Pessoa já dizia que somos o intervalo entre o nosso desejo e aquilo que o desejo dos outros fizeram de nós. Para Freud o desejo é algo puramente ligado à memória: só podemos desejar aquilo que já foi vivenciado e causou prazer - se não formos masoquistas, claro -: todo o novo, assim, tende a ser apenas repetição. Já Lacan... Bem, pra Lacan, somos o resultado do desejo do Outro, e só. Para Hobbes, a felicidade se encontra no caminho para a realização do desejo. Assim que o desejo é satisfeito, corremos atrás de outro porque então tudo já ficou sem graça.
Eu só sei que desejo e que não consigo fazer com que este desejo flutue. Aceitar que certas coisas definitivamente não funcionam e ligá-lo a algo que o faça valer, que o aceite e dele faça bom uso. Eu quero que o desejo dos outros atue sobre mim e que me torne um objeto a ser por ele modelado. Quero que meu desejo diga qualquer coisa nova sobre a qual já sei. Que trilhas se refaçam todas as vezes que isso for possível.
Sigo tentando.
21.1.09
19.1.09
15.1.09
Outro do Contardo
Existem alguns textos que deveriam ser obrigatórios: nasceu, viveu um tanto pra compreender, tem que ler. Alguns sujeitos conseguem escrever um bom tanto deles. Contado Calligaris se enquadra nesta categoria. Leiam!!!
Ah: e qualquer semelhança com você, seu vizinho ou primo, não será mera coincidência...
"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?
Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.
O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.
Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".
1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?
Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).
O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?
Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.
Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.
Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.
2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.
Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.
A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar - não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.
Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.
Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.
3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um
jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.
Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.
4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de
dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.
5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.
Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?
O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.
Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.
Ah: e qualquer semelhança com você, seu vizinho ou primo, não será mera coincidência...
"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?
Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.
O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.
Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".
1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?
Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).
O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?
Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.
Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.
Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.
2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.
Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.
A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar - não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.
Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.
Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.
3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um
jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.
Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.
4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de
dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.
5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.
Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?
O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.
Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.
14.1.09
Quem é o babaca, mesmo?
Leiam primeiro, depois eu comento e peço algo. Do Correio Popular de hoje:
A babaquice infesta a música pop. Leio hoje nos jornais que o astro Elton John, que fará dois shows no Brasil, exigiu que seu camarim fosse decorado com cinco rosas vermelhas e duas brancas. Até aí tudo bem. O detalhe fabuloso é o seguinte: as astes das rosas devem medir exatamente 112 milímetros.
Em seu staff pessoal virá um camarada designado apenas para fazer a medição das hastes. Se as mesmas não apresentarem o tamanho desejado pelo artista, ele promete dar chilique e ameaça não subir no palco - o que, cá para nós, não seria nada mau.
Contudo, a produção não revelou o que Elton John fará com as hastes de 112 milímetros após o espetáculo. Particularmente, acho as medidas muito pequenas para o histórico do cantor.
E então: chocados? Abismados? Embasbacados? Pois é: este texto foi publicado numa coluna do caderno de cultura do grande jornal de Campinas, que deve ser o maior em tiragem do interior de SP.
Foi escrito, por acaso, pelo mesmo sujeito que escreveu aquele texto mequetrefemente bizarro sobre a questão Israel/ Palestina. Normalmente ele escreve sobre sambas e botecos. Agora anda exercitando a sua anencefalia em outras áreas.
Uma das questões que me deixam estupefato e que deve ser retomada é a seguinte: que alguém escreva com a articulação mental e preconceitos de um quiabo, vá lá, mas e aquele que trata das coisas que devem ser ou não impressas - não deveria ter um mínimo de bom senso?
Ora, temos aqui um texto que nada informa, que não possui sequer uma linha crítica - no sentido cordato da palavra - e que além e acima de tudo é declaradamente e, desculpem a expressão mas não há como dizer de outra forma, nojentamente homofóbico.
O que fazer?
Estou encaminhando este texto para a editora do caderno "cultural" do jornal. Pra quem quiser reclamar, ou fazer o mesmo, o endereço é: daniela@rac.com.br.
Pra terminar, um videozinho pra gente se lembrar de como Elton John é realmente um artista péssimo. E nem vou comentar o fato de sempre ter achado de que se trata de um dos sujeitos de comportamento mais respeitável e digno do todo o mundo pop. Deixa isso pra lá: não vem ao caso.
A babaquice infesta a música pop. Leio hoje nos jornais que o astro Elton John, que fará dois shows no Brasil, exigiu que seu camarim fosse decorado com cinco rosas vermelhas e duas brancas. Até aí tudo bem. O detalhe fabuloso é o seguinte: as astes das rosas devem medir exatamente 112 milímetros.
Em seu staff pessoal virá um camarada designado apenas para fazer a medição das hastes. Se as mesmas não apresentarem o tamanho desejado pelo artista, ele promete dar chilique e ameaça não subir no palco - o que, cá para nós, não seria nada mau.
Contudo, a produção não revelou o que Elton John fará com as hastes de 112 milímetros após o espetáculo. Particularmente, acho as medidas muito pequenas para o histórico do cantor.
E então: chocados? Abismados? Embasbacados? Pois é: este texto foi publicado numa coluna do caderno de cultura do grande jornal de Campinas, que deve ser o maior em tiragem do interior de SP.
Foi escrito, por acaso, pelo mesmo sujeito que escreveu aquele texto mequetrefemente bizarro sobre a questão Israel/ Palestina. Normalmente ele escreve sobre sambas e botecos. Agora anda exercitando a sua anencefalia em outras áreas.
Uma das questões que me deixam estupefato e que deve ser retomada é a seguinte: que alguém escreva com a articulação mental e preconceitos de um quiabo, vá lá, mas e aquele que trata das coisas que devem ser ou não impressas - não deveria ter um mínimo de bom senso?
Ora, temos aqui um texto que nada informa, que não possui sequer uma linha crítica - no sentido cordato da palavra - e que além e acima de tudo é declaradamente e, desculpem a expressão mas não há como dizer de outra forma, nojentamente homofóbico.
O que fazer?
Estou encaminhando este texto para a editora do caderno "cultural" do jornal. Pra quem quiser reclamar, ou fazer o mesmo, o endereço é: daniela@rac.com.br.
Pra terminar, um videozinho pra gente se lembrar de como Elton John é realmente um artista péssimo. E nem vou comentar o fato de sempre ter achado de que se trata de um dos sujeitos de comportamento mais respeitável e digno do todo o mundo pop. Deixa isso pra lá: não vem ao caso.
13.1.09
12.1.09
Feito!

A filosofia é capaz de propiciar, a quem aceita e trabalha o suficiente para isso, o desenvolvimento de uma relação muito, mas muito peculiar entre o iniciado, entre aquele se dispõe a encará-la, e os textos a partir dos quais ela se apresenta. Eu diria sem ressalvas que se trata de uma relação quase psicótica, na qual ocorre uma espécie de fundição entre aquilo o que Kant chama de sujeito transcedental, somadas aí as experiências preenchedoras deste sujeito, e os dados dos texto. E quando digo dados não afirmo apenas o conteúdo semântico mais geral como também as relações gramaticais, as ondulações discursivas, o ritmo, a simpatia - sim! - e tudo o mais o que um escrito teórico pode comportar.
Lembro-me da minha primeira leitura esquizofrênica de um texto. Foi em 1994. Fausto Castilho - e que professor era, e é, Fausto! que cabeça poderosa tem esse homem! - pedia como trabalho semestral uma paráfrase das meditações cartesianas. Quem já teve o prazer de atravessar uma Meditatio que seja sabe que o texto já é pra lá de embrumador. É como se Descartes pegasse na mão do leitor e, através de rigorosas deduções, o fizesse caminhar por um espaço qualquer. É esta a sensação ao final da leitura: de deslocamento, de passagem. É a lógica atuando como poesia. Sentei-me no segundo andar da biblioteca às 9h. Saí para almoçar às 13h e retornei às 15h. Às 19h30 mais ou menos começou a me bater um pavor. Eu havia me misturado ao texto. Eu era Descartes, eu era a cêra, eu era o gênio maligno embusteiro, eu era eu mesmo, a folha branca, o texto em latim da página ao lado, Deus, o ergo sum.
Levantei a cabeça completamente apavorado, com um medo terrível daquilo. Aconteceria de novo? O que foi: Hume, Hobbes, Kant, Platão, Montesquieu, Schopenhauer, Nietzsche, Bachelard, Hegel, blá, blá, blá, blá. Até que resolvi estudar filosofia da psicanálise; até que resolvi tentar compreender o que aquele tal de Freud dizia e o que estava em jogo ali para a história das idéias. Hummm: que embaraço!
Lidar com os escritos freudianos através de uma leitura filosófica não é fácil. Alguns que aqui aparecem o sabem. É uma porrada na cara atrás de outra. Espetos no cérebro. Agulha sob as unhas. Pau-de-arara. Uma terapia das mais cruéis pelas quais se pode passar. Talvez a pior delas. Uma simbiose extremamente doentia. Os psicanalistas mesmo admitem esta posição, e se sentem acuados frente a ela.

Escrevo este texto porque finalmente eu consegui. Porque finalmente eu ultrapassei algo que por pouco não me venceu. Sim, sim: eu senti cada linha de Inibição, sintoma e angústia. Demorei 1 ano para completar as suas 70 páginas, e para isso tive que enfrentar as minhas resistências mais duras. Avançava dez páginas e voltava. Tinha fortes crises de tremor em muitas delas. Olhava pro texto e tinha vontade de chorar. Eu não olhava pro texto: eu olhava pra mim, que era picotado em tiras pelas linhas impressas. Pisoteado por parágrafos. Para todas as minhas inibições, para boa parte do meus sintomas. As angústias...
bem...
Foi isso meu caros, mas agora passou. Estou finalmente a salvo. Posso seguir pela vida com muito mais donaire e segurança. Andar lépido e intrépido por aí, com estes novos chumbos instalados nos calcanhares.
11.1.09
5.1.09
4.1.09
Bandeira branca, amor...
Pra começar bem o ano, a absurda tenuidade de um Bandeira.*
Porquinho-da-Índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
*Para o meu amigo Ricardo, que em nossas saudosas conversas citybareanas - quando estávamos pra lá de Punjab - dividia comigo - e quiçá tornará a dividir - a entusiasmada percepção de que Manuel é, realmente, foda.
Porquinho-da-Índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
*Para o meu amigo Ricardo, que em nossas saudosas conversas citybareanas - quando estávamos pra lá de Punjab - dividia comigo - e quiçá tornará a dividir - a entusiasmada percepção de que Manuel é, realmente, foda.
30.12.08
Coisas de partida
Há uns anos, quando era obrigado a freqüentar a rodoviária de Campinas todas as noites de sexta, algo no qual eu nunca havia reparado me apareceu com força: o caráter expiatório das partidas e das chegadas.
Eu ficava esperando e observando, por algum tempo, no lugar onde os carros encostavam para que as pessoas fossem pêgas ou deixadas. Abismava: quantos sorrisos, quanta felicidade corporeamente demonstrada. Todos os problemas pareciam encontrar seu fim ali, naqueles últimos ou primeiros abraços, naqueles ois ou tchaus, nos acenos.
Não há como negar que este seja um padrão: sempre que há uma quebra, uma passagem, uma possibilidade de mudança, um bom montante ou quase tudo o que foi vivido é observado através de um ponderamento torto. Num dito popular aproximado: basta morrer pra virar santo.
E no réveillon todo o nosso ano tende a ser tornar santo. Todos os acontecimentos, por mais absurdos que tenham sido, ganham firulas ternas de interpretação. É o momento do perdão dos outros e de nós mesmos. É o momento da reconfiguração dos fatos para algo aceitável; é a hora para nos esbaldarmos no uso daquilo a que costumamos dar o nome de racionalização.
Deliramos a fim de tornar a vida mais admissível. Criamos estórias para que a espera do que vem seja mais suportável. E se o que vier for cáustico, destruidor? - nada que dure mais do que 365 dias, a medida a qual nos acostumamos como período máximo para o suporte da realidade, para seu encaramento verdadeiro, para a vivência dos nossos diferentes tipos de luto.
O réveillon é a rodoviária do ano.
________________________________________________________________________
A palavra latina para porta é ianua*. Isto se deu pelo seguinte: a principal característica física de um dos mais importantes deuses romanos é a de ter duas faces, uma em cada "lado" do crânio. O nome do deus: Ianus.
Mas porta não foi a única coisa que recebeu termo inspirado neste deus. Havia uma outra palavra latina bastante usada e que tem nele a sua origem: Ianuarius. Ianuarius é como se designava o primeiro mês do ano. Não é preciso fazer muitos malabarismos pra perceber que Ianuarius é o nosso Janeiro. E o que é Janeiro, então?
É o mês que tem duas caras: uma para quem fica, e outra para quem chega. Uma face para o ano que finda e outra para o que se inicia.
Janeiro é a porta da rodoviária.
*Há uma versão que inverte a ordem: Ianus teria este nome, então, por conta de ianua. Eu obviamente acredito mais e prefiro a que eu narrei.
Eu ficava esperando e observando, por algum tempo, no lugar onde os carros encostavam para que as pessoas fossem pêgas ou deixadas. Abismava: quantos sorrisos, quanta felicidade corporeamente demonstrada. Todos os problemas pareciam encontrar seu fim ali, naqueles últimos ou primeiros abraços, naqueles ois ou tchaus, nos acenos.
Não há como negar que este seja um padrão: sempre que há uma quebra, uma passagem, uma possibilidade de mudança, um bom montante ou quase tudo o que foi vivido é observado através de um ponderamento torto. Num dito popular aproximado: basta morrer pra virar santo.
E no réveillon todo o nosso ano tende a ser tornar santo. Todos os acontecimentos, por mais absurdos que tenham sido, ganham firulas ternas de interpretação. É o momento do perdão dos outros e de nós mesmos. É o momento da reconfiguração dos fatos para algo aceitável; é a hora para nos esbaldarmos no uso daquilo a que costumamos dar o nome de racionalização.
Deliramos a fim de tornar a vida mais admissível. Criamos estórias para que a espera do que vem seja mais suportável. E se o que vier for cáustico, destruidor? - nada que dure mais do que 365 dias, a medida a qual nos acostumamos como período máximo para o suporte da realidade, para seu encaramento verdadeiro, para a vivência dos nossos diferentes tipos de luto.
O réveillon é a rodoviária do ano.
________________________________________________________________________
A palavra latina para porta é ianua*. Isto se deu pelo seguinte: a principal característica física de um dos mais importantes deuses romanos é a de ter duas faces, uma em cada "lado" do crânio. O nome do deus: Ianus.
Mas porta não foi a única coisa que recebeu termo inspirado neste deus. Havia uma outra palavra latina bastante usada e que tem nele a sua origem: Ianuarius. Ianuarius é como se designava o primeiro mês do ano. Não é preciso fazer muitos malabarismos pra perceber que Ianuarius é o nosso Janeiro. E o que é Janeiro, então?
É o mês que tem duas caras: uma para quem fica, e outra para quem chega. Uma face para o ano que finda e outra para o que se inicia.
Janeiro é a porta da rodoviária.
*Há uma versão que inverte a ordem: Ianus teria este nome, então, por conta de ianua. Eu obviamente acredito mais e prefiro a que eu narrei.
28.12.08
A banda do ano
E no meio da monótona mesmice das diferenças, eis que surgem as raposas ligeiras a botar ordem no cool e no galinheiro.
Eleição fácil pois não havia concorrentes.
Ai, ai...
Meu inferno astral segue firme, o que faz com que não acredite mais nisso. O que há mesmo é minha existência física e psíquica torta, com um paraíso astral no meio.
Como sou nietzschiano, quero que se dane: Amor fati! Amor fati! - grito por aí, tendo o cuidado de guardar para os momentos de fraqueza um pouco de paroxetina, tramadol e diazepam, batidos com leite, banana e mamão.
Como sou nietzschiano, quero que se dane: Amor fati! Amor fati! - grito por aí, tendo o cuidado de guardar para os momentos de fraqueza um pouco de paroxetina, tramadol e diazepam, batidos com leite, banana e mamão.
27.12.08
O show do ano
Dia 22 de junho. Um domingo com noite das bem paulistanas: frio, muito frio, e uma bela de uma garoa. No Teatro Municipal, lugar que eu tinha muita vontade conhecer, Bob McFerrin.
Comecei tropeçando no tapete da escada que dá acesso às galerias, quase caindo de boca. Ótimo que as bobagens tenham acabado por aí. Devidamente instalado, olhava deslumbrado os ornamentos do lugar. A iluminação. As pessoas.
No palco, só uma cadeira. Sequer um tecido como cenário.
McFerrin chegou usando uma velha camiseta preta, uma calça jeans surrada, um sapato nada novo. Nas mãos, um microfone e uma garrafa d'água. E foi apenas disso que ele precisou.
Genial. Não há muito o que dizer.
O que interessava ali era só a música. A música em sua forma mais pura, mais humana. Os únicos instrumentos eram a voz e o corpo. O público participava o tempo todo. A música é algo possível a todos. A expiação é possível. Cantava-se de vários lugares: público no palco, inclusive. Aliás, público também dançando no palco. Aliás, público intrumento musical tocado pelo maestro (vídeo).
Bob McFerrin tem a simpatia e o carisma dos gênios que se sabem instrumento. Dos que eu tive a sorte de ver ao vivo, só João e Santana - cada um a sua maneira - me deram impressão parecida.
Ao final todos extasiados e felizes por terem visto. Por terem feito. Pela absoluta falta de soberba de um homem que poderia carregá-la sem problemas porque faz o que quer com a voz. Pela música estonteante. Por saber aquilo inesquecível.
Obrigado à pessoa maravilhosa que estava comigo, mostrou-me isso, e me deu o show do ano de presente.
Comecei tropeçando no tapete da escada que dá acesso às galerias, quase caindo de boca. Ótimo que as bobagens tenham acabado por aí. Devidamente instalado, olhava deslumbrado os ornamentos do lugar. A iluminação. As pessoas.
No palco, só uma cadeira. Sequer um tecido como cenário.
McFerrin chegou usando uma velha camiseta preta, uma calça jeans surrada, um sapato nada novo. Nas mãos, um microfone e uma garrafa d'água. E foi apenas disso que ele precisou.
Genial. Não há muito o que dizer.
O que interessava ali era só a música. A música em sua forma mais pura, mais humana. Os únicos instrumentos eram a voz e o corpo. O público participava o tempo todo. A música é algo possível a todos. A expiação é possível. Cantava-se de vários lugares: público no palco, inclusive. Aliás, público também dançando no palco. Aliás, público intrumento musical tocado pelo maestro (vídeo).
Bob McFerrin tem a simpatia e o carisma dos gênios que se sabem instrumento. Dos que eu tive a sorte de ver ao vivo, só João e Santana - cada um a sua maneira - me deram impressão parecida.
Ao final todos extasiados e felizes por terem visto. Por terem feito. Pela absoluta falta de soberba de um homem que poderia carregá-la sem problemas porque faz o que quer com a voz. Pela música estonteante. Por saber aquilo inesquecível.
Obrigado à pessoa maravilhosa que estava comigo, mostrou-me isso, e me deu o show do ano de presente.
23.12.08
A vida dos outros
Se houvesse uma versão da "Caras" que falasse a respeito das pessoas que admiro, com certeza eu compraria. Com quantos anos fizeram tal e tal coisa, como eram os hábitos, o lugar onde moravam, o local onde produziam: todas estas coisas sempre me interessaram, sabe-se lá o motivo. Aliás, sabe-se lá não: acredito que venha ser uma espécie de voyerismo pragmático, uma tentativa de identificação por cópia - e de cópia por identificação. Quem sabe se eu fizer igual a...
Há dois sites que estão me facilitando a vida no que diz respeito a estas questões. O primeiro deles, o Daily Routines, como se vê em seu subtítulo, conta como escritores, artistas e outras pessoas interessantes organizam ou organizavam seus dias. O outro, uma página do portal cultural do The Guardian, mostra como são ou eram os escritórios de quem produz filosofia, literatura, ciência e adjacências.
Com os dois devidamente salvos na lista de favoritos, é possível fazer o seguinte:
Charles Darwin

7h. Acordava e saía para uma caminhada.
7h45. Café da manhã, sozinho.
8h–9h30. Trabalhava em seu escritório; considerava esse seu período mais produtivo.
9h30–10h30. Ia para a sala e lia suas cartas, então lia alto as cartas da família.
10h30–12 ou 12h15. Retornava ao escritório, e considerava este o fim do seu horário de trabalho.
12h. Caminhava, primeiro uma visita à estufa, depois pelo jardim de areia, por tanto tempo quanto possível dependendo de sua saúde, acompanhado de um cachorro.
12h45. Almoçava com toda a família, era sua refeição principal. Após, lia o Time e respondia cartas.
15h. Cochilava no quarto ou no sofá e fumava um cigarro, ouvia a narrativa de um livro leve lido por sua mulher, Emma.
16h. Caminhava, em geral pelo jardim de areia, às vezes para mais longe, com freqüência acompanhado de alguém.
16h30–17h30. Trabalhava no escritório resolvendo os últimos problemas do dia.
18h. Descansava no quarto enquanto Emma lia em voz alta.
19h30. Tomava um chá enquanto a família jantava. Em seus últimos anos, nunca permanecia na sala de jantar com os homens, mas tomava o rumo da saleta com as mulheres. Se não havia convidados, jogava duas partidas de gamão com Emma, depois lia um pouco, então Emma tocava piano e lia mais alguma coisa em voz alta.
22h. Deixava a saleta e se deitava às 22h30. Dormia mal.
Um ótimo programa para quando curiosos como eu não têm muito o que fazer - como eu.
Há dois sites que estão me facilitando a vida no que diz respeito a estas questões. O primeiro deles, o Daily Routines, como se vê em seu subtítulo, conta como escritores, artistas e outras pessoas interessantes organizam ou organizavam seus dias. O outro, uma página do portal cultural do The Guardian, mostra como são ou eram os escritórios de quem produz filosofia, literatura, ciência e adjacências.
Com os dois devidamente salvos na lista de favoritos, é possível fazer o seguinte:
Charles Darwin

7h. Acordava e saía para uma caminhada.
7h45. Café da manhã, sozinho.
8h–9h30. Trabalhava em seu escritório; considerava esse seu período mais produtivo.
9h30–10h30. Ia para a sala e lia suas cartas, então lia alto as cartas da família.
10h30–12 ou 12h15. Retornava ao escritório, e considerava este o fim do seu horário de trabalho.
12h. Caminhava, primeiro uma visita à estufa, depois pelo jardim de areia, por tanto tempo quanto possível dependendo de sua saúde, acompanhado de um cachorro.
12h45. Almoçava com toda a família, era sua refeição principal. Após, lia o Time e respondia cartas.
15h. Cochilava no quarto ou no sofá e fumava um cigarro, ouvia a narrativa de um livro leve lido por sua mulher, Emma.
16h. Caminhava, em geral pelo jardim de areia, às vezes para mais longe, com freqüência acompanhado de alguém.
16h30–17h30. Trabalhava no escritório resolvendo os últimos problemas do dia.
18h. Descansava no quarto enquanto Emma lia em voz alta.
19h30. Tomava um chá enquanto a família jantava. Em seus últimos anos, nunca permanecia na sala de jantar com os homens, mas tomava o rumo da saleta com as mulheres. Se não havia convidados, jogava duas partidas de gamão com Emma, depois lia um pouco, então Emma tocava piano e lia mais alguma coisa em voz alta.
22h. Deixava a saleta e se deitava às 22h30. Dormia mal.
Um ótimo programa para quando curiosos como eu não têm muito o que fazer - como eu.
22.12.08
19.12.08
Idiossincrasias simbólicas
Em minha relação estranha com algumas palavras - relação esta que todos acabamos por ter -, gosto particularmente de dois momentos.
O primeiro é a ligação indestrutiva que se realiza entre os termos rúcula e ridícula. Sempre que ouço ou falo sobre um deles me vem o outro em mente. Não sei como mudar isso. O resultado é o seguinte: os pés de rúcula me parecem sempre esdrúxulos, dando a sensação de que acabaram de fazer algo imbecil, e, em contrapartida, toda vez que penso ou vejo uma pessoa que classifico como ridícula a enxergo encoberta por uma espécie de invólucro em tom esverdeado, assim como me parece de pronto que ela possui um sabor um tanto amargo, mas que eu gosto.
Salada de pessoas ridículas, rúculas circulando por aí.
A segunda coisa está ligada àquela canção do Gilberto Gil que era tema do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Naquele momento em que ele diz "o sol nascente é tão belo" eu entendia - e ainda entendo - "o sol nascente à tobello". Eu acho essa palavra linda: tobello! Uma das mais bonitas que eu conheço. E o que é tobello? Como eu delirei para resolver isso? Ué: tobello é um tipo, um gênero. Bife à milanesa, pizza à portuguesa, sol nascente à tobello. Óbvio.
Mais tarde, para reforçar a minha relação estranha, aprendi que o poente, em italiano, é chamado de "tramonto" - l'ora del tramonto. Perfeito: o nascente é tobello, o poente é tramonto. L'ora del tobello.
Considerando tudo posso concluir que: duas rúculas comendo uma pizza de rídiculas é algo possível e que pode ser ainda mais prazeroso se feito, com bastante riso, no nascente à tobello.
A linguagem é um instabilíssimo parque de diversões.
O primeiro é a ligação indestrutiva que se realiza entre os termos rúcula e ridícula. Sempre que ouço ou falo sobre um deles me vem o outro em mente. Não sei como mudar isso. O resultado é o seguinte: os pés de rúcula me parecem sempre esdrúxulos, dando a sensação de que acabaram de fazer algo imbecil, e, em contrapartida, toda vez que penso ou vejo uma pessoa que classifico como ridícula a enxergo encoberta por uma espécie de invólucro em tom esverdeado, assim como me parece de pronto que ela possui um sabor um tanto amargo, mas que eu gosto.
Salada de pessoas ridículas, rúculas circulando por aí.
A segunda coisa está ligada àquela canção do Gilberto Gil que era tema do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Naquele momento em que ele diz "o sol nascente é tão belo" eu entendia - e ainda entendo - "o sol nascente à tobello". Eu acho essa palavra linda: tobello! Uma das mais bonitas que eu conheço. E o que é tobello? Como eu delirei para resolver isso? Ué: tobello é um tipo, um gênero. Bife à milanesa, pizza à portuguesa, sol nascente à tobello. Óbvio.
Mais tarde, para reforçar a minha relação estranha, aprendi que o poente, em italiano, é chamado de "tramonto" - l'ora del tramonto. Perfeito: o nascente é tobello, o poente é tramonto. L'ora del tobello.
Considerando tudo posso concluir que: duas rúculas comendo uma pizza de rídiculas é algo possível e que pode ser ainda mais prazeroso se feito, com bastante riso, no nascente à tobello.
A linguagem é um instabilíssimo parque de diversões.
16.12.08
Lembrando
Da série Reedições:
Ana e o mar
Y tu, que has hecho de mi pobre flor?
Não..., nada..., definitivamente
Nada possuis de mar.
E azuis e conchas e tessituras
De turvadora claridade jamais
A ti remeterão.
És, em verdade, de
Madeira.
Vê-se no cravo e na
Baunilha do quando
Caminhas.
No olhar dura
E decididamente
Castanho.
Em pernas e braços
Prontos para enlaces
De raiz.
Na pele
Enseivada.
(Não, não venham-me
Com morosas infinitudes,
Ventos, maresias, areias e pedras!
Tragam-me a da ramagem e fuste!
Tragam-me a que aguardo, áulico,
Com guardadas carícias de pássaro
E palavras de chuva:
Tragam-me a que um dia acompanharei florejar).
Não..., nada..., definitivamente
Nada possuis de mar.
A derradeira prova nesta
Enorme sombra que crias.
Ramagens e relva onde agora,
Arrebatado por bandarilhas
De farpas, obrigado me deito.
Ana e o mar
Y tu, que has hecho de mi pobre flor?
Não..., nada..., definitivamente
Nada possuis de mar.
E azuis e conchas e tessituras
De turvadora claridade jamais
A ti remeterão.
És, em verdade, de
Madeira.
Vê-se no cravo e na
Baunilha do quando
Caminhas.
No olhar dura
E decididamente
Castanho.
Em pernas e braços
Prontos para enlaces
De raiz.
Na pele
Enseivada.
(Não, não venham-me
Com morosas infinitudes,
Ventos, maresias, areias e pedras!
Tragam-me a da ramagem e fuste!
Tragam-me a que aguardo, áulico,
Com guardadas carícias de pássaro
E palavras de chuva:
Tragam-me a que um dia acompanharei florejar).
Não..., nada..., definitivamente
Nada possuis de mar.
A derradeira prova nesta
Enorme sombra que crias.
Ramagens e relva onde agora,
Arrebatado por bandarilhas
De farpas, obrigado me deito.
15.12.08
Grande Dave
Dave Brubeck não faz música: faz hipnose. Seu piano causa redemoinhos mentais, confusões voluptuosas, baixa qualquer guarda e nos deixa expostos.
A sua forma de trabalho é metódica: os temas fluem circularmente à nossa volta até que o processo é invertido e nos coloca em transe - a cabeça é o que gira, o lugar de onde vem as batidas e notas precisas é descentrado. Não se sabe mais onde se está e de onde o mundo vem.
A sensação é de torpor. O sax aparece para dar a textura, o cheiro. As ondas então nos carregam por aí, seres incapazes de oferecer reação que nos tornamos. O baixo e a bateria fazem o contraponto: sim, é possível que percebamos técnica absoluta ainda que em confusa vigília, e há por demais prazer no acesso a este gênero de matemática irregular que se acopla ao pseudodelírio.
Dave Brubeck não faz música: faz naves espaciais.
A sua forma de trabalho é metódica: os temas fluem circularmente à nossa volta até que o processo é invertido e nos coloca em transe - a cabeça é o que gira, o lugar de onde vem as batidas e notas precisas é descentrado. Não se sabe mais onde se está e de onde o mundo vem.
A sensação é de torpor. O sax aparece para dar a textura, o cheiro. As ondas então nos carregam por aí, seres incapazes de oferecer reação que nos tornamos. O baixo e a bateria fazem o contraponto: sim, é possível que percebamos técnica absoluta ainda que em confusa vigília, e há por demais prazer no acesso a este gênero de matemática irregular que se acopla ao pseudodelírio.
Dave Brubeck não faz música: faz naves espaciais.
13.12.08
Desajeito
Todo início leva consigo o destrambelhamento. Os primeiros passos, as primeiras transas, os primeiros picolés, as primeiras palavras: em todos os começos o ritmo descompassado, o tropeço, a falseadura e a falta de jeito irão, inadvertidamente, dar as caras. Faz pouco e erra, faz demais e ultrapassa. Lacunas e excessos sem que haja a mínima idéia do que seja o meio.
É interessante e, porque não, divertido, notar como esse atrapalhamento é capaz de surgir nos lugares mais abstrusos. No homem tímido que começa a falar e mais preocupado com o "estar a" do que com qualquer outra coisa desacerta em tudo: interlocutor, volume e conteúdo. Na menina que começa a se pintar e pavoneia o que nela poderia haver de encantamento. Na mulher que acredita ser chegada a hora do relumbramento e exagera.
Há uma destas transmutações que me acossa: a da passagem, a partir de qualquer pólo original, do apolíneo ao dionisíaco, da moderação ao excesso. Tudo que há ao redor e por dentro parece muitas das vezes pendular por estas pontas. Eu quero, eu posso seguir sem riscos para o outro lado: o dos exagerados, o dos festivos, e abandonar meu posto de basbaque. No inverso: então eu posso sim me mudar em ser observador, em ser do canto, em admirador longínquo.
Mas quais cacos surgem na passagem, quais gafes são inerentes à tentativa de mudança ou ao simples reconhecimento do outro lado?
De sophrosyne a hybris ando me atrapalhando. De um a outro cometo ridiculices e me estranho - e incomodo com minha falta jeito.
Até quando?
Até o equilíbrio, não é? - penso a borbotões na tentativa de substituir meu jeito monótono por lufadas. - Hummm..., com esta resposta fica claro que voltou ao começo de onde, é provável, sequer saiu, não é? - diz com seu riso preso o lado direito de meu cérebro descaído.
Ao lado esquerdo diminuto não é permitido sequer o esboço de uma risada.
É interessante e, porque não, divertido, notar como esse atrapalhamento é capaz de surgir nos lugares mais abstrusos. No homem tímido que começa a falar e mais preocupado com o "estar a" do que com qualquer outra coisa desacerta em tudo: interlocutor, volume e conteúdo. Na menina que começa a se pintar e pavoneia o que nela poderia haver de encantamento. Na mulher que acredita ser chegada a hora do relumbramento e exagera.
Há uma destas transmutações que me acossa: a da passagem, a partir de qualquer pólo original, do apolíneo ao dionisíaco, da moderação ao excesso. Tudo que há ao redor e por dentro parece muitas das vezes pendular por estas pontas. Eu quero, eu posso seguir sem riscos para o outro lado: o dos exagerados, o dos festivos, e abandonar meu posto de basbaque. No inverso: então eu posso sim me mudar em ser observador, em ser do canto, em admirador longínquo.
Mas quais cacos surgem na passagem, quais gafes são inerentes à tentativa de mudança ou ao simples reconhecimento do outro lado?
De sophrosyne a hybris ando me atrapalhando. De um a outro cometo ridiculices e me estranho - e incomodo com minha falta jeito.
Até quando?
Até o equilíbrio, não é? - penso a borbotões na tentativa de substituir meu jeito monótono por lufadas. - Hummm..., com esta resposta fica claro que voltou ao começo de onde, é provável, sequer saiu, não é? - diz com seu riso preso o lado direito de meu cérebro descaído.
Ao lado esquerdo diminuto não é permitido sequer o esboço de uma risada.
12.12.08
11.12.08
Fito Páez - Llueve sobre mojado
Como agora eu sou uma pessoa má, usarei meu blog para causar transtornos. O que vai aqui não é, portanto, uma canção: é sarcasmo puro!!!
News
Antes de prosseguir com a vida e com textos menos parecidos com páginas de diário, quero levar ao conhecimento das 12 pessoas que lêem este blog três coisas.
A primeira delas é que: sim, ao que parece, o negócio pro meu lado melhorou. Como esperado, a organização dos astros agora permite com que ocorrências menos dramáticas permeiem a minha existência. O que vem a seguir mostra isso.
A segunda delas: ganhei um presente dos mais belos e carinhosos da minha futura esposa. Depois de ter me enganado o dia todo, depois de ter me feito pensar coisas terríveis e sentido raiva, resignação, ódio, tristeza e melancolia, naquele parque de diversões emocional que a indiferença é capaz de fazer ingressar os neuróticos, ela me apareceu com este texto. Eu li e fiquei sem saber o que fazer por alguns minutos. Passado o deslumbramento inicial eu já sabia o que fazer, mas não em qual seqüência: se beliscões primeiro e depois cócegas, ou se o inverso. De qualquer maneira nosso relacionamento tem que evoluir muito, mas muito mesmo, até chegar a este ponto. Explico: é que nós nunca sequer nos vimos. Oxalá isto um dia aconteça - mas tá difícil. Como eu sempre fui um sujeito pós-moderno, ou seja, minhas referências inexistem ou são as mais confusas possíveis, chego a pensar que - quem sabe -, talvez nem precisássemos mesmo nos encontrar. O que vale é o afeto e a banda larga em dia, não é? Hummm... acho que não gostei disso: sou bem à moda antiga. E confuso mesmo, como está demonstrado.
Terceira: bem, sobre a terceira não ficarei divagando - ela fala, e mais do que satisfatoriamente, por si. Outro presente inesquecível e por mim impensável. Quase morri afogado vendo. Obrigado Fê: é lindo, é lindo demais isso. Morram de inveja. Tem o nome de Presente de aniversário para um amigo.
A primeira delas é que: sim, ao que parece, o negócio pro meu lado melhorou. Como esperado, a organização dos astros agora permite com que ocorrências menos dramáticas permeiem a minha existência. O que vem a seguir mostra isso.
A segunda delas: ganhei um presente dos mais belos e carinhosos da minha futura esposa. Depois de ter me enganado o dia todo, depois de ter me feito pensar coisas terríveis e sentido raiva, resignação, ódio, tristeza e melancolia, naquele parque de diversões emocional que a indiferença é capaz de fazer ingressar os neuróticos, ela me apareceu com este texto. Eu li e fiquei sem saber o que fazer por alguns minutos. Passado o deslumbramento inicial eu já sabia o que fazer, mas não em qual seqüência: se beliscões primeiro e depois cócegas, ou se o inverso. De qualquer maneira nosso relacionamento tem que evoluir muito, mas muito mesmo, até chegar a este ponto. Explico: é que nós nunca sequer nos vimos. Oxalá isto um dia aconteça - mas tá difícil. Como eu sempre fui um sujeito pós-moderno, ou seja, minhas referências inexistem ou são as mais confusas possíveis, chego a pensar que - quem sabe -, talvez nem precisássemos mesmo nos encontrar. O que vale é o afeto e a banda larga em dia, não é? Hummm... acho que não gostei disso: sou bem à moda antiga. E confuso mesmo, como está demonstrado.
Terceira: bem, sobre a terceira não ficarei divagando - ela fala, e mais do que satisfatoriamente, por si. Outro presente inesquecível e por mim impensável. Quase morri afogado vendo. Obrigado Fê: é lindo, é lindo demais isso. Morram de inveja. Tem o nome de Presente de aniversário para um amigo.
Assinar:
Postagens (Atom)

