5.3.12

Quando a ciência não se basta, ainda que ela possa quase sempre acreditar que sim


Na última terça-feira, ao dar uma olhada no caderno de Ciência da Folha, encontrei esse texto que, logo de cara, me pareceu fazer referência a algo bem problemático. Isso porque sabemos que quando a questão diz respeito à ética ou a moralidade as coisas não podem ser pressupostas de maneira tão ingênua. 

Os indivíduos burlaram regras? Se colocaram de maneira pouco apreciável e não dentro de uma conduta esperada? Pode acontecer e acontece, sempre. Mas seria isso indicativo de quê: de não respeito à ética ou do desenvolvimento de uma espécie de ética paralela?

O artigo base, do qual texto jornalístico é nada mais do que um resumo, pode ser lido na íntegra aqui.

Seria necessário algum tempo e talvez muito espaço para colocar uma mínima discussão sobre o assunto. Fato é que, quando a ciência se arrisca a fazer certas afirmações, deveria se atentar mais à narração do fato, ou sua descrição, ao invés de fazer uso de termos tão problemáticos e caros à história do pensamento humano. 

De qualquer maneira, foi-me impossível ler o artigo e não me lembrar do aforismo 92 de Humano, Demasiado Humano. Uma passada de olhos pelo texto de Nietzsche já coloca as coisas sob uma perspectiva diferente e bastante mais complexa.  

Aliás, por que será que o filósofo de Röcken tinha tanta implicância com os chamados psicólogos?

Riqueza traz mais chances de agir de forma pouco ética

Pesquisa de psicólogos mostrou que, no trânsito ou em jogos virtuais, quem tem mais dinheiro trapaceia mais 

Resultado pode ter relação com atitude diferente diante da cobiça, vista como algo positivo, diz cientista 

REINALDO JOSÉ LOPES

EDITOR DE “CIÊNCIA E SAÚDE”
Não é todo dia que um estudo publicado numa das principais revistas científicas do mundo cita a Bíblia para explicar sua hipótese de trabalho: "Dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus". A pesquisa não entra no mérito do destino além-túmulo de quem tem muito dinheiro, mas conclui que, de fato, pessoas com status social elevado teriam maior probabilidade de se comportar de modo antiético. 

O resultado polêmico vem de uma série de experimentos conduzidos por psicólogos da Universidade da Califórnia em Berkeley, liderados por Paul Piff, e está na edição eletrônica da revista "PNAS". Em contextos tão diferentes quanto o trânsito, uma entrevista imaginária de trabalho e um jogo de computador, os pesquisadores enxergaram diferenças significativas na maneira como ricos e pobres lidam com dilemas morais. 

Piff e seus colegas tomam cuidado para não dar a impressão de que seus resultados equivalem a uma condenação generalizada dos ricos e a um endeusamento dos pobres. Eles lembram que há muitos milionários beneméritos, colocando Bill Gates nessa categoria, e chamam a atenção para a prevalência de crimes violentos em bairros pobres do mundo todo. 

No entanto, afirmam, os experimentos parecem indicar um tema comum que leva quem tem mais dinheiro a cruzar a barreira do eticamente aceitável: a cobiça. 

DOCE DE CRIANÇA
 
É isso que aparece num dos testes de laboratório da ideia, na qual um grupo de 125 universitários tinha de preencher um formulário sobre a sua própria posição na escala social. Depois, como quem não quer nada, os cientistas colocavam diante dos voluntários um recipiente cheio de doces. 

O recipiente tinha um rótulo dizendo que os doces iriam para um laboratório onde seriam feitos experimentos com a participação de crianças. "Mas, se quiser, você pode pegar alguns doces", dizia o pesquisador ao voluntário do estudo. 

Parece piada pronta, mas o fato é que quem se considerava membro das camadas mais altas da sociedade tendia a pegar mais doces, deixando menos guloseimas para as crianças. 

Em outro experimento, quase 200 pessoas, num teste on-line, participavam de um jogo virtual de dados. Depois, tinham de relatar sua pontuação para os pesquisadores. Os cientistas tinham dito aos voluntários que, quanto mais pontos eles fizessem, maior a sua chance de ganhar um prêmio em dinheiro, no valor de US$ 50. 

A armadilha aqui é que, primeiro, os cientistas afirmaram que não tinham como saber a pontuação da pessoa; ela é que tinha de passar a informação para eles. Mas, na verdade, o dado virtual estava viciado: era impossível fazer mais do que 12 pontos. 

Os cientistas viram que algumas pessoas mentiram a respeito da própria pontuação. E, mais uma vez, quanto mais endinheirado o participante, maior a probabilidade de ele falsear o número.
Os pesquisadores também acompanharam o comportamento das pessoas no trânsito, vendo que quem possui carros caros tem mais tendência a desobedecer regras de trânsito e não dar a preferência para pedestres. 

A psicóloga Maria Emilia Yamamoto, especialista em evolução do comportamento humano da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, confessou estar "abismada" com o estudo.
"Claro que é preciso 'mastigar' um pouco mais esses resultados, mas eles são muito consistentes", afirma. 

Ela chama a atenção para a possibilidade de que ser rico levaria certas pessoas a minimizar as necessidades alheias. "Em vez de dizer que ricos são menos éticos, poderíamos dizer que ricos se tornam menos éticos."





Humano, Demasiado Humano - § 92


Origem da justiça - A justiça (eqüidade) tem sua origem entre aqueles que têm potência mais ou menos igual, como Tucídides (no terrível diálogo entre os enviados atenienses e mélios) o concebeu corretamente: onde não há nenhuma supremacia claramente reconhecível e um combate se tornaria um inconseqüente dano mútuo,  surge  o  pensamento  de  se  entender  e  negociar  sobre  as  pretensões  de  ambos  os  lados;  o  caráter  da  troca  é  o  caráter inicial  da justiça.  Cada um contenta o  outro,  na  medida  em  que  cada  um obtém o  que  estima  mais  do  que  o  outro.  Dá-se a cada um  o  que ele quer ter, como  doravante seu, e se recebe em compensação o que se deseja. Justiça é, portanto, retribuição e intercâmbio, sob a pressuposição de uma posição mais ou menos  igual de potência;  assim a vingança pertence originariamente ao domínio da justiça, ela é intercâmbio. Assim também a gratidão.  - Justiça remete naturalmente ao  ponto de vista  de  uma autoconservação inteligente, portanto, ao egoísmo daquela reflexão: "Para que haveria eu de danificar-me inutilmente e talvez nem sequer alcançar meu alvo?" - Isso quanto à origem da justiça. Porque os homens, de acordo com seu hábito intelectual, esqueceram o fim originário das assim chamadas ações  justas,  eqüitativas,  e,  em  especial,  porque  através  de  milênios  as crianças  foram  ensinadas  a  admirar  e  imitar  tais  ações,  pouco  a  pouco  surgiu a aparência de que uma ação justa é uma ação não-egoísta: e sobre essa aparência repousa a alta estima por elas, que além disso, como todas as estimativas, está  ainda  em constante  crescimento:  pois algo altamente estimado é perseguido com sacrifício, imitado, multiplicado, e cresce porque  o  valor  do  esforço  e  zelo  dispendidos  por  cada  individuo  é  ainda acrescentado  ao  valor  da  coisa  estimada.  - Que aspecto  pouco  moral  teria o mundo sem  o esquecimento! Um poeta poderia dizer que Deus postou o esquecimento como guardião na soleira do templo da dignidade humana. 

24.2.12

Para que servem as fantasias? - Contardo Calligaris


NA MINHA adolescência, em Milão, no Carnaval, era raro que alguém promovesse uma festa à fantasia; em geral, os poucos estabelecimentos que alugavam fantasias propunham figurinos abandonados por companhias de teatro falidas: a festa cheirava a naftalina, de dar dor de cabeça.
Antes disso, na minha infância, as mães fantasiavam suas crianças e as levavam pelas ruas. No meu caso, isso acontecia em Veneza, onde, por sorte, havia mais crianças fantasiadas do que em Milão - eu não era a única vítima dessa inspiração materna.


Mais tarde, imaginei que, com aqueles passeios de fantasia, minha mãe quisesse me mostrar que, na vida, é sempre possível ser outro: Polichinela, Arlequim, Scaramouche e, muitas vezes, Pierrot. A prevalência de Pierrot demonstra, aliás, que, fantasiando-me, ela não pretendia me ensinar um atalho para chegar à eterna felicidade; o que lhe importava me transmitir era só a alegria de se reinventar, de ter uma vida variada - feliz ou triste, como a de Pierrot, tanto fazia.


De qualquer forma, na época, eu criticava aqueles passeios. Era para todos acharem que eu era outra pessoa? Fracasso: não íamos enganar ninguém, visto que ela não estava fantasiada, e os vizinhos, reconhecendo-a, saberiam imediatamente que a criança era eu.


Esse raciocínio era bem veneziano. Na Veneza antiga, havia as máscaras de nariz comprido, no qual as pessoas socavam ervas que filtrassem as pestilências, e havia, Carnaval ou não, a vontade de se deslocar pelas ruelas da cidade no anonimato. Os venezianos protegiam sua vida privada  (política e amorosa) vestindo todos capa e tricórnio pretos com a mesma máscara básica, branca ou preta.
Essas máscaras para preservar o anonimato eram, por assim dizer, fantasias para poder continuar sendo si mesmo (no caso, às escondidas). No Carnaval de Veneza hodierno, na rua ou nos bailes, máscaras e fantasias não servem mais para que possamos ser nós mesmos anonimamente, mas para que o sonho ou a ilusão de podermos ser diferentes sejam reconhecidos por todos, numa espécie de reciprocidade: te felicito por tua fantasia se você me felicita pela minha.


Em suma, já houve fantasias para sermos nós mesmos e, hoje, há sobretudo fantasias para sonhar e fingir ser outro. Não desdenho essa função da fantasia. Afinal, talvez fosse para manter vivo o sonho ou a ficção de ser outro que minha mãe me levava fantasiado pelas ruas.


Passei o feriado no Rio, onde o Carnaval de rua voltou, com a multiplicação dos blocos e com um clima permanente (e civilizado) de festa no asfalto (o da zona sul, no mínimo). Tanto na rua como na Sapucaí, hoje, a fantasia me parece servir mais para sonhar em sermos outros do que para autorizar lados escondidos de nós mesmos, que a fantasia, por assim dizer, permitiria.


Mas eis que alguns amigos não concordam: segundo eles, as fantasias serviriam, justamente, para que ousemos ser nós mesmos. Os antigos venezianos, para agir "soltos", precisavam apenas do anonimato - e por isso eles se fantasiavam. Nós, para chegar à mesma "soltura", precisaríamos vencer poderosas inibições; a fantasia (com a ajuda da cerveja) nos levaria a acreditar que, uma vez fantasiados, sendo um pouco diferentes, estaríamos (até que enfim) à altura de nossos próprios impulsos reprimidos. Prova disso, acrescentam os mesmos amigos, são os excessos sexuais que acontecem no Carnaval: tudo seria permitido porque, por um instante, achamos que não somos nós, é a fantasia que cai na gandaia.


De fato, existe um lugar-comum, segundo o qual, no Carnaval, a gente se permitiria perigosos excessos sexuais - é por isso que o Ministério da Saúde concentra suas campanhas de prevenção no Carnaval. Mas é apenas um lugar-comum.


Foi publicada já em 2010 ("Rev. Assoc. Med. Bras.", vol. 56, nº 4, SP 2010; http://migre.me/7ZKpc) uma pesquisa (prolongando a dissertação de mestrado de Wilma Nancy Campos Arze, http://migre.me/80OQl) que mostra o seguinte: durante o Carnaval, em matéria de sexo, não pode acontecer nada muito diferente do de sempre, visto que, como consequência do Carnaval, não aumentam nem as infecções por doenças sexualmente transmissíveis nem as gravidezes indesejadas.


Conclusão: a ideia de que o Carnaval seja um momento orgiástico, em que soltamos desejos reprimidos, é apenas um aspecto do sonho de sermos um pouco diferentes do que somos - ou seja, é apenas mais uma fantasia de Carnaval.

10.2.12

Os diferentes são todos doentes? - Contardo Calligaris


Aconteceu no mesmo dia. Primeiro, houve uma mãe falando da homossexualidade do filho, que ela, em tese, acabava de descobrir: "É uma doença, não é?", perguntou. Ela queria encontrar, na minha confirmação, uma razão de perdoar o filho por ele ser como é. 

Mais tarde, alguém, falando de um parente próximo que é toxicômano, afirmou mais do que perguntou: "Ele é doente" -no tom de quem procura uma confirmação que permita perdoar o inelutável. 

Nos dois casos, respondi com cautela, mais ou menos desta forma: "Certo, deve haver razões para ele ser assim, mas ele não é doente como alguém que pega um vírus ou uma bactéria, nem como alguém que seja invadido por um câncer". A observação convidava meus interlocutores a questionar o que eles entendiam por "doente". A mãe do primeiro exemplo acrescentou que, de fato, não devia se tratar tanto de uma doença quanto de uma disposição genética. 

Meu segundo interlocutor poderia ter dito a mesma coisa. Afinal, logo na sexta passada, a revista "Science" publicou uma pesquisa de Karen Ersche, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), defendendo a tese de que existe uma predisposição genética à toxicomania (veja-se o caderno "Saúde" da Folha de 3 de fevereiro e o texto original por www.migre.me/7OLiy - de fato, sem entrar em detalhes, a pesquisa de Ersche mostra que deve haver uma predisposição genética à toxicomania, embora essa predisposição não seleo destino de ninguém). 

Desde quinta-feira passada, também recebi vários comentários à minha última coluna: muitos diziam que, claro, "cross-dressers", travestis e transexuais devem ser tratados com respeito por uma razão simples: "eles são doentes".Parece que a possibilidade de respeitar a diferença passa pelo reconhecimento de que essa diferença constitui uma patologia ou uma espécie de malformação congênita (no fundo, a exceção genética é isso). 

Alguns perguntarão: "não é melhor assim?". Sem essa "injeção" de patologia (ou de teratologia), os diferentes seriam apenas julgados em nome de um moralismo qualquer: os drogados seriam vagabundos, os homossexuais, sem-vergonhas, e, quanto aos "cross-dressers" e etc., nem se fala.
Em outras palavras, a substituição da moral tradicional ou religiosa pela medicina, em geral, produz uma nova tolerância das diferenças: elas não são punidas, são diagnosticadas. 

Mais um exemplo. Obviamente, para nossa proteção, não deixamos de prender os criminosos, mas já "sabemos" que muitos deles não são "ruins", eles só têm um problema de córtex pré-frontal - por causa dessa malformação, continuam impulsivos que nem adolescentes. 

O neurocientista David Eagleman ("Incógnito", ed. Rocco) chegou a propor que a gente treine nossos criminosos de modo que eles gozem de uma "normalidade" cerebral parecida com a da gente. Aí, sim, poderíamos condená-los com toda justiça. Sem isso, puniríamos "doentes", não é?Perdoamos facilmente, mas não é por misericórdia ou compreensão, é porque respeitamos e desculpamos doentes e vítimas de anomalias genéticas. É um progresso? 

Acima de seu sistema jurídico, cada sociedade produz e alimenta um sistema de crenças, regras e expectativas que facilita a coexistência mais ou menos harmoniosa de seus cidadãos. Para essa função, a modernidade escolheu a medicina (do corpo e das almas). Com isso, o controle sobre nossas vidas seria aparentemente mais suave, mais "liberal". Mas é só uma aparência. Pense bem. Certo, se toda exceção ou anormalidade for doença ou malformação, os diferentes não serão propriamente punidos. No entanto, a sociedade esperará que eles sejam "curados". 

Outro "problema": se os desvios da norma forem tolerados por serem efeitos de doença ou malformação, o que aconteceria com quem pratica desvios, mas não apresenta as "malformações" que o desculpariam? O que acontece se eu quero me drogar, ser "cross-dresser" ou, mais geralmente, infrator só porque estou a fim de uma "farra" e sem poder alegar nenhuma das predisposições genéticas para essas "condições"? Aí vai ser o quê? Voltamos às punições corporais? 

Em suma, gostaria que fosse possível ser anormal sem ser "doente". E, se fosse o caso, me sentiria mais livre sendo punido do que sendo "curado".

2.2.12

fabianescas - dilema moral joanino

Pai, eu estava pensando aqui: suponha que exista uma pessoa que seja viciada em doar coisas. Ela tem muito dinheiro, é milionária, mas tem a doação como vício. Se ela quisesse doar um tanto de dinheiro pra você, seria correto você aceitar?


30.1.12

Bluebird (Pássaro Azul) - Charles Bukowski





there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?




Pássaro azul


 Há um pássaro azul em meu coração que
quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
Eu falo, fica aí dentro,
eu não vou deixar ninguém te ver.
Há um pássaro azul em meu coração que
quer sair
mas eu derramo uísque nele e aspiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas do mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.


Há um pássaro azul em meu coração que
quer sair
mas sou mais forte que ele,
Eu digo, fique aí, você quer me pôr
em apuros?
você quer estragar meus trabalhos?
você quer estragar as vendas dos meus livros na
Europa?"
Há um pássaro azul em meu coração que
quer sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite, às vezes
quando todos estão dormindo.
Eu falo, sei que você está aí, então não fique
triste.
Então o coloco de volta
mas ele ainda canta um pouco aqui dentro, eu não o deixei
morrer totalmente.
e a gente dorme junto
desse jeito
com nosso
pacto secreto
e é delicado o suficiente
para fazer um homem chorar, mas eu não choro,
você chora?















17.1.12

LEMBRANÇA D'ÁFRICA - Ungaretti

RICCORDO D'AFRICA

Il sole rapisce la città

Non si vede più


Neanche le tombe resistono molto



LEMBRANÇA D'ÁFRICA

 O sol sequestra a cidade

Nada mais se vê

Sequer os túmulos resistem muito





13.1.12

Agir para fazer bonito - Contado Calligaris

Texto publicado ontem na Folha. Certeiro eu diria, tanto com as coisas todas, quanto com o que vem se passando nos últimos tempos nesse blog. Uma introdução perfeita para a finalização da história.   



Os psicólogos desconfiam um pouco da expressão "força de vontade", à qual todo mundo recorre (sobretudo para denunciar as fraquezas -as nossas e as dos outros), mas sem que a gente saiba direito o que ela designa. 

Por isso, estou lendo "Willpower, Rediscovering the Greatest Human Strength" (a força de vontade, redescobrindo a maior força humana), de R. Baumeister (um psicólogo que aprecio) e J. Tierney (jornalista do "New York Times"), ed. Penguin. O livro (p. 152) me fez conhecer o site www.stickK.com (que foi criado, aliás, para servir de amostra para pesquisas). 

No site, o usuário se engaja contratualmente a cumprir um plano que implique um engajamento sério, se não uma reorientação de vida -desde o trivial, como emagrecer ou parar de roer as unhas, até metas, aspirações, desejos e ambições que justificam uma existência, passando por aquelas experiências irrenunciáveis que alguém quer ter ao menos uma vez, antes de morrer. 

Ao escolher sua resolução, o usuário é convidado a nomear um árbitro: alguém que lhe seja próximo, que não seja um cúmplice qualquer e que possa, portanto, confirmar honestamente os progressos que o usuário declarará conseguir, no diário de seus esforços, que será acessível no site.
Além do árbitro, o usuário é também encorajado a escolher um número indefinido de amigos, que serão informados de seu propósito inicial e de seus avanços ou fracassos (eles terão acesso ao diário e aos comentários do árbitro). Na hora em que ele declara seu propósito, o usuário também estabelece uma punição para si mesmo, caso ele fracasse. 

Essa punição pode ser moral (um e-mail contando a história do malogro para uma lista de amigos e conhecidos) e/ou financeira -por exemplo, uma doação para a instituição que o usuário mais deteste (imaginemos que você pertença a uma igreja que é ferozmente contra a ideia do casamento gay e que você não consiga, sei lá, estudar seis horas por dia; pois bem, você passara a contribuir ao Grupo Gay da Bahia, de acordo com suas possibilidades financeiras). 

A análise de 125.000 contratos feitos nos últimos três anos indica que os usuários que não nomearam um árbitro ou não se impuseram punições financeiras chegaram a um resultado positivo só em 35% dos casos. E a porcentagem de sucessos foi de 80% quando houve árbitro, amigos e punição financeira. 

Existem experiências similares. Nas Filipinas, houve fumantes que depositavam a cada dia um dinheiro que eles perderiam se, depois de seis meses, houvesse rastos de nicotina em sua urina (o cigarro é poderoso: mais da metade perdeu seu depósito -em compensação, os que conseguiram pararam de fumar de vez). E houve a "Dieta da Humilhação Pública" de Drew Magary, que se engajou a tuitar seu peso a cada dia e conseguiu assim perder 30 quilos em cinco meses. 

À primeira vista, em suma, não agimos segundo o que achamos certo, por "força de vontade", mas para evitar punições e vergonhas. Ou seja, não somos nunca verdadeira e corajosamente bons, apenas queremos fazer bonito e não perder dinheiro (ainda menos em prol de nossos inimigos). 

Haverá moralistas para dizer que a sociedade contemporânea nos transforma nesses invertebrados morais -sem princípios, apenas interessados na opinião dos outros e em nosso interesse imediato. Mas, nos exemplos de Baumeister e Tierney, eu não vejo um sinal de decadência moral -ao contrário. Claro, como muitos, eu mesmo acharia mais fácil ser dotado de um caroço moral, do qual eu pudesse dizer: "Este sou eu, quer os outros me reconheçam ou não, e tanto faz que eu seja recompensado ou punido por isso". 

Mas não é o caso de sermos nostálgicos: nas sociedades tradicionais (presentes, passadas ou futuras), menos ainda do que hoje, os cidadãos tampouco dispõem de um caroço moral. Eles agem por medo da punição - agora ou no além. E eles agem por vergonha, diante de grupos instituídos de anciões, padres, pastores ou notáveis. 

No conjunto, quanto à punição, eu prefiro arriscar o que eu mesmo apostei ao assinar meus contratos. E, quanto à vergonha, prefiro que seja diante dos pares com quem eu me engajei, ou então, diante da sociedade inteira. 

Ou seja, sem ironia, como penso há tempos, nossa época é mais de progresso do que de decadência moral.

3.1.12

TÉDIO - Ungaretti

NOIA

Anche questa notte passerà

Questa solitudine in giro
titubante ombra dei fili tranviari
sull'umido asfalto

Guardo le teste dei brumisti
nel mezzo sono
tentennare


TÉDIO

Também esta noite passará

Esta solidão ao redor
hesitante sombra dos fios elétricos
sobre o úmido asfalto

Observo as cabeças dos enevoados
em meio ao sono
vacilar






1.1.12

O dia em que apertei a mão do poeta

Sim, eu também tenho ídolos. Todos nós os temos. A maioria dos meus escrevem ou escreviam.


Na semana passada, eu apertei a mão de um deles e me senti novamente criança: cumprimentando o Papai Noel, achando os ovos de Páscoa, um passo acima da realidade, no mundo da ideias, na lua.

os fios telegráficos simplificam as enchentes e as secas
os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas
a paisagem racha-se de encontro com as almas


Ele estava lá, bem na minha frente, lendo seus poemas, dizendo seus textos, fazendo suas divagações, sendo sarcástico consigo mesmo.

O poeta tem 68 anos, sofre de Mal de Parkinson, mas não perde a fala potente, a língua construtora.

o vento sul sopra contra a solidão das janelas e as gaiolas de carne crua
Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo
e como um escravo vou medindo a vacilante música das flâmulas



Eu, como um aluno aplicado, levei os meus livros e acompanhei as leituras com o poeta. Descobri coisas novas em palavras que havia lido cem vezes. Nas fotos que havia olhado tantas e tantas. Novas revelações que eu via como quem vê pela primeira vez um acrobata.

e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade


O encontro estava próximo do fim. O que eu faria depois? Será que o poeta maldito, que sabia muito de filosofia, muito de história, muito de literatura, receberia alguém? Daria autógrafos? Algumas pessoas se dirigiram à mesa. Eu fui atrás.

minha vertigem entornando a alma violentamente por uma rua estranha
os insetos as nuvens costuram o espaço avermelhado de um céu sem dentes


O poeta visionário, louco, era naquele momento um senhor doce, tranqüilo, que trazia carimbos para os autógrafos.


Pegou o meu livro e disse – Ah, você gosta de Paranóia é... – e eu – Poxa, é uma referência pra mim, uma paixão - ou seja, aquela fala inútil de fã.

E ele - Eu tinha 22 anos nesta época. Eu era bonito, né? Agora virei este caco.

O poeta colocou os carimbos, assinou com a mão trêmula.




Eu disse – Olha, eu trouxe uns poemas que escrevi pensando na sua obra, mas não sei se tenho cópias em casa.

Ele pegou os papéis, escreveu um endereço e falou – Mande pra cá, pra minha casa. Devolveu pra alguém uma caneta que havia emprestado, virou-se pra mim e perguntou - Qual o seu nome? Eu respondi.

Ele estendeu a mão e me disse – Muito prazer.






Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?
É noite. E tudo é noite.


E eu fui embora com meus presentes. Com minhas novas lembranças de criança. Divagando.

Eu havia apertado a mão do poeta. A mão que havia produzido sonhos que eu adorava ter.

Estranho, isto me fez produzir lembranças do tipo das que eu não deveria mais guardar na minha idade. Lembranças que de tão doces parecem carinhos de avó.

Onde exercitas os músculos de tua alma, agora?
Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços
Eu apalpo teu livro onde estrelas se refletem
Como numa lagoa


Eu também tenho ídolos.

P.S - Este texto é de 16/10/2006. O poeta se foi em 03/07 de 2010.

Estudos para uma bailadora andaluza - João Cabral de Melo Neto

          

          1
Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.


Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;

gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.

Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,

gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.

Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,

de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,

que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.

          2
Subida ao dorso da dança
(vai carregada ou a carrega?)
é impossível se dizer
se é a cavaleira ou a égua.

Ela tem na sua dança
toda a energia retesa
e todo o nervo de quando
algum cavalo se encrespa.

Isto é: tanto a tensão
de quem vai montado em sela,
de quem monta um animal
e só a custo o debela,
como a tensão do animal
dominado sob a rédea,
que ressente ser mandado
e obedecendo protesta.

Então, como declarar
se ela é égua ou cavaleira:
há uma tal conformidade
entre o que é animal e é ela,

entre a parte que domina
e a parte que se rebela,
entre o que nela cavalga
e o que é cavalgado nela,

que o melhor será dizer
de ambas, cavaleira e égua,
que são de uma mesma coisa
e que um só nervo as inerva,

e que é impossível traçar
nenhuma linha fronteira
entre ela e a montaria:
ela é a égua e a cavaleira.

          3
Quando está taconeando
a cabeça, atenta, inclina,
como se buscasse ouvir
alguma voz indistinta.

Há nessa atenção curvada
muito de telegrafista,
atento para não perder
a mensagem transmitida.

Mas o que faz duvidar
possa ser telegrafia
aquelas respostas que
suas pernas pronunciam
é que a mensagem de quem
lá do outro lado da linha
ela responde tão séria
nos passa despercebida.

Mas depois já não há dúvida:
é mesmo telegrafia:
mesmo que não se perceba
a mensagem recebida,

se vem de um ponto no fundo
do tablado ou de sua vida,
se a linguagem do diálogo
é em código ou ostensiva,

já não cabe duvidar:
deve ser telegrafia:
basta escutar a dicção
tão morse e tão desflorida,

linear, numa só corda,
em ponto e traço, concisa,
a dicção em preto e branco
de sua perna polida.
          4
Ela não pisa na terra
como quem a propicia
para que lhe seja leve
quando se enterre, num dia.

Ela a trata com a dura
e muscular energia
do camponês que cavando
sabe que a terra amacia.

Do camponês de quem tem
sotaque andaluz caipira
e o tornozelo robusto
que mais se planta que pisa.

Assim, em vez dessa ave
assexuada e mofina,
coisa a que parece sempre
aspirar a bailarina,

esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.

Árvore que estima a terra
de que se sabe família
e por isso trata a terra
com tanta dureza íntima.

Mais: que ao se saber da terra
não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas
fortes, terrenas, maciças,

mas se orgulha de ser terra
e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,
para vencer quem duvida.

          5
Sua dança sempre acaba
igual como começa,
tal esses livros de iguais
coberta e contra-coberta:
com a mesma posição
como que talhada em pedra:
um momento está estátua,
desafiante, à espera.

Mas se essas duas estátuas
mesma atitude observam,
aquilo que desafiam
parece coisas diversas.

A primeira das estátuas
que ela é, quando começa,
parece desafiar
alguma presença interna

que no fundo dela própria,
fluindo, informe e sem regra,
por sua vez a desafia
a ver quem é que a modela.

Enquanto a estátua final,
por igual que ela pareça,
que ela é, quando um estilo
já impôs à íntima presa,

parece mais desafio
a quem está na assistência,
como para indagar quem
a mesma façanha tenta.

O livro de sua dança
capas iguais o encerram:
com a figura desafiante
de suas estátuas acesas.

          6
Na sua dança se assiste
como ao processo da espiga:
verde, envolvida de palha;
madura, quase despida.

Parece que sua dança
ao ser dançada, à medida
que avança, a vai despojando
da folhagem que a vestia.

Não só da vegetação
de que ela dança vestida
(saias folhudas e crespas
do que no Brasil é chita)

mas também dessa outra flora
a que seus braços dão vida,
densa floresta de gestos
a que dão vida a agonia.

Na verdade, embora tudo
aquilo que ela leva em cima,
embora, de fato, sempre,
continui nela a vesti-la,

parece que vai perdendo
a opacidade que tinha
e, como a palha que seca,
vai aos poucos entreabrindo-a.

Ou então é que essa folhagem
vai ficando impercebida:
porque terminada a dança
embora a roupa persista,

a imagem que a memória
conservará em sua vista
é a espiga, nua e espigada,
rompente e esbelta, em espiga.

23.12.11

fabianescas

Em uma entrevista besta...

R: Fabiano, se você fosse uma banda, qual seria?
Fabiano: Penso em muitas, gosto de bastante coisa (bem porque gostar de bastante coisa hoje em dia é ululante), mas acho que eu seria mesmo o Sigur Rós. Sim, se eu fosse uma banda, seria o Sigur Rós 


20.12.11

Maria-fumaça in time




Ah, que deleite a maria-fumaça!
Que maravilhosa esta vida levada a 
Trinta quilômetros por hora!

A trinta por hora se vê
As coisas;
Sente-se a vida passar e
Por vê-la e senti-la, se
Compreende mais.

A trinta por hora
Olho pela janela 
E reparo nos batentes 
Da casa velha e nada penso.

A trinta por hora viro-me 
Para dentro do vagão e as
Pessoas são alegres; sorriem
Chacoalhando nesse mundo
semiestático.

A trinta por hora observo
pela primeira vez coisas com paladar 
E cheiro e canções naturais; e sei-as possíveis.

Meu filho me pede água
E posso vê-lo crescendo 
Enquanto a bebe, a trinta por hora.

(Fraquejo um milésimo de segundo por 
Esse eterno espaço intangível entre mim e ele, 
A confusão de linhas abobadadas
Que nos separa nas tantas 
Velocidades que vivemos
Ao mesmo tempo; a trinta por hora,
na maria-fumaça)

(xx/xx/2002)

 





 







18.12.11

Homeward Bound


Essa moça bonita aí em cima é a minha melhor amiga. Ela mora há mais de vinte anos no meu coração. Sabemos tudo um sobre o outro. Ela foi a primeira pessoa pra quem eu contei que havia me apaixonado pela primeira vez. Ela foi a primeira pessoa pra quem eu contei que iria ser pai; é a madrinha do meu filho. Quando éramos adolescentes passamos tardes e tardes e noites e noites juntos papeando, na calçada, em seu quarto, ouvindo música ou não. Pisamos pela primeira vez na Unicamp grudados, e grudados nos perdemos. [:)] Quantas coisas descobrimos quase que ligados um ao outro!

Há dez anos minha amiga foi viver seu sonho na Dinamarca: chegou, mostrou quem era, venceu. Mas agora ela precisa voltar - e ela vai voltar: no dia 11 de fevereiro estará com Mads, seu príncipe, Sofia e Martin, aqui - pertinho de novo.

Essa foto foi tirada no Rio, há cerca de dois meses e meio, quando ela veio pra cá com seus alunos e fui visitá-la. Como me esquecer do momento em tiramos os sapatos, pisamos as areias da praia e papeamos por quase uma hora sobre nossas vidas e nossos sonhos, de frente pro mar, naquele momento tão insólito que pra mim eternamente (e pra ela também) parecerá algo do universo onírico?

Mas esse post é porque me lembrei de algo bastante específico. Estávamos em 1991 ou 1992 (como saber exatamente?) e Crisinha me apareceu toda empolgada com um disco do Paul Simon: Conhece Paul Simon, Fabi? O disco (LP), posso estar muito enganado, mas era The Rythm of the Saints. Você tem que ouvir, Fabi - você tem que ouvir isso! E eu fui em uma tarde para a casa da Cris ouvir o disco, principalmente Obvious Child, que havia sido feita com o Olodum e tudo o mais. Aquela coisa nova, que há muito chamam de world music, deixou-me encantado: Caramba Crisinha, que legal isso! Que mistureba! Folk com esse toque baiano, e mais esses ritmos e vocais africanos: uau! E entre os fritopans e os sucos de caju de tia Marilda, ficamos lá ouvindo The Rythm of the Saints e todas as suas novidades.

 


Entretanto, lembro-me de ter levado uma fitinha cassete com o meu Paul Simon, com as coisas antigas que conhecia e que em parte haviam chego até mim por conta do meu pai, parte por minha curiosidade que nunca cessava (e ainda não cessa). E ouvimos a fita também, até certo ponto melancólica, mas com sua beleza própria, de coisas que talvez não entendêssemos muito bem pois não havíamos vivido o suficiente. A recordação da fitinha e do fato todo surgiu por conta de uma canção: Homeward Bound. Eu semprei gostei tanto dessa canção! E me lembro de minha amiga quase ter chorado ao ouvi-la.

Pois é, Crisinha: por quanto tempo você quis voltar? E agora o momento chegou. Estou muito feliz aqui por poder novamente compartilhar as coisas mais de perto. De não dependermos mais de nossas intuições absurdas quandos as coisas nos acontecem. Por poder segurar na sua e mão e na dos seus filhos e pensar: Caramba, como essa vida pode ser indescritível!

Você já está a caminho de casa... Seja bem-vinda, amiga... 











4.12.11

E no aforismo 515 de Humano, demasiado humano

Tirado da experiência - A irracionalidade de uma coisa não é um argumento contra a sua existência, mas sim uma condição para ela.


22.11.11

Boca

Boca de lábios finos.
Lábios de cor clara.
Boca da extensão de um sorriso.
Boca do meu desejo.

Maior do que a minha, ao beijar-me
Criava lacunas que explorava com lascívia
E graça.

Boca dos palavrões.

De contornos tão delicados que quase sempre
Os batons estragam.

Boca da minha vontade que, pela falta, como a um
Fármaco podre faz a minha amargar.

Boca do meu amor.

16.11.11

Vozeferando

Ao cantar arrematas de uma vez o mar de seus olhos
E o sol e o céu todo.

Tua voz manuseia a natureza e a
Arremessa contra os mais incolores incautos.

Os eucaliptos se alucinam e se negam a mexer,
Mexendo-se.

Os cantos vazios dos riachos se preenchem
A passos largos de um tilintar que te acompanha,
Assim como os vapores e as chuvas apercebem-se
E se adequam.

Eu ouço sua voz diferente.

Os lufares graves se unem às suas pernas
Aos pés e dedos e lábios e braços e coxas e pêlos claros,
Ao cheiro de pitangas e ao sorriso fácil.

Não que eu consiga agir de uma maneira
Diferente das coisas inertes.
Mas sei-me tomado, ou melhor dito:
Consciente do peito tangido.

Ao cantar arrematas de uma vez tudo o que
Há sobre e sob meus ossos trêmulos,
que são como o mundo todo.

21.9.11

Em setembro

Por sobre o piso branco de nuvens
A sombra de uma nuvem ainda mais alta e
Solitária.

Sob o piso branco de nuvens
... Meu filho, meu amor e
Todo o barulho do mundo.

Sigo impassível dentro do
Charuto metálico. Máscaras de oxigênio
Não caem do teto quando algo dá errado
Na vida.

11.8.11

Muitos claros

Das nossas piadas internas
A que mais sinto falta é a de quando
Dizíamos que você tem os
Olhos muitos claros.

Porque nesses momentos você me olhava
Daquele jeito de me fazer passar mal,
E eu sorria e ficava nervoso por dentro
E compreendia e sabia o quão belo eles são (olhos-poema).

Acho que seus olhos muitos claros não desejam mais olhar pra mim.
Eu acabei aqui no escuro, com essa lembrança enquadrada,
Lacrimejando como os via ficar quando
Você estava ao meu lado,
E olhava pro sol, e sorria.

15.7.11

Ciências sociais e exatas

A distinção entre as chamadas ciências naturais e as ciências do homem ocorre de forma tão arraigada que parece encontrar base em um princípio dado a priori, próximo do campo da metafísica.

Tal recorte, de cunho epistemológico sim, mas também, ou mais ainda, social, reflete-se dentro das universidades, das publicações de caráter científico, e do mesmo modo e por que não pensar nisso, na valoração e na conseqüente aplicação de recursos em determinadas áreas do saber. Ao menos no que diz respeito aos campi nacionais, é muito clara e ocorre a olhos vistos a ascensão econômica dos departamentos de química, biologia ou física, enquanto que as chamadas humanidades sucumbem em uma deterioração contínua.

Os motivos que levariam a essa separação? Colocando as coisas a partir de um senso comum, distante em alguns pontos de estar errado, podemos dizer que ciências ditas humanas não se transformam tão rapidamente em tecnologia, o que significa que suas descobertas ou clarificações não apresentam potencial necessário para se converterem em itens de mercado. Isso acontece, também e porque, as ciências naturais são exatas, cumulativas, e seus resultados oferecem predições importantes e de certa maneira infalíveis para a vida dos indivíduos. A delimitação entre as “ciências” se apresenta, desta forma, como algo estrutural, o que pode significar que ela sempre existiu e sempre existirá. Mas será mesmo que as coisas se passam ou se passarão sempre desta forma?

É preciso, ao menos, que duvidemos disso, e alguns bons argumentos não nos faltam. Aqueles apresentados por Thomas Kuhn em seu artigo As ciências naturais e as ciências humanas são exemplos. Para que possamos compreendê-los com mais precisão é necessário, entretanto, que passemos rapidamente por um artigo publicado pelo filósofo canadense Charles Taylor, texto a partir do qual Kuhn fará o arranjo de seus contrapontos.

Interpretação e as ciências do homem

O artigo que abre o segundo volume dos Escritos Filosóficos de Taylor está longe de se fazer através de malabarismos conceituais. O texto é claro, e a linha demarcatória que ele deseja incluir é a seguinte: há ciências hermenêuticas, nas quais a interpretação dos documentos ou fatos é tão importante quanto o material que anuncia as pesquisas ou descobertas; em contrapartida, há aquelas ciências que lidam tão somente com dados brutos, que são definidos como unidades de informação não derivadas do julgamento, isto é: informações que não têm em si nenhum elemento de leitura ou interpretação.

O que se pratica em uma ciência hermenêutica é a tentativa de fazer com que o significado expresso pelo autor se torne explícito. Isto significa criar um sentido que perpassa várias subjetividades: a do autor, a do intérprete e as daqueles que os lerão e darão seqüência ao trabalho.

A dificuldade aqui é que, para tanto, uma intrincada rede de estruturas interpretativas se arma, e esta leva em conta elementos de um campo prolixo: o dos desejos humanos, dos sentimentos, das emoções. Considerando que estas construções da subjetividade se erguem também a partir das relações dos indivíduos com aqueles que o cercam, teremos por fim que as interpretações se ligam a um tipo de cultura, o qual, por sua vez, é inseparável das distinções e categorias marcadas pela língua falada pelo povo do qual o leitor/pesquisador faz parte. Os entrelaçamentos são, desta maneira, infindáveis. Não é à toa, pois, que os resultados encontrados nas ciências humanas sejam muitas das vezes problemáticos e, até certo ponto, escassos.

No caso da física, por exemplo, é certo argumentar que se um indivíduo não aceita uma teoria, ou ele não foi apresentado a um número suficiente de evidências (ou estas ainda não existem), ou ele não pôde aprender e aplicar alguma linguagem formalizada, necessária à leitura dos dados. Já em uma ciência hermenêutica uma certa medida de compreensão é necessária, e essa compreensão acaba sendo comunicada à coleta do que deveriam ser seus dados brutos. O que se abre a partir destas transcrições de conhecimento é o que Taylor chamará de lacuna intuitiva, isto é: quando alguém não pode compreender os tipos de autodefinição nos quais os argumentos se montam, isso porque a linguagem no qual eles são propostos é subjacente a uma determinada sociedade ou conjunto de instituições.

Está sempre à espreita, conseqüentemente, aos que lidam com as ciências hermenêuticas, a impossibilidade de compreender o campo de significação na qual suas questões se inscrevem.

Além dessa diferença capital entre as ciências naturais e humanas, Taylor levanta ainda três dificuldades que se apresentam ante o estabelecimento das ciências do homem. A primeira delas é de que não há como blindar certos domínios humanos, como os psicológicos, os econômicos ou políticos, de interferências externas. Ou seja: estes domínios não podem ser tratados como sistemas fechados para análise, e não há como reproduzi-los de maneira isolada e repetidas vezes.

Uma segunda dificuldade é de que uma ciência interpretativa não pode alcançar graus de exatidão como aqueles que se tornam possíveis a partir dos dados de uma ciência natural. Isso porque diferentes nuances de interpretação devem levar a diferentes predições em determinadas circunstâncias.

O último e mais complexo entrave nasce do fato de o homem ser uma criatura que se autodetermina ininterruptamente. As mudanças em sua autodeterminação significam mudanças em o quê este homem é. Resultado: as chaves de interpretação dos fenômenos humanos são alteradas com elevada constância.

Ao contrário disso, o sucesso da predição em ciências naturais está ligado ao fato de que todos os estados do sistema, passado e futuro, podem ser descritos em uma mesma classe de conceitos, ou seja: a partir das mesmas variáveis. Por isso uma teoria é, nesse lado da divisão da ciência, capaz de predizer um evento tão facilmente como explicou eventos passados, já que se tratariam sempre de um mesmo processo, já elucidado.

A crítica e as aproximações de Kuhn


Em seu livro O caminho desde A estrutura, Thomas Kuhn retoma certos posicionamentos de Taylor a fim de indicar a sua não concordância com alguns dos pontos do artigo de 1985 . O primeiro deles, e que será retomado em diferentes formatações ao longo de As ciências naturais e as ciências humanas , será justamente o que diz respeito ao caráter hermenêutico das ciências humanas. Kuhn diverge, de fato, quanto a não extensão dessa característica às ciências naturais, o que significa dizer que esta não seria uma linha demarcatória entre as duas empreitadas.

A fim de ilustrar a sua afirmação, o pensador edifica um exemplo: o da observação do céu. Quando olhamos para cima, não vemos o mesmo céu que os gregos viam. Isso não acontece, todavia, porque os objetos observados são diferentes, mas sim porque as taxonomias celestiais das quais fazemos uso são bastante diferentes. Os gregos antigos classificavam os objetos celestes em três categorias: as estrelas, os meteoros e os planetas. O Sol, Marte, Júpiter ou a Lua, pertenciam ao grupo dos planetas. Já a Via Láctea ocupava o conjunto dos meteoros, juntamente com o arco-íris e as estrelas cadentes. Isso quer dizer que, quando falamos de objetos que são os mesmos, estamos propondo-os através de esquemas interpretativos distintos. Há, portanto, uma hermenêutica subjacente a esta ordenação, e que atua sobre a nossa forma de perceber os elementos e os fenômenos da natureza.

O que Taylor e seus adeptos poderiam argumentar neste momento é que essas interpretações diferentes do mundo celeste seriam, na verdade, meras crenças a respeito de um mesmo objeto, e que essas não são constitutivas dos mesmos. Ao apontar ou calcular as posições dos astros, por exemplo, tais crenças se esvairiam, não fariam mais sentido frente ao dado bruto.

Em contrapartida, essa distinção entre objeto e interpretação não existiria, como já foi dito aqui, nas ciências humanas. Uma descrição qualquer sobre um fato antropológico conteria já uma hermenêutica. O evento seria colado à sua interpretação, e os dois atuariam conjuntamente em uma espécie de fusão. O resultado disso é que os conceitos sociais dariam forma ao mundo que esclarecem. Acabariam por se tornar, de certa forma, como que uma representação direta desse mundo; se transfigurariam na coisa explicada.

Na análise do pensador canadense os conceitos das ciências naturais não são capazes, como os das ciências humanas, de “moldar o mundo a que são aplicados”. E mais: não dependem da cultura na qual são gestados. Kuhn não irá concordar nem com uma afirmação, nem com a outra.

O argumento para o contraste, baseado no trabalho de Wiggins , é o seguinte: para que um certo dado seja recolhido ou, seguindo o exemplo, um objeto celeste seja analisado, é necessário que a ele voltemos nosso olhar por várias vezes, sistematicamente. Os olhares que se seguem ao primeiro já carregam em si uma tipologia, uma classificação, algumas determinações. Não há como estudar algo sem que uma conceituação deste já esteja minimamente definida, pois o segundo encontro com o objeto a analisar traz em si os elementos captados na primeira empreitada. Assim acontece nas ciências humanas, e assim acontece também nas ciências naturais. E por mais que haja nas segundas uma tentativa de descrição neutra, uma busca de uma linguagem devidamente calibrada, é impossível que seus dados se projetem isentos da cultura na qual são ou gestados, ou analisados.

Seriam as ciências sociais e naturais diferentes, ou estariam apenas em diferentes estados?

Tendo assegurado a não existência de uma linha demarcatória, Kuhn pode então se perguntar se as diferenças que podem ser vistas entre as ciências naturais e sociais são de princípio, ou se ligam ao grau de desenvolvimento de ambas.

A resposta a essa questão começa no argumento anterior: o de que os conceitos nas ciências naturais também são produtos hermenêuticos e, portanto, históricos. Sendo desta forma, o que acontece é que tais conceitos são transmitidos aos iniciados, muitas vezes a partir de um processo de genealogia das idéias, que tenta fazer com estas sejam compreendidas de maneira aproximada em diferentes culturas e momentos históricos. Ou seja: os diversos períodos das histórias das ciências seriam marcados por diferentes bases hermenêuticas de compreensão de seus conteúdos. Ora: isto estaria muito próximo a um dos mais importantes e caros conceitos kuhnianos: o de paradigma.

O que acontece nas ciências naturais é que, ofertada uma base hermenêutica, podendo essa ser considerada um paradigma, os pesquisadores não realizam hermenêutica sobre hermenêutica, interpretação sobre interpretação: eles buscam solucionar quebra-cabeças, resolver os problemas da ciência a partir de um mesmo sistema interpretativo, aperfeiçoando a correspondência entre a teoria e a experiência. A produção de novos paradigmas ocorre, mas não de forma intencional e sim como resultado de uma espécie de saturação do paradigma anterior, que em dado momento é incapaz de dar conta de certas peculiaridades surgidas durantes as pesquisas. As ciências naturais produzem hermenêuticas, mas este não é o seu papel.

Já as ciências humanas, ao menos na leitura feita por Taylor - e talvez seja essa mesmo a atual situação de seu modo de operar – fazem da busca de novas e mais densas interpretações o seu objetivo de trabalho.

Devemos questionar, então, se seria este mesmo o papel das ciências humanas, se ela estará sempre atrelada a essa produção infinita de hermenêuticas, ou se com a crescente especialização dentro desse campo, poderão ser desenvolvidos paradigmas mais fixos e, portanto, viabilizadores de uma pesquisa normal, mais atrelada à solução de problemas.

Kuhn levantará aqui duas vias de resposta. A primeira é de que, ao observarmos a história das ciências naturais, veremos que áreas como a química ou a biologia já se depararam com as mesmas dificuldades encontradas hoje pelas ciências humanas. O que houve, e espera-se que o mesmo ocorra com os estudos do homem e da sociedade, é que haja a possibilidade de que certos paradigmas devidamente estanques sejam produzidos, e que esses permitam a entrada de certos campos do saber na produção daquilo a que chamamos de pesquisa normal. É possível, inclusive, que tal estado epistemológico já tenha encontrado lugar na psicologia e na economia, por exemplo.

O que talvez impossibilite que tal via seja tomada por algumas das ciências humanas diz respeito a um problema corretamente apontado por Taylor. O céu, sobre o qual certos paradigmas foram desenvolvidos, e para o qual alguns deles se mostraram devidamente estáveis para o desenvolvimento de uma pesquisa normal, permaneceu praticamente o mesmo desde os gregos. Essa constância, entretanto, não pode ser esperada e é praticamente impossível em determinadas unidades de estudo. Nestas, constantes reinterpretações e, por conseguinte, as reintegrações culturais dos conceitos e leituras podem ser necessárias.

A resposta à pergunta que inaugura esse texto fica, pois, não exatamente em aberto. Há semelhanças onde o que se viam eram diferenças, mas há determinadas peculiaridades que podem não ser superadas. Não sabemos, também, se é exatamente ruim que as coisas se passem desta maneira.

9.5.11

De João

O primeiro poema que o João escreve e tem coragem de me mostrar.

Afundei feio outra vez
Essas coisas acontecem
Como num jogo de xadrez.

Embora saiba jogar
Você erra feio
O pior mesmo é que
Não tem freio.

Não importa a idade
Não importa o assunto
Não importa a jogada.

O que importa
É o que tem no fundo.

Você sempre aprende
Com seus erros,
E não com
Seus acertos.

Mas se aprende
Você entende
Como se joga,
E como se sente.