdade social. O seu resultado previsível é oferecer privilégios para candidatos definidos arbitrariamente como “negros” que cursaram escolas públicas de melhor qualidade, em detrimento de seus colegas definidos como “brancos” e de todos os alunos de escolas públicas de pior qualidade.
A PNAD de 2006 informa que 9,41 milhões de estudantes cursavam o ensino médio, mas apenas 5,87 milhões freqüentavam o ensino superior, dos quais só uma minoria de 1,44 milhão estavam matriculados em instituições superiores públicas. As leis de cotas raciais não alteram em nada esse quadro e não proporcionam inclusão social. Elas apenas selecionam “vencedores” e “perdedores”, com base num critério altamente subjetivo e intrinsecamente injusto, abrindo cicatrizes profundas na personalidade dos jovens, naquele momento de extrema fragilidade que significa a disputa, ainda imaturos, por uma vaga que lhes garanta o futuro.
Queremos um Brasil onde seus cidadãos possam celebrar suas múltiplas origens, que se plasmam na criação de uma cultura nacional aberta e tolerante, no lugar de sermos obrigados a escolher e valorizar uma única ancestralidade em detrimento das outras. O que nos mobiliza não é o combate à doutrina de ações afirmativas, quando entendidas como esforço para cumprir as Declarações Preambulares da Constituição, contribuindo na redução das desigualdades sociais, mas a manipulação dessa doutrina com o propósito de racializar a vida social no país. As leis que oferecem oportunidades de emprego a deficientes físicos e que concedem cotas a mulheres nos partidos políticos são invocadas como precedentes para sustentar a admissibilidade jurídica de leis raciais. Esse segundo sofisma é ainda mais grave, pois conduz à naturalização das raças. Afinal, todos sabemos quem são as mulheres e os deficientes físicos, mas a definição e delimitação de grupos raciais pelo Estado é um empreendimento político que tem como ponto de partida a negação daquilo que nos explicam os cientistas.
Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas “raças” humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes! Nas palavras do geneticista Sérgio Pena: “O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das ‘raças’ deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de ‘raças’.” (“Receita para uma humanidade desracializada”, Ciência Hoje Online, setembro de 2006).
Não foi a existência de raças que gerou o racismo, mas o racismo que fabricou a crença em raças. O “racismo científico” do século XIX acompanhou a expansão imperial européia na África e na Ásia, erguendo um pilar “científico” de sustentação da ideologia da “missão civilizatória” dos europeus, que foi expressa celebremente como o “fardo do homem branco”.
Os poderes coloniais, para separar na lei os colonizadores dos nativos, distinguiram também os nativos entre si e inscreveram essas distinções nos censos. A distribuição de privilégios segundo critérios etno-raciais inculcou a raça nas consciências e na vida política, semeando tensões e gestando conflitos que ainda perduram. Na África do Sul, o sistema do apartheid separou os brancos dos demais e foi adiante, na sua lógica implacável, fragmentando todos os “não-brancos” em grupos étnicos cuidadosamente delimitados. Em Ruanda, no Quênia e em tantos outros lugares, os africanos foram submetidos a meticulosas classificações étnicas, que determinaram acessos diferenciados aos serviços e empregos públicos. A produção política da raça é um ato político que não demanda diferenças de cor da pele.
O racismo contamina profundamente as sociedades quando a lei sinaliza às pessoas que elas pertencem a determinado grupo racial – e que seus direitos são afetados por esse critério de pertinência de raça. Nos Estados Unidos, modelo por excelência das políticas de cotas raciais, a abolição da escravidão foi seguida pela produção de leis raciais baseadas na regra da “gota de sangue única”. Essa regra, que é a negação da mestiçagem biológica e cultural, propiciou a divisão da sociedade em guetos legais, sociais, culturais e espaciais. De acordo com ela, as pessoas são, irrevogavelmente, “brancas” ou “negras”. Eis aí a inspiração das leis de cotas raciais no Brasil.
“Eu tenho o sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo de seu caráter”. Há 45 anos, em agosto, Martin Luther King abriu um horizonte alternativo para os norte-americanos, ancorando-o no “sonho americano” e no princípio político da igualdade de todos perante a lei, sobre o qual foi fundada a nação. Mas o desenvolvimento dessa visão pós-racial foi interrompido pelas políticas racialistas que, a pretexto de reparar injustiças, beberam na fonte envenenada da regra da “gota de sangue única”. De lá para cá, como documenta extensamente Thomas Sowell em Ação afirmativa ao redor do mundo: um estudo empírico (Univer Cidade, 2005), as cotas raciais nos Estados Unidos não contribuíram em nada para reduzir desigualdades mas aprofundaram o cisma racial que marca como ferro em brasa a sociedade norte-americana.
“É um impasse racial no qual estamos presos há muitos anos”, na constatação do senador Barack Obama, em seu discurso pronunciado a 18 de março, que retoma o fio perdido depois do assassinato de Martin Luther King. O “impasse” não será superado tão cedo, em virtude da lógica intrínseca das leis raciais. Como assinalou Sowell, com base em exemplos de inúmeros países, a distribuição de privilégios segundo critérios etno-raciais tende a retroalimentar as percepções racializadas da sociedade – e em torno dessas percepções articulam-se carreiras políticas e grupos organizados de pressão.
Mesmo assim, algo se move nos Estados Unidos. Há pouco, repercutindo um desencanto social bastante generalizado com o racialismo, a Suprema Corte declarou inconstitucionais as políticas educacionais baseadas na aplicação de rótulos raciais às pessoas. No seu argumento, o presidente da Corte, juiz John G. Roberts Jr., escreveu que “o caminho para acabar com a discriminação baseada na raça é acabar com a discriminação baseada na raça”. Há um sentido claro na reiteração: a inversão do sinal da discriminação consagra a raça no domínio da lei, destruindo o princípio da cidadania.
Naquele julgamento, o juiz Anthony Kennedy alinhou-se com a maioria, mas proferiu um voto separado que contém o seguinte protesto: “Quem exatamente é branco e quem é não-branco? Ser forçado a viver sob um rótulo racial oficial é inconsistente com a dignidade dos indivíduos na nossa sociedade. E é um rótulo que um indivíduo é impotente para mudar!”. Nos censos do IBGE, as informações de raça/cor abrigam a mestiçagem e recebem tratamento populacional. As leis raciais no Brasil são algo muito diferente: elas têm o propósito de colar “um rótulo que um indivíduo é impotente para mudar” e, no caso das cotas em concursos vestibulares, associam nominalmente cada jovem candidato a uma das duas categorias “raciais” polares, impondo-lhes uma irrecorrível identidade oficial.
O juiz Kennedy foi adiante e, reconhecendo a diferença entre a doutrina de ações afirmativas e as políticas de cotas raciais, sustentou a legalidade de iniciativas voltadas para a promoção ativa da igualdade que não distinguem os indivíduos segundo rótulos raciais. Reportando-se à realidade norte-americana da persistência dos guetos, ele mencionou, entre outras, a seleção de áreas residenciais racialmente segregadas para os investimentos prioritários em educação pública.
No Brasil, difunde-se a promessa sedutora de redução gratuita das desigualdades por meio de cotas raciais para ingresso nas universidades. Nada pode ser mais falso: as cotas raciais proporcionam privilégios a uma ínfima minoria de estudantes de classe média e conservam intacta, atrás de seu manto falsamente inclusivo, uma estrutura de ensino público arruinada. Há um programa inteiro de restauração da educação pública a se realizar, que exige políticas adequadas e vultosos investimentos. É preciso elevar o padrão geral do ensino mas, sobretudo, romper o abismo entre as escolas de qualidade, quase sempre situadas em bairros de classe média, e as escolas devastadas das periferias urbanas, das favelas e do meio rural. O direcionamento prioritário de novos recursos para esses espaços de pobreza beneficiaria jovens de baixa renda de todos os tons de pele – e, certamente, uma grande parcela daqueles que se declaram “pardos” e “pretos”.
A meta nacional deveria ser proporcionar a todos um ensino básico de qualidade e oportunidades verdadeiras de acesso à universidade. Mas há iniciativas a serem adotadas, imediatamente, em favor de jovens de baixa renda de todas as cores que chegam aos umbrais do ensino superior, como a oferta de cursos preparatórios gratuitos e a eliminação das taxas de inscrição nos exames vestibulares das universidades públicas. Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Programa de Cursinhos Pré-Vestibulares Gratuitos, destinado a alunos egressos de escolas públicas, atendeu em 2007 a 3.714 jovens, dos quais 1.050 foram aprovados em concursos vestibulares, sendo 707 em universidades públicas. Medidas como essa, que não distinguem os indivíduos segundo critérios raciais abomináveis, têm endereço social certo e contribuem efetivamente para a amenização das desigualdades.
A sociedade brasileira não está livre da chaga do racismo, algo que é evidente no cotidiano das pessoas com tom de pele menos claro, em especial entre os jovens de baixa renda. A cor conta, ilegal e desgraçadamente, em incontáveis processos de admissão de funcionários. A discriminação se manifesta de múltiplas formas, como por exemplo na hora das incursões policiais em bairros periféricos ou nos padrões de aplicação de ilegais mandados de busca coletivos em áreas de favelas.
Por certo existe preconceito racial e racismo no Brasil, mas o Brasil não é uma nação racista. Depois da Abolição, no lugar da regra da “gota de sangue única”, a nação brasileira elaborou uma identidade amparada na idéia anti-racista de mestiçagem e produziu leis que criminalizam o racismo. Há sete décadas, a República não conhece movimentos racistas organizados ou expressões significativa de ódio racial. O preconceito de raça, acuado, refugiou-se em expressões oblíquas envergonhadas, temendo assomar à superfície. A condição subterrânea do preconceito é um atestado de que há algo de muito positivo na identidade nacional brasileira, não uma prova de nosso fracasso histórico.
“Quem exatamente é branco e quem é não-branco?” – a indagação do juiz Kennedy provoca algum espanto nos Estados Unidos, onde quase todos imaginam conhecer a identidade “racial” de cada um, mas parece óbvia aos ouvidos dos brasileiros. Entre nós, casamentos interraciais não são incomuns e a segregação residencial é um fenômeno basicamente ligado à renda, não à cor da pele. Os brasileiros tendem a borrar as fronteiras “raciais”, tanto na prática da mestiçagem quanto no imaginário da identidade, o que se verifica pelo substancial e progressivo incremento censitário dos “pardos”, que saltaram de 21% no Censo de 1940 para 43% na PNAD de 2006, e pela paralela redução dos “brancos” (de 63% para 49%) ou “pretos” (de 15% para 7%).
A percepção da mestiçagem, que impregna profundamente os brasileiros, de certa forma reflete realidades comprovadas pelos estudos genéticos. Uma investigação já célebre sobre a ancestralidade de brasileiros classificados censitariamente como “brancos”, conduzida por Sérgio Pena e sua equipe da Universidade Federal de Minas Gerais, comprovou cientificamente a extensão de nossas miscigenações. “Em resumo, estes estudos filogeográficos com brasileiros brancos revelaram que a imensa maioria das patrilinhagens é européia, enquanto a maioria das matrilinhagens (mais de 60%) é ameríndia ou africana” (PENA, S. “Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas?”, Estudos Avançados 18 (50), 2004). Especificamente, a análise do DNA mitocondrial, que serve como marcador de ancestralidades maternas, mostrou que 33% das linhagens eram de origem ameríndia, 28% de origem africana e 39% de origem européia.
Os estudos de marcadores de DNA permitem concluir que, em 2000, existiam cerca de 28 milhões de afrodescendentes entre os 90,6 milhões de brasileiros que se declaravam “brancos” e que, entre os 76,4 milhões que se declaravam “pardos” ou “pretos”, 20% não tinham ancestralidade africana. Não é preciso ir adiante para perceber que não é legítimo associar cores de pele a ancestralidades e que as operações de identificação de “negros” com descendentes de escravos e com “afrodescentes” são meros exercícios da imaginação ideológica. Do mesmo modo, a investigação genética evidencia a violência intelectual praticada pela unificação dos grupos censitários “pretos” e “pardos” num suposto grupo racial “negro”.
Mas a violência não se circunscreve à esfera intelectual. As leis de cotas raciais são veículos de uma engenharia política de fabricação ou recriação de raças. Se, individualmente, elas produzem injustiças singulares, socialmente têm o poder de gerar “raças oficiais”, por meio da divisão dos jovens estudantes em duas raças polares. Como, no Brasil, não sabemos quem exatamente é “negro” e quem é “não-negro”, comissões de certificação racial estabelecidas pelas universidades se encarregam de traçar uma fronteira. A linha divisória só se consolida pela validação oficial da autodeclaração dos candidatos, num processo sinistro em que comissões universitárias investigam e deliberam sobre a “raça verdadeira” dos jovens a partir de exames de imagens fotográficas ou de entrevistas identitárias. No fim das contas, isso equivale ao cancelamento do princípio da autodeclaração e sua substituição pela atribuição oficial de identidades raciais.
Na UnB, uma comissão de certificação racial composta por professores e militantes do movimento negro chegou a separar dois irmãos gêmeos idênticos pela fronteira da raça. No Maranhão, produziram-se fenômenos semelhantes. Pelo Brasil afora, os mesmos candidatos foram certificados como “negros” em alguma universidade mas descartados como “brancos” em outra. A proliferação das leis de cotas raciais demanda a produção de uma classificação racial geral e uniforme. Esta é a lógica que conduziu o MEC a implantar declarações raciais nominais e obrigatórias no ato de matrícula de todos os alunos do ensino fundamental do país. O horizonte da trajetória de racialização promovida pelo Estado é o estabelecimento de um carimbo racial compulsório nos documentos de identidade de todos os brasileiros. A história está repleta de barbaridades inomináveis cometidas sobre a base de carimbos raciais oficialmente impostos.
A propaganda cerrada em favor das cotas raciais assegura-nos que os estudantes universitários cotistas exibem desempenho similar ao dos demais. Os dados concernentes ao tema são esparsos, contraditórios e pouco confiáveis. Mas isso é essencialmente irrelevante, pois a crítica informada dos sistemas de cotas nunca afirmou que estudantes cotistas seriam incapazes de acompanhar os cursos superiores ou que sua presença provocaria queda na qualidade das universidades. As cotas raciais não são um distúrbio no ensino superior, mas a face mais visível de uma racialização oficial das relações sociais que ameaça a coesão nacional.
A crença na raça é o artigo de fé do racismo. A fabricação de “raças oficiais” e a distribuição seletiva de privilégios segundo rótulos de raça inocula na circulação sanguínea da sociedade o veneno do racismo, com seu cortejo de rancores e ódios. No Brasil, representaria uma revisão radical de nossa identidade nacional e a renúncia à utopia possível da universalização da cidadania efetiva.
Ao julgar as cotas raciais, o STF não estará deliberando sobre um método de ingresso nas universidades, mas sobre o significado da nação e a natureza da Constituição. Leis raciais não ameaçam uma “elite branca”, conforme esbravejam os racialistas, mas passam uma fronteira brutal no meio da maioria absoluta dos brasileiros. Essa linha divisória atravessaria as salas de aula das escolas públicas, os ônibus que conduzem as pessoas ao trabalho, as ruas e as casas dos bairros pobres. Neste início de terceiro milênio, um Estado racializado estaria dizendo aos cidadãos que a utopia da igualdade fracassou – e que, no seu lugar, o máximo que podemos almejar é uma trégua sempre provisória entre nações separadas pelo precipício intransponível das identidades raciais. É esse mesmo o futuro que queremos?
Excelentíssimo Sr. Ministro,
Duas ações diretas de inconstitucionalidade (ADI 3.330 e ADI 3.197) promovidas pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), a primeira contra o programa PROUNI e a segunda contra a lei de cotas nos concursos vestibulares das universidades estaduais do Rio de Janeiro, serão apreciadas proximamente pelo STF. Os julgamentos terão significado histórico, pois podem criar jurisprudência sobre a constitucionalidade de cotas raciais não só para o financiamento de cursos no ensino superior particular e para concursos de ingresso no ensino superior público como para concursos públicos em geral. Mais ainda: os julgamentos têm o potencial de enviar uma mensagem decisiva sobre a constitucionalidade da produção de leis raciais.
Nós, intelectuais da sociedade civil, sindicalistas, empresários e ativistas dos movimentos negros e outros movimentos sociais, dirigimo-nos respeitosamente aos Juízes da corte mais alta, que recebeu do povo constituinte a prerrogativa de guardiã da Constituição, para oferecer argumentos contrários à admissão de cotas raciais na ordem política e jurídica da República.
Na seara do que Vossas Excelências dominam, apontamos a Constituição Federal, no seu Artigo 19, que estabelece: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”. O Artigo 208 dispõe que: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”. Alinhada com os princípios e garantias da Constituição Federal, a Constituição Estadual do Rio de Janeiro, no seu Artigo 9, § 1º, determina que: “Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição”.
As palavras da Lei emanam de uma tradição brasileira, que cumpre exatos 120 anos desde a Abolição da escravidão, de não dar amparo a leis e políticas raciais. No intuito de justificar o rompimento dessa tradição, os proponentes das cotas raciais sustentam que o princípio da igualdade de todos perante a lei exige tratar desigualmente os desiguais. Ritualmente, eles citam a Oração aos Moços, na qual Rui Barbosa, inspirado em Aristóteles, explica que: “A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade.” O método de tratar desigualmente os desiguais, a que se refere, é aquele aplicado, com justiça, em campos tão distintos quanto o sistema tributário, por meio da tributação progressiva, e as políticas sociais de transferência de renda. Mas a sua invocação para sustentar leis raciais não é mais que um sofisma.
Os concursos vestibulares, pelos quais se dá o ingresso no ensino superior de qualidade “segundo a capacidade de cada um”, não são promotores de desigualdades, mas se realizam no terreno semeado por desigualdades sociais prévias. A pobreza no Brasil tem todas as cores. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, entre 43 milhões de pessoas de 18 a 30 anos de idade, 12,9 milhões tinham renda familiar per capita de meio salário mínimo ou menos. Neste grupo mais pobre, 30% classificavam-se a si mesmos como “brancos”, 9% como “pretos”, e 60% como “pardos”. Desses 12,9 milhões, apenas 21% dos “brancos” e 16% dos “pretos” e “pardos” haviam completado o ensino médio, mas muito poucos, de qualquer cor, continuaram estudando depois disso. Basicamente, são diferenças de renda, com tudo que vem associado a elas, e não de cor, que limitam o acesso ao ensino superior.
Apresentadas como maneira de reduzir as desigualdades sociais, as cotas raciais não contribuem para isso, ocultam uma realidade trágica e desviam as atenções dos desafios imensos e das urgências, sociais e educacionais, com os quais se defronta a nação. E, contudo, mesmo no universo menor dos jovens que têm a oportunidade de almejar o ensino superior de qualidade, as cotas raciais não promovem a igualdade, mas apenas acentuam desigualdades prévias ou produzem novas desigualdades:
As cotas raciais exclusivas, como aplicadas, entre outras, na Universidade de Brasília (UnB), proporcionam a um candidato definido como “negro” a oportunidade de ingresso por menor número de pontos que um candidato definido como “branco”, mesmo se o primeiro provém de família de alta renda e cursou colégios particulares de excelência e o segundo provém de família de baixa renda e cursou escolas públicas arruinadas. No fim, o sistema concede um privilégio para candidatos de classe média arbitrariamente classificados como “negros”.
As cotas raciais embutidas no interior de cotas para candidatos de escolas públicas, como aplicadas, entre outras, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), separam os alunos proveniente de famílias com faixas de renda semelhantes em dois grupos “raciais” polares, gerando uma desigualdade “natural” num meio caracterizado pela igualdade social. O seu resultado previsível é oferecer privilégios para candidatos definidos arbitrariamente como “negros” que cursaram escolas públicas de melhor qualidade, em detrimento de seus colegas definidos como “brancos” e de todos os alunos de escolas públicas de pior qualidade.
A PNAD de 2006 informa que 9,41 milhões de estudantes cursavam o ensino médio, mas apenas 5,87 milhões freqüentavam o ensino superior, dos quais só uma minoria de 1,44 milhão estavam matriculados em instituições superiores públicas. As leis de cotas raciais não alteram em nada esse quadro e não proporcionam inclusão social. Elas apenas selecionam “vencedores” e “perdedores”, com base num critério altamente subjetivo e intrinsecamente injusto, abrindo cicatrizes profundas na personalidade dos jovens, naquele momento de extrema fragilidade que significa a disputa, ainda imaturos, por uma vaga que lhes garanta o futuro.
Queremos um Brasil onde seus cidadãos possam celebrar suas múltiplas origens, que se plasmam na criação de uma cultura nacional aberta e tolerante, no lugar de sermos obrigados a escolher e valorizar uma única ancestralidade em detrimento das outras. O que nos mobiliza não é o combate à doutrina de ações afirmativas, quando entendidas como esforço para cumprir as Declarações Preambulares da Constituição, contribuindo na redução das desigualdades sociais, mas a manipulação dessa doutrina com o propósito de racializar a vida social no país. As leis que oferecem oportunidades de emprego a deficientes físicos e que concedem cotas a mulheres nos partidos políticos são invocadas como precedentes para sustentar a admissibilidade jurídica de leis raciais. Esse segundo sofisma é ainda mais grave, pois conduz à naturalização das raças. Afinal, todos sabemos quem são as mulheres e os deficientes físicos, mas a definição e delimitação de grupos raciais pelo Estado é um empreendimento político que tem como ponto de partida a negação daquilo que nos explicam os cientistas.
Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas “raças” humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de 10 genes! Nas palavras do geneticista Sérgio Pena: “O fato assim cientificamente comprovado da inexistência das ‘raças’ deve ser absorvido pela sociedade e incorporado às suas convicções e atitudes morais Uma postura coerente e desejável seria a construção de uma sociedade desracializada, na qual a singularidade do indivíduo seja valorizada e celebrada. Temos de assimilar a noção de que a única divisão biologicamente coerente da espécie humana é em bilhões de indivíduos, e não em um punhado de ‘raças’.” (“Receita para uma humanidade desracializada”, Ciência Hoje Online, setembro de 2006).
Não foi a existência de raças que gerou o racismo, mas o racismo que fabricou a crença em raças. O “racismo científico” do século XIX acompanhou a expansão imperial européia na África e na Ásia, erguendo um pilar “científico” de sustentação da ideologia da “missão civilizatória” dos europeus, que foi expressa celebremente como o “fardo do homem branco”.
Os poderes coloniais, para separar na lei os colonizadores dos nativos, distinguiram também os nativos entre si e inscreveram essas distinções nos censos. A distribuição de privilégios segundo critérios etno-raciais inculcou a raça nas consciências e na vida política, semeando tensões e gestando conflitos que ainda perduram. Na África do Sul, o sistema do apartheid separou os brancos dos demais e foi adiante, na sua lógica implacável, fragmentando todos os “não-brancos” em grupos étnicos cuidadosamente delimitados. Em Ruanda, no Quênia e em tantos outros lugares, os africanos foram submetidos a meticulosas classificações étnicas, que determinaram acessos diferenciados aos serviços e empregos públicos. A produção política da raça é um ato político que não demanda diferenças de cor da pele.
O racismo contamina profundamente as sociedades quando a lei sinaliza às pessoas que elas pertencem a determinado grupo racial – e que seus direitos são afetados por esse critério de pertinência de raça. Nos Estados Unidos, modelo por excelência das políticas de cotas raciais, a abolição da escravidão foi seguida pela produção de leis raciais baseadas na regra da “gota de sangue única”. Essa regra, que é a negação da mestiçagem biológica e cultural, propiciou a divisão da sociedade em guetos legais, sociais, culturais e espaciais. De acordo com ela, as pessoas são, irrevogavelmente, “brancas” ou “negras”. Eis aí a inspiração das leis de cotas raciais no Brasil.
“Eu tenho o sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele mas pelo conteúdo de seu caráter”. Há 45 anos, em agosto, Martin Luther King abriu um horizonte alternativo para os norte-americanos, ancorando-o no “sonho americano” e no princípio político da igualdade de todos perante a lei, sobre o qual foi fundada a nação. Mas o desenvolvimento dessa visão pós-racial foi interrompido pelas políticas racialistas que, a pretexto de reparar injustiças, beberam na fonte envenenada da regra da “gota de sangue única”. De lá para cá, como documenta extensamente Thomas Sowell em Ação afirmativa ao redor do mundo: um estudo empírico (Univer Cidade, 2005), as cotas raciais nos Estados Unidos não contribuíram em nada para reduzir desigualdades mas aprofundaram o cisma racial que marca como ferro em brasa a sociedade norte-americana.
“É um impasse racial no qual estamos presos há muitos anos”, na constatação do senador Barack Obama, em seu discurso pronunciado a 18 de março, que retoma o fio perdido depois do assassinato de Martin Luther King. O “impasse” não será superado tão cedo, em virtude da lógica intrínseca das leis raciais. Como assinalou Sowell, com base em exemplos de inúmeros países, a distribuição de privilégios segundo critérios etno-raciais tende a retroalimentar as percepções racializadas da sociedade – e em torno dessas percepções articulam-se carreiras políticas e grupos organizados de pressão.
Mesmo assim, algo se move nos Estados Unidos. Há pouco, repercutindo um desencanto social bastante generalizado com o racialismo, a Suprema Corte declarou inconstitucionais as políticas educacionais baseadas na aplicação de rótulos raciais às pessoas. No seu argumento, o presidente da Corte, juiz John G. Roberts Jr., escreveu que “o caminho para acabar com a discriminação baseada na raça é acabar com a discriminação baseada na raça”. Há um sentido claro na reiteração: a inversão do sinal da discriminação consagra a raça no domínio da lei, destruindo o princípio da cidadania.
Naquele julgamento, o juiz Anthony Kennedy alinhou-se com a maioria, mas proferiu um voto separado que contém o seguinte protesto: “Quem exatamente é branco e quem é não-branco? Ser forçado a viver sob um rótulo racial oficial é inconsistente com a dignidade dos indivíduos na nossa sociedade. E é um rótulo que um indivíduo é impotente para mudar!”. Nos censos do IBGE, as informações de raça/cor abrigam a mestiçagem e recebem tratamento populacional. As leis raciais no Brasil são algo muito diferente: elas têm o propósito de colar “um rótulo que um indivíduo é impotente para mudar” e, no caso das cotas em concursos vestibulares, associam nominalmente cada jovem candidato a uma das duas categorias “raciais” polares, impondo-lhes uma irrecorrível identidade oficial.
O juiz Kennedy foi adiante e, reconhecendo a diferença entre a doutrina de ações afirmativas e as políticas de cotas raciais, sustentou a legalidade de iniciativas voltadas para a promoção ativa da igualdade que não distinguem os indivíduos segundo rótulos raciais. Reportando-se à realidade norte-americana da persistência dos guetos, ele mencionou, entre outras, a seleção de áreas residenciais racialmente segregadas para os investimentos prioritários em educação pública.
No Brasil, difunde-se a promessa sedutora de redução gratuita das desigualdades por meio de cotas raciais para ingresso nas universidades. Nada pode ser mais falso: as cotas raciais proporcionam privilégios a uma ínfima minoria de estudantes de classe média e conservam intacta, atrás de seu manto falsamente inclusivo, uma estrutura de ensino público arruinada. Há um programa inteiro de restauração da educação pública a se realizar, que exige políticas adequadas e vultosos investimentos. É preciso elevar o padrão geral do ensino mas, sobretudo, romper o abismo entre as escolas de qualidade, quase sempre situadas em bairros de classe média, e as escolas devastadas das periferias urbanas, das favelas e do meio rural. O direcionamento prioritário de novos recursos para esses espaços de pobreza beneficiaria jovens de baixa renda de todos os tons de pele – e, certamente, uma grande parcela daqueles que se declaram “pardos” e “pretos”.
A meta nacional deveria ser proporcionar a todos um ensino básico de qualidade e oportunidades verdadeiras de acesso à universidade. Mas há iniciativas a serem adotadas, imediatamente, em favor de jovens de baixa renda de todas as cores que chegam aos umbrais do ensino superior, como a oferta de cursos preparatórios gratuitos e a eliminação das taxas de inscrição nos exames vestibulares das universidades públicas. Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Programa de Cursinhos Pré-Vestibulares Gratuitos, destinado a alunos egressos de escolas públicas, atendeu em 2007 a 3.714 jovens, dos quais 1.050 foram aprovados em concursos vestibulares, sendo 707 em universidades públicas. Medidas como essa, que não distinguem os indivíduos segundo critérios raciais abomináveis, têm endereço social certo e contribuem efetivamente para a amenização das desigualdades.
A sociedade brasileira não está livre da chaga do racismo, algo que é evidente no cotidiano das pessoas com tom de pele menos claro, em especial entre os jovens de baixa renda. A cor conta, ilegal e desgraçadamente, em incontáveis processos de admissão de funcionários. A discriminação se manifesta de múltiplas formas, como por exemplo na hora das incursões policiais em bairros periféricos ou nos padrões de aplicação de ilegais mandados de busca coletivos em áreas de favelas.
Por certo existe preconceito racial e racismo no Brasil, mas o Brasil não é uma nação racista. Depois da Abolição, no lugar da regra da “gota de sangue única”, a nação brasileira elaborou uma identidade amparada na idéia anti-racista de mestiçagem e produziu leis que criminalizam o racismo. Há sete décadas, a República não conhece movimentos racistas organizados ou expressões significativa de ódio racial. O preconceito de raça, acuado, refugiou-se em expressões oblíquas envergonhadas, temendo assomar à superfície. A condição subterrânea do preconceito é um atestado de que há algo de muito positivo na identidade nacional brasileira, não uma prova de nosso fracasso histórico.
“Quem exatamente é branco e quem é não-branco?” – a indagação do juiz Kennedy provoca algum espanto nos Estados Unidos, onde quase todos imaginam conhecer a identidade “racial” de cada um, mas parece óbvia aos ouvidos dos brasileiros. Entre nós, casamentos interraciais não são incomuns e a segregação residencial é um fenômeno basicamente ligado à renda, não à cor da pele. Os brasileiros tendem a borrar as fronteiras “raciais”, tanto na prática da mestiçagem quanto no imaginário da identidade, o que se verifica pelo substancial e progressivo incremento censitário dos “pardos”, que saltaram de 21% no Censo de 1940 para 43% na PNAD de 2006, e pela paralela redução dos “brancos” (de 63% para 49%) ou “pretos” (de 15% para 7%).
A percepção da mestiçagem, que impregna profundamente os brasileiros, de certa forma reflete realidades comprovadas pelos estudos genéticos. Uma investigação já célebre sobre a ancestralidade de brasileiros classificados censitariamente como “brancos”, conduzida por Sérgio Pena e sua equipe da Universidade Federal de Minas Gerais, comprovou cientificamente a extensão de nossas miscigenações. “Em resumo, estes estudos filogeográficos com brasileiros brancos revelaram que a imensa maioria das patrilinhagens é européia, enquanto a maioria das matrilinhagens (mais de 60%) é ameríndia ou africana” (PENA, S. “Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas?”, Estudos Avançados 18 (50), 2004). Especificamente, a análise do DNA mitocondrial, que serve como marcador de ancestralidades maternas, mostrou que 33% das linhagens eram de origem ameríndia, 28% de origem africana e 39% de origem européia.
Os estudos de marcadores de DNA permitem concluir que, em 2000, existiam cerca de 28 milhões de afrodescendentes entre os 90,6 milhões de brasileiros que se declaravam “brancos” e que, entre os 76,4 milhões que se declaravam “pardos” ou “pretos”, 20% não tinham ancestralidade africana. Não é preciso ir adiante para perceber que não é legítimo associar cores de pele a ancestralidades e que as operações de identificação de “negros” com descendentes de escravos e com “afrodescentes” são meros exercícios da imaginação ideológica. Do mesmo modo, a investigação genética evidencia a violência intelectual praticada pela unificação dos grupos censitários “pretos” e “pardos” num suposto grupo racial “negro”.
Mas a violência não se circunscreve à esfera intelectual. As leis de cotas raciais são veículos de uma engenharia política de fabricação ou recriação de raças. Se, individualmente, elas produzem injustiças singulares, socialmente têm o poder de gerar “raças oficiais”, por meio da divisão dos jovens estudantes em duas raças polares. Como, no Brasil, não sabemos quem exatamente é “negro” e quem é “não-negro”, comissões de certificação racial estabelecidas pelas universidades se encarregam de traçar uma fronteira. A linha divisória só se consolida pela validação oficial da autodeclaração dos candidatos, num processo sinistro em que comissões universitárias investigam e deliberam sobre a “raça verdadeira” dos jovens a partir de exames de imagens fotográficas ou de entrevistas identitárias. No fim das contas, isso equivale ao cancelamento do princípio da autodeclaração e sua substituição pela atribuição oficial de identidades raciais.
Na UnB, uma comissão de certificação racial composta por professores e militantes do movimento negro chegou a separar dois irmãos gêmeos idênticos pela fronteira da raça. No Maranhão, produziram-se fenômenos semelhantes. Pelo Brasil afora, os mesmos candidatos foram certificados como “negros” em alguma universidade mas descartados como “brancos” em outra. A proliferação das leis de cotas raciais demanda a produção de uma classificação racial geral e uniforme. Esta é a lógica que conduziu o MEC a implantar declarações raciais nominais e obrigatórias no ato de matrícula de todos os alunos do ensino fundamental do país. O horizonte da trajetória de racialização promovida pelo Estado é o estabelecimento de um carimbo racial compulsório nos documentos de identidade de todos os brasileiros. A história está repleta de barbaridades inomináveis cometidas sobre a base de carimbos raciais oficialmente impostos.
A propaganda cerrada em favor das cotas raciais assegura-nos que os estudantes universitários cotistas exibem desempenho similar ao dos demais. Os dados concernentes ao tema são esparsos, contraditórios e pouco confiáveis. Mas isso é essencialmente irrelevante, pois a crítica informada dos sistemas de cotas nunca afirmou que estudantes cotistas seriam incapazes de acompanhar os cursos superiores ou que sua presença provocaria queda na qualidade das universidades. As cotas raciais não são um distúrbio no ensino superior, mas a face mais visível de uma racialização oficial das relações sociais que ameaça a coesão nacional.
A crença na raça é o artigo de fé do racismo. A fabricação de “raças oficiais” e a distribuição seletiva de privilégios segundo rótulos de raça inocula na circulação sanguínea da sociedade o veneno do racismo, com seu cortejo de rancores e ódios. No Brasil, representaria uma revisão radical de nossa identidade nacional e a renúncia à utopia possível da universalização da cidadania efetiva.
Ao julgar as cotas raciais, o STF não estará deliberando sobre um método de ingresso nas universidades, mas sobre o significado da nação e a natureza da Constituição. Leis raciais não ameaçam uma “elite branca”, conforme esbravejam os racialistas, mas passam uma fronteira brutal no meio da maioria absoluta dos brasileiros. Essa linha divisória atravessaria as salas de aula das escolas públicas, os ônibus que conduzem as pessoas ao trabalho, as ruas e as casas dos bairros pobres. Neste início de terceiro milênio, um Estado racializado estaria dizendo aos cidadãos que a utopia da igualdade fracassou – e que, no seu lugar, o máximo que podemos almejar é uma trégua sempre provisória entre nações separadas pelo precipício intransponível das identidades raciais. É esse mesmo o futuro que queremos?
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