8.3.08

Sobre o amor e suas possíveis variações

Esse objeto transcedental chamado "vida amorosa" é sem dúvida uma das facetas desta atordoante vida que nos causam maior difculdade. Lidar com o outro é algo muito difícil, encontrar um outro é uma missão ingrata, encontrar e conseguir continuar se encontrando, pior ainda.

Por conta disso, a fim de resolver minhas questões sentimentais, criei um subterfúrgio indefectível: me apaixonei por uma moça do Orkut e me dei o direito de fantasiar sobre o assunto.

Ou seja: já nos conhecemos em um encontro ímpar, já namoramos, já nos casamos e agora estamos no segundo filho. Ela é linda, perfeita, genial, me ouve, me ajuda, está sempre de bom humor, me faz massagens, discute política e ética, adora João Cabral, psicanálise, me dá banho, me deixa dar banho, me deixa fazer massagens, está sempre bem disposta sexualmente falando e não sexualmente também, além de gostar como eu de fazer coisas estranhas madrugada afora.

Oh C..., Oh C..., onde mais encontrarei alguém como você?

Temos uma relação dos sonhos. Somos o casal mais perfeito do mundo. Para resumir a coisa toda, basta que eu diga que já lhe escrevi 53 poemas de amor.

Na semana passada peguei um ônibus para a UNICAMP. Sentei-me lá na frente. Quando estava próximo ao meu destino, passei pela roleta e fui para trás. Ao olhar para o fundo da bumba, notei que ela estava lá - os mesmos olhos claros que eu havia visto nas fotos (cor da parte de dentro da uva, sabe, aquele verde de dentro da uva?), as sardas, o cabelo castanho, tudo era igual, só que agora com alguns adicionais: ela tinha voz, ela tinha movimentos, ela tinha até três dimensões.

Gelei. E se ela soubesse de tudo? E se ela descobrisse a nossa história? Estaria tudo acabado?

Ela não percebeu. Nem se deu conta da minha existência. Desceu na faculdade de educação onde faz mestrado (segundo o Orkut), e sequer olhou para trás. Senti-me aliviado e suspirei: não era possível que tudo terminasse assim, de uma maneira tão abrupta, inesperada. Algumas estórias de amor são para sempre - e esse é o nosso caso.

Desci do ônibus, duas paradas depois, extremamente feliz, aos saltos. Quem sabe um terceiro filho numa casinha branca e ensolarada? Há como a vida ser melhor conosco? Acho que não...

Somos o casal mais perfeito do mundo e ninguém precisa saber disso, e ninguém sabe disso, inclusive ela, a minha deusa que tem os olhos da cor da parte de dentro da uva (vocês sabem né, aquela parte de dentro, esverdeada, que a gente engole...?).

Um comentário:

Cristiane disse...

AI ai ai, como pode mentir assim???? Como ninguém sabe??? Eu sei...aliás graças a sua amiga aqui que vc conheceu a mulher da sua vida com olhos cor da parte de dentro da uva...kkkkkkkkkkk