4.7.08

Lições sobre morte e imortalidade

Então povo: segundo meu avô, que por conta do fato acendeu uma vela e quase pôs fogo na casa, ontem fez 17 anos que minha avó morreu. Estranho pensar que agora, aos 33, posso dizer que passei mais da metade da vida sem a presença física daquela que me foi a principal referência. Física digo não porque acredite em espíritos, mas porque a memória vai-se esvaindo e por vezes fica só o principal, só a estrutura, uma lembrança boa que é quase um lapso. Se eu fosse uma fenomenólogo, talvez tivesse mais coisas a dizer sobre isso. Como não... vai um texto que escrevi há um tempinho atrás.

Beijos vó...



Ontem choveu granizo. E granizo me lembra Dona Elza, a avó que me colocava sobre a mesa antes do almoço pra fritar bifes de fígado que segundo ela me tornariam mais forte. A avó que que me colocava sobre a mesa durante a tarde pra fazer bolinhos de chuva em formato de charutos, aqueles que tinham um sabor diferente e os quais nunca mais vou voltar a comer na minha vida. A avó que fazia jarros e jarros de suco de laranja.

Dona Elza foi-se cedo. Acho que com 63 anos. A reincidência de um tumor a levou. Da primeira vez que ficou doente passei meses na cama ao seu lado. Da segunda, tinha tanto medo que ela se fosse que não conseguia vê-la. Arrependo-me por isso.

Dona Elza foi a pessoa mais importante da minha infância. Filha de um português e de uma espanhola, tinha o carisma de um e a força do outro. Era viva, inteligente, irônica, engraçada, esplendorosa e linda. Fazia amigos como quem troca de meias. Ainda sou parado nas ruas por quem, como eu, sente saudades dela.

Sempre que chovia granizo, corríamos pra porta da cozinha pra pegar algumas pedras. Segundo ela, gelo celeste faz bem à pele. Passávamos aquilo no rosto, morríamos de rir, e voltávamos pra sala.

Fazemos isso até hoje, só que agora com o João junto. Devo acreditar que a coisa funciona. Quando ela morreu parecia ter 40 anos, ou 35. Não se encontrava uma ruga no rosto risonho.

Da última vez que a vi, algumas horas antes de ir, num quarto de hospital, com sede e sem poder se alimentar, disse que quando sairia dali tomaria um balde de laranjada e enfiaria um sorvete na testa pra que ele escorresse até a boca. Não deu.

Entretanto, toda vez que chove granizo passamos umas pedras no rosto e ela insiste em colocar umas na boca. Digo a ela que faz mal. Dona Elza não liga, ela é teimosa, e voltamos pra sala, agora os três, rindo à toa.

3 comentários:

rico disse...

Do novo gabinete do Dr Lacan: Sempre que leio esse texto fico comovido.
Abraço

Lélia Campos disse...

Minha vó foi muito importante em minha vida também. Escrevi um texto sobre ela e postei em meu blog, gostaria que lesse. Vamos compartilhar a saudade de nossas avós! http://leliacampos.blogspot.com/2008/04/sorriso-de-v-da-minha-v.html

Obrigada pela visita em meu blog.

Quanto ao comentário lá... carência, solidão, estrela, pode estar certo em sua "análise", e eu nem havia pensado em tudo isso... rs... só escrevi sobre me sentir viva.

Apareça sempre, voltarei aqui para visitá-lo.

gris-gris disse...

vou te contar q este teu texto me encheu os olhos de água salgada. ou foi o texto, ou foi a tua avó - os dois lindos.

beijos,
Cris.