29.8.08

Augusto de Campos - Pulsar (1975)

Especial 1.000 visitas

Estava pensando em fazer algo legal quando o blog completasse as mil visitas (entenda-se mil desde que eu coloquei este contador aí ao lado).

Pensei nisso mais por influência alheia do que por qualquer outra coisa. Sim, porque se o Pelé comemorou os seus mil gols, e o Romário arrumou mil gols pra poder comemorar, porque é que eu não posso achar que fazer mil qualquer-coisa-que-seja não tenha lá a sua importância? E por que é que eu não posso me empolgar também?

Pois então: para a comemoração das mil visitas, resolvi falar sobre algo desmesuradamente importante pra mim; a saber, a minha música favorita.

Sim, porque ela existe. Se me perguntarem sobre o livro teórico que eu considero mais importante, eu não vou conseguir citar um: no mínimo uns dez. A mesma coisa vale para romances - apesar de que O homem sem qualidades talvez esteja um tanto à frente dos outros. Para poesia, a mesma coisa.

Já no que diz respeito à música, tal classificação existe sem dúvida alguma que possa fazê-la desabar. Sem uma ponta sequer de desconfiança. Está lá, em primeiríssimo lugar, a Libestod de Tristão e Isolda, de Wagner.

Quem já presenciou a minha escuta deste trecho de ópera sabe do que estou falando. É como se todas as coisas possíveis de um ser humano sentir pudessem cohabitar um espaço mínimo de existência. É como se uma vida toda se compactasse em menos de 10min de sons devidamente coordenados. Eu saio destruído: chorando-rindo, fisicamente enfraquecido, com o espírito devidamente tonificado. Difícil pensar em algo que me tenha causado tanto impacto, mesmo que fora da arte.

Só há uma coisa (devo dizer), entretanto, que me extasia mais: a Libestod regida por Karajan. Mais exatamente ainda: a última apresentação de Karajan, na qual ele regeu a obra magnificamente, se é que isso não seja uma espécie de tautologia.

O video está aí embaixo. Notem como o maestro parece um compositor-bailarino: compositor porque se tem a impressão de que a música está brotando dele ali mesmo, numa espécie de parto. Bailarino porque ao enviar a música à orquestra, ao transmiti-la aos músicos, parece fazê-lo num bailado-parto alucinante, onde as notas parecem ser enviadas por algum tipo de onda àqueles que irão, finalmente, produzi-las.

Percebam ainda que, ao final, o maestro estufa o peito num último gigantesco suspiro, levantando os ombros, e que, ainda que a música já tenha terminado, as palmas não aparecem. Elas só surgirão quando o maestro abaixar guarda, dando a batalha como vencida. Maravilhoso!

É preciso dizer mais alguma coisa? Não: escutem, e vejam.

E feliz mil visitas pra todos nós!!!



24.8.08

Do filósofo-poeta, ou poeta-filósofo

Antonio Cicero, na Folha de ontem:

NÃO sou o primeiro e certamente não serei o último a criticar o abuso da palavra "elite" no Brasil. Como não fazê-lo? Em política, a imprecisão conceitual só serve aos oportunistas.

É sobretudo no vocabulário de quem se considera "de esquerda" que essa palavra costuma aparecer. Seu uso entre "soi-disant" marxistas resulta de um desleixo conceitual que mostra que nem mais eles levam a sério a teoria em que pretendem se basear.

O emprego da palavra "elite" na sociologia se estabeleceu a partir das obras de Vilfredo Pareto e de Gaetano Mosca. Sua pretensão era substituir o conceito marxista de "classe dominante". Pareto afirmava que há, em toda sociedade, um estrato inferior e um estrato superior. O estrato superior constitui a elite, que é composta pelos indivíduos mais capazes. Segundo Mosca, o domínio da minoria sobre a maioria se explica pela organização da primeira, que é composta por indivíduos que possuem um atributo, real ou aparente, altamente valorizado pela sociedade em que vivem.
Ao criticar as "teorias da elite", os marxistas atacaram tanto a pretensão, nelas embutida, de que a estratificação social seja supra-histórica, universal, eterna, quanto o fato de que elas desviam atenção do fundamental, que é a base econômica da sociedade.

Suponho que os marxistas brasileiros tenham ignorado essas e outras críticas em conseqüência, pelo menos em parte, da influência que sofreram de políticos e intelectuais não-marxistas, durante a luta contra a ditadura. Entre esses, destaca-se, por exemplo, o antropólogo Darcy Ribeiro, que não hesitava em falar da "maldade" da elite: "velha elite, feita de filhos e netos de senhores de escravos calejados na maldade; de ricaços descendentes de imigrantes que olham de cima, com desprezo, a quem não enricou também; e sobretudo desta casta de gerentes das multinacionais, só leais a seus patrões".

Segundo essa perspectiva, é por culpa de uma elite má que temos os problemas que temos. O Brasil, diz Darcy, é "um país que não deu certo, por culpa não do seu povo, mas das elites". "Maldade", "culpa": é fácil entender que também os teólogos da libertação – católicos – tenham se reconhecido nessa linguagem, excelente catalisadora de todo ressentimento difuso.

Tal tipo de "explicação" psicologista da realidade social é absolutamente incompatível com o pensamento de Marx, em que não entram em jogo "culpas" ou "maldades". Para Marx, a relação das diferentes classes sociais entre si é determinada em primeiro lugar pelo caráter das relações de produção vigentes na formação sócio-econômica em consideração.

De todo modo, não é difícil entender como, paradoxalmente, a vulgarização da teoria das elites –que havia sido introduzida na sociologia para enfrentar as teorias liberais e socialistas, e que era simpática ao fascismo – pôde dar subsídios exatamente para a execração das elites. É que, já que a dominação destas não se explica pela estrutura econômico-social, mas pela sua putativa superioridade, é concebível que essa "superioridade" se reduza ao maquiavelismo com que se supõe que elas submetem as massas, por meio da doutrinação, da violência, da intimidação, da intriga, da corrupção, do engodo: em suma, da "maldade".

Já a facilidade dessa inversão vulgar do sentido da teoria das elites seria suficiente para evidenciar sua inanidade teórica. Mas isso não é tudo. Além de não ser capaz de explicar coisa nenhuma, a noção de "elite" é vaga demais para ter qualquer eficácia cognitiva.

Essa ineficácia ficou comicamente clara no ano passado, quando o apresentador de programa de televisão Luciano Huck, ao ter seu relógio roubado, escreveu um artigo na Folha, queixando-se da insegurança das cidades brasileiras. Uma enxurrada de cartas à redação o atacou, alegando que, pertencendo à elite, ele não tinha qualquer direito de se queixar. Uma delas foi do cantor Zeca Baleiro. No dia seguinte, uma leitora escrevia: "Lamentável o comentário dele sobre o texto de Luciano Huck – como se Zeca Baleiro não fizesse parte dessa elite".

O fato é que, cada vez mais, também a classe média tem sido chamada de "elite" pela esquerda. Consequentemente, como as estatísticas indicam que o Brasil é cada vez mais um país de classe média, trata-se sem dúvida de um país em que, segundo a esquerda, quase todos fazem parte da elite. Será a pior elite do mundo, como muitos afirmam? Não sei; mas é certamente a mais autoflagelante.

18.8.08

E o Paulo Freire, é coisa nossa...

Estava lendo algumas páginas de "Pedagogia da Autonomia", do Paulo Freire, por sugestão de uma colega que citou o livro em seu blog.

Para ser sincero, bastante sincero, fiquei mais assustado do que qualquer coisa. O livro me pareceu bastante confuso no que diz respeito a algumas conceitualizações, e peca muito ao repetir algumas balelas ideológicas que não fazem o menor sentido quando contrastadas com dados, principalmente os da história recente. Isto tudo por um motivo: "Pedagogia da Autonomia" não é apenas um livro que trata sobre educação – a este respeito, coisas até interessantes são ditas – mas pretende ser um libelo marxista, um grande panfleto que mistura economia, ética e política, tudo devidamente lido nas chaves do materialismo histórico.

É de se destacar, entretanto, que estas chaves de leitura se apresentam fazendo uso também de inúmeros conceitos (ou pseudo conceitos) fenomenológicos, tão acessados que acabam por dar as cartas no que diz respeito à linguagem do texto. Isto faz com nos lembremos bastante (mutatis mutandis)da segunda fase do pensamento sartreano, e falo aqui de "Crítica da Razão Dialética".

Aliás, aproveitando a entrada, dialética é algo que não falta no livro: além do próprio termo ser usado algumas vezes, os seus afluentes estão em todos os lugares: não linearidade do caráter evolutivo, seja em qual área for; passagem da quantidade a qualidade; a negação da negação – tudo colocado de uma maneira que chega a parecer uma leitura didática da obra do barbudo. Aliás, barbas não mentem, não é? Hehe

Mas o que parece mesmo ser a preocupação de Freire - além das questões pedagógicas, inclusive - é estabelecer um enfrentamento com o famoso texto de Fukuyama sobre o fim da história. A partir deste posicionamento, toda a presepada é despachada já a partir da introdução. À opção óbvia pela concepção histórica de natureza humana se segue uma ética caduca, fruto claro desta pueril escolha, e que repete aquilo que já sabemos ser, empiricamente – e ele já tinha como saber também – uma piada: se você é vermelho você é bom, se você é azul você é mal. Tudo assim, posto como algo do campo das transcendências, tão péssimo quanto a análise que é feita da relação entre capitalismo e educação.

Outro ponto que me chamou a atenção foi o uso exacerbado do termo crítica. Longe do sentido kantiano, a "crítica" de Freire parece se referir ao simples ser do contra, ainda que este ser do contra seja a propedêutica do que ele chama de “curiosidade epistemológica”.

É uma pena que o próprio Freire tenha caído na armadilha de se utilizar não apenas de conceitos básicos problemáticos, mas que se tenha deixado levar pelas leituras mais estranhas destes conceitos. Tais conceitos e leituras acabaram por impedir uma observação menos bipartida do mundo, observação esta que não escamotearia todas as nuances da ética, da política, da economia, da ontologia e da própria educação. É preciso que, antes da “curiosidade epistemológica”, sejamos afetados por uma espécie de “curiosidade meta-epistemológica”, a fim de que uma leitura mais livre (autônoma?) do mundo seja possível.

P.S - Há passagens em que Freire diz poder ser lido como um ingênuo, mas que este não vem a ser o caso. Acho que tinha uma pulga atrás da orelha, e por isso este quase argumentum ad hominem. Mas a questão mesmo, como já disse, diz respeito ao que falei em outro lugar: há muito que possuímos ferramentas mais refinadas do que a foice e o martelo, e devemos usá-las.

17.8.08

E estava no Youtube!!!

Em 1990, alguém, talvez um produtor cujo nome é Rupert Hine, teve uma idéia genial: escolheu 250 músicos, gente de todo o mundo, e pediu para que cada um compusesse um trecho de obra, dando aos mesmos somente o tema - One world, one voice. Cada qual faria o que quisesse, ficando o pepino maior para quem fosse montar, dar forma final àquilo tudo, que ao cabo se transformaria em uma só música. A idéia era de atentar a humanidade para questões ambientais, coisa novíssima na época (e não é que, por incrível que pareça, não havia a chatice de hoje!).

Lembro-me de que o vídeo foi exibido na Cultura, em um domingo à noite, e que fiquei absolutamente extasiado com aquilo. A coisa me surgiu na memória agora, e fui correndo para o Youtube: e não é que tinha!!!

Aqui vai a última parte, que é uma mistura de tambores japoneses com a orquestra sinfônica de Leningrado: umas das coisas mais marcantes que eu já vi e ouvi na vida. Para quem quiser, as outras 11 partes podem ser encontradas. O único problema é a qualidade do som. Mas compensa.

Ouvindo isso, parece até que temos jeito...

One World One Voice part 12/12 et fin

Meu nome é Fabiano Conte, tenho 33 anos...

Aceitar um vício não é lá das coisas mais fáceis de se fazer. É preciso muita coragem e, sobretudo, muita cara-de-pau.

Hoje eu vim aqui a fim de fazer isso: de divulgar, de aceitar - melhor dizendo -, de contar a vocês sobre as coisas que me tiram o sono e que, invariavelmente, têm me feito mal: o meu vício em chutney de manga e em Tostitas.


O chutney

O minha primeira experiência com chutney de manga deu-se há uns 3 anos quando uma amiga, a Jany, levou um tanto para um festinha que dei em casa. Confesso que não foi amor à primeira vista, mas foi fácil perceber que havia uma ligação forte entre nós e que algum dia daria no que deu: não posso viver sem o troço. Como arroz, feijão, bife e chutney; macarrão com chutney; pão com queijo e chutney; bolacha água e sal com chutney. O meu recorde foi na terça-feira desta semana: Baconzitos com chutney às 3h da matina. Preciso contar o que aconteceu no dia seguinte?

A necessidade é tanta que aprendi a fazer. Ficava na dependência do meu irmão até descobrir que não é tão difícil assim. Aliás, é até fácil, e o meu ficou uma delícia. Pra quem quiser experimentar... Mas vejam: não me responsabilizo pelo dia seguinte, ou pelo resto de suas vidas.


As Tostitas

A minha relação com as Tostitas começou faz ao menos 20 anos. A questão é que eu apenas gostava delas, não era dependente como agora. Aliás, ser dependente de Tostitas é muito mais difícil do que ser dependente de chutney, e isso porque ela é uma bolacha que não se encontra em qualquer lugar. Na verdade, tenho somente um fornecedor, a quem visito umas duas vezez por semana. São cerca de quatro pacotes a cada 7 dias, comidos com um ritual preciso: primeiro eu tenho que comer a parte de fora da figura que há desenhada na bolacha, figura esta que vocês podem ver abaixo. Só depois, completada a ingestão do lado de fora do quase círculo, é que coloco todo o resto na boca. Preciso... e delicioso.



A única loucura que não fiz até agora foi comer Tostitas com chutney. Tenho medo do efeito, do prazer, da loucura que isto me traria. Pretendo não fazê-lo. O que desejo, agora, é tentar me livrar destas coisas medonhas que me acompanham diariamente, estas muletas sem as quais não consigo viver.

Meu nome é Fabiano Conte, tenho 33 anos, e sou chutnólatra e tostitólatra...

10.8.08

Father's eyes

Fiquei sem ver meu pai por cerca de dois anos. Os seus últimos dois anos. Não fui visitá-lo no hospital quando estava doente, não fui ao seu enterro.

Nunca culpei-me por isso, isso nunca fez com que me sentisse mal. Passei a vida toda atrás do afeto de alguém que era narcisista demais para poder dedicar-se a poucos. Ele precisava da atenção de todos, dos olhos de todos. Era carinhoso sim, mas ausente. No final, errou feio comigo, e cansei-me. Quem me conhece sabe que a minha principal virtude talvez seja a paciência. Tão presente que às vezes se parece com inércia. A questão é que quando as chances se esgotam, a coisa se quebra de vez, e não há volta. Com ele foi assim.

Meu pai era músico. Um bom músico. Provável que esta seja uma das únicas memórias que me fazem realmente sentir orgulho. Lembro-me, com os esfumaçamentos normais da lembrança, de estar em seu colo por muitas vezes enquanto tocava. Os salões cheios, as cabeças saltando, por vezes a escuridão: tudo visto de uma posição estranha, de um ângulo no qual o mundo parecia se elevar de um chão que tinha teclas brancas e pretas, e botões.

Em uma de minhas poucas recordações realmente claras da infância, daquelas com cheiro, temperatura e textura, a música está novamente presente junto a ele. Casa de um amigo, cortina colorida feita com tiras de tecido, quarto, um aparelho de som, pessoas sentadas no chão. Eu sentado entre as pernas de meu pai, que usava um jeans e uma camisa branca. Algumas pessoas fumavam. Algumas tomavam cerveja. Conversavam sobre uma composição interessante, que foi devidamente ouvida, retirada de um long-play.

Pois bem: óbvio que esta música hoje é uma máquina do tempo. Difícil conseguir ouvi-la sem que algo, ao menos em parte, seja retomado, reconstruído. Sensação de proteção, colo ou fascínio: por mais que eu tente impedir, invariavelmente algo volta. Samba pa ti é minha música com meu pai, música da época em que eu não compreendia, e não precisava compreender, como as coisas se passavam de verdade.

Post acima


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9.8.08

fabianescas - Especial Dia dos Pais

Comemoração do Dia dos Pais na escola. Amiguinho do João vem até ele e diz:

- João, vamos até ali brincar?
- Vamos sim... Ah, este aqui é o meu pai.
- Oi, tudo bem?
- Tudo...

Os dois saem papeando, e eu escuto:

- O que é que o seu pai faz?
- Ele é professor.
- Ah é: de quê?
- De filosofia.
- Nossa, e o que é filosofia?

A partir daí eu não ouvi mais. Nem sequer perguntei ao João o que ele respondeu: sei que ele é cara-de-pau e deve ter enrolado o garoto. Por isso, limitei-me a ficar muito, mas muito feliz mesmo, pelo fato de o menininho não ter feito a última pergunta pra mim.

2.8.08

The worm

Há um vírus em mim. Habita meu crânio uma bactéria, um verme, um fungo com o qual eu não agüento mais lidar.

Ele me consome diariamente enquanto durmo. Ele aparece em meus sonhos como um fantasma, um monstro que morde, corta, finca, rasga e, por fim, cospe pedaços meus que observo, que me observo, que me irritam, que destoam, que grudam em meus pés e não soltam.

Não sei mais o que fazer com este bicho. Faixa-preta, galinha preta, crucifixo: já tentei de tudo e não passa, e não sai. Cansei-me do mim mesmo quando estou com este animal. Os outros se cansarão também de mim. Haverá um momento, um tratamento eficaz, uma fuga?

O verme ri: finca a bocarra nos intestinos de minha memória e gargalha. Saio daqui para me encontrar com ele. De novo.

Já sei que pela manhã, antes até de acordar, aquilo que me diz quem sou doerá como uma úlcera.

23.7.08

As férias, o coma-andante, o pão e o sistema educacional

Para quem ainda não viu, há ali no canto direito do blog, um pouco abaixo, na categoria "Merecem uma visita", um link chamado "Um blog direto de Cuba". Acredito já ter feito um comentário sobre ele. Convido-os novamente para que visitem. Os textos são deliciosos, perspicazes, e nos ajudam a entender o tom das coisas na ilha. Reproduzo aqui um deles, mostrando todos os desvãos e angústias de uma mãe cubana, além da imagem do tal "diploma".

Termina el curso escolar y ya veo peligrar mi pan del racionamiento. Mi hijo estará durante dos meses sin ir a la escuela y, en la ansiedad de las vacaciones, podría comerse hasta las bisagras de las puertas. No se conformará con el harinoso ejemplar de 80 gramos que recibe por la libreta y de seguro arremete contra mi cuota de pan o la de su papá.

Me preparo desde ahora para las preguntas del tipo ¿Mami, no vamos a visitar a la familia de Camagüey? y yo intentando explicarle que la cola para los ómnibus interprovinciales demora tres días y ya están vendiendo los pasajes para la segunda quincena de julio. Tampoco lo calmará saber que los precios de moverse en las estrechas Yutong, hacia el centro de la Isla, vienen a ser la mitad del salario de cualquier trabajador.

Pero trataré de complacerlo y le cederé mi pan, dormiré tres días en la fila por un pasaje a Camagüey y hasta puede que le alquile un par de horas el Play Station de un vecino. Todo eso porque ha terminado séptimo grado con buenas notas y hay que agasajarlo. El sábado pasado fue el acto de fin de curso y regresó a casa con su diploma y lanzó su grito de guerra desde la puerta “¡Estoy de vacaciones!”.

Sólo que no sé bien de qué se ha graduado mi hijo, si de séptimo grado o de la Escuela del Partido Comunista “Ñico López”. La confusión ha comenzado cuando miré el diploma, que aquí les dejo para que puedan comprobar de dónde viene mi desconcierto. ¿Qué creen ustedes?


20.7.08

cris-gris

Respondendo à minha amiga Cris: o Paulo Roberto Martins eu não conheço, nunca tinha ouvido falar. Já o Laymert Garcia dos Santos foi meu professor em um curso que fiz na economia e no qual, aliás, lemos Marx. Posso dizer que é um ótimo professor, ótimo mesmo, com uma leitura interessante e menos ideológica do marxismo.

Não sei ainda o motivo da pergunta, mas se eles acreditam que a ciência é uma questão que se resolve também no campo da política e da ética, melhor. Se não, não posso fazer nada, hehe.

Aliás, há algumas coisas a serem ditas sobre isso. Ficam para o próximo post.

19.7.08

Tentativa de conforto para blogueiras que escrevem sobre avós


Mixwit

SBPC: Sociedade de Bundinhas e Petralhas Comunas

Hoje visitei rapidamente a SBPC. Como tinha que tratar do meu reingresso a fim integralizar a licenciatura, aproveitei e fui dar uma olhada. Resultado: depois as pessoas se perguntam porque é que Wittegenstein foi ser porteiro e jardineiro na Áustria e Nietzsche decidiu ser enfermeiro na guerra franco-prussiana. Aquilo é uma chatice só, uma chatice ditada por um agenda no mínimo estúpida.

Do lado de fora, milhões de camisetas do Che e um pessoal vendendo um jornaleco comunista. Olha o que esse povo dizia: que não temos que deixar de acreditar na revolução, e que o neoliberalismo do governo FHC blá blá blá blá blá blá... Se eu estivesse irritado iria arrumar uma confusão, botar fogo naquela merda toda, fazer a barba de todo mundo, trocar os bonezinhos de anarquista por viseiras, arrumar emprego de verdade pra galera (quem sabe guardar os carros), além de arrumar análise coletiva, pra ver se esse povo sai da tal "infância do pensamento". Se o Getúlio estivesse lá, no mínimo umas bicudas sairiam (putz cara, agora não dá mais).

A princípio, fiquei com vergonha de pertencer às tais ciências humanas. Putz, os caras ali dentro falando de ciência, e os coiós aqui querendo fazer a revolução: nem ler um autor tosco como Marx os caras conseguem, e os outros falando de luz síncrotron. Ora, ora, Fabiano tolinho. Bastaram 20min na tenda e mais um tanto na ginásio para ver claramente que a agenda do povo exato era ditada pelo lado jacu do povo das humanas.

Sim, eu li Nietzsche, eu li Adorno e Horkheimer, eu li Habermas: técnica e ciência como ideologia, eu já sabia. Mas tudo ficou muito claro naquele momento. Como um pensamento de fundo tão despreparado pode ditar caminhos para uma quantidade gigantesca de pesquisas? Parecia um encontro de ONG´s dispostas a salvar a tartaruguinha caolha e barrabenta de Mossoró: caceta!

É impressionante como a extrema tecnicização das ciências exatas acabou produzindo indivíduos que não fazem a mínima idéia de seus lugares no mundo, quiçá o de suas pesquisas. O ditame é fornecido pelo levante do interesse geral e, por assim, pela boniteza do ato científico. Se ele é capaz de emocionar as pessoas, de fazê-las suspirarem, é algo que deve ser pensado. Um exemplo? O nome do projeto que ganhou o prêmio cientistas do amanhã: Teste de disponibilização da produção do biodiesel para pequenos produtores de forma artesanal através de gordura animal. E bota o MST pra produzir biodiesel, hahaha... Só não pensaram no fato de que agora não é mais in comer animais.

Outros ganhadores:

Microbiologia Democrática - das gêmeas Ana Cláudia e Ana Clara Cassanti – Trata do ensino da microbiologia a partir de experimentos e jogos para escolas que não possuem laboratório.

Parâmetros analisados da água de Londrina após a utilização e tratamento de esgoto - Júlia Carvalho (Londrina) – Análise de parâmetros e conscientização da importância dos rios. Integra o projeto da prefeitura de Londrina “O rio da minha rua”.


Enquanto isso os jovens do resto do mundo desenvolvem Napsters, criam formas de aproveitamento de água salgada e barateiam diversas formas de tecnologia, "democratizando-as".

Confundimos ciência e tecnologia com educação básica e projetos sociais caducos: alguém aí quer algo mais alinhado com o fato de sermos um país quem tem um presidente apedeuta e aético, e ainda se orgulha disso?

Infelizmente, esta é a nossa Weltanschauung.

18.7.08

Loro Beto Conte, o meu irmão verde

Como alguns de vocês sabem, eu tenho um papagaio. O nome dele é Loro Roberto Conte, vulgo Loro Beto.

Loro Beto tem 39 anos e fala pouquíssimas coisas. Ele é bom mesmo é de imitar sons: cachorro grande, cachorro pequeno, ronco, falatório e tosse. É só meu avô abrir a porta do quarto que ele começa a tossir, sacaneando. Já avisei que qualquer dia desses ele leva uma porrada. Claro que não adiantou.

Escrevo sobre ele hoje por um motivo estranho: Loro Beto está se humanizando. Sim, senhores: Loro Beto acha que é uma pessoa, e não vejo mais motivos para que não seja considerado como tal. Tudo começou quando minha mãe, acho que porque fui morar fora, resolveu substituir o filho.

Com isso, Loro Beto começou a ficar na sala, a almoçar com a família, a dormir quase no quarto. A situação, na verdade, é a seguinte: quando minha mãe acorda, pega o Loro e o coloca na sala. Lá ele assiste à Ana Maria Braga e aos desenhos globais. Enquanto faz isso, ganha um naco de pão e meia banana de café da manhã. Como já disse, almoça conosco, o que inclui comer macarrão, arroz, e até batata frita.

Aliás, a questão “alimentação” é um caso à parte: já disse que deve ser o primeiro caso de colesterol alto e, por conseguinte, infarto, da história dos papagaios. Ele é vidrado por: Fandangos, pizza, macarrão, pão, pastel, esfirra do Habib’s e qualquer outra junkie food que você coma na frente dele. Se você não dá, ele berra. Simples.

A única coisa ligada à natureza que Loro Beto faz é dar umas voltas na árvore que há no meu quintal no finalzinho da tarde. Às 18h ele é colocado de novo na cozinha, para o lanche-jantar, e depois volta para a sala, para assistir às novelas. E quando volta para a sala, há um porém: considere que a gaiola é colocada em frente ao sofá, o que faz com que ocupe uma posição no móvel, o que lhe dá, logo, o status de membro da família.

Acredito que chegue o momento no qual Loro Beto começará a usar o vaso sanitário e fuçar aqui no micro. Talvez eu tente um RG e um CPF. Se eu desse à Aristóteles as características psicológicas do Loro, ele teria que admitir que existem, sim, pessoas verdes e com penas.

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Devo achar que é sorte o fato do Loro estar se humanizando. O meu mais novo vizinho também tem um papagaio, só que lá a coisa parece estar se invertendo: a pessoas estão de papagaizando. As ouço, constantemente, passar pelo corredor falando assim: perau folitó perstiraolhaquibo fortlastes pricaranha uergranamas... sendo que o papagaio lhes responde na mesma língua papagaiesa. Estou prestes a chamar o IBAMA.

Ah, esta é pra você!


Mixwit

13.7.08

Ai que chatice!

“Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinqüenta anos de idade, ou então mais cinqüenta de reflexão."

Adoro este texto acima. Foi escrito pelo poeta lusitano Antero de Quental (1842-1891) para alfinetar um outro poeta, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875).

Primeiro, o que se vê é muita ironia. E depois, uma infeliz verdade. Que chatice é uma criança querendo se passar por adulto. Que horrendo é um velhinho dando uma de bacana. Os dois são espetáculo fácil na TV. Carregam o tom do inusitado, do diferente, do bom. O que haverá de bom nisso? Pra mim é só tolice.

E vem o menininho de 8 anos falar de política, de economia, de religião. E vem o velhinho dar cambalhotas, tocar bumbo e jogar bola com sua roupa brilhante.

Ambos vindo do campo dos horrores como a mulher barbada, o homem elástico, os anões siameses.

Tudo até que suportável se o horror não tivesse hoje se transformado em objetivo cultural, virado moda.

- Vai Pedrinho, analisa a queda do Renan Calheiros.

- Aí bisavô, me empresta essa regata colada e os alteres.

Hummm, e eu tranco as portas para o mundo. Hummm, e eu dou uma de Antero de Quental. Menos idade ou menos reflexão pra mim? Ainda não sei, mas tirem estes moleques logo da minha frente pelo amor de Deus!

4.7.08

Lições sobre morte e imortalidade

Então povo: segundo meu avô, que por conta do fato acendeu uma vela e quase pôs fogo na casa, ontem fez 17 anos que minha avó morreu. Estranho pensar que agora, aos 33, posso dizer que passei mais da metade da vida sem a presença física daquela que me foi a principal referência. Física digo não porque acredite em espíritos, mas porque a memória vai-se esvaindo e por vezes fica só o principal, só a estrutura, uma lembrança boa que é quase um lapso. Se eu fosse uma fenomenólogo, talvez tivesse mais coisas a dizer sobre isso. Como não... vai um texto que escrevi há um tempinho atrás.

Beijos vó...



Ontem choveu granizo. E granizo me lembra Dona Elza, a avó que me colocava sobre a mesa antes do almoço pra fritar bifes de fígado que segundo ela me tornariam mais forte. A avó que que me colocava sobre a mesa durante a tarde pra fazer bolinhos de chuva em formato de charutos, aqueles que tinham um sabor diferente e os quais nunca mais vou voltar a comer na minha vida. A avó que fazia jarros e jarros de suco de laranja.

Dona Elza foi-se cedo. Acho que com 63 anos. A reincidência de um tumor a levou. Da primeira vez que ficou doente passei meses na cama ao seu lado. Da segunda, tinha tanto medo que ela se fosse que não conseguia vê-la. Arrependo-me por isso.

Dona Elza foi a pessoa mais importante da minha infância. Filha de um português e de uma espanhola, tinha o carisma de um e a força do outro. Era viva, inteligente, irônica, engraçada, esplendorosa e linda. Fazia amigos como quem troca de meias. Ainda sou parado nas ruas por quem, como eu, sente saudades dela.

Sempre que chovia granizo, corríamos pra porta da cozinha pra pegar algumas pedras. Segundo ela, gelo celeste faz bem à pele. Passávamos aquilo no rosto, morríamos de rir, e voltávamos pra sala.

Fazemos isso até hoje, só que agora com o João junto. Devo acreditar que a coisa funciona. Quando ela morreu parecia ter 40 anos, ou 35. Não se encontrava uma ruga no rosto risonho.

Da última vez que a vi, algumas horas antes de ir, num quarto de hospital, com sede e sem poder se alimentar, disse que quando sairia dali tomaria um balde de laranjada e enfiaria um sorvete na testa pra que ele escorresse até a boca. Não deu.

Entretanto, toda vez que chove granizo passamos umas pedras no rosto e ela insiste em colocar umas na boca. Digo a ela que faz mal. Dona Elza não liga, ela é teimosa, e voltamos pra sala, agora os três, rindo à toa.

28.6.08

Gostei!

Do blog do Reinaldo:

Tio Rei exercita o seu lado legiferante e exige teste de bafômetro para dirigir o país.