23.12.11

fabianescas

Em uma entrevista besta...

R: Fabiano, se você fosse uma banda, qual seria?
Fabiano: Penso em muitas, gosto de bastante coisa (bem porque gostar de bastante coisa hoje em dia é ululante), mas acho que eu seria mesmo o Sigur Rós. Sim, se eu fosse uma banda, seria o Sigur Rós 


20.12.11

Maria-fumaça in time




Ah, que deleite a maria-fumaça!
Que maravilhosa esta vida levada a 
Trinta quilômetros por hora!

A trinta por hora se vê
As coisas;
Sente-se a vida passar e
Por vê-la e senti-la, se
Compreende mais.

A trinta por hora
Olho pela janela 
E reparo nos batentes 
Da casa velha e nada penso.

A trinta por hora viro-me 
Para dentro do vagão e as
Pessoas são alegres; sorriem
Chacoalhando nesse mundo
semiestático.

A trinta por hora observo
pela primeira vez coisas com paladar 
E cheiro e canções naturais; e sei-as possíveis.

Meu filho me pede água
E posso vê-lo crescendo 
Enquanto a bebe, a trinta por hora.

(Fraquejo um milésimo de segundo por 
Esse eterno espaço intangível entre mim e ele, 
A confusão de linhas abobadadas
Que nos separa nas tantas 
Velocidades que vivemos
Ao mesmo tempo; a trinta por hora,
na maria-fumaça)

(xx/xx/2002)

 





 







18.12.11

Homeward Bound


Essa moça bonita aí em cima é a minha melhor amiga. Ela mora há mais de vinte anos no meu coração. Sabemos tudo um sobre o outro. Ela foi a primeira pessoa pra quem eu contei que havia me apaixonado pela primeira vez. Ela foi a primeira pessoa pra quem eu contei que iria ser pai; é a madrinha do meu filho. Quando éramos adolescentes passamos tardes e tardes e noites e noites juntos papeando, na calçada, em seu quarto, ouvindo música ou não. Pisamos pela primeira vez na Unicamp grudados, e grudados nos perdemos. [:)] Quantas coisas descobrimos quase que ligados um ao outro!

Há dez anos minha amiga foi viver seu sonho na Dinamarca: chegou, mostrou quem era, venceu. Mas agora ela precisa voltar - e ela vai voltar: no dia 11 de fevereiro estará com Mads, seu príncipe, Sofia e Martin, aqui - pertinho de novo.

Essa foto foi tirada no Rio, há cerca de dois meses e meio, quando ela veio pra cá com seus alunos e fui visitá-la. Como me esquecer do momento em tiramos os sapatos, pisamos as areias da praia e papeamos por quase uma hora sobre nossas vidas e nossos sonhos, de frente pro mar, naquele momento tão insólito que pra mim eternamente (e pra ela também) parecerá algo do universo onírico?

Mas esse post é porque me lembrei de algo bastante específico. Estávamos em 1991 ou 1992 (como saber exatamente?) e Crisinha me apareceu toda empolgada com um disco do Paul Simon: Conhece Paul Simon, Fabi? O disco (LP), posso estar muito enganado, mas era The Rythm of the Saints. Você tem que ouvir, Fabi - você tem que ouvir isso! E eu fui em uma tarde para a casa da Cris ouvir o disco, principalmente Obvious Child, que havia sido feita com o Olodum e tudo o mais. Aquela coisa nova, que há muito chamam de world music, deixou-me encantado: Caramba Crisinha, que legal isso! Que mistureba! Folk com esse toque baiano, e mais esses ritmos e vocais africanos: uau! E entre os fritopans e os sucos de caju de tia Marilda, ficamos lá ouvindo The Rythm of the Saints e todas as suas novidades.

 


Entretanto, lembro-me de ter levado uma fitinha cassete com o meu Paul Simon, com as coisas antigas que conhecia e que em parte haviam chego até mim por conta do meu pai, parte por minha curiosidade que nunca cessava (e ainda não cessa). E ouvimos a fita também, até certo ponto melancólica, mas com sua beleza própria, de coisas que talvez não entendêssemos muito bem pois não havíamos vivido o suficiente. A recordação da fitinha e do fato todo surgiu por conta de uma canção: Homeward Bound. Eu semprei gostei tanto dessa canção! E me lembro de minha amiga quase ter chorado ao ouvi-la.

Pois é, Crisinha: por quanto tempo você quis voltar? E agora o momento chegou. Estou muito feliz aqui por poder novamente compartilhar as coisas mais de perto. De não dependermos mais de nossas intuições absurdas quandos as coisas nos acontecem. Por poder segurar na sua e mão e na dos seus filhos e pensar: Caramba, como essa vida pode ser indescritível!

Você já está a caminho de casa... Seja bem-vinda, amiga... 











4.12.11

E no aforismo 515 de Humano, demasiado humano

Tirado da experiência - A irracionalidade de uma coisa não é um argumento contra a sua existência, mas sim uma condição para ela.


22.11.11

Boca

Boca de lábios finos.
Lábios de cor clara.
Boca da extensão de um sorriso.
Boca do meu desejo.

Maior do que a minha, ao beijar-me
Criava lacunas que explorava com lascívia
E graça.

Boca dos palavrões.

De contornos tão delicados que quase sempre
Os batons estragam.

Boca da minha vontade que, pela falta, como a um
Fármaco podre faz a minha amargar.

Boca do meu amor.

16.11.11

Vozeferando

Ao cantar arrematas de uma vez o mar de seus olhos
E o sol e o céu todo.

Tua voz manuseia a natureza e a
Arremessa contra os mais incolores incautos.

Os eucaliptos se alucinam e se negam a mexer,
Mexendo-se.

Os cantos vazios dos riachos se preenchem
A passos largos de um tilintar que te acompanha,
Assim como os vapores e as chuvas apercebem-se
E se adequam.

Eu ouço sua voz diferente.

Os lufares graves se unem às suas pernas
Aos pés e dedos e lábios e braços e coxas e pêlos claros,
Ao cheiro de pitangas e ao sorriso fácil.

Não que eu consiga agir de uma maneira
Diferente das coisas inertes.
Mas sei-me tomado, ou melhor dito:
Consciente do peito tangido.

Ao cantar arrematas de uma vez tudo o que
Há sobre e sob meus ossos trêmulos,
que são como o mundo todo.

21.9.11

Em setembro

Por sobre o piso branco de nuvens
A sombra de uma nuvem ainda mais alta e
Solitária.

Sob o piso branco de nuvens
... Meu filho, meu amor e
Todo o barulho do mundo.

Sigo impassível dentro do
Charuto metálico. Máscaras de oxigênio
Não caem do teto quando algo dá errado
Na vida.

11.8.11

Muitos claros

Das nossas piadas internas
A que mais sinto falta é a de quando
Dizíamos que você tem os
Olhos muitos claros.

Porque nesses momentos você me olhava
Daquele jeito de me fazer passar mal,
E eu sorria e ficava nervoso por dentro
E compreendia e sabia o quão belo eles são (olhos-poema).

Acho que seus olhos muitos claros não desejam mais olhar pra mim.
Eu acabei aqui no escuro, com essa lembrança enquadrada,
Lacrimejando como os via ficar quando
Você estava ao meu lado,
E olhava pro sol, e sorria.

15.7.11

Ciências sociais e exatas

A distinção entre as chamadas ciências naturais e as ciências do homem ocorre de forma tão arraigada que parece encontrar base em um princípio dado a priori, próximo do campo da metafísica.

Tal recorte, de cunho epistemológico sim, mas também, ou mais ainda, social, reflete-se dentro das universidades, das publicações de caráter científico, e do mesmo modo e por que não pensar nisso, na valoração e na conseqüente aplicação de recursos em determinadas áreas do saber. Ao menos no que diz respeito aos campi nacionais, é muito clara e ocorre a olhos vistos a ascensão econômica dos departamentos de química, biologia ou física, enquanto que as chamadas humanidades sucumbem em uma deterioração contínua.

Os motivos que levariam a essa separação? Colocando as coisas a partir de um senso comum, distante em alguns pontos de estar errado, podemos dizer que ciências ditas humanas não se transformam tão rapidamente em tecnologia, o que significa que suas descobertas ou clarificações não apresentam potencial necessário para se converterem em itens de mercado. Isso acontece, também e porque, as ciências naturais são exatas, cumulativas, e seus resultados oferecem predições importantes e de certa maneira infalíveis para a vida dos indivíduos. A delimitação entre as “ciências” se apresenta, desta forma, como algo estrutural, o que pode significar que ela sempre existiu e sempre existirá. Mas será mesmo que as coisas se passam ou se passarão sempre desta forma?

É preciso, ao menos, que duvidemos disso, e alguns bons argumentos não nos faltam. Aqueles apresentados por Thomas Kuhn em seu artigo As ciências naturais e as ciências humanas são exemplos. Para que possamos compreendê-los com mais precisão é necessário, entretanto, que passemos rapidamente por um artigo publicado pelo filósofo canadense Charles Taylor, texto a partir do qual Kuhn fará o arranjo de seus contrapontos.

Interpretação e as ciências do homem

O artigo que abre o segundo volume dos Escritos Filosóficos de Taylor está longe de se fazer através de malabarismos conceituais. O texto é claro, e a linha demarcatória que ele deseja incluir é a seguinte: há ciências hermenêuticas, nas quais a interpretação dos documentos ou fatos é tão importante quanto o material que anuncia as pesquisas ou descobertas; em contrapartida, há aquelas ciências que lidam tão somente com dados brutos, que são definidos como unidades de informação não derivadas do julgamento, isto é: informações que não têm em si nenhum elemento de leitura ou interpretação.

O que se pratica em uma ciência hermenêutica é a tentativa de fazer com que o significado expresso pelo autor se torne explícito. Isto significa criar um sentido que perpassa várias subjetividades: a do autor, a do intérprete e as daqueles que os lerão e darão seqüência ao trabalho.

A dificuldade aqui é que, para tanto, uma intrincada rede de estruturas interpretativas se arma, e esta leva em conta elementos de um campo prolixo: o dos desejos humanos, dos sentimentos, das emoções. Considerando que estas construções da subjetividade se erguem também a partir das relações dos indivíduos com aqueles que o cercam, teremos por fim que as interpretações se ligam a um tipo de cultura, o qual, por sua vez, é inseparável das distinções e categorias marcadas pela língua falada pelo povo do qual o leitor/pesquisador faz parte. Os entrelaçamentos são, desta maneira, infindáveis. Não é à toa, pois, que os resultados encontrados nas ciências humanas sejam muitas das vezes problemáticos e, até certo ponto, escassos.

No caso da física, por exemplo, é certo argumentar que se um indivíduo não aceita uma teoria, ou ele não foi apresentado a um número suficiente de evidências (ou estas ainda não existem), ou ele não pôde aprender e aplicar alguma linguagem formalizada, necessária à leitura dos dados. Já em uma ciência hermenêutica uma certa medida de compreensão é necessária, e essa compreensão acaba sendo comunicada à coleta do que deveriam ser seus dados brutos. O que se abre a partir destas transcrições de conhecimento é o que Taylor chamará de lacuna intuitiva, isto é: quando alguém não pode compreender os tipos de autodefinição nos quais os argumentos se montam, isso porque a linguagem no qual eles são propostos é subjacente a uma determinada sociedade ou conjunto de instituições.

Está sempre à espreita, conseqüentemente, aos que lidam com as ciências hermenêuticas, a impossibilidade de compreender o campo de significação na qual suas questões se inscrevem.

Além dessa diferença capital entre as ciências naturais e humanas, Taylor levanta ainda três dificuldades que se apresentam ante o estabelecimento das ciências do homem. A primeira delas é de que não há como blindar certos domínios humanos, como os psicológicos, os econômicos ou políticos, de interferências externas. Ou seja: estes domínios não podem ser tratados como sistemas fechados para análise, e não há como reproduzi-los de maneira isolada e repetidas vezes.

Uma segunda dificuldade é de que uma ciência interpretativa não pode alcançar graus de exatidão como aqueles que se tornam possíveis a partir dos dados de uma ciência natural. Isso porque diferentes nuances de interpretação devem levar a diferentes predições em determinadas circunstâncias.

O último e mais complexo entrave nasce do fato de o homem ser uma criatura que se autodetermina ininterruptamente. As mudanças em sua autodeterminação significam mudanças em o quê este homem é. Resultado: as chaves de interpretação dos fenômenos humanos são alteradas com elevada constância.

Ao contrário disso, o sucesso da predição em ciências naturais está ligado ao fato de que todos os estados do sistema, passado e futuro, podem ser descritos em uma mesma classe de conceitos, ou seja: a partir das mesmas variáveis. Por isso uma teoria é, nesse lado da divisão da ciência, capaz de predizer um evento tão facilmente como explicou eventos passados, já que se tratariam sempre de um mesmo processo, já elucidado.

A crítica e as aproximações de Kuhn


Em seu livro O caminho desde A estrutura, Thomas Kuhn retoma certos posicionamentos de Taylor a fim de indicar a sua não concordância com alguns dos pontos do artigo de 1985 . O primeiro deles, e que será retomado em diferentes formatações ao longo de As ciências naturais e as ciências humanas , será justamente o que diz respeito ao caráter hermenêutico das ciências humanas. Kuhn diverge, de fato, quanto a não extensão dessa característica às ciências naturais, o que significa dizer que esta não seria uma linha demarcatória entre as duas empreitadas.

A fim de ilustrar a sua afirmação, o pensador edifica um exemplo: o da observação do céu. Quando olhamos para cima, não vemos o mesmo céu que os gregos viam. Isso não acontece, todavia, porque os objetos observados são diferentes, mas sim porque as taxonomias celestiais das quais fazemos uso são bastante diferentes. Os gregos antigos classificavam os objetos celestes em três categorias: as estrelas, os meteoros e os planetas. O Sol, Marte, Júpiter ou a Lua, pertenciam ao grupo dos planetas. Já a Via Láctea ocupava o conjunto dos meteoros, juntamente com o arco-íris e as estrelas cadentes. Isso quer dizer que, quando falamos de objetos que são os mesmos, estamos propondo-os através de esquemas interpretativos distintos. Há, portanto, uma hermenêutica subjacente a esta ordenação, e que atua sobre a nossa forma de perceber os elementos e os fenômenos da natureza.

O que Taylor e seus adeptos poderiam argumentar neste momento é que essas interpretações diferentes do mundo celeste seriam, na verdade, meras crenças a respeito de um mesmo objeto, e que essas não são constitutivas dos mesmos. Ao apontar ou calcular as posições dos astros, por exemplo, tais crenças se esvairiam, não fariam mais sentido frente ao dado bruto.

Em contrapartida, essa distinção entre objeto e interpretação não existiria, como já foi dito aqui, nas ciências humanas. Uma descrição qualquer sobre um fato antropológico conteria já uma hermenêutica. O evento seria colado à sua interpretação, e os dois atuariam conjuntamente em uma espécie de fusão. O resultado disso é que os conceitos sociais dariam forma ao mundo que esclarecem. Acabariam por se tornar, de certa forma, como que uma representação direta desse mundo; se transfigurariam na coisa explicada.

Na análise do pensador canadense os conceitos das ciências naturais não são capazes, como os das ciências humanas, de “moldar o mundo a que são aplicados”. E mais: não dependem da cultura na qual são gestados. Kuhn não irá concordar nem com uma afirmação, nem com a outra.

O argumento para o contraste, baseado no trabalho de Wiggins , é o seguinte: para que um certo dado seja recolhido ou, seguindo o exemplo, um objeto celeste seja analisado, é necessário que a ele voltemos nosso olhar por várias vezes, sistematicamente. Os olhares que se seguem ao primeiro já carregam em si uma tipologia, uma classificação, algumas determinações. Não há como estudar algo sem que uma conceituação deste já esteja minimamente definida, pois o segundo encontro com o objeto a analisar traz em si os elementos captados na primeira empreitada. Assim acontece nas ciências humanas, e assim acontece também nas ciências naturais. E por mais que haja nas segundas uma tentativa de descrição neutra, uma busca de uma linguagem devidamente calibrada, é impossível que seus dados se projetem isentos da cultura na qual são ou gestados, ou analisados.

Seriam as ciências sociais e naturais diferentes, ou estariam apenas em diferentes estados?

Tendo assegurado a não existência de uma linha demarcatória, Kuhn pode então se perguntar se as diferenças que podem ser vistas entre as ciências naturais e sociais são de princípio, ou se ligam ao grau de desenvolvimento de ambas.

A resposta a essa questão começa no argumento anterior: o de que os conceitos nas ciências naturais também são produtos hermenêuticos e, portanto, históricos. Sendo desta forma, o que acontece é que tais conceitos são transmitidos aos iniciados, muitas vezes a partir de um processo de genealogia das idéias, que tenta fazer com estas sejam compreendidas de maneira aproximada em diferentes culturas e momentos históricos. Ou seja: os diversos períodos das histórias das ciências seriam marcados por diferentes bases hermenêuticas de compreensão de seus conteúdos. Ora: isto estaria muito próximo a um dos mais importantes e caros conceitos kuhnianos: o de paradigma.

O que acontece nas ciências naturais é que, ofertada uma base hermenêutica, podendo essa ser considerada um paradigma, os pesquisadores não realizam hermenêutica sobre hermenêutica, interpretação sobre interpretação: eles buscam solucionar quebra-cabeças, resolver os problemas da ciência a partir de um mesmo sistema interpretativo, aperfeiçoando a correspondência entre a teoria e a experiência. A produção de novos paradigmas ocorre, mas não de forma intencional e sim como resultado de uma espécie de saturação do paradigma anterior, que em dado momento é incapaz de dar conta de certas peculiaridades surgidas durantes as pesquisas. As ciências naturais produzem hermenêuticas, mas este não é o seu papel.

Já as ciências humanas, ao menos na leitura feita por Taylor - e talvez seja essa mesmo a atual situação de seu modo de operar – fazem da busca de novas e mais densas interpretações o seu objetivo de trabalho.

Devemos questionar, então, se seria este mesmo o papel das ciências humanas, se ela estará sempre atrelada a essa produção infinita de hermenêuticas, ou se com a crescente especialização dentro desse campo, poderão ser desenvolvidos paradigmas mais fixos e, portanto, viabilizadores de uma pesquisa normal, mais atrelada à solução de problemas.

Kuhn levantará aqui duas vias de resposta. A primeira é de que, ao observarmos a história das ciências naturais, veremos que áreas como a química ou a biologia já se depararam com as mesmas dificuldades encontradas hoje pelas ciências humanas. O que houve, e espera-se que o mesmo ocorra com os estudos do homem e da sociedade, é que haja a possibilidade de que certos paradigmas devidamente estanques sejam produzidos, e que esses permitam a entrada de certos campos do saber na produção daquilo a que chamamos de pesquisa normal. É possível, inclusive, que tal estado epistemológico já tenha encontrado lugar na psicologia e na economia, por exemplo.

O que talvez impossibilite que tal via seja tomada por algumas das ciências humanas diz respeito a um problema corretamente apontado por Taylor. O céu, sobre o qual certos paradigmas foram desenvolvidos, e para o qual alguns deles se mostraram devidamente estáveis para o desenvolvimento de uma pesquisa normal, permaneceu praticamente o mesmo desde os gregos. Essa constância, entretanto, não pode ser esperada e é praticamente impossível em determinadas unidades de estudo. Nestas, constantes reinterpretações e, por conseguinte, as reintegrações culturais dos conceitos e leituras podem ser necessárias.

A resposta à pergunta que inaugura esse texto fica, pois, não exatamente em aberto. Há semelhanças onde o que se viam eram diferenças, mas há determinadas peculiaridades que podem não ser superadas. Não sabemos, também, se é exatamente ruim que as coisas se passem desta maneira.

9.5.11

De João

O primeiro poema que o João escreve e tem coragem de me mostrar.

Afundei feio outra vez
Essas coisas acontecem
Como num jogo de xadrez.

Embora saiba jogar
Você erra feio
O pior mesmo é que
Não tem freio.

Não importa a idade
Não importa o assunto
Não importa a jogada.

O que importa
É o que tem no fundo.

Você sempre aprende
Com seus erros,
E não com
Seus acertos.

Mas se aprende
Você entende
Como se joga,
E como se sente.

10.12.10

Sobre o não crer. Campanha interessante

Poema novo, 16 anos depois

Vendetta

Suas belas pernas, devidamente cortadas em 72 pedaços,
serão arremessadas aos peixes do jardim japonês.

Eu não terei o que ver com o assunto,
a não ser a preocupação com a saúde dos anfíbios
que talvez disputem os nacos.

Bem... de certa forma há sim uma mentira aí porque antes disso tudo, antes que nada me ligue ao caso e aos peixes e tal, terei escrito palavras ou representações aleatórias de sons nos 72 cortes-decomposição de teus membros inferiores.

Sem ter a menor noção das coisas, mas agora de verdade mesmo, os peixes, ao comer os tecos, hão de compor um poema dadaísta com estes pedaços teus.

Tuas belas pernas serão versos desconexos na boca de salmões, tainhas e pintados. Não, não: não faço a menor idéia de quais peixes habitam normalmente um jardim japonês. Mas eu não preciso saber já que nada tenho com isso.

A minha única e elevada preocupação - além daquela dos anfíbios - é querer que suas pernas se transformem em um poema dadaísta, com um certo acento italiano se possível, e que depois acabem como coco de peixe.

Ho di niente te contro non Io.

17.10.10

Das coisas estúpidas do Facebook

De um jornalista que até chegou a escrever bastante aqui em Campinas:

Eu estava no Rio, no meio de uma multidão na festa do Círio de Nazaré, lá na minha querida Tijuca. A igreja lotada, as pessoas nas barraquinhas na rua, todos festejando. Em um dado momento dois helicopteros da polícia passaram bem baixo, os policiais com seus fuzis pra fora. Ninguém ligou! Então pensei: se fosse em São Paulo todo mundo já tinha saído correndo e a festa tinha acabado. São Paulo é tão Regina Duarte!!!

Entenderam?

Até agora duas pessoas já haviam "curtido isso", e há um comentário aprovando (é claro).

P.S: outra pérola - Por mim eu jogava a igreja no lixo, não serve para nada!

É de uma sensatez e de uma sensibilidade histórico-sociológica de dar medo. Além de: não serve pra nada, mas freqüenta?

16.10.10

Sutilezas calligarianas

No que prometia ser um belo dia de primavera de meados dos anos 1970 em Paris, um jovem psicanalista trabalhava no plantão de uma enfermaria psiquiátrica.

Considerando a exiguidade do salário que ele recebia, seria mais correto dizer que ele estagiava. De qualquer forma, ele não estava ali pelo dinheiro, mas para enriquecer sua experiência dos caminhos pelos quais a gente enlouquece e sofre.

O jovem psicanalista estava sempre disposto a topar uma parada que pudesse lhe ensinar algo novo. Naquele dia, embora esta não fosse sua atribuição, ele, com um psiquiatra e dois enfermeiros, embarcou na ambulância que respondia a um chamado da polícia do bairro 13. O comissariado recebera o telefonema angustiadíssimo de um homem que acabava de encontrar sua mulher e sua filha de um jeito que não conseguia descrever, mas que, ele gritava, não era normal.

A ambulância chegou antes dos policiais. O marido, desculpando-se por não ter a coragem de voltar lá dentro, apontou na direção da porta do banheiro do apartamento.

O jovem psicanalista foi o primeiro a entrar e descobriu uma jovem mulher, deitada nua na banheira, cantando feliz enquanto brincava com seu bebê na água. A jovem mulher não pareceu perceber a chegada do estranho e o jovem psicanalista se deu conta de que o bebê era curiosamente inerte, rígido e branco: ele estava morto há tempo.

O jovem psicanalista nunca esqueceria o corpinho que ele apertou contra si, como se houvesse uma chance de esquentá-lo de volta para a vida.
Engravidar e dar à luz (apesar de ser o cotidiano da espécie) são experiências tão extremas que elas podem enlouquecer algumas mulheres, em geral temporariamente, logo após o parto.

A internação da mulher de nossa história durou pouco: ela foi declarada não imputável por razão de insanidade e recuperou a dita sanidade rapidamente.

Durante sua internação, soube-se que, dois anos antes, um irmão do bebê morto na banheira também tinha falecido, aos três meses, de morte súbita e inexplicada. A equipe do hospital se perguntou: não seria legítimo esterilizar compulsoriamente as mulheres que matassem seus bebês numa psicose desencadeada pelo parto? De fato, existe um risco estatístico de recidiva caso elas deem à luz outra vez.

A discussão não chegou a conclusão alguma; ficou suspensa entre o respeito pela esperança de uma mãe que quer tentar uma nova gravidez, a dificuldade de garantir o direito à vida dos nascituros e nossa incapacidade de prever, prevenir e intervir a tempo. Pouco importa, pois nisto eu acredito mesmo: todas as discussões que valem a pena são inconclusas.

Bastante tempo depois, o jovem psicanalista, que não trabalhava mais naquele hospital, recebeu um telefonema do psiquiatra que estivera com ele na ambulância. A jovem mulher da banheira pedira uma consulta na mesma enfermaria onde ela fora internada dois anos antes: ela estava grávida e queria saber se corria o risco de enlouquecer de novo e assassinar seu bebê no berço. Que ela perguntasse era um bom sinal, mas insuficiente para responder com segurança. O que fazer? Encorajá-la a abortar ou a apostar que nada aconteceria? Quem sabe sugerir que levasse a gravidez a termo e se engajasse a entregar o bebê, na hora do parto, para a assistência pública?

Não sei a resposta certa e é por isso que me lembrei dessa história.

Uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja. Numa eleição, as pessoas precisam ser a favor ou contra.

Ora, as pretensas discussões entre "a favor" e "contra" me inspiram o mesmo mal-estar que sinto quando assisto a uma cena de violência. Faz sentido porque, nessas discussões, ninguém argumenta, cada um apenas reafirma abstratamente sua identificação: em "eu sou a favor" e "eu sou contra", o que mais importa é reforçar o "eu". Com isso, inevitavelmente essas discussões menosprezam, atropelam e violentam a vida concreta de todos.

Depois desse preâmbulo, talvez eu consiga, numa coluna futura, escrever sobre a questão do aborto. Enquanto isso, eis uma leitura que recomendo a todos os que preferem pensar a gritar: "O Drama do Aborto: Em Busca de um Consenso", de dois médicos, A. Faúndes e J. Barzelatto (Komedi). Sobre o tema, talvez esse seja o escrito mais honesto, menos tendencioso e mais generoso que já li.

12.10.10

Agressividade em épocas de eleição

Começarei a postar uns textos curtos sobre a eleição. Já que todo mundo se acha no direito de ficar fazendo campanha no Facebook, por que é que eu não posso usar um espaço onde os que eu conheço visitam por escolha para tecer algumas considerações, não é mesmo?

Mas a primeira coisa sobre a qual gostaria de comentar, e rapidamente, é a agressividade que se encontra na Internet em época de eleição. Que o fanatismo produz estúpidos em série, e que nos surpreendemos com o que ele faz com certos indivíduos que consideramos ter uma boa capacidade intelectual, isso já sabíamos. Mas a virtualidade tem adicionado um outro elemento aí: a boçalidade apedrejante. Qualquer comentário simples, mas que possa demonstrar uma discordância de opinião, é recebido a pedradas, tapas e pontapés. Só se aceita a afirmação: "- Eu a apóio; - Ah, eu também a apóio: nós somos demais!; - Eu também a apóio, sou demais como vocês! Posso republicar isso?". Ai se alguma pergunta tola qualquer, do tipo: "mas por que apóia?" é feita... Porrada!

Tive um papo ótimo via e-mail com um amigo, e a conversa democrática na Internet nessas eleições parou por aí. Nem um mais argumento sequer. Só falta de educação. Aliás: quando algum tipo de argumento aparece, e não é para responder perguntas, a coisa é de uma tristeza sem fim. Vi alguns doutores em filosofia se valendo de deduções que os fariam reprovar no pré-primário. Com foi acima, já sabemos o motivo.

Um dia desses eu volto. Espero que seja amanhã.

26.9.10

Manifesto em Defesa da Democracia

Numa democracia, nenhum dos Poderes é soberano. Soberana é a Constituição, pois é ela quem dá corpo e alma à soberania do povo.

Acima dos políticos estão as instituições, pilares do regime democrático. Hoje, no Brasil, inconformados com a democracia representativa se organizam no governo para solapar o regime democrático.

É intolerável assistir ao uso de órgãos do Estado como extensão de um partido político, máquina de violação de sigilos e de agressão a direitos individuais.

É inaceitável que militantes partidários tenham convertido órgãos da administração direta, empresas estatais e fundos de pensão em centros de produção de dossiês contra adversários políticos.

É lamentável que o Presidente esconda no governo que vemos o governo que não vemos,
no qual as relações de compadrio e da fisiologia, quando não escandalosamente familiares, arbitram os altos interesses do país, negando-se a qualquer controle.

É inconcebível que uma das mais importantes democracias do mundo seja assombrada por uma forma de autoritarismo hipócrita, que, na certeza da impunidade, já não se preocupa mais em valorizar a honestidade.

É constrangedor que o Presidente não entenda que o seu cargo deve ser exercido em sua plenitude nas vinte e quatro horas do dia. Não há “depois do expediente” para um Chefe de Estado. É constrangedor também que ele não tenha a compostura de separar o homem de Estado do homem de partido, pondo-se a aviltar os seus adversários políticos com linguagem inaceitável, incompatível com o decoro do cargo, numa manifestação escancarada de abuso de poder político e de uso da máquina oficial em favor de uma candidatura. Ele não vê no “outro” um adversário que deve ser vencido segundo regras, mas um inimigo que tem de ser eliminado.

É aviltante que o governo estimule e financie a ação de grupos que pedem abertamente restrições à liberdade de imprensa, propondo mecanismos autoritários de submissão de jornalistas e de empresas de comunicação às determinações de um partido político e de seus interesses.

É repugnante que essa mesma máquina oficial de publicidade tenha sido mobilizada para reescrever a História, procurando desmerecer o trabalho de brasileiros e brasileiras que construíram as bases da estabilidade econômica e política, que tantos benefícios trouxeram ao nosso povo.

É um insulto à República que o Poder Legislativo seja tratado como mera extensão do Executivo, explicitando o intento de encabrestar o Senado. É deplorável que o mesmo Presidente lamente publicamente o fato de ter de se submeter às decisões do Poder Judiciário.

Cumpre-nos, pois, combater essa visão regressiva do processo político, que supõe que o poder conquistado nas urnas ou a popularidade de um líder lhe conferem licença para ignorar a Constituição e as leis. Propomos uma firme mobilização em favor de sua preservação, repudiando a ação daqueles que hoje usam de subterfúgios para solapá-las. É preciso brecar essa marcha para o autoritarismo.

Brasileiros erguem sua voz em defesa da Constituição, das instituições e da legalidade.

Não precisamos de soberanos com pretensões paternas, mas de democratas convictos.



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Para quem quiser assinar o Manifesto, é só clicar aqui.

8.9.10

Um país de doentes

De Dora Kramer, no Estadão de hoje. Sabem o pior? É que quem está infectado é incapaz de perceber o que vai abaixo. Ou se percebe, como acontece com muitos que conheço, faz de conta que não viu. O motivo? Incorporou o método do partido, ou tem o corpo cheio de uma cepa diferente do bicho. Vivemos numa psicose coletiva, e pelo resultados das pesquisas, ela se alastra. Na verdade, acho que cada vez mais gente percebe que pode sair ganhando com isso. Não coletivamente, é bom que fique claro.

Macunaíma

Só porque é popular uma pessoa pode escarnecer de todos, ignorar a lei, zombar da Justiça, enaltecer notórios malfeitores, afagar violentos ditadores, tomar para si a realização alheia, mentir e nunca dar um passo que não seja em proveito próprio?

Depende. Um artista não poderia, sequer ousaria fazer isso, pois a condenação da sociedade seria o começo do seu fim. Um político tampouco ousaria abrir tanto a guarda.
A menos que tivesse respaldo. Que só revelasse sua verdadeira face lentamente e ao mesmo tempo cooptasse os que poderiam repreendê-lo, tornando-os dependentes de seus projetos dos quais aos poucos se alijariam os críticos, por intimidação ou desistência.

A base de tudo seria a condescendência dos setores pensantes e falantes, consolidada por longo tempo.

Para compor a cena, oponentes tíbios, erráticos, excessivamente confiantes, covardes diante do adversário atrevido, eivados por ambições pessoais e sem direito a contar com aquele consenso benevolente que é de uso exclusivo dos representantes dos fracos, oprimidos e ignorantes.

O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido - abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar _ sem que ninguém se disponha ou consiga lhe pôr um paradeiro - não foi criado da noite para o dia.

Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu apenas por obra da fragilidade da oposição. É produto de uma criação coletiva.

Da tolerância de informados e bem formados que puseram atributos e instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e da opção pela indulgência. Gente que tem pudor de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do País, mas não parece se importar de lidar com gente que não tem escrúpulo de nada.

Da esperteza dos arautos do atraso e dos trapaceiros da política que viram nessa aliança uma janela de oportunidade. A salvação que os tiraria do aperto no momento em que já estavam caminhando para o ostracismo. Foram todos ressuscitados e por isso são gratos.

Da ambição dos que vendem suas convicções (quando as têm) em troca de verbas do Estado, sejam sindicalistas, artistas, prefeitos ou vereadores.

Da covardia dos que se calam com medo das patrulhas.

Do despeito dos ressentidos.

Do complexo de culpa dos mal resolvidos.

Da torpeza dos oportunistas.

Da pusilanimidade dos neutros.

Da superioridade estudada dos cínicos.

Da falsa isenção dos preguiçosos.

Da preguiça dos irresponsáveis.

Lula não teria ido tão longe com a construção desse personagem que hoje assombra e indigna muitos dos que lhe faziam a corte, não fosse a permissividade geral.

Nada parece capaz de lhe impor limites. Se conseguir eleger a sucessora, vai distorcer a realidade e atuar como se presidente fosse. Se não conseguir, não deixará o próximo governo governar.

Agora, é sempre bom lembrar que só fará isso se o País deixar que faça, como deixou que se tornasse esse ser que extrapola.

4.9.10

A mentira, com um tanto de Dienpax


Até que ponto a mentira é sábia e necessária? Ao percorrer ensaios sobre ética que versem sobre esta forma de lidar com os conteúdos de nossa existência, é certo que um dos modos mais interessantes de colocar a questão, e respondê-la, é aquele que brota de uma posição mais lógica do que propriamente moral. A coisa toda pode ser expressa de uma maneira bem simples, que é mais ou menos assim: se todos decidirmos um belo dia começar a mentir ininterruptamente, uma espécie de caos se estabelecerá. Isso porque não haverá discurso que se que se religue a outros discursos ou ao que for, o que por si só descaracterizará a sua função. A linguagem entrará então no campo do desnecessário, e a convivência entre os homens irá se tornar algo relutante e puramente disforme. Nesse sentido, não há possível campo positivo para a resposta das questões que abrem o texto.

Um contraponto, porém, rapidamente nos aparece. - Mas essa é uma situação limite e generalizada - pode-se e deve-se argumentar -; isso não significa que a mentira não possa existir pontualmente, e por ser muitas das vezes mais encobridora do que propriamente uma inversora de discurso, tornar-se benéfica em dados momentos?

Hum: difícil a resposta. Pode ser que sim, claro. Mas até quando? E aqui a coisa se complica pois o discurso não provém de entidades metafísicas ou lingüísticas, mas é gerado por um sujeito que deve fazer com que todas as suas falas sejam plausíveis e sustentáveis. É muito fácil encontramos pessoas que digam: menti para preservar. Ou menti para evitar o sofrimento. Enfim, menti para fazer o bem. Mas e o que foi enganado, trapaceado pela mentira, irá se sentir de qual maneira ao saber o que a mentira acobertou, ainda que por um considerado bom motivo?

Duplamente traído. Sim. Claro. Óbvio. Traído pela mentira, a entidade moral-discursiva e, sabemos, psicológica, mas pior do que isso: traído por um agora mentiroso. Um ser de carne e osso, sendo que aquele que produziu o discurso já se encontra, ao aparecimento do novo enunciado, de figura alterada. Algo se interpôs entre ele e o restante de toda a sua história e de todas as suas relações: foi capaz de mentir por bem. Mas qual bem? Bem de quem? O que é um bem ante a uma descaracterização da realidade? Será esse um sujeito capaz de mentir por um mal? Mal de quem, e pra quem?

Um dos problemas da mentira é – boba e obviamente, como toda criança sabe - que um dia a verdade pode vir à tona. Mas o que a criança em nós também sabe mas não projeta a extensão é que o fato em seu aspecto bruto passa de moral também à pessoal. Tudo entra no redemoinho de desacertos que acaba, estranha e até risivelmente, parando no universo lógico dos parágrafos acima, criando uma versão humanamente maquinária do instituidor do problema: viramos robôs que podem ou não responder corretamente a questões, dúvidas e falar de nós mesmos. Mas quando será que falamos e respondemos corretamente? Ou será que de novo preservamos? Preservamos a quem, mesmo?

A mentira pode ser sábia e necessária tão somente quando ela se transforma enfim em verdade, e sabemos que isso é bem possível. Vivemos fazendo isso com nós mesmos, com nossa história reconstruída e encoberta por nossos desejos. Se assim não o for, se a passagem não for completa, a mentira criará no mínimo um possível... não confiável: aquele que atravessa seu desejo no do outro, às vezes no de si mesmo, desconfigurando o que está pela frente, seja por qual motivo ou intenção for.