Há momentos da vida que são decisivos. Há instantes nos quais nossas escolhas acabam por determinar um número gigantesco de acontecimentos, fatos, memórias, e mesmo de outras opções que você fará durante toda a vida, numa espécie de caminho como aquele feito por pedras de dominó que derrubam umas as outras, formando uma figura qualquer no final.
Ontem houve isso.
Passei a tarde fazendo provas para um emprego ruim. Mostrando que eu sei a diferença entre "há" e "a", que posso calcular porcentagens, que consigo entender sequências lógicas simples. É difícil constranger-se consigo mesmo, decepcionar-se com as expectativas que criou sobre si. Isso talvez seja o que nomeiam por frustração.
Saí dali um quanto tanto derrotado. Fui buscar meu filho na escola. O tempo estava péssimo.
Demos dois passos e a chuva desabou: pesada, quente, absolutamente horizontal. Foi aí que veio a escolha: não, não - não vamos nos esconder, esperar, ou o que seja - vamos embora. Mas pai? Ih, você de papel, é? Não: huhu!!!
E viemos na chuva, morrendo de rir, chutando as águas das guias, pulando em poças, levando banho dos carros pra ver quem se ensopava mais. Fujimos das árvores porque embaixo de árvore não se molha, tiramos as camisetas e as enrolamos no ar, fizemos penteados engraçados nos cabelos que pingavam. Chegamos em casa às gargalhadas, tiramos a roupa na garagem e entramos de cueca e todo mundo riu.
Além de saber a diferença entre "há" e "a", de calcular porcentagens e de entender sequências lógicas simples, é possível que eu saiba divertir e criar boas memórias, como a peça de dominó feita de chuva, de poças saltadas.
Hoje, sinceramente, isso já me basta.
7.11.08
6.11.08
5.11.08
João Pereira Coutinho
Para que não conhece João Pereira Coutinho, trata-se de um português que escreve coisas das mais sensatas e de uma maneira impecável. Provável que uma de suas principais qualidades seja a de reduzir complexidades conceituais em temas diários, palpáveis, demasiadamente humanos. O texto é de uma claridade infalível e pode-se sentir, ao ascultá-lo com cuidado, um tanto daquela tristeza, daquela angústia, daquele sofrimento curto tão característico da lusitânia: o fado que se observa em cada olhar português.
Mando dois de uma só tacada. Não deixem de ler. Para quem se interessar, inseri o link para o site aí ao lado.
A Sagrada Família
Já tudo foi dito e escrito sobre o último livro de Reinaldo Azevedo, "O País dos Petralhas" (Record, 337 págs.). Uma feroz e divertida denúncia da política brasileira e do "establishment" petista atualmente em cena? Sem dúvida.
Mas existe uma passagem do livro que não é para rir. É para ler, meditar, talvez chorar. Acontece a propósito de nada: Reinaldo Azevedo prepara-se para sair de férias e, em momento de trégua, partilha com os leitores do blog a memória feliz de um livro aparentemente menor, "A Morte de um Apicultor", do sueco Lars Gustafsson.
Quem leu Gustafsson? Curiosamente, eu li. E perguntei-me, durante anos, se seria a única criatura do mundo a lembrar com ternura desse livro imensamente melancólico e belo. É a história de um velho, condenado por doença mortal, que vai anotando, em vários cadernos, os pensamentos, as rotinas e até as dores físicas de uma vida a caminho do fim. "Recomeçamos. Não nos rendemos", escreve o velho, vezes sem conta. E, com essa frase, termina a sua odisséia, momentos antes de a ambulância vir buscá-lo.
Reinaldo Azevedo evoca "A Morte de um Apicultor" para dizer o que de mais profundo alguém pode dizer sobre a função de uma democracia civilizada: ela existe, precisamente, para que possamos tratar das nossas vidas banais. Para que possamos ser como o velho apicultor do livro: simplesmente interessados nas nossas rotinas, nas nossas famílias, nas nossas memórias privadas. E conclui o colunista: o que é imperdoável na política brasileira não é apenas a corrupção, a boçalidade e a ignorância dos próceres. O que é imperdoável é a existência de uma elite política moralmente miserável que impede esse espaço pessoal e intransmissível onde podemos ser "senhores das nossas lendas" e alheios ao ruído do mundo. No Brasil, tudo é ruído. E no resto do mundo?
No resto do mundo, talvez não. A tese pertence a Luc Ferry e ninguém diria que Luc Ferry e Reinaldo Azevedo dariam um bom par. Mas as aparências enganam. Em "Famílias, Amo Vocês", um breve ensaio publicado no Brasil pela Objetiva, Luc Ferry retoma a observação pessoal de Reinaldo e elabora uma questão filosófica fundamental: nos tempos que passam, seremos capazes de nos sacrificar por algo ou por alguém? Ao olharmos para o brilhante século 20 e para o longo cortejo de matanças em que a centúria foi pródiga, encontramos milhões de seres humanos que marcharam e mataram em nome de puras abstrações. A Nação. O Partido. O Progresso. A Raça. O Império. O baile terminou em chamas e, hoje, no meio das cinzas, alguns zelotes ideologicamente nostálgicos lamentam o "recolhimento individualista" das nossas sociedades "burguesas" e clamam pelo inevitável, e tantas vezes sanguinário, regresso da "imaginação ao poder".
A resposta de Luc Ferry é a oposta: devemos festejar o recuo das grandes causas; e devemos, sobretudo, celebrar as pequenas. Devemos celebrar os nossos familiares, os nossos amigos. A nossa tribo. O nosso "pequeno pelotão", como dizia Burke no século 18. São eles as causas por que vale a pena lutar. São eles que constituem o princípio e o fim das nossas "transcendências".
Nas palavras do filósofo francês, houve uma "divinização do humano" ou, se preferirem, uma "transcendência na imanência" que leva o Homem ocidental a apenas "sair de si mesmo" para participar no destino daqueles que lhe estão mais próximos. As nossas utopias são pessoais, não coletivas; e esse recuo é prova da nossa maturidade política e de uma certa decência moral.
Ao longo da história, as famílias sempre estiveram ao serviço da política e foram, por vezes, estilhaçadas por ela? É hora de virar o disco: uma sociedade política civilizada deve servir as famílias; deve permitir que estas possam cultivar as suas virtudes sem a intervenção e os constantes abusos do Estado.
E o Brasil será essa sociedade política civilizada no dia em que o ruído do mundo der lugar ao silêncio dos lares. No dia em que for possível, como escreve Reinaldo Azevedo, ter uma alma, cultivar intimidades, guardar as pequenas coisas ridículas, sem que a República conspire com suas sujidades e violências. Será esse o dia em que o famoso dilema de Camus deixará de fazer sentido: a justiça ou a minha mãe?
Obviamente, a mãe.
Porque, como diria um velho apicultor sueco, nós nunca nos rendemos perante o que nos é sagrado. Recomeçamos.
_____________________________________________________________________________
É a política, estúpido!
Vejam só como eu sou ingênuo: uns tempos atrás, em Nova York, acordei pelas dez da manhã, saí para a rua e encontrei dezenas e dezenas de jornalistas à minha espera. Eu, pelo menos, acreditava que sim. E acreditava mais: num acesso de megalomania, julguei que a Academia Sueca resolvera reconhecer, pela primeira vez na sua história, a crônica como gênero literário digno de um Nobel.
Puro engano. Olhando em volta, descobri que o meu hotel ficava ao lado da sede da Lehman Brothers. Ali, a dois passos da minha cama, Wall Street entrava pelo buraco. Limitei-me a sorrir e, levemente ressacado, marchei para a Starbucks mais próxima, em busca da cafeína redentora.
Por que motivo sorria eu?
Não pretendo abismar os leitores desta Folha com meus conhecimentos econômicos, aliás primitivos. Mas posso confessar, de alma aberta, que a presente crise financeira estava escrita nas estrelas!
Eu sei que os leitores estão cansados da crise e não estão dispostos a ler mais uma análise sobre ela. O vocabulário é esotérico ("leverage", "toxic debt", "shorting") e o caos geral dos mercados tem reflexo direto na cabeça histérica dos comentadores.
Mas é importante, no meio do nevoeiro, começar por dizer que a crise financeira atual não é, apenas, uma crise financeira. É também uma crise política, que nasceu diretamente de uma concepção igualitária de sociedade que só podia terminar pessimamente.
Essa concepção nasceu no seio de várias administrações americanas que, nos últimos anos, movidas por noções aberrantes de "igualdade" social, entendiam ser possível operar o milagre da multiplicação do consumo.
Comprar casa, por exemplo, não era o resultado de anos de trabalho, poupança e investimento esse trio que, infelizmente, não está ao alcance de todos. Comprar casa era um direito e, mais, um dever. E como cumprir esse dever, que permitia, ainda por cima, fazer de cada investimento um novo negócio para um novo investimento?
Ninguém tem recursos ilimitados; mas houve, pelos vistos, empréstimos ilimitados: bancos que emprestavam a bancos que emprestavam a bancos que emprestavam a privados. Quando os empréstimos começaram a não ser pagos (inevitável); e quando o mercado imobiliário, depois da euforia, começou a derreter (idem), o mundo acordou para a evidência de que a única coisa que começava a faltar no sistema era, tão simplesmente, dinheiro.
Não foi a ganância de Wall Street que pariu a crise presente. Foi a ganância de toda a gente: governos, bancos, pessoas.
A euforia terminou em depressão e hoje, com a economia mundial à beira do abismo, talvez só um plano global de intervenção pública na banca possa evitar o descalabro. Um plano de emergência que, como todas as emergências, deve ser forte e temporário.
Mas seria um erro passar pelo momento atual sem aprender as suas lições. Quais? Dos governos, espera-se que aprendam como é perigoso e abusivo projetar construções ideológicas equitativas no funcionamento impessoal do mercado. Das pessoas, espera-se que relembrem o que têm e o que podem gastar, esse cálculo mínimo que é a base de qualquer economia doméstica. E, da banca, espera-se apenas que o velho equilíbrio entre prudência e risco possa regressar. De preferência, sem as pressões de cima ou as ilusões de baixo.
Uma receita básica? Precisamente. Mas, às vezes, é necessário começar pelo básico.
Mando dois de uma só tacada. Não deixem de ler. Para quem se interessar, inseri o link para o site aí ao lado.
A Sagrada Família
Já tudo foi dito e escrito sobre o último livro de Reinaldo Azevedo, "O País dos Petralhas" (Record, 337 págs.). Uma feroz e divertida denúncia da política brasileira e do "establishment" petista atualmente em cena? Sem dúvida.
Mas existe uma passagem do livro que não é para rir. É para ler, meditar, talvez chorar. Acontece a propósito de nada: Reinaldo Azevedo prepara-se para sair de férias e, em momento de trégua, partilha com os leitores do blog a memória feliz de um livro aparentemente menor, "A Morte de um Apicultor", do sueco Lars Gustafsson.
Quem leu Gustafsson? Curiosamente, eu li. E perguntei-me, durante anos, se seria a única criatura do mundo a lembrar com ternura desse livro imensamente melancólico e belo. É a história de um velho, condenado por doença mortal, que vai anotando, em vários cadernos, os pensamentos, as rotinas e até as dores físicas de uma vida a caminho do fim. "Recomeçamos. Não nos rendemos", escreve o velho, vezes sem conta. E, com essa frase, termina a sua odisséia, momentos antes de a ambulância vir buscá-lo.
Reinaldo Azevedo evoca "A Morte de um Apicultor" para dizer o que de mais profundo alguém pode dizer sobre a função de uma democracia civilizada: ela existe, precisamente, para que possamos tratar das nossas vidas banais. Para que possamos ser como o velho apicultor do livro: simplesmente interessados nas nossas rotinas, nas nossas famílias, nas nossas memórias privadas. E conclui o colunista: o que é imperdoável na política brasileira não é apenas a corrupção, a boçalidade e a ignorância dos próceres. O que é imperdoável é a existência de uma elite política moralmente miserável que impede esse espaço pessoal e intransmissível onde podemos ser "senhores das nossas lendas" e alheios ao ruído do mundo. No Brasil, tudo é ruído. E no resto do mundo?
No resto do mundo, talvez não. A tese pertence a Luc Ferry e ninguém diria que Luc Ferry e Reinaldo Azevedo dariam um bom par. Mas as aparências enganam. Em "Famílias, Amo Vocês", um breve ensaio publicado no Brasil pela Objetiva, Luc Ferry retoma a observação pessoal de Reinaldo e elabora uma questão filosófica fundamental: nos tempos que passam, seremos capazes de nos sacrificar por algo ou por alguém? Ao olharmos para o brilhante século 20 e para o longo cortejo de matanças em que a centúria foi pródiga, encontramos milhões de seres humanos que marcharam e mataram em nome de puras abstrações. A Nação. O Partido. O Progresso. A Raça. O Império. O baile terminou em chamas e, hoje, no meio das cinzas, alguns zelotes ideologicamente nostálgicos lamentam o "recolhimento individualista" das nossas sociedades "burguesas" e clamam pelo inevitável, e tantas vezes sanguinário, regresso da "imaginação ao poder".
A resposta de Luc Ferry é a oposta: devemos festejar o recuo das grandes causas; e devemos, sobretudo, celebrar as pequenas. Devemos celebrar os nossos familiares, os nossos amigos. A nossa tribo. O nosso "pequeno pelotão", como dizia Burke no século 18. São eles as causas por que vale a pena lutar. São eles que constituem o princípio e o fim das nossas "transcendências".
Nas palavras do filósofo francês, houve uma "divinização do humano" ou, se preferirem, uma "transcendência na imanência" que leva o Homem ocidental a apenas "sair de si mesmo" para participar no destino daqueles que lhe estão mais próximos. As nossas utopias são pessoais, não coletivas; e esse recuo é prova da nossa maturidade política e de uma certa decência moral.
Ao longo da história, as famílias sempre estiveram ao serviço da política e foram, por vezes, estilhaçadas por ela? É hora de virar o disco: uma sociedade política civilizada deve servir as famílias; deve permitir que estas possam cultivar as suas virtudes sem a intervenção e os constantes abusos do Estado.
E o Brasil será essa sociedade política civilizada no dia em que o ruído do mundo der lugar ao silêncio dos lares. No dia em que for possível, como escreve Reinaldo Azevedo, ter uma alma, cultivar intimidades, guardar as pequenas coisas ridículas, sem que a República conspire com suas sujidades e violências. Será esse o dia em que o famoso dilema de Camus deixará de fazer sentido: a justiça ou a minha mãe?
Obviamente, a mãe.
Porque, como diria um velho apicultor sueco, nós nunca nos rendemos perante o que nos é sagrado. Recomeçamos.
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É a política, estúpido!
Vejam só como eu sou ingênuo: uns tempos atrás, em Nova York, acordei pelas dez da manhã, saí para a rua e encontrei dezenas e dezenas de jornalistas à minha espera. Eu, pelo menos, acreditava que sim. E acreditava mais: num acesso de megalomania, julguei que a Academia Sueca resolvera reconhecer, pela primeira vez na sua história, a crônica como gênero literário digno de um Nobel.
Puro engano. Olhando em volta, descobri que o meu hotel ficava ao lado da sede da Lehman Brothers. Ali, a dois passos da minha cama, Wall Street entrava pelo buraco. Limitei-me a sorrir e, levemente ressacado, marchei para a Starbucks mais próxima, em busca da cafeína redentora.
Por que motivo sorria eu?
Não pretendo abismar os leitores desta Folha com meus conhecimentos econômicos, aliás primitivos. Mas posso confessar, de alma aberta, que a presente crise financeira estava escrita nas estrelas!
Eu sei que os leitores estão cansados da crise e não estão dispostos a ler mais uma análise sobre ela. O vocabulário é esotérico ("leverage", "toxic debt", "shorting") e o caos geral dos mercados tem reflexo direto na cabeça histérica dos comentadores.
Mas é importante, no meio do nevoeiro, começar por dizer que a crise financeira atual não é, apenas, uma crise financeira. É também uma crise política, que nasceu diretamente de uma concepção igualitária de sociedade que só podia terminar pessimamente.
Essa concepção nasceu no seio de várias administrações americanas que, nos últimos anos, movidas por noções aberrantes de "igualdade" social, entendiam ser possível operar o milagre da multiplicação do consumo.
Comprar casa, por exemplo, não era o resultado de anos de trabalho, poupança e investimento esse trio que, infelizmente, não está ao alcance de todos. Comprar casa era um direito e, mais, um dever. E como cumprir esse dever, que permitia, ainda por cima, fazer de cada investimento um novo negócio para um novo investimento?
Ninguém tem recursos ilimitados; mas houve, pelos vistos, empréstimos ilimitados: bancos que emprestavam a bancos que emprestavam a bancos que emprestavam a privados. Quando os empréstimos começaram a não ser pagos (inevitável); e quando o mercado imobiliário, depois da euforia, começou a derreter (idem), o mundo acordou para a evidência de que a única coisa que começava a faltar no sistema era, tão simplesmente, dinheiro.
Não foi a ganância de Wall Street que pariu a crise presente. Foi a ganância de toda a gente: governos, bancos, pessoas.
A euforia terminou em depressão e hoje, com a economia mundial à beira do abismo, talvez só um plano global de intervenção pública na banca possa evitar o descalabro. Um plano de emergência que, como todas as emergências, deve ser forte e temporário.
Mas seria um erro passar pelo momento atual sem aprender as suas lições. Quais? Dos governos, espera-se que aprendam como é perigoso e abusivo projetar construções ideológicas equitativas no funcionamento impessoal do mercado. Das pessoas, espera-se que relembrem o que têm e o que podem gastar, esse cálculo mínimo que é a base de qualquer economia doméstica. E, da banca, espera-se apenas que o velho equilíbrio entre prudência e risco possa regressar. De preferência, sem as pressões de cima ou as ilusões de baixo.
Uma receita básica? Precisamente. Mas, às vezes, é necessário começar pelo básico.
31.10.08
O nome da(s) coisa(s)
Se a gente se atentar, ainda que pouco, a respeito do tamanho dos termos dos quais nos utilizamos para nomear as coisas, vai perceber que um padrão será encontrado. E o padrão é o seguinte: as coisas mais importantes para um ser humano são nomeadas por termos curtos, pequenos, simples. Exemplos: pai, mãe, vó, sol, água, pão, mão, pé. Palavras fáceis de se dizer e essenciais à vida.
Quando as coisas começam a se distanciar desta essencialidade tornando-se, por assim dizer, um tanto quanto supérfluas, os nomes começam a crescer e se complicar. Talvez isso explique o fato de eu jamais ter ido a um otorrinolaringologista.
Mas, enfim: a questão que me levou a escrever este post e a começar por esta digressão torta diz respeito ao tamanho e à estranheza do nome deste blog.
Deciopivanianas seria, segundo o padrão explicado aí em cima, um termo para designar uma existência das mais desimportantes. Ainda que isto possa ser verdade, me nego a acreditar que as coisas se passem desta maneira.
Em conversa com uma amiga na semana passada, que reclamava que não nunca se lembrava do nome do blog porque é complicado, estranho, encontrei a saída para reverter a situação. Depois de explicar de onde tinha saído o nome, ela me disse: Ah, agora ficou mais fácil.
Pois então, vamos facilitar as coisas pra todo mundo.
O termo usado para designar este blog foi criado a partir da junção do nome de dois de meus poetas favoritos.
1 - O primeiro deles, Décio Pignatari:

Que tira da cachola coisas assim:

2 - Já o segundo é Roberto Piva:

Que:

Notem uma coisa: Décio, Piva. Nomes pequenos que marcam em folhas coisas absurdas como estas que eu mostrei. Juntando os dois e formando um palavrão, sai este blog que dá pra quebrar o galho.
Agora melhorou?
Quando as coisas começam a se distanciar desta essencialidade tornando-se, por assim dizer, um tanto quanto supérfluas, os nomes começam a crescer e se complicar. Talvez isso explique o fato de eu jamais ter ido a um otorrinolaringologista.
Mas, enfim: a questão que me levou a escrever este post e a começar por esta digressão torta diz respeito ao tamanho e à estranheza do nome deste blog.
Deciopivanianas seria, segundo o padrão explicado aí em cima, um termo para designar uma existência das mais desimportantes. Ainda que isto possa ser verdade, me nego a acreditar que as coisas se passem desta maneira.
Em conversa com uma amiga na semana passada, que reclamava que não nunca se lembrava do nome do blog porque é complicado, estranho, encontrei a saída para reverter a situação. Depois de explicar de onde tinha saído o nome, ela me disse: Ah, agora ficou mais fácil.
Pois então, vamos facilitar as coisas pra todo mundo.
O termo usado para designar este blog foi criado a partir da junção do nome de dois de meus poetas favoritos.
1 - O primeiro deles, Décio Pignatari:

Que tira da cachola coisas assim:

2 - Já o segundo é Roberto Piva:

Que:

Notem uma coisa: Décio, Piva. Nomes pequenos que marcam em folhas coisas absurdas como estas que eu mostrei. Juntando os dois e formando um palavrão, sai este blog que dá pra quebrar o galho.
Agora melhorou?
25.10.08
A rasidão
A rasidão não é algo que aparece de surpresa. Assim como um balde furado se esvazia, uma piscina se esvazia, uma latrina se esvazia, você também é capaz de esvaziar-se. E mais: assim como os objetos citados, você não tem a mínima consciência de estar a perder algo. A sua, ou a nossa diferença para com os baldes e as piscinas e as latrinas se dá apenas quando a coisa já se perdeu, esvaiu-se, morteceu.
Quando este ponto é chegado, a renitência das coisas diárias força o surgimento de uma consciência que é trazida de fora. O que se exige não encontra onde nadar, se angustia e se bate, bate em você, que sufoca e só então repara.
Só poder reproduzir automatismos é um dos primeiros sinaisintomas da rasidão. Ele não dói, não pode ser percebido comportamentalmente e, portanto, não exige remédios ou terapias.
Já o segundo sinalsintoma da rasidão machuca bastante, muito. É quando ela se torna reflexiva, ou seja, você reconhece com todos os pregos, arames farpados, agulhas, alfinetes e lanças que são inerentes ao reconhecer, que perdeu a manivela do ímpeto.
E o que sou eu sem alavanca? Boçal, é mais do que provável.
Um rato.
Uma semilatrina, um semibalde, uma semipiscina.
A rasidão impede, dentre todas as outras isquemias, que se articule o suficiente sobre ela.
Quando este ponto é chegado, a renitência das coisas diárias força o surgimento de uma consciência que é trazida de fora. O que se exige não encontra onde nadar, se angustia e se bate, bate em você, que sufoca e só então repara.
Só poder reproduzir automatismos é um dos primeiros sinaisintomas da rasidão. Ele não dói, não pode ser percebido comportamentalmente e, portanto, não exige remédios ou terapias.
Já o segundo sinalsintoma da rasidão machuca bastante, muito. É quando ela se torna reflexiva, ou seja, você reconhece com todos os pregos, arames farpados, agulhas, alfinetes e lanças que são inerentes ao reconhecer, que perdeu a manivela do ímpeto.
E o que sou eu sem alavanca? Boçal, é mais do que provável.
Um rato.
Uma semilatrina, um semibalde, uma semipiscina.
A rasidão impede, dentre todas as outras isquemias, que se articule o suficiente sobre ela.
24.10.08
My sweet Lord, with every mistake we must surely be learning: um post de e para beatlemaníaco
Achei um negócio lindo, maravilhoso, de chorar, no Youtube: é o show feito em homenagem ao George Harrison, logo depois que ele morreu.
Fora as coisas muito legais em termos sonoros: trinta e oito guitarras, três baterias tocando ao mesmo tempo e tudo o mais que pode ser visto aí embaixo, há algo por demais interessante no quesito regra três: a entrada de Billy Preston nos teclados e de Eric Clapton na guitarra principal.
Para quem não é beatlemaníaco, uma explicação: tanto Billy Preston quanto Eric Clapton foram os únicos sujeitos convidados a participar de gravações com o fab-four. Clapton, no Álbum Branco (o meu preferido), foi responsável pela guitarra em While my guitar gently weeps. Já Billy Preston fez uma boa quantidade de faixas em Let it be.
Como Eric pode ser considerado o quinto beatle e Billy o sexto, pode-se dizer, com as óbvias ressalvas, que o time, nos vídeos aí embaixo, chega a estar quase completo. Pena que Billy Preston tenha morrido no ano passado, deixando uma baita lacuna.
De qualquer maneira, preparem os lenços. O vocal de Preston está imbatível em My sweet Lord. A guitarra de Clapton... bem, acho que não preciso dizer algo que seja. Ringo, como sempre, uma figura. Já Paul mantém o seu eterno modo talentoso de ser.
Beatlemaníacos, uni-vos! E os que não são, venham também. Vale a pena: eu agarântio!!!
P.S - Ah: o sujeito que está ali no palco, com um violão quase maior do que ele, não é nenhuma aparição. É o George filho, Dhani.
Fora as coisas muito legais em termos sonoros: trinta e oito guitarras, três baterias tocando ao mesmo tempo e tudo o mais que pode ser visto aí embaixo, há algo por demais interessante no quesito regra três: a entrada de Billy Preston nos teclados e de Eric Clapton na guitarra principal.
Para quem não é beatlemaníaco, uma explicação: tanto Billy Preston quanto Eric Clapton foram os únicos sujeitos convidados a participar de gravações com o fab-four. Clapton, no Álbum Branco (o meu preferido), foi responsável pela guitarra em While my guitar gently weeps. Já Billy Preston fez uma boa quantidade de faixas em Let it be.
Como Eric pode ser considerado o quinto beatle e Billy o sexto, pode-se dizer, com as óbvias ressalvas, que o time, nos vídeos aí embaixo, chega a estar quase completo. Pena que Billy Preston tenha morrido no ano passado, deixando uma baita lacuna.
De qualquer maneira, preparem os lenços. O vocal de Preston está imbatível em My sweet Lord. A guitarra de Clapton... bem, acho que não preciso dizer algo que seja. Ringo, como sempre, uma figura. Já Paul mantém o seu eterno modo talentoso de ser.
Beatlemaníacos, uni-vos! E os que não são, venham também. Vale a pena: eu agarântio!!!
P.S - Ah: o sujeito que está ali no palco, com um violão quase maior do que ele, não é nenhuma aparição. É o George filho, Dhani.
17.10.08
Há dez anos. Parabéns João!
- Mas por que você quer depilar as pernas justo hoje? Tá frio, chovendo, não vamos sair de casa...
- Eu quero, ué. Será que você pode me ajudar? É óbvio que não consigo com este barrigão.
- Tudo bem, tudo bem. Vai entrando no banho.
- Você acha que está ficando bom?
- Eu sei lá. Não consigo enxergar também. Ao menos não tá doendo... ou seja, você não está me cortando.
- Pois é. Agora vira, vou fazer a parte de trás. Meus joelhos estão me matando. Que situação, viu...
- Parece velho...
- Flávia!?!?
- Oi.
- Tem um negócio pendurado entre as suas pernas.
- O que? Como assim?
- Sei lá. Parece uma clara de ovo gigantesca.
- Pára de brincar.
- É sério.
- Será que vai nascer?
- Pois é... eu acho que sim.
- Ai caramba, me ajuda!
- Você está sentindo alguma coisa?
- Não.
- Vou me trocar. Güenta aí.
- Hã? E essa coisa? Precisa limpar.
- Pois, é: precisar, precisa. Mas eu é que não ponho a mão nisso. Não sei se vai doer. Nunca ouvi falar disso antes. É seu, faz parte de você (rindo) você dá um jeito nisso.
- Estamos sem carro. Vou encontrar um vizinho. Bete: o João tá nascendo e estamos sem carro - daria pra vocês levarem a gente pro hospital? Flávia, a Bete e o Chico vêm vindo.
- Tá. Mas não tá doendo. Só estou nervosa.
- Fica calma. Já peguei as coisas. Vamos lá.
- Nossa, Chico: numa van?
- Pois é, tem que ser confortável.
- Já tá todo mundo na van? Vambora...
- Meu Deus, o Chico quase entrou com a van no hospital!
- Assim fica mais fácil, ela anda menos.
- Chico, você é louco.
- E então?
- Olha, aquilo era somente uma espécie de tampão. É algo gelatinoso que fica na base da placenta.
- E?
- Não significa que vai nascer agora. Monitoramos e está tudo normal. Podem ficar tranqüilos.
- Vamos pra casa? Você está se sentindo bem?
- Sim. Vamos.
- Caramba Flávia, mas que pratinho de estrogonofe, hein? Você vai conseguir se deitar depois disso tudo?
- Tô morrendo de fome. Tá uma delícia. E olha só o seu prato, tá maior que o meu!
- Já escovei os dentes: vamos nos deitar?
- Vamos.
- Está confortável? Posso apagar a luz?
- Pode.
- Boa noite. Até amanhã...
- Que barulho foi esse?
- Você também ouviu?
- Sim: parecia uma bexiga estourando... fez puf...
- Foi. Um baita estouro. Foi dentro da minha barriga.
- Hã?
- Tô sentindo alguma coisa vazando...
- Foi a bolsa.
- Foi a bolsa.
- Tá doendo muito.
- Calma, são as contrações. Eu coloco a roupa em você. Este vestido é mais fácil, né?
- Não vou sair daqui, tá doendo muito!
- Flávia, como é que você não vai sair daqui? Vai ter a criança aqui?
- Não vou sair, tá doendo muito!
- Tá bom Flávia, tá bom...
- Boa sorte hein! Fica calma...
- Oi Lêda.
- Cadê a Flávia?
- Acabou de passar numa maca. Foi pra lá. Disseram que já vai nascer.
- Ai meus Deus!
- Oi mãe.
- E aí?
- Nada ainda.
- Você tá bem? Tá com fome? São seis da manhã e acho que você ainda não comeu.
- Pois é. Vou enfrentar a chuva e comprar alguma coisa numa lanchonete logo ali.
- Vai lá.
- Já volto.
- O senhor é o pai do João?
- Sim.
- Seu filho acabou de nascer.
- Sério? E aí: foi tudo bem? Ele está bem? Ela está bem?
- Estão sim: foi tudo tranqüilo.
- Ouviram? Pelamor né: chorando abraçadas? Vou ter que contar pra tudo mundo qual foi o "Momento Piegas" da história...
- Vocês já podem subir pra ver o bebê. Mas são duas pessoas por vez.
- Quem de vocês duas vai comigo?
- Vai você primeiro, Lêda.
- Tá bom.
- Ai, caramba... olha ele aí.. eu não acredito... como é que estão as coisas?
- Comigo tá tudo bem. Com dor. Querendo sair daqui o mais rápido possível. Mas tudo bem. Ele tá ótimo. E lindo né? Já mamou, não teve problemas...
- Olha a mãozinha...
- Mãe, você não vem ver seu neto: parece louca... fica aí só tirando foto.
- Tô indo. É que se chega alguém talvez não deixe fotografar...
- Ai meu Deus! Oi João...
- Eu vou descer porque sua mãe deve estar ansiosa. Você fica aí.
- Ué, Emílio? E minha mãe?
- Ela disse que quer estar perto da sua avó quando ela for ver. Tem medo que ela passe mal. Aí pediu pra eu subir.
- Olha ele aí, rapaz...
- Aha...
- Está tudo bem mesmo? Há previsão pra saída?
- Amanhã. Acho que amanhã já saímos.
- Vamos Emilião?
- Vamos lá, cara. Parabéns...
- Fiquem direitinho, ok?
- Pôxa, como você está se sentindo?
- Não sei: sinceramente não sei. É algo que vai ser daqui pra frente. Não adianta dizer que quando nasce você já ama loucamente. Você sequer conviveu! Mas é maravilhoso, você não tem idéia. O João nasceu cara, o João nasceu!
_______________________________________________________________________

- Tá com sono, pai?
- Mais ou menos, por quê?
- Eu queria usar aí.
- Usa o do Pedro... eu já tô terminando... escrevendo uma coisa pro seu aniversário.
- Tá...
- E agora, tá com sono agora João?
- Tô.
- Vamos?
- Vamos lá...
- Vou desligar aqui então...
- Eu quero, ué. Será que você pode me ajudar? É óbvio que não consigo com este barrigão.
- Tudo bem, tudo bem. Vai entrando no banho.
- Você acha que está ficando bom?
- Eu sei lá. Não consigo enxergar também. Ao menos não tá doendo... ou seja, você não está me cortando.
- Pois é. Agora vira, vou fazer a parte de trás. Meus joelhos estão me matando. Que situação, viu...
- Parece velho...
- Flávia!?!?
- Oi.
- Tem um negócio pendurado entre as suas pernas.
- O que? Como assim?
- Sei lá. Parece uma clara de ovo gigantesca.
- Pára de brincar.
- É sério.
- Será que vai nascer?
- Pois é... eu acho que sim.
- Ai caramba, me ajuda!
- Você está sentindo alguma coisa?
- Não.
- Vou me trocar. Güenta aí.
- Hã? E essa coisa? Precisa limpar.
- Pois, é: precisar, precisa. Mas eu é que não ponho a mão nisso. Não sei se vai doer. Nunca ouvi falar disso antes. É seu, faz parte de você (rindo) você dá um jeito nisso.
- Estamos sem carro. Vou encontrar um vizinho. Bete: o João tá nascendo e estamos sem carro - daria pra vocês levarem a gente pro hospital? Flávia, a Bete e o Chico vêm vindo.
- Tá. Mas não tá doendo. Só estou nervosa.
- Fica calma. Já peguei as coisas. Vamos lá.
- Nossa, Chico: numa van?
- Pois é, tem que ser confortável.
- Já tá todo mundo na van? Vambora...
- Meu Deus, o Chico quase entrou com a van no hospital!
- Assim fica mais fácil, ela anda menos.
- Chico, você é louco.
- E então?
- Olha, aquilo era somente uma espécie de tampão. É algo gelatinoso que fica na base da placenta.
- E?
- Não significa que vai nascer agora. Monitoramos e está tudo normal. Podem ficar tranqüilos.
- Vamos pra casa? Você está se sentindo bem?
- Sim. Vamos.
- Caramba Flávia, mas que pratinho de estrogonofe, hein? Você vai conseguir se deitar depois disso tudo?
- Tô morrendo de fome. Tá uma delícia. E olha só o seu prato, tá maior que o meu!
- Já escovei os dentes: vamos nos deitar?
- Vamos.
- Está confortável? Posso apagar a luz?
- Pode.
- Boa noite. Até amanhã...
- Que barulho foi esse?
- Você também ouviu?
- Sim: parecia uma bexiga estourando... fez puf...
- Foi. Um baita estouro. Foi dentro da minha barriga.
- Hã?
- Tô sentindo alguma coisa vazando...
- Foi a bolsa.
- Foi a bolsa.
- Tá doendo muito.
- Calma, são as contrações. Eu coloco a roupa em você. Este vestido é mais fácil, né?
- Não vou sair daqui, tá doendo muito!
- Flávia, como é que você não vai sair daqui? Vai ter a criança aqui?
- Não vou sair, tá doendo muito!
- Tá bom Flávia, tá bom...
- Boa sorte hein! Fica calma...
- Oi Lêda.
- Cadê a Flávia?
- Acabou de passar numa maca. Foi pra lá. Disseram que já vai nascer.
- Ai meus Deus!
- Oi mãe.
- E aí?
- Nada ainda.
- Você tá bem? Tá com fome? São seis da manhã e acho que você ainda não comeu.
- Pois é. Vou enfrentar a chuva e comprar alguma coisa numa lanchonete logo ali.
- Vai lá.
- Já volto.
- O senhor é o pai do João?
- Sim.
- Seu filho acabou de nascer.
- Sério? E aí: foi tudo bem? Ele está bem? Ela está bem?
- Estão sim: foi tudo tranqüilo.
- Ouviram? Pelamor né: chorando abraçadas? Vou ter que contar pra tudo mundo qual foi o "Momento Piegas" da história...
- Vocês já podem subir pra ver o bebê. Mas são duas pessoas por vez.
- Quem de vocês duas vai comigo?
- Vai você primeiro, Lêda.
- Tá bom.
- Ai, caramba... olha ele aí.. eu não acredito... como é que estão as coisas?
- Comigo tá tudo bem. Com dor. Querendo sair daqui o mais rápido possível. Mas tudo bem. Ele tá ótimo. E lindo né? Já mamou, não teve problemas...
- Olha a mãozinha...
- Mãe, você não vem ver seu neto: parece louca... fica aí só tirando foto.
- Tô indo. É que se chega alguém talvez não deixe fotografar...
- Ai meu Deus! Oi João...
- Eu vou descer porque sua mãe deve estar ansiosa. Você fica aí.
- Ué, Emílio? E minha mãe?
- Ela disse que quer estar perto da sua avó quando ela for ver. Tem medo que ela passe mal. Aí pediu pra eu subir.
- Olha ele aí, rapaz...
- Aha...
- Está tudo bem mesmo? Há previsão pra saída?
- Amanhã. Acho que amanhã já saímos.
- Vamos Emilião?
- Vamos lá, cara. Parabéns...
- Fiquem direitinho, ok?
- Pôxa, como você está se sentindo?
- Não sei: sinceramente não sei. É algo que vai ser daqui pra frente. Não adianta dizer que quando nasce você já ama loucamente. Você sequer conviveu! Mas é maravilhoso, você não tem idéia. O João nasceu cara, o João nasceu!
_______________________________________________________________________
- Tá com sono, pai?
- Mais ou menos, por quê?
- Eu queria usar aí.
- Usa o do Pedro... eu já tô terminando... escrevendo uma coisa pro seu aniversário.
- Tá...
- E agora, tá com sono agora João?
- Tô.
- Vamos?
- Vamos lá...
- Vou desligar aqui então...
11.10.08
Platão, Juvenal, e certas estranhices no Jornal Regional 1a Edição
Lá pelo século I A.C (quanta exatidão, meu Deus!) o poeta Juvenal, em suas Sátiras, lançou o seguinte dilema: Sed quis custodiet ipsos custodes? Ou, em nossa última flor do Lácio (inculta e bela, hehe): Mas quem guardará nossos guardas?
Óbvio que a coisa tem duplo efeito: a questão não é somente quem guardará nossos guardas, mas quem "nos" guardará de nossos guardas.
Pois bem: hoje, no queridíssmo Jornal Regional, uma notícia me chamou mais do que atenção. Policiais federais estavam cobrando propina de um traficante (R$ 200.000,00) e de um dono de loja que, ao que parece, vende muita muamba (o valor aqui não foi revelado). Coisa rotineira, sabemos. Mas a pergunta sempre fica: numa situação dessa, o que se há de fazer? Ou, como já havia preconizado o nosso Capitão Nascimento: os caras vão fazer o que - chamar a polícia?
Chamaram, Capitão Nascimento. Chamaram. É claro que não houve menção sobre como se deu o processo. A informação é só a de que, tanto o traficante quanto o dono da loja, deram parte dos sujeitos. Os três policiais estão afastados, sob investigação, e responderão ao que for apurado (sim: mais provável que nada aconteça).
Agora, o interessante aqui é notar o quanto os bandidos foram, por assim dizer, platônicos em sua ação. Sim: pois a questão colocada por Juvenal acima já havia sido feita, de certa maneira, por Platão, em sua "A República". Lá pelas tantas, numa passagem que eu não sei mais onde fica (muito exato, de novo), Sócrates pergunta, a respeito das funções do Estado e das relações de moralidade entre estas funções, sobre quem deveria intervir se acaso a polícia cometesse crimes. A resposta de Platão é circularmente clara: a polícia mesmo, ora essa!
Não me lembro se depois da resposta Sócrates complicou a coisa (já que ele sempre complicava), e avançou mais na questão: - Mas e se os prejudicados são os foras da lei, e prejudicados justamente pelos que são da lei?
Hummm... acho que ele não esperava por tanto, pobre homem. Acho que ninguém esperava por este lugar onde tudo é muito estranho, e a estranheza é tão, digamos, estranha, que chega a ser engraçada.
Querem outro exemplo? No post seguinte eu darei...
Óbvio que a coisa tem duplo efeito: a questão não é somente quem guardará nossos guardas, mas quem "nos" guardará de nossos guardas.
Pois bem: hoje, no queridíssmo Jornal Regional, uma notícia me chamou mais do que atenção. Policiais federais estavam cobrando propina de um traficante (R$ 200.000,00) e de um dono de loja que, ao que parece, vende muita muamba (o valor aqui não foi revelado). Coisa rotineira, sabemos. Mas a pergunta sempre fica: numa situação dessa, o que se há de fazer? Ou, como já havia preconizado o nosso Capitão Nascimento: os caras vão fazer o que - chamar a polícia?
Chamaram, Capitão Nascimento. Chamaram. É claro que não houve menção sobre como se deu o processo. A informação é só a de que, tanto o traficante quanto o dono da loja, deram parte dos sujeitos. Os três policiais estão afastados, sob investigação, e responderão ao que for apurado (sim: mais provável que nada aconteça).
Agora, o interessante aqui é notar o quanto os bandidos foram, por assim dizer, platônicos em sua ação. Sim: pois a questão colocada por Juvenal acima já havia sido feita, de certa maneira, por Platão, em sua "A República". Lá pelas tantas, numa passagem que eu não sei mais onde fica (muito exato, de novo), Sócrates pergunta, a respeito das funções do Estado e das relações de moralidade entre estas funções, sobre quem deveria intervir se acaso a polícia cometesse crimes. A resposta de Platão é circularmente clara: a polícia mesmo, ora essa!
Não me lembro se depois da resposta Sócrates complicou a coisa (já que ele sempre complicava), e avançou mais na questão: - Mas e se os prejudicados são os foras da lei, e prejudicados justamente pelos que são da lei?
Hummm... acho que ele não esperava por tanto, pobre homem. Acho que ninguém esperava por este lugar onde tudo é muito estranho, e a estranheza é tão, digamos, estranha, que chega a ser engraçada.
Querem outro exemplo? No post seguinte eu darei...
10.10.08
6.10.08
Historieta de amor
Ele amava-a como se
Ela lhe fosse o mundo.
Ela detestava-o na mesma
Proporção (na verdade, talvez gostasse
tão somente de estar livre).
Dizia-lhe sempre até o cansaço:
- Se um dia tu morreres, vou-me
Embora junto contigo.
Certa feita, ao repetir-lhe a frase,
Não teve dúvidas.
Acidente e morte. Ataúde lacrado.
Do homem nenhuma lágrima.
Assim que a noite caiu,
reabriu o túmulo e entrou.
Pagou bem para que alguém
O selasse nova e perfeitamente.
Enquanto ele asfixiava-se e retorcia-se,
Ela observava, liberta e anciosa, as novas
Luzes da cidade que lhe surgia.
O corpo, encontrado alguns dias depois,
Com mãos e pernas abraçando a madeira,
Exibia ainda um discreto sorriso.
Cada um foi feliz ao seu modo.
Out. 93
Ela lhe fosse o mundo.
Ela detestava-o na mesma
Proporção (na verdade, talvez gostasse
tão somente de estar livre).
Dizia-lhe sempre até o cansaço:
- Se um dia tu morreres, vou-me
Embora junto contigo.
Certa feita, ao repetir-lhe a frase,
Não teve dúvidas.
Acidente e morte. Ataúde lacrado.
Do homem nenhuma lágrima.
Assim que a noite caiu,
reabriu o túmulo e entrou.
Pagou bem para que alguém
O selasse nova e perfeitamente.
Enquanto ele asfixiava-se e retorcia-se,
Ela observava, liberta e anciosa, as novas
Luzes da cidade que lhe surgia.
O corpo, encontrado alguns dias depois,
Com mãos e pernas abraçando a madeira,
Exibia ainda um discreto sorriso.
Cada um foi feliz ao seu modo.
Out. 93
4.10.08
O pardal hobbesiano
Sentei-me à mesa com uma garrafa d´água e um salgado na mão. O pardal não demorou-se a aparecer. Pousou bem à minha frente e disparou-me um olhar que me fez compreender facilmente o que se passava: - Tá bom, tá bom... toma aí um pedaço.
Coloquei o naco sobre a mesa. Ele pegou-o rapidamente e foi ao chão. Ali, prendeu-o de maneira agressiva entre o bico e voou. Foi-se embora. Achei tudo muito estranho: era a primeira vez que um pássaro havia se comportado, ao menos na minha frente, como um cão. E mais: parecia que eu conhecia aquele bicho cinza de algum lugar.
É claro que tal acontecimento foi suficiente para gerar algumas digressões, sendo a mais tola delas o fato de achar que ali, naquele momento, eu ou havia ganho um amigo, ou então reencontrado um que já houvera passado ao outro lado e se transformado, sei lá por quais regras transcendentais, num pássaro dos mais comuns.
Estava neste ponto de elaboração das minhas doidices quando o bichinho voltou. E desta vez foi mais interessante, apesar de menos discreto e de me permitir menos delírios. Postado no mesmo lugar de antes, desta feita não olhou: piou (não sei o nome do barulho do pardal, portanto vai piar mesmo). E piou, digamos, nervosamente. Um pio gritado, se é que isso existe e que vocês me entendem. Eu não tive sequer coragem de discutir. Peguei outro naco e pus sobre a mesa. Assim como antes, o folgado (agora já não era amigo novo ou espírito encarnado: era folgado) foi ao chão. Só que, desta vez, deu cabo da massa ali mesmo, partindo em seguida.
Não retornou mais porque, claro, a comida que por fim dividimos acabou logo a seguir.
___________________________________________________________________________________
Conclusões óbvias a partir do fato:
1. Estado de natureza é estado de natureza: não interessa se você está de frente para uma minhoca, um homem armado, um pardal, um crocodilo ou uma criança.
2. Se você se comportar de maneira cordata como esperam que você se comporte, você será dominado, e feito de tonto, seja por uma minhoca, por um homem armado, um pardal, um crocodilo ou uma criança.
3. Eu sou feito de tonto constantemente por minhocas, homens armados e desarmados, pardais e crianças. Estou no aguardo dos crocodilos.
4. Eu ando repetitivo. Meu pensamento é circular e me diz sempre o mesmo. Isto significa que eu digo sempre o mesmo a vocês.
5. Gostaria de conhecer pessoas novas. Por conta disso até conjecturei aceitar a amizade de um pardal, que (in)felizmente logo mostrou que não se passava de um interesseiro.
6. Não quero mais papo com pardais.
Coloquei o naco sobre a mesa. Ele pegou-o rapidamente e foi ao chão. Ali, prendeu-o de maneira agressiva entre o bico e voou. Foi-se embora. Achei tudo muito estranho: era a primeira vez que um pássaro havia se comportado, ao menos na minha frente, como um cão. E mais: parecia que eu conhecia aquele bicho cinza de algum lugar.
É claro que tal acontecimento foi suficiente para gerar algumas digressões, sendo a mais tola delas o fato de achar que ali, naquele momento, eu ou havia ganho um amigo, ou então reencontrado um que já houvera passado ao outro lado e se transformado, sei lá por quais regras transcendentais, num pássaro dos mais comuns.
Estava neste ponto de elaboração das minhas doidices quando o bichinho voltou. E desta vez foi mais interessante, apesar de menos discreto e de me permitir menos delírios. Postado no mesmo lugar de antes, desta feita não olhou: piou (não sei o nome do barulho do pardal, portanto vai piar mesmo). E piou, digamos, nervosamente. Um pio gritado, se é que isso existe e que vocês me entendem. Eu não tive sequer coragem de discutir. Peguei outro naco e pus sobre a mesa. Assim como antes, o folgado (agora já não era amigo novo ou espírito encarnado: era folgado) foi ao chão. Só que, desta vez, deu cabo da massa ali mesmo, partindo em seguida.
Não retornou mais porque, claro, a comida que por fim dividimos acabou logo a seguir.
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Conclusões óbvias a partir do fato:
1. Estado de natureza é estado de natureza: não interessa se você está de frente para uma minhoca, um homem armado, um pardal, um crocodilo ou uma criança.
2. Se você se comportar de maneira cordata como esperam que você se comporte, você será dominado, e feito de tonto, seja por uma minhoca, por um homem armado, um pardal, um crocodilo ou uma criança.
3. Eu sou feito de tonto constantemente por minhocas, homens armados e desarmados, pardais e crianças. Estou no aguardo dos crocodilos.
4. Eu ando repetitivo. Meu pensamento é circular e me diz sempre o mesmo. Isto significa que eu digo sempre o mesmo a vocês.
5. Gostaria de conhecer pessoas novas. Por conta disso até conjecturei aceitar a amizade de um pardal, que (in)felizmente logo mostrou que não se passava de um interesseiro.
6. Não quero mais papo com pardais.
2.10.08
De novo, com vocês, Mr. Brian Wilson!!!
Há um site bastante interessante, fruto de uma proposta muito bacana, cujo nome é Black Cab Sessions. Não há muito o que eu deva explicar pois o nome diz tudo.
O convidado desta semana foi Sir Brian Wilson, do Beach Boys. Creio que já disse a vocês que eu acho este homem genial. Pois bem: digo de novo... hehe
Segue aqui o vídeo: tanto para diversão, quanto para uma pequena prova.
O convidado desta semana foi Sir Brian Wilson, do Beach Boys. Creio que já disse a vocês que eu acho este homem genial. Pois bem: digo de novo... hehe
Segue aqui o vídeo: tanto para diversão, quanto para uma pequena prova.
1.10.08
Olha o Romano estressado aí gente... chora cavaco!!!
Hummm... o que será que vem na próxima semana?
Corre pela internet uma carta assinada pela viúva de Paulo Freire. Nela, aproveitando a reportagem da Veja, com pesquisa de opinião sobre o ensino brasileiro, explodem velhos ódios contra mim, mantidos e cultivados até hoje à socapa. O pretexto foi a indicação, pelas jornalistas que assinam a matéria, de meu nome (e de outros) como consultor de suas análises. Sem prestar atenção ao fato (verificável por quem é dono de seus neurônios) de que as responsáveis pelas afirmações da reportagem são as jornalistas, a menção de meu nome como consultor (quem não é tolo, sabe que as assertivas não podem ser imputadas, sem prova, ao consultor, mas a quem usa, literalmente ou não, as informações) levantou o dedo duro contra minha pessoa.
Os ódios são devidos a um artigo que escrevi quando o professor era secretário da prefeita Luiza Erundina. Na ocasião, a secretaria convocou um concurso para provimento de cargo no magistério público municipal. Ao analisar a bibliografia obrigatória do concurso, fui tomado de espanto ao ver que os livros do titular da pasta eram exigidos dos candidatos. Em todo país civilizado, mesmo no Brasil, é evidente o conflito de interesses que tal atitude suscitava. Verifiquemos a consciência de um candidato que não concorda com a teses do secretário: qual a garantia de seu direito subjetivo (e objetivo, garantido constitucionalmente) de livre opinião? Trata-se de um escândalo sem justificativa ética. Indignado com a nítida agressão e uso da ordem pública para promover um conjunto doutrinário particular, escrevi o artigo Ceaucescu no Ibirapuera para a Folha de São Paulo. Como única resposta tive o silêncio ressentido da seita. Nem o titular da secretaria nem os seus áulicos se pronunciaram. Claro, seria confessar o abuso discutir a evidência, provada em Diário Oficial. A partir de então, sempre que pelo Brasil eu topava com os fiéis, percebia a hostilidade traduzida de forma grosseira, insinuações sobre minha ortodoxia de esquerda etc.
Como se tratava de fato passado e como não tinha obtido resposta pública, esqueci o caso e segui na luta contra os abusos da coisa pública, perpetrados por figuras eminentes ou por liliputianas personalidades. Após a redação do artigo, segui outras batalhas pelos direitos humanos e civis e tive o reconhecimento das mais variadas faces da sociedade brasileira. Da distinção a mim outorgada pela Associação Juízes para a Democracia à medalha da B’ nai B’ rith, recebida em 2007 (entre os agraciados nos anos anteriores cito a dra. Zilda Arns), sempre norteei minha vida pública pela defesa da dignidade, da responsabilidade, do apego aos valores éticos e morais. Se firo uma ou outra seita ideológica, política, religiosa, fico triste, mas pago o preço das retaliações.
Na carta mencionada, sou tratado de “filósofo”, assim entre aspas, e “defensor da ética do mercado”. O uso das aspas para desacreditar adversários ou críticos é norma das seitas. Houve na Alemanha uma seita que usou e abusou das aspas. Cito Victor Klemperer, lingüista que sofreu a violência física e espiritual em sua própria terra. Nos escritos do Terceiro Reich, mostra Klemperer, “Chamberlain e Churchil e Roosevelt sempre são apenas ‘estadistas’ em aspas irônicas. Einstein é um ‘pesquisador científico’, Rathenau um ‘escritor alemão’”. Não existe, na Alemanha da época, um só artigo de jornal, ou impressão de um discurso que não use tais aspas irônicas invertidas”. (Victor Klemperer, Language of the Third Reich, LTI Lingua Tertii Imperii, London, Continuum, 2000, p. 73).
Ao atacar, com aspas, minha inscrição na universidade, os redatores da carta usam instrumento retórico pouco recomendável, talvez porque ignorem a sua virulência. Eu os desculpo pela falta de conhecimento. Mas como atacaram minha honra, ao afirmarem que só penso na ética do mercado e não dos valores universais, voltarei ao assunto para informar aos leitores mais detalhes sobre o assunto. Não abri a caixa de Pandora, mas eles, agora, suportem os resultados.
Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia na Unicamp
Corre pela internet uma carta assinada pela viúva de Paulo Freire. Nela, aproveitando a reportagem da Veja, com pesquisa de opinião sobre o ensino brasileiro, explodem velhos ódios contra mim, mantidos e cultivados até hoje à socapa. O pretexto foi a indicação, pelas jornalistas que assinam a matéria, de meu nome (e de outros) como consultor de suas análises. Sem prestar atenção ao fato (verificável por quem é dono de seus neurônios) de que as responsáveis pelas afirmações da reportagem são as jornalistas, a menção de meu nome como consultor (quem não é tolo, sabe que as assertivas não podem ser imputadas, sem prova, ao consultor, mas a quem usa, literalmente ou não, as informações) levantou o dedo duro contra minha pessoa.
Os ódios são devidos a um artigo que escrevi quando o professor era secretário da prefeita Luiza Erundina. Na ocasião, a secretaria convocou um concurso para provimento de cargo no magistério público municipal. Ao analisar a bibliografia obrigatória do concurso, fui tomado de espanto ao ver que os livros do titular da pasta eram exigidos dos candidatos. Em todo país civilizado, mesmo no Brasil, é evidente o conflito de interesses que tal atitude suscitava. Verifiquemos a consciência de um candidato que não concorda com a teses do secretário: qual a garantia de seu direito subjetivo (e objetivo, garantido constitucionalmente) de livre opinião? Trata-se de um escândalo sem justificativa ética. Indignado com a nítida agressão e uso da ordem pública para promover um conjunto doutrinário particular, escrevi o artigo Ceaucescu no Ibirapuera para a Folha de São Paulo. Como única resposta tive o silêncio ressentido da seita. Nem o titular da secretaria nem os seus áulicos se pronunciaram. Claro, seria confessar o abuso discutir a evidência, provada em Diário Oficial. A partir de então, sempre que pelo Brasil eu topava com os fiéis, percebia a hostilidade traduzida de forma grosseira, insinuações sobre minha ortodoxia de esquerda etc.
Como se tratava de fato passado e como não tinha obtido resposta pública, esqueci o caso e segui na luta contra os abusos da coisa pública, perpetrados por figuras eminentes ou por liliputianas personalidades. Após a redação do artigo, segui outras batalhas pelos direitos humanos e civis e tive o reconhecimento das mais variadas faces da sociedade brasileira. Da distinção a mim outorgada pela Associação Juízes para a Democracia à medalha da B’ nai B’ rith, recebida em 2007 (entre os agraciados nos anos anteriores cito a dra. Zilda Arns), sempre norteei minha vida pública pela defesa da dignidade, da responsabilidade, do apego aos valores éticos e morais. Se firo uma ou outra seita ideológica, política, religiosa, fico triste, mas pago o preço das retaliações.
Na carta mencionada, sou tratado de “filósofo”, assim entre aspas, e “defensor da ética do mercado”. O uso das aspas para desacreditar adversários ou críticos é norma das seitas. Houve na Alemanha uma seita que usou e abusou das aspas. Cito Victor Klemperer, lingüista que sofreu a violência física e espiritual em sua própria terra. Nos escritos do Terceiro Reich, mostra Klemperer, “Chamberlain e Churchil e Roosevelt sempre são apenas ‘estadistas’ em aspas irônicas. Einstein é um ‘pesquisador científico’, Rathenau um ‘escritor alemão’”. Não existe, na Alemanha da época, um só artigo de jornal, ou impressão de um discurso que não use tais aspas irônicas invertidas”. (Victor Klemperer, Language of the Third Reich, LTI Lingua Tertii Imperii, London, Continuum, 2000, p. 73).
Ao atacar, com aspas, minha inscrição na universidade, os redatores da carta usam instrumento retórico pouco recomendável, talvez porque ignorem a sua virulência. Eu os desculpo pela falta de conhecimento. Mas como atacaram minha honra, ao afirmarem que só penso na ética do mercado e não dos valores universais, voltarei ao assunto para informar aos leitores mais detalhes sobre o assunto. Não abri a caixa de Pandora, mas eles, agora, suportem os resultados.
Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia na Unicamp
30.9.08
Jésus salva, ainda que por instantes...
Hoje me encontrei, sem querer, com um amigo de longa data.
Conheço o senhor Jésus Sêda desde que tenho, sei lá, uns 5 anos de idade. Como ele tem lá seus 50, devo esclerecer que primeiro ele foi amigo da minha tia Rutinha (fazia parte daquele pessoal do qual falei neste post), e só depois, depois de muito tempo, é que veio a se tornar parceiro meu.
O maior porre da minha vida, aquele no qual eu achei que iria realmente pra cucuia, foi tomado ao lado desta figura pra lá de doce. Show d'Os Nômades, banda legal sob o comando do Jorge Fantini (Sia Santa), e Fabiano se emociona pelo fato de o Cidade e Lírios (bar falecido aqui de Campinas) vender capeta, drink tão apreciado há cerca de 13 anos (estávamos em 2006, acho eu) quando este escriba foi comemorar a sua formatura de ensino médio no tão aclamado Porto Seguro.
Ok, ok. Uma cachaça pra começar o papo, e filosofia pra cá, e teatro pra lá, umas cervejas e oito, oito capetas. Fiquei mal galera, mas fiquei tão mal. Quando acordei, depois de ter certeza de que iria morrer - e desta certeza ter se emendado num bom sono - havia capeta até no teto. É a só a culpa que permite com que limpemos tudo depois, sem nojinho, e sem chiar.
________________________________________________________________________________
Pois então: fui hoje, no começo da tarde, ao colégio onde leciono e o Jésus estava lá, no comando de uma peça infantil.
Bem: agora vamos parar tudo para algumas explicações - fazer um tour de force para tentar deixar claro o que acontece em minha caixa de comando.
Eu estou mal, bem mal. Naquelas fases de pesar tudo e tentar entender onde foi que eu errei. De saber porque é eu tenho 33 anos e não tenho uma casa, estou sem carro, e não ganho um salário minimamente decente. Porque é que eu terminei o ano ganhando 1/5 do que eu ganhava no começo. Porque é que eu não consigo estar acessível às pessoas. Porque é que me tornei um enorme calo gigante. Porque é que eu quero bater em todo mas não consigo soltar sequer um tapinha, sendo que o espancamento de uns três me deixaria mais calmo. Porque é que eu ainda acho que gasto menos energia contemporizando do que chutando traseiros, já que é óbvio que isto é mentira. Porque é que eu ainda acho que as pessoas devam acreditar que eu tenho algum valor se, no fundo no fundo, filosofia não serve lá mesmo pra muito coisa. Porque é que eu não me vendo ideologicamente e ao menos arrumo uns trabalhos legais. Porque é que eu não me torno prático para o lado prático da vida e volto a me tornar sensível para o lado sensível da vida (em termos perceptivos em geral, acho que ainda vou bem).
Voltemos agora à história.
Eu estava mal, muito mal (estava não, estou) e, de repente, quando entrei na quadra da escola - onde seria a coisa - o Jésus estava lá, como eu já havia dito logo acima. E eu fui até ele. E ele me deu um abraço tão bom, mas tão bom, de minutos tão certos, de pressão tão certa, de carinho tão certo que numa linguagem, digamos assim, bíblica, regozijei. E fiquei bem feliz por um bom tempo. Umas horas acho eu, até voltar à lama na qual chafurdo neste exato momento.
Não sei o que fazer, sinceramente. Não, sei sim: o negócio é esperar, conheço bem. Mas há coisas que poderiam ajudar. Deveria aceitar algumas, mas meu estado super-gêmeos forma de tatu-bola chato e irritante me impede disto.
Então, para tentar me alegrar, tentar me fazer entender as coisas por vias que eu não entendo e não aceito, e para alegrar e agradecer ao Jésus (isto é algo que ele ama), vou apelar para uma musiquinha: uma musiquinha de um musical bem bom.
Inté...
Conheço o senhor Jésus Sêda desde que tenho, sei lá, uns 5 anos de idade. Como ele tem lá seus 50, devo esclerecer que primeiro ele foi amigo da minha tia Rutinha (fazia parte daquele pessoal do qual falei neste post), e só depois, depois de muito tempo, é que veio a se tornar parceiro meu.
O maior porre da minha vida, aquele no qual eu achei que iria realmente pra cucuia, foi tomado ao lado desta figura pra lá de doce. Show d'Os Nômades, banda legal sob o comando do Jorge Fantini (Sia Santa), e Fabiano se emociona pelo fato de o Cidade e Lírios (bar falecido aqui de Campinas) vender capeta, drink tão apreciado há cerca de 13 anos (estávamos em 2006, acho eu) quando este escriba foi comemorar a sua formatura de ensino médio no tão aclamado Porto Seguro.
Ok, ok. Uma cachaça pra começar o papo, e filosofia pra cá, e teatro pra lá, umas cervejas e oito, oito capetas. Fiquei mal galera, mas fiquei tão mal. Quando acordei, depois de ter certeza de que iria morrer - e desta certeza ter se emendado num bom sono - havia capeta até no teto. É a só a culpa que permite com que limpemos tudo depois, sem nojinho, e sem chiar.
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Pois então: fui hoje, no começo da tarde, ao colégio onde leciono e o Jésus estava lá, no comando de uma peça infantil.
Bem: agora vamos parar tudo para algumas explicações - fazer um tour de force para tentar deixar claro o que acontece em minha caixa de comando.
Eu estou mal, bem mal. Naquelas fases de pesar tudo e tentar entender onde foi que eu errei. De saber porque é eu tenho 33 anos e não tenho uma casa, estou sem carro, e não ganho um salário minimamente decente. Porque é que eu terminei o ano ganhando 1/5 do que eu ganhava no começo. Porque é que eu não consigo estar acessível às pessoas. Porque é que me tornei um enorme calo gigante. Porque é que eu quero bater em todo mas não consigo soltar sequer um tapinha, sendo que o espancamento de uns três me deixaria mais calmo. Porque é que eu ainda acho que gasto menos energia contemporizando do que chutando traseiros, já que é óbvio que isto é mentira. Porque é que eu ainda acho que as pessoas devam acreditar que eu tenho algum valor se, no fundo no fundo, filosofia não serve lá mesmo pra muito coisa. Porque é que eu não me vendo ideologicamente e ao menos arrumo uns trabalhos legais. Porque é que eu não me torno prático para o lado prático da vida e volto a me tornar sensível para o lado sensível da vida (em termos perceptivos em geral, acho que ainda vou bem).
Voltemos agora à história.
Eu estava mal, muito mal (estava não, estou) e, de repente, quando entrei na quadra da escola - onde seria a coisa - o Jésus estava lá, como eu já havia dito logo acima. E eu fui até ele. E ele me deu um abraço tão bom, mas tão bom, de minutos tão certos, de pressão tão certa, de carinho tão certo que numa linguagem, digamos assim, bíblica, regozijei. E fiquei bem feliz por um bom tempo. Umas horas acho eu, até voltar à lama na qual chafurdo neste exato momento.
Não sei o que fazer, sinceramente. Não, sei sim: o negócio é esperar, conheço bem. Mas há coisas que poderiam ajudar. Deveria aceitar algumas, mas meu estado super-gêmeos forma de tatu-bola chato e irritante me impede disto.
Então, para tentar me alegrar, tentar me fazer entender as coisas por vias que eu não entendo e não aceito, e para alegrar e agradecer ao Jésus (isto é algo que ele ama), vou apelar para uma musiquinha: uma musiquinha de um musical bem bom.
Inté...
29.9.08
Maurício Pereira - Balangandans
Ah, como eu gosto... mas como eu gosto dessa música!!! Curtam também...
Blau oder Rot? Logik...
Como vocês sabem, um combatente bem preparado deve conhecer muito bem o inimigo. É por esse e por outros motivos, sendo o principal o fato de que, no fundo no fundo, eu só pertença mesmo ao lado da lógica, que eu leio coisas rubras.
O portal Sin permiso publicou hoje uma entrevista com Eric Hobsbawm. Ficou claro, para mim, porque Hobsbawm é Hobsbawm. Há ali, por mais que suas crendices passadas tentem puxá-lo para o outro lado, uma racionalidade que impera. Um dos trechos que mais me chamou a atenção foi o seguinte:
Sin embargo, Marx no regresará como una inspiración política para la izquierda hasta que sea entendido que sus escritos no deben ser tratados como programas políticos, autoritariamente, o de otra manera, ni como descripciones de una situación real del mundo capitalista de hoy, sino más bien, como guías hacia su modo de entender la naturaleza del desarrollo capitalista. Ni tampoco podemos o debemos olvidar que él no logró una presentación bien planeada, coherente y completa de sus ideas, a pesar de los intentos de Engels y otros de construir de los manuscritos de Marx, un volumen II y III de El Capital. Como lo muestran los Grundrisse. Incluso, un Capital completo habría conformado solamente una parte del propio plan original de Marx, quizá excesivamente ambicioso.
Por otro lado, Marx no regresará a la izquierda hasta que la tendencia actual entre los activistas radicales de convertir el anticapitalismo en anti-globalismo sea abandonada. La globalización existe y, casi un colapso de la sociedad humana, es irreversible. En efecto, Marx lo reconoció como un hecho y. como un internacionalista, le dio la bienvenida, teóricamente. Lo que él criticó y lo que nosotros debemos criticar es el tipo de globalización producida por el capitalismo.
O que se vê aqui é óbvio: está longe da anencefalia a qual estamos acostumados, do pensamento daqueles que vivem no século retrasado e não respeitam sequer o preceito fundamental do método no qual acreditam; além do todas as outras cositas más.
A entrevista toda pode ser lida aqui.
O portal Sin permiso publicou hoje uma entrevista com Eric Hobsbawm. Ficou claro, para mim, porque Hobsbawm é Hobsbawm. Há ali, por mais que suas crendices passadas tentem puxá-lo para o outro lado, uma racionalidade que impera. Um dos trechos que mais me chamou a atenção foi o seguinte:
Sin embargo, Marx no regresará como una inspiración política para la izquierda hasta que sea entendido que sus escritos no deben ser tratados como programas políticos, autoritariamente, o de otra manera, ni como descripciones de una situación real del mundo capitalista de hoy, sino más bien, como guías hacia su modo de entender la naturaleza del desarrollo capitalista. Ni tampoco podemos o debemos olvidar que él no logró una presentación bien planeada, coherente y completa de sus ideas, a pesar de los intentos de Engels y otros de construir de los manuscritos de Marx, un volumen II y III de El Capital. Como lo muestran los Grundrisse. Incluso, un Capital completo habría conformado solamente una parte del propio plan original de Marx, quizá excesivamente ambicioso.
Por otro lado, Marx no regresará a la izquierda hasta que la tendencia actual entre los activistas radicales de convertir el anticapitalismo en anti-globalismo sea abandonada. La globalización existe y, casi un colapso de la sociedad humana, es irreversible. En efecto, Marx lo reconoció como un hecho y. como un internacionalista, le dio la bienvenida, teóricamente. Lo que él criticó y lo que nosotros debemos criticar es el tipo de globalización producida por el capitalismo.
O que se vê aqui é óbvio: está longe da anencefalia a qual estamos acostumados, do pensamento daqueles que vivem no século retrasado e não respeitam sequer o preceito fundamental do método no qual acreditam; além do todas as outras cositas más.
A entrevista toda pode ser lida aqui.
The end
Nos últimos três posts (incluam a musiquinha, vai) fiz algumas aproximações entre a Filosofia da Mente e a Inteligência Artificial.
Falei sobre algumas relações entre o cérebro e a mente, e isto por meio de exemplos e questionamentos feitos pelo filósofo John Searle. Os exemplos mostravam um cérebro em degeneração, que tinha partes substituídas por chips de computador.
Em uma das possibilidades de resultado desta experiência, continuaríamos conscientes mesmo que todo o cérebro fosse substituído.
Na outra, começaríamos a perder a consciência na medida em que partes do cérebro fossem trocadas: o nosso corpo começaria a responder aos estímulos externos, mas não teríamos controle disso.
Aos poucos, a consciência seria reduzida até que desaparecêssemos.
Todos esses exemplos têm um único propósito: mostrar que para chegarmos a produzir uma inteligência artificial, ou robôs com emoção e pensamento - como os dos filmes - teríamos que descobrir primeiro o que é a consciência.
Para Searle, jamais conseguiremos recriar este aspecto da inteligência humana. Ele dá um outro exemplo, mostrando como ocorre o funcionamento de uma máquina, e isso para poder diferenciá-la de um homem com consciência.
Ele diz o seguinte: imagine que você esteja em um quarto com duas aberturas.
Através de uma delas alguém passa a você um papel com a seguinte frase: rdjhguy, uiuoiuo rfdjfifj.
Você tem um livro de regras que diz como deve responder acaso receba a frase rdjhguy, uiuoiuo rfdjfif.
Você pega outro papel, responde tyuytuu uiiuibgsjsk - como está marcado no livro -, e coloca-o na outra abertura. Ou seja, você recebeu uma informação, processou e respondeu, mas sem saber nada do que estava acontecendo.
Recebeu uma informação que não sabia qual era e deu uma resposta correta, mas também sem saber o qual. Não teve consciência do que estava fazendo, não teve real participação, ou intenção, na resposta dada.
Para Searle, as máquinas podem funcionar somente deste modo, ou seja, é impossível alcançarmos uma inteligência artificial que se aproxime da humana.
Mas existem pessoas que pensam diferente.
No maior centro de pesquisa sobre Inteligência Artificial do mundo, o Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, alguns projetos vêm sendo trabalhados nesta área. Como o Cog, um robô desenvolvido para ser o mais parecido possível com o homem, imitando movimentos e sentidos; ou o Kismet, um robô que reage como um bebê aos estímulos visuais e sonoros.
Um dos fundadores deste centro de pesquisa, Marvin Minsky, tem uma opinião muito particular sobre a consciência: para Minsky, ela simplesmente não existe. Ela seria somente mais um tipo de memória, que fica repetindo sem parar aquilo que acabamos de pensar ou fazer.
Considerando as coisas desta maneira, podemos dizer que estaríamos mais próximos da construção de máquinas inteligentes do que pensamos.
O filósofo Daniel Dennett, que trabalha no projeto Cog, também pensa dessa forma.
E quem estará certo nesta discussão toda?
A resposta nos será dada em alguns anos.
Mas o que realmente nos interessa aqui são as perguntas, a quantidade de questões colocadas entre a realidade e o sonho, entre a ficção e o dia-a-dia.
Nos interessa mostrar que filosofia e ciência na maioria das vezes caminham juntas, e que o homem só poderá avançar se conseguir decifrar o provável maior dos enigmas do universo: ele mesmo, ou melhor dizendo, como as coisas se passam na sua cachola.
Falei sobre algumas relações entre o cérebro e a mente, e isto por meio de exemplos e questionamentos feitos pelo filósofo John Searle. Os exemplos mostravam um cérebro em degeneração, que tinha partes substituídas por chips de computador.
Em uma das possibilidades de resultado desta experiência, continuaríamos conscientes mesmo que todo o cérebro fosse substituído.
Na outra, começaríamos a perder a consciência na medida em que partes do cérebro fossem trocadas: o nosso corpo começaria a responder aos estímulos externos, mas não teríamos controle disso.
Aos poucos, a consciência seria reduzida até que desaparecêssemos.
Todos esses exemplos têm um único propósito: mostrar que para chegarmos a produzir uma inteligência artificial, ou robôs com emoção e pensamento - como os dos filmes - teríamos que descobrir primeiro o que é a consciência.
Para Searle, jamais conseguiremos recriar este aspecto da inteligência humana. Ele dá um outro exemplo, mostrando como ocorre o funcionamento de uma máquina, e isso para poder diferenciá-la de um homem com consciência.
Ele diz o seguinte: imagine que você esteja em um quarto com duas aberturas.
Através de uma delas alguém passa a você um papel com a seguinte frase: rdjhguy, uiuoiuo rfdjfifj.
Você tem um livro de regras que diz como deve responder acaso receba a frase rdjhguy, uiuoiuo rfdjfif.
Você pega outro papel, responde tyuytuu uiiuibgsjsk - como está marcado no livro -, e coloca-o na outra abertura. Ou seja, você recebeu uma informação, processou e respondeu, mas sem saber nada do que estava acontecendo.
Recebeu uma informação que não sabia qual era e deu uma resposta correta, mas também sem saber o qual. Não teve consciência do que estava fazendo, não teve real participação, ou intenção, na resposta dada.
Para Searle, as máquinas podem funcionar somente deste modo, ou seja, é impossível alcançarmos uma inteligência artificial que se aproxime da humana.
Mas existem pessoas que pensam diferente.
No maior centro de pesquisa sobre Inteligência Artificial do mundo, o Laboratório de Inteligência Artificial do MIT, alguns projetos vêm sendo trabalhados nesta área. Como o Cog, um robô desenvolvido para ser o mais parecido possível com o homem, imitando movimentos e sentidos; ou o Kismet, um robô que reage como um bebê aos estímulos visuais e sonoros.
Um dos fundadores deste centro de pesquisa, Marvin Minsky, tem uma opinião muito particular sobre a consciência: para Minsky, ela simplesmente não existe. Ela seria somente mais um tipo de memória, que fica repetindo sem parar aquilo que acabamos de pensar ou fazer.
Considerando as coisas desta maneira, podemos dizer que estaríamos mais próximos da construção de máquinas inteligentes do que pensamos.
O filósofo Daniel Dennett, que trabalha no projeto Cog, também pensa dessa forma.
E quem estará certo nesta discussão toda?
A resposta nos será dada em alguns anos.
Mas o que realmente nos interessa aqui são as perguntas, a quantidade de questões colocadas entre a realidade e o sonho, entre a ficção e o dia-a-dia.
Nos interessa mostrar que filosofia e ciência na maioria das vezes caminham juntas, e que o homem só poderá avançar se conseguir decifrar o provável maior dos enigmas do universo: ele mesmo, ou melhor dizendo, como as coisas se passam na sua cachola.
28.9.08
27.9.08
Mais um poquinho...
Bem, no texto anterior eu disse que o desenvolvimento de computadores que possam reproduzir a inteligência humana depende do conhecimento que o homem possui da própria mente, e que algumas tentativas de entendimento da relação entre cérebro, mente e componentes eletrônicos estão sendo feitas com o auxílio de alguns filósofos.
Mais: destaquei o texto de um deles, John Searle, e apresentei um de seus exemplos: uma possibilidade da substituição de partes do cérebro por chips de computadores. No exemplo, isto acontecia sem a perda daquilo que chamamos de mente, ou seja, aquilo que nos diz o que e quem somos e estabelece uma relação entre nós e o nosso mundo exterior, o que nos informa sobre a existência do nosso pensamento e nos diferencia de outros homens ou outros seres vivos.
Tudo naquele paradigma se mostrava simples: sim, era possível a troca de partes do cérebro por elementos de outra ordem, ao contrário do que mostraremos hoje. Vamos ao texto, lembrando que estamos falando de um cérebro com problemas, e que começa a ter as suas partes substituídas por circuitos integrados:
“... à medida em que o silício é progressivamente implantado dentro de seu cérebro em degeneração, você nota que a área de sua experiência consciente está se reduzindo, mas que isso não apresenta nenhum efeito em seu pensamento exterior. Você percebe, para seu completo espanto, que está perdendo o controle de seu comportamento exterior.
Nota, por exemplo, que, quando médicos testam a sua visão, ouve-os dizer: “Estamos exibindo um objeto vermelho na sua frente: por favor, diga-nos o que você vê”. Você quer gritar: “Não enxergo nada.
Estou ficando totalmente cego”, mas ouve sua voz dizer de uma maneira que lhe foge totalmente ao controle: “Vejo um objeto vermelho na minha frente. Se levarmos este experimento... ao extremo, obteremos um resultado muito mais deprimente do que o do primeiro. Você imagina que sua experiência consciente se reduz lentamente a nada, enquanto seu comportamento externamente observável permanece o mesmo.”
O que o texto narra aqui é algo extremamente angustiante. Aliás, das coisas mais angustiantes as quais podemos pensar: o seu corpo começará a responder aos diferentes estímulos externos, mas a sua consciência, a sua mente, começará a desaparecer. Você passará, a partir de um certo momento, a ser algo que vive, responde a perguntas, dirige, trabalha, mas que não tem consciência de nada disso, funcionando como uma máquina*.
Neste ponto então, em que a substituição neuronal não parece ser possível, é que se encontra o que podemos de denominar de um segundo nível da questão levantada pelo texto de Searle: uma máquina que pense, que tenha uma inteligência artificial, tem que ser capaz de ter consciência de sua própria existência, de aprender a se questionar, de fazer perguntas a si mesma, ter dúvidas, e não apenas responder a estímulos externos.
É assim que se comportam os robôs dos filmes de ficção científica dos quais falamos anteriormente, não é? Mas então: isto um dia será mesmo possível? E como ficaria a situação do homem com cérebro de silício?
Amanhã eu digo como o filósofo sobre o qual estamos tratando responde a esta pergunta, além da posição de outros filósofos e cientistas, e ainda: onde se encontram os principais centros de pesquisa sobre Inteligência Artificial no mundo.
P.S - Sobre o * acima: O que se propõe neste momento, e que é algo que já possui certa história na filosofia, na psicologia e na psicanálise, é a relação entre consciência e comportamento. Ainda que fique claro o fato de não haver uma relação total de dependência, paridade mesmo, entre as duas coisas, é nesta relação que se baseia o behaviorismo, radical ou não. Como, então, levar fé numa corrente destas, que faz tanto sucesso em nosso tempo e que se acredita a melhor das psicologias possíveis?
Mais: destaquei o texto de um deles, John Searle, e apresentei um de seus exemplos: uma possibilidade da substituição de partes do cérebro por chips de computadores. No exemplo, isto acontecia sem a perda daquilo que chamamos de mente, ou seja, aquilo que nos diz o que e quem somos e estabelece uma relação entre nós e o nosso mundo exterior, o que nos informa sobre a existência do nosso pensamento e nos diferencia de outros homens ou outros seres vivos.
Tudo naquele paradigma se mostrava simples: sim, era possível a troca de partes do cérebro por elementos de outra ordem, ao contrário do que mostraremos hoje. Vamos ao texto, lembrando que estamos falando de um cérebro com problemas, e que começa a ter as suas partes substituídas por circuitos integrados:
“... à medida em que o silício é progressivamente implantado dentro de seu cérebro em degeneração, você nota que a área de sua experiência consciente está se reduzindo, mas que isso não apresenta nenhum efeito em seu pensamento exterior. Você percebe, para seu completo espanto, que está perdendo o controle de seu comportamento exterior.
Nota, por exemplo, que, quando médicos testam a sua visão, ouve-os dizer: “Estamos exibindo um objeto vermelho na sua frente: por favor, diga-nos o que você vê”. Você quer gritar: “Não enxergo nada.
Estou ficando totalmente cego”, mas ouve sua voz dizer de uma maneira que lhe foge totalmente ao controle: “Vejo um objeto vermelho na minha frente. Se levarmos este experimento... ao extremo, obteremos um resultado muito mais deprimente do que o do primeiro. Você imagina que sua experiência consciente se reduz lentamente a nada, enquanto seu comportamento externamente observável permanece o mesmo.”
O que o texto narra aqui é algo extremamente angustiante. Aliás, das coisas mais angustiantes as quais podemos pensar: o seu corpo começará a responder aos diferentes estímulos externos, mas a sua consciência, a sua mente, começará a desaparecer. Você passará, a partir de um certo momento, a ser algo que vive, responde a perguntas, dirige, trabalha, mas que não tem consciência de nada disso, funcionando como uma máquina*.
Neste ponto então, em que a substituição neuronal não parece ser possível, é que se encontra o que podemos de denominar de um segundo nível da questão levantada pelo texto de Searle: uma máquina que pense, que tenha uma inteligência artificial, tem que ser capaz de ter consciência de sua própria existência, de aprender a se questionar, de fazer perguntas a si mesma, ter dúvidas, e não apenas responder a estímulos externos.
É assim que se comportam os robôs dos filmes de ficção científica dos quais falamos anteriormente, não é? Mas então: isto um dia será mesmo possível? E como ficaria a situação do homem com cérebro de silício?
Amanhã eu digo como o filósofo sobre o qual estamos tratando responde a esta pergunta, além da posição de outros filósofos e cientistas, e ainda: onde se encontram os principais centros de pesquisa sobre Inteligência Artificial no mundo.
P.S - Sobre o * acima: O que se propõe neste momento, e que é algo que já possui certa história na filosofia, na psicologia e na psicanálise, é a relação entre consciência e comportamento. Ainda que fique claro o fato de não haver uma relação total de dependência, paridade mesmo, entre as duas coisas, é nesta relação que se baseia o behaviorismo, radical ou não. Como, então, levar fé numa corrente destas, que faz tanto sucesso em nosso tempo e que se acredita a melhor das psicologias possíveis?
23.9.08
Nós, robôs
Alguns livros e filmes de ficção científica bem interessantes como Blade Runner, I.A - Inteligência Artificial, ou Eu - Robô trazem em seus enredos questões sobre a capacidade de se criar máquinas próximas ao homem, com ações determinadas por níveis bem complexos de pensamento e - o que parece menos plausível - demonstrando emoções ou até mesmo sonhando.
No mundo real, pesquisas com inteligência artificial vêm se desenvolvendo em busca da realização destas possibilidades abertas pelo mundo da ficção. A Filosofia tem participado ativamente deste processo, e isto através de uma área de estudos chamada Filosofia da Mente. Este campo tenta desvendar as relações existentes entre o nosso cérebro (que é um órgão e, portanto, algo físico) e a mente (ou seja, nossos pensamentos, aquilo que nos diz o que somos, o que fazemos ou devemos fazer).
Um dos liames que conectam os caminhos entre a Filosofia da Mente e Inteligência Artificial toma como base a idéia de que, se pudermos compreender fatos sobre como se dá a criação da mente pelo cérebro poderemos, algum dia, reproduzir este processo, criando máquinas como aquelas da ficção científica. Exemplos bem interessantes das questões feitas pela Filosofia da Mente podem ser retiradas de um livro do filósofo americano John Searle, chamado A redescoberta da mente. Vamos hoje a uma delas:
Imagine que seu cérebro comece a degenerar-se de tal forma que, aos poucos, você vai ficando cego. Imagine que os médicos, desesperados... experimentem qualquer método para recuperar sua visão. Como último recurso, tentam implantar circuitos integrados de silício em seu córtex visual. Suponha que... os circuitos integrados devolvam sua visão a seu estado normal. Agora imagine que, para sua maior depressão, seu cérebro continue a degenerar-se, e que os médicos continuem a implantar mais circuitos integrados de silício... no final, podemos imaginar que seu cérebro está inteiramente substituído por circuitos integrados de silício; que, ao balançar a cabeça, você poderá ouvir os circuitos integrados chocalhando por todos os lados dentro do seu crânio.
A questão que aparece no texto do filósofo, aquela considerada de fundo, diz respeito às relações entre a mente e as conexões cerebrais, ou seja, sobre a mente ser ou não apenas uma resultante de funções específicas, não dependendo da completude tanto do aparelho quanto de suas ligações neurais. Uma das possibilidades oferecidas para a sua resposta, e que está demonstrada no texto, é bastante clara: ainda que partes de seu cérebro fossem trocadas por circuitos eletrônicos, você continuaria a ter os mesmos pensamentos, experiências e lembranças que tinha antes das mudanças.
Isto significa que a mente é simplesmente algo configurado por partes de matéria, sendo que estas podem ser substituídas por outras coisas. E mais: que esta substituição, no final das contas, não faria com que fôssemos diferentes.
Bem, considerando as coisas desta maneira, nós poderíamos ser facilmente transformados em espécies de robôs como os dos filmes: parte humanos, parte circuitos eletrônicos.
Mas será mesmo que tudo se passa desta forma, e que porções do cérebro - e conseqüentemente, suas ligações - podem mesmo ser substituídas sem alteração daquilo que chamamos de mente?
Existe, claro, outra possibilidade de resposta para esta pergunta e, por conseguinte, para a questão que está por detrás da construção hipotética colocada pelo filósofo.
É sobre isto, pois, que vou escrever um tanto amanhã, além de outras coisas interessantes sobre a mente e a inteligência artificial.
Inté moçada...
No mundo real, pesquisas com inteligência artificial vêm se desenvolvendo em busca da realização destas possibilidades abertas pelo mundo da ficção. A Filosofia tem participado ativamente deste processo, e isto através de uma área de estudos chamada Filosofia da Mente. Este campo tenta desvendar as relações existentes entre o nosso cérebro (que é um órgão e, portanto, algo físico) e a mente (ou seja, nossos pensamentos, aquilo que nos diz o que somos, o que fazemos ou devemos fazer).
Um dos liames que conectam os caminhos entre a Filosofia da Mente e Inteligência Artificial toma como base a idéia de que, se pudermos compreender fatos sobre como se dá a criação da mente pelo cérebro poderemos, algum dia, reproduzir este processo, criando máquinas como aquelas da ficção científica. Exemplos bem interessantes das questões feitas pela Filosofia da Mente podem ser retiradas de um livro do filósofo americano John Searle, chamado A redescoberta da mente. Vamos hoje a uma delas:
Imagine que seu cérebro comece a degenerar-se de tal forma que, aos poucos, você vai ficando cego. Imagine que os médicos, desesperados... experimentem qualquer método para recuperar sua visão. Como último recurso, tentam implantar circuitos integrados de silício em seu córtex visual. Suponha que... os circuitos integrados devolvam sua visão a seu estado normal. Agora imagine que, para sua maior depressão, seu cérebro continue a degenerar-se, e que os médicos continuem a implantar mais circuitos integrados de silício... no final, podemos imaginar que seu cérebro está inteiramente substituído por circuitos integrados de silício; que, ao balançar a cabeça, você poderá ouvir os circuitos integrados chocalhando por todos os lados dentro do seu crânio.
A questão que aparece no texto do filósofo, aquela considerada de fundo, diz respeito às relações entre a mente e as conexões cerebrais, ou seja, sobre a mente ser ou não apenas uma resultante de funções específicas, não dependendo da completude tanto do aparelho quanto de suas ligações neurais. Uma das possibilidades oferecidas para a sua resposta, e que está demonstrada no texto, é bastante clara: ainda que partes de seu cérebro fossem trocadas por circuitos eletrônicos, você continuaria a ter os mesmos pensamentos, experiências e lembranças que tinha antes das mudanças.
Isto significa que a mente é simplesmente algo configurado por partes de matéria, sendo que estas podem ser substituídas por outras coisas. E mais: que esta substituição, no final das contas, não faria com que fôssemos diferentes.
Bem, considerando as coisas desta maneira, nós poderíamos ser facilmente transformados em espécies de robôs como os dos filmes: parte humanos, parte circuitos eletrônicos.
Mas será mesmo que tudo se passa desta forma, e que porções do cérebro - e conseqüentemente, suas ligações - podem mesmo ser substituídas sem alteração daquilo que chamamos de mente?
Existe, claro, outra possibilidade de resposta para esta pergunta e, por conseguinte, para a questão que está por detrás da construção hipotética colocada pelo filósofo.
É sobre isto, pois, que vou escrever um tanto amanhã, além de outras coisas interessantes sobre a mente e a inteligência artificial.
Inté moçada...
18.9.08
Duas dicas
Acabei de adicionar dois links na categoria "Merecem uma visita", que fica logo aí ao lado. Os dois se referem a blogs interessantíssimos produzidos em nossa terrinha além mar (a minha pátria é minha língua e aquela coisa toda, vocês sabem).
Um deles versa sobre tudo: é uma reunião de textos de intelectuais portugueses sobre política, economia, sociedade, literatura. Há ainda notícias de jornais, crônicas e outras diversões. Enfim: um bom apanhado do que nossos irmãos andam pensando sobre si e sobre o mundo - inclusive sobre nós.
O outro é o blog do José Saramago. Com coisas interessantes, como O caderno de Saramago, a parte realmente escrita pelo autor, e uma denominada Multimédia, onde se pode ver atualmente partes de União Ibérica, um documentário cujo tema central é amor entre Saramago e sua esposa, Pillar. Ah: e há também trechos de um novo livro que está sendo lançado.
Não deixem de passear, ao menos um pouquinho, pelos dois.
Um deles versa sobre tudo: é uma reunião de textos de intelectuais portugueses sobre política, economia, sociedade, literatura. Há ainda notícias de jornais, crônicas e outras diversões. Enfim: um bom apanhado do que nossos irmãos andam pensando sobre si e sobre o mundo - inclusive sobre nós.
O outro é o blog do José Saramago. Com coisas interessantes, como O caderno de Saramago, a parte realmente escrita pelo autor, e uma denominada Multimédia, onde se pode ver atualmente partes de União Ibérica, um documentário cujo tema central é amor entre Saramago e sua esposa, Pillar. Ah: e há também trechos de um novo livro que está sendo lançado.
Não deixem de passear, ao menos um pouquinho, pelos dois.
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