22.9.07

Por que sou nietzschiano?

Ler Nietzsche é uma experiência no mínimo das mais peculiares. É necessário que todas as armas estejam empunhadas, que todas as referências estejam dispostas, que todas as possibilidades de interpretação se atentem para que se chegue a algum lugar.

Dias atrás estava lendo a Terceira Dissertação de A genelogia da moral, e isto por conta de uma questão que eu achava que poderia ser interessante pesquisar. Nesta dissertação Nietzsche trata sobre os ideais ascéticos, fazendo um levantamento da psicologia do sacerdote. Ora, haverá aqui alguma indicação aproveitada por Freud desta análise quando este estrutura a sua psicologia da religião? É cedo ainda para que eu possa responder.

Mas o que eu quero, meus caros, não é falar disso. Eu quero é citar uma passagem extraordinária a qual eu ainda não havia entendido. E nao havia entendido porque não estava devidamente gaio para entendê-la. Estava levando o texto muito a sério para poder rir dele. Afinal, não era aquele um texto filosófico? Errado, era um texto nietzschiano. A passagem:

O que significam ideais ascéticos? - Para os artistas nada, ou coisas demais; para os filósofos e eruditos, algo como instinto e faro para as condições propícias a uma elevada espiritualidade; para as mulheres, no melhor dos casos um encanto mais de sedução, um quê de morbidezza na carne bonita, a angelicidade de um belo e gordo animal;

Quando a "ficha caiu" eu ria sem parar. Como é que se pode escrever isso num texto "sério"? Pois bem, a filosofia de Nietzsche se constrói assim: fazendo o que se diz que tem que ser feito. Desestrurar a linguagem, exceder em figuras, não ser emburrado demais.

A questão do artista

Em um post abaixo, em que eu falava da classe artística tomando as rédeas do pensamento tupiniquim, deixei em aberto a questão sobre se aquele destranbelhamento acontecia no mundo todo. Bem, ainda lendo a Terceira Dissertação, me deparei com isto: eles estão longe de se colocar independentemente no mundo, e contra o mundo, para que as suas avaliações, e a mudança delas, mereçam em si interesse! Eles sempre foram os criados de quarto de uma religião, de uma filosofia, de uma moral; sem contar que, infelizmente, não raro foram dóceis cortesãos de seus seguidores e patronos, e sagazes bajuladores de poderes antigos, ou poderes novos e ascendentes. Ao menos necessitam sempre de uma proteção, de um amparo, uma autoridade estabelecida: os artistas não se sustentam por si sós, estar só vai de encontro a seus instintos mais profundos.

Pois bem, qualquer semelhança com o que acontece hoje não é mera coincidência. E a minha pergunta está respondida.

* Pra quem não sabe, Porquê não somos nietzschianos é um livro escrito por vários marxistas franceses. Tem coisa pior do que ter estes dois qüalificativos trabalhando juntos: marxista e francês? Só juntando mais qüalificativos: barata marxista-francesa; fiscal de trânsito marxista-francês; pedagoga construtivista marxista-francesa (apesar de que esta é uma tautologia); psicóloga comportamental marxista-francesa.

Ai, sai pra lá: paro por aqui porque já estou ficando arrepiado!

4 comentários:

Anônimo disse...

O que vc indicaria pra uma leiga começar a ler Nietzsche (e pra que tanta vogal junta???)? Uma amiga minha anda pirando com o tal do Amor Fati e queria saber qual é a do cara... teu post veio a calhar!
Beijos,

gris-gris disse...

é, fabiano...o q vc indicaria?
bjon!
cris k.

João Emiliano Martins Neto disse...

Nietzsche estava certíssimo em muitas das críticas que fez, porém, a meu ver propôs o remédio errado, pois opondo-se ao Cristianismo e o famoso ideal ascético entregava inermes criaturas fragilizadas pelos vícios ao poderio socialista que Nietzsche dizia opor-se em "Humano, demasiado Humano", apesar de em "O Anticristo" tecer loas ao Império Romano que foi uma forma de poderio estatal histórico brutal.

João Emiliano Martins Neto disse...

Comece lendo Nietzsche por "Crepúsculo dos Ídolos".

O amor fati é o amor ao mundo como o mesmo é, com toda a sua feiúra e beleza, é a reconciliação com o mundo sem utopias marxistas, cristãs, budistas ou de qualquer outea espécie.