RICCORDO D'AFRICA
Il sole rapisce la città
Non si vede più
Neanche le tombe resistono molto
LEMBRANÇA D'ÁFRICA
O sol sequestra a cidade
Nada mais se vê
Sequer os túmulos resistem muito
17.1.12
14.1.12
13.1.12
Agir para fazer bonito - Contado Calligaris
Texto publicado ontem na Folha. Certeiro eu diria, tanto com as coisas todas, quanto com o que vem se passando nos últimos tempos nesse blog. Uma introdução perfeita para a finalização da história.
Os psicólogos desconfiam um pouco da expressão "força de vontade", à qual todo mundo recorre (sobretudo para denunciar as fraquezas -as nossas e as dos outros), mas sem que a gente saiba direito o que ela designa.
Por isso, estou lendo "Willpower, Rediscovering the Greatest Human Strength" (a força de vontade, redescobrindo a maior força humana), de R. Baumeister (um psicólogo que aprecio) e J. Tierney (jornalista do "New York Times"), ed. Penguin. O livro (p. 152) me fez conhecer o site www.stickK.com (que foi criado, aliás, para servir de amostra para pesquisas).
No site, o usuário se engaja contratualmente a cumprir um plano que implique um engajamento sério, se não uma reorientação de vida -desde o trivial, como emagrecer ou parar de roer as unhas, até metas, aspirações, desejos e ambições que justificam uma existência, passando por aquelas experiências irrenunciáveis que alguém quer ter ao menos uma vez, antes de morrer.
Ao escolher sua resolução, o usuário é convidado a nomear um árbitro: alguém que lhe seja próximo, que não seja um cúmplice qualquer e que possa, portanto, confirmar honestamente os progressos que o usuário declarará conseguir, no diário de seus esforços, que será acessível no site.
Além do árbitro, o usuário é também encorajado a escolher um número indefinido de amigos, que serão informados de seu propósito inicial e de seus avanços ou fracassos (eles terão acesso ao diário e aos comentários do árbitro). Na hora em que ele declara seu propósito, o usuário também estabelece uma punição para si mesmo, caso ele fracasse.
Essa punição pode ser moral (um e-mail contando a história do malogro para uma lista de amigos e conhecidos) e/ou financeira -por exemplo, uma doação para a instituição que o usuário mais deteste (imaginemos que você pertença a uma igreja que é ferozmente contra a ideia do casamento gay e que você não consiga, sei lá, estudar seis horas por dia; pois bem, você passara a contribuir ao Grupo Gay da Bahia, de acordo com suas possibilidades financeiras).
A análise de 125.000 contratos feitos nos últimos três anos indica que os usuários que não nomearam um árbitro ou não se impuseram punições financeiras chegaram a um resultado positivo só em 35% dos casos. E a porcentagem de sucessos foi de 80% quando houve árbitro, amigos e punição financeira.
Existem experiências similares. Nas Filipinas, houve fumantes que depositavam a cada dia um dinheiro que eles perderiam se, depois de seis meses, houvesse rastos de nicotina em sua urina (o cigarro é poderoso: mais da metade perdeu seu depósito -em compensação, os que conseguiram pararam de fumar de vez). E houve a "Dieta da Humilhação Pública" de Drew Magary, que se engajou a tuitar seu peso a cada dia e conseguiu assim perder 30 quilos em cinco meses.
À primeira vista, em suma, não agimos segundo o que achamos certo, por "força de vontade", mas para evitar punições e vergonhas. Ou seja, não somos nunca verdadeira e corajosamente bons, apenas queremos fazer bonito e não perder dinheiro (ainda menos em prol de nossos inimigos).
Haverá moralistas para dizer que a sociedade contemporânea nos transforma nesses invertebrados morais -sem princípios, apenas interessados na opinião dos outros e em nosso interesse imediato. Mas, nos exemplos de Baumeister e Tierney, eu não vejo um sinal de decadência moral -ao contrário. Claro, como muitos, eu mesmo acharia mais fácil ser dotado de um caroço moral, do qual eu pudesse dizer: "Este sou eu, quer os outros me reconheçam ou não, e tanto faz que eu seja recompensado ou punido por isso".
Mas não é o caso de sermos nostálgicos: nas sociedades tradicionais (presentes, passadas ou futuras), menos ainda do que hoje, os cidadãos tampouco dispõem de um caroço moral. Eles agem por medo da punição - agora ou no além. E eles agem por vergonha, diante de grupos instituídos de anciões, padres, pastores ou notáveis.
No conjunto, quanto à punição, eu prefiro arriscar o que eu mesmo apostei ao assinar meus contratos. E, quanto à vergonha, prefiro que seja diante dos pares com quem eu me engajei, ou então, diante da sociedade inteira.
Ou seja, sem ironia, como penso há tempos, nossa época é mais de progresso do que de decadência moral.
Os psicólogos desconfiam um pouco da expressão "força de vontade", à qual todo mundo recorre (sobretudo para denunciar as fraquezas -as nossas e as dos outros), mas sem que a gente saiba direito o que ela designa.
Por isso, estou lendo "Willpower, Rediscovering the Greatest Human Strength" (a força de vontade, redescobrindo a maior força humana), de R. Baumeister (um psicólogo que aprecio) e J. Tierney (jornalista do "New York Times"), ed. Penguin. O livro (p. 152) me fez conhecer o site www.stickK.com (que foi criado, aliás, para servir de amostra para pesquisas).
No site, o usuário se engaja contratualmente a cumprir um plano que implique um engajamento sério, se não uma reorientação de vida -desde o trivial, como emagrecer ou parar de roer as unhas, até metas, aspirações, desejos e ambições que justificam uma existência, passando por aquelas experiências irrenunciáveis que alguém quer ter ao menos uma vez, antes de morrer.
Ao escolher sua resolução, o usuário é convidado a nomear um árbitro: alguém que lhe seja próximo, que não seja um cúmplice qualquer e que possa, portanto, confirmar honestamente os progressos que o usuário declarará conseguir, no diário de seus esforços, que será acessível no site.
Além do árbitro, o usuário é também encorajado a escolher um número indefinido de amigos, que serão informados de seu propósito inicial e de seus avanços ou fracassos (eles terão acesso ao diário e aos comentários do árbitro). Na hora em que ele declara seu propósito, o usuário também estabelece uma punição para si mesmo, caso ele fracasse.
Essa punição pode ser moral (um e-mail contando a história do malogro para uma lista de amigos e conhecidos) e/ou financeira -por exemplo, uma doação para a instituição que o usuário mais deteste (imaginemos que você pertença a uma igreja que é ferozmente contra a ideia do casamento gay e que você não consiga, sei lá, estudar seis horas por dia; pois bem, você passara a contribuir ao Grupo Gay da Bahia, de acordo com suas possibilidades financeiras).
A análise de 125.000 contratos feitos nos últimos três anos indica que os usuários que não nomearam um árbitro ou não se impuseram punições financeiras chegaram a um resultado positivo só em 35% dos casos. E a porcentagem de sucessos foi de 80% quando houve árbitro, amigos e punição financeira.
Existem experiências similares. Nas Filipinas, houve fumantes que depositavam a cada dia um dinheiro que eles perderiam se, depois de seis meses, houvesse rastos de nicotina em sua urina (o cigarro é poderoso: mais da metade perdeu seu depósito -em compensação, os que conseguiram pararam de fumar de vez). E houve a "Dieta da Humilhação Pública" de Drew Magary, que se engajou a tuitar seu peso a cada dia e conseguiu assim perder 30 quilos em cinco meses.
À primeira vista, em suma, não agimos segundo o que achamos certo, por "força de vontade", mas para evitar punições e vergonhas. Ou seja, não somos nunca verdadeira e corajosamente bons, apenas queremos fazer bonito e não perder dinheiro (ainda menos em prol de nossos inimigos).
Haverá moralistas para dizer que a sociedade contemporânea nos transforma nesses invertebrados morais -sem princípios, apenas interessados na opinião dos outros e em nosso interesse imediato. Mas, nos exemplos de Baumeister e Tierney, eu não vejo um sinal de decadência moral -ao contrário. Claro, como muitos, eu mesmo acharia mais fácil ser dotado de um caroço moral, do qual eu pudesse dizer: "Este sou eu, quer os outros me reconheçam ou não, e tanto faz que eu seja recompensado ou punido por isso".
Mas não é o caso de sermos nostálgicos: nas sociedades tradicionais (presentes, passadas ou futuras), menos ainda do que hoje, os cidadãos tampouco dispõem de um caroço moral. Eles agem por medo da punição - agora ou no além. E eles agem por vergonha, diante de grupos instituídos de anciões, padres, pastores ou notáveis.
No conjunto, quanto à punição, eu prefiro arriscar o que eu mesmo apostei ao assinar meus contratos. E, quanto à vergonha, prefiro que seja diante dos pares com quem eu me engajei, ou então, diante da sociedade inteira.
Ou seja, sem ironia, como penso há tempos, nossa época é mais de progresso do que de decadência moral.
3.1.12
TÉDIO - Ungaretti
NOIA
Anche questa notte passerà
Questa solitudine in giro
titubante ombra dei fili tranviari
sull'umido asfalto
Guardo le teste dei brumisti
nel mezzo sono
tentennare
Anche questa notte passerà
Questa solitudine in giro
titubante ombra dei fili tranviari
sull'umido asfalto
Guardo le teste dei brumisti
nel mezzo sono
tentennare
TÉDIO
Também esta noite passará
Esta solidão ao redor
hesitante sombra dos fios elétricos
sobre o úmido asfalto
Observo as cabeças dos enevoados
em meio ao sono
vacilar 1.1.12
O dia em que apertei a mão do poeta
Sim, eu também tenho ídolos. Todos nós os temos. A maioria dos meus escrevem ou escreviam.
Na semana passada, eu apertei a mão de um deles e me senti novamente criança: cumprimentando o Papai Noel, achando os ovos de Páscoa, um passo acima da realidade, no mundo da ideias, na lua.
os fios telegráficos simplificam as enchentes e as secas
os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas
a paisagem racha-se de encontro com as almas
Ele estava lá, bem na minha frente, lendo seus poemas, dizendo seus textos, fazendo suas divagações, sendo sarcástico consigo mesmo.
O poeta tem 68 anos, sofre de Mal de Parkinson, mas não perde a fala potente, a língua construtora.
o vento sul sopra contra a solidão das janelas e as gaiolas de carne crua
Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo
e como um escravo vou medindo a vacilante música das flâmulas
Eu, como um aluno aplicado, levei os meus livros e acompanhei as leituras com o poeta. Descobri coisas novas em palavras que havia lido cem vezes. Nas fotos que havia olhado tantas e tantas. Novas revelações que eu via como quem vê pela primeira vez um acrobata.
e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
O encontro estava próximo do fim. O que eu faria depois? Será que o poeta maldito, que sabia muito de filosofia, muito de história, muito de literatura, receberia alguém? Daria autógrafos? Algumas pessoas se dirigiram à mesa. Eu fui atrás.
minha vertigem entornando a alma violentamente por uma rua estranha
os insetos as nuvens costuram o espaço avermelhado de um céu sem dentes
O poeta visionário, louco, era naquele momento um senhor doce, tranqüilo, que trazia carimbos para os autógrafos.
Pegou o meu livro e disse – Ah, você gosta de Paranóia é... – e eu – Poxa, é uma referência pra mim, uma paixão - ou seja, aquela fala inútil de fã.
E ele - Eu tinha 22 anos nesta época. Eu era bonito, né? Agora virei este caco.
O poeta colocou os carimbos, assinou com a mão trêmula.
Eu disse – Olha, eu trouxe uns poemas que escrevi pensando na sua obra, mas não sei se tenho cópias em casa.
Ele pegou os papéis, escreveu um endereço e falou – Mande pra cá, pra minha casa. Devolveu pra alguém uma caneta que havia emprestado, virou-se pra mim e perguntou - Qual o seu nome? Eu respondi.
Ele estendeu a mão e me disse – Muito prazer.
Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?
É noite. E tudo é noite.
E eu fui embora com meus presentes. Com minhas novas lembranças de criança. Divagando.
Eu havia apertado a mão do poeta. A mão que havia produzido sonhos que eu adorava ter.
Estranho, isto me fez produzir lembranças do tipo das que eu não deveria mais guardar na minha idade. Lembranças que de tão doces parecem carinhos de avó.
Onde exercitas os músculos de tua alma, agora?
Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços
Eu apalpo teu livro onde estrelas se refletem
Como numa lagoa
Eu também tenho ídolos.
P.S - Este texto é de 16/10/2006. O poeta se foi em 03/07 de 2010.
Na semana passada, eu apertei a mão de um deles e me senti novamente criança: cumprimentando o Papai Noel, achando os ovos de Páscoa, um passo acima da realidade, no mundo da ideias, na lua.
os fios telegráficos simplificam as enchentes e as secas
os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas
a paisagem racha-se de encontro com as almas
Ele estava lá, bem na minha frente, lendo seus poemas, dizendo seus textos, fazendo suas divagações, sendo sarcástico consigo mesmo.
O poeta tem 68 anos, sofre de Mal de Parkinson, mas não perde a fala potente, a língua construtora.
o vento sul sopra contra a solidão das janelas e as gaiolas de carne crua
Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo
e como um escravo vou medindo a vacilante música das flâmulas
Eu, como um aluno aplicado, levei os meus livros e acompanhei as leituras com o poeta. Descobri coisas novas em palavras que havia lido cem vezes. Nas fotos que havia olhado tantas e tantas. Novas revelações que eu via como quem vê pela primeira vez um acrobata.
e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
O encontro estava próximo do fim. O que eu faria depois? Será que o poeta maldito, que sabia muito de filosofia, muito de história, muito de literatura, receberia alguém? Daria autógrafos? Algumas pessoas se dirigiram à mesa. Eu fui atrás.
minha vertigem entornando a alma violentamente por uma rua estranha
os insetos as nuvens costuram o espaço avermelhado de um céu sem dentes
O poeta visionário, louco, era naquele momento um senhor doce, tranqüilo, que trazia carimbos para os autógrafos.
Pegou o meu livro e disse – Ah, você gosta de Paranóia é... – e eu – Poxa, é uma referência pra mim, uma paixão - ou seja, aquela fala inútil de fã.
E ele - Eu tinha 22 anos nesta época. Eu era bonito, né? Agora virei este caco.
O poeta colocou os carimbos, assinou com a mão trêmula.
Eu disse – Olha, eu trouxe uns poemas que escrevi pensando na sua obra, mas não sei se tenho cópias em casa.
Ele pegou os papéis, escreveu um endereço e falou – Mande pra cá, pra minha casa. Devolveu pra alguém uma caneta que havia emprestado, virou-se pra mim e perguntou - Qual o seu nome? Eu respondi.
Ele estendeu a mão e me disse – Muito prazer.
Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?
É noite. E tudo é noite.
E eu fui embora com meus presentes. Com minhas novas lembranças de criança. Divagando.
Eu havia apertado a mão do poeta. A mão que havia produzido sonhos que eu adorava ter.
Estranho, isto me fez produzir lembranças do tipo das que eu não deveria mais guardar na minha idade. Lembranças que de tão doces parecem carinhos de avó.
Onde exercitas os músculos de tua alma, agora?
Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços
Eu apalpo teu livro onde estrelas se refletem
Como numa lagoa
Eu também tenho ídolos.
P.S - Este texto é de 16/10/2006. O poeta se foi em 03/07 de 2010.
Estudos para uma bailadora andaluza - João Cabral de Melo Neto
1
Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.
Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;
gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.
Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,
gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.
Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,
de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,
que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.
2
Subida ao dorso da dança
(vai carregada ou a carrega?)
é impossível se dizer
se é a cavaleira ou a égua.
Ela tem na sua dança
toda a energia retesa
e todo o nervo de quando
algum cavalo se encrespa.
Isto é: tanto a tensão
de quem vai montado em sela,
de quem monta um animal
e só a custo o debela,
como a tensão do animal
dominado sob a rédea,
que ressente ser mandado
e obedecendo protesta.
Então, como declarar
se ela é égua ou cavaleira:
há uma tal conformidade
entre o que é animal e é ela,
entre a parte que domina
e a parte que se rebela,
entre o que nela cavalga
e o que é cavalgado nela,
que o melhor será dizer
de ambas, cavaleira e égua,
que são de uma mesma coisa
e que um só nervo as inerva,
e que é impossível traçar
nenhuma linha fronteira
entre ela e a montaria:
ela é a égua e a cavaleira.
3
Quando está taconeando
a cabeça, atenta, inclina,
como se buscasse ouvir
alguma voz indistinta.
Há nessa atenção curvada
muito de telegrafista,
atento para não perder
a mensagem transmitida.
Mas o que faz duvidar
possa ser telegrafia
aquelas respostas que
suas pernas pronunciam
é que a mensagem de quem
lá do outro lado da linha
ela responde tão séria
nos passa despercebida.
Mas depois já não há dúvida:
é mesmo telegrafia:
mesmo que não se perceba
a mensagem recebida,
se vem de um ponto no fundo
do tablado ou de sua vida,
se a linguagem do diálogo
é em código ou ostensiva,
já não cabe duvidar:
deve ser telegrafia:
basta escutar a dicção
tão morse e tão desflorida,
linear, numa só corda,
em ponto e traço, concisa,
a dicção em preto e branco
de sua perna polida.
Ela não pisa na terra
como quem a propicia
para que lhe seja leve
quando se enterre, num dia.
Ela a trata com a dura
e muscular energia
do camponês que cavando
sabe que a terra amacia.
Do camponês de quem tem
sotaque andaluz caipira
e o tornozelo robusto
que mais se planta que pisa.
Assim, em vez dessa ave
assexuada e mofina,
coisa a que parece sempre
aspirar a bailarina,
esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.
Árvore que estima a terra
de que se sabe família
e por isso trata a terra
com tanta dureza íntima.
Mais: que ao se saber da terra
não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas
fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra
e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,
para vencer quem duvida.
5
Sua dança sempre acaba
igual como começa,
tal esses livros de iguais
coberta e contra-coberta:
com a mesma posição
como que talhada em pedra:
um momento está estátua,
desafiante, à espera.
Mas se essas duas estátuas
mesma atitude observam,
aquilo que desafiam
parece coisas diversas.
A primeira das estátuas
que ela é, quando começa,
parece desafiar
alguma presença interna
que no fundo dela própria,
fluindo, informe e sem regra,
por sua vez a desafia
a ver quem é que a modela.
Enquanto a estátua final,
por igual que ela pareça,
que ela é, quando um estilo
já impôs à íntima presa,
parece mais desafio
a quem está na assistência,
como para indagar quem
a mesma façanha tenta.
O livro de sua dança
capas iguais o encerram:
com a figura desafiante
de suas estátuas acesas.
6
Na sua dança se assiste
como ao processo da espiga:
verde, envolvida de palha;
madura, quase despida.
Parece que sua dança
ao ser dançada, à medida
que avança, a vai despojando
da folhagem que a vestia.
Não só da vegetação
de que ela dança vestida
(saias folhudas e crespas
do que no Brasil é chita)
mas também dessa outra flora
a que seus braços dão vida,
densa floresta de gestos
a que dão vida a agonia.
Na verdade, embora tudo
aquilo que ela leva em cima,
embora, de fato, sempre,
continui nela a vesti-la,
parece que vai perdendo
a opacidade que tinha
e, como a palha que seca,
vai aos poucos entreabrindo-a.
Ou então é que essa folhagem
vai ficando impercebida:
porque terminada a dança
embora a roupa persista,
a imagem que a memória
conservará em sua vista
é a espiga, nua e espigada,
rompente e esbelta, em espiga.
23.12.11
fabianescas
Em uma entrevista besta...
R: Fabiano, se você fosse uma banda, qual seria?
Fabiano: Penso em muitas, gosto de bastante coisa (bem porque gostar de bastante coisa hoje em dia é ululante), mas acho que eu seria mesmo o Sigur Rós. Sim, se eu fosse uma banda, seria o Sigur Rós
R: Fabiano, se você fosse uma banda, qual seria?
Fabiano: Penso em muitas, gosto de bastante coisa (bem porque gostar de bastante coisa hoje em dia é ululante), mas acho que eu seria mesmo o Sigur Rós. Sim, se eu fosse uma banda, seria o Sigur Rós
21.12.11
20.12.11
Maria-fumaça in time
Ah, que deleite a maria-fumaça!
Que maravilhosa esta vida levada a
Trinta quilômetros por hora!
A trinta por hora se vê
As coisas;
Sente-se a vida passar e
Por vê-la e senti-la, se
Compreende mais.
A trinta por hora
Olho pela janela
E reparo nos batentes
Da casa velha e nada penso.
A trinta por hora viro-me
Para dentro do vagão e as
Pessoas são alegres; sorriem
Chacoalhando nesse mundo
semiestático.
A trinta por hora observo
pela primeira vez coisas com paladar
E cheiro e canções naturais; e sei-as possíveis.
Meu filho me pede água
E posso vê-lo crescendo
Enquanto a bebe, a trinta por hora.
(Fraquejo um milésimo de segundo por
Esse eterno espaço intangível entre mim e ele,
A confusão de linhas abobadadas
Que nos separa nas tantas
Velocidades que vivemos
Ao mesmo tempo; a trinta por hora,
na maria-fumaça)
(xx/xx/2002)
(xx/xx/2002)
18.12.11
Homeward Bound
Essa moça bonita aí em cima é a minha melhor amiga. Ela mora há mais de vinte anos no meu coração. Sabemos tudo um sobre o outro. Ela foi a primeira pessoa pra quem eu contei que havia me apaixonado pela primeira vez. Ela foi a primeira pessoa pra quem eu contei que iria ser pai; é a madrinha do meu filho. Quando éramos adolescentes passamos tardes e tardes e noites e noites juntos papeando, na calçada, em seu quarto, ouvindo música ou não. Pisamos pela primeira vez na Unicamp grudados, e grudados nos perdemos. [:)] Quantas coisas descobrimos quase que ligados um ao outro!
Há dez anos minha amiga foi viver seu sonho na Dinamarca: chegou, mostrou quem era, venceu. Mas agora ela precisa voltar - e ela vai voltar: no dia 11 de fevereiro estará com Mads, seu príncipe, Sofia e Martin, aqui - pertinho de novo.
Essa foto foi tirada no Rio, há cerca de dois meses e meio, quando ela veio pra cá com seus alunos e fui visitá-la. Como me esquecer do momento em tiramos os sapatos, pisamos as areias da praia e papeamos por quase uma hora sobre nossas vidas e nossos sonhos, de frente pro mar, naquele momento tão insólito que pra mim eternamente (e pra ela também) parecerá algo do universo onírico?
Mas esse post é porque me lembrei de algo bastante específico. Estávamos em 1991 ou 1992 (como saber exatamente?) e Crisinha me apareceu toda empolgada com um disco do Paul Simon: Conhece Paul Simon, Fabi? O disco (LP), posso estar muito enganado, mas era The Rythm of the Saints. Você tem que ouvir, Fabi - você tem que ouvir isso! E eu fui em uma tarde para a casa da Cris ouvir o disco, principalmente Obvious Child, que havia sido feita com o Olodum e tudo o mais. Aquela coisa nova, que há muito chamam de world music, deixou-me encantado: Caramba Crisinha, que legal isso! Que mistureba! Folk com esse toque baiano, e mais esses ritmos e vocais africanos: uau! E entre os fritopans e os sucos de caju de tia Marilda, ficamos lá ouvindo The Rythm of the Saints e todas as suas novidades.
Entretanto, lembro-me de ter levado uma fitinha cassete com o meu Paul Simon, com as coisas antigas que conhecia e que em parte haviam chego até mim por conta do meu pai, parte por minha curiosidade que nunca cessava (e ainda não cessa). E ouvimos a fita também, até certo ponto melancólica, mas com sua beleza própria, de coisas que talvez não entendêssemos muito bem pois não havíamos vivido o suficiente. A recordação da fitinha e do fato todo surgiu por conta de uma canção: Homeward Bound. Eu semprei gostei tanto dessa canção! E me lembro de minha amiga quase ter chorado ao ouvi-la.
Pois é, Crisinha: por quanto tempo você quis voltar? E agora o momento chegou. Estou muito feliz aqui por poder novamente compartilhar as coisas mais de perto. De não dependermos mais de nossas intuições absurdas quandos as coisas nos acontecem. Por poder segurar na sua e mão e na dos seus filhos e pensar: Caramba, como essa vida pode ser indescritível!
Você já está a caminho de casa... Seja bem-vinda, amiga...
4.12.11
E no aforismo 515 de Humano, demasiado humano
Tirado da experiência - A irracionalidade de uma coisa não é um argumento contra a sua existência, mas sim uma condição para ela.
22.11.11
Boca
Boca de lábios finos.
Lábios de cor clara.
Boca da extensão de um sorriso.
Boca do meu desejo.
Maior do que a minha, ao beijar-me
Criava lacunas que explorava com lascívia
E graça.
Boca dos palavrões.
De contornos tão delicados que quase sempre
Os batons estragam.
Boca da minha vontade que, pela falta, como a um
Fármaco podre faz a minha amargar.
Boca do meu amor.
Lábios de cor clara.
Boca da extensão de um sorriso.
Boca do meu desejo.
Maior do que a minha, ao beijar-me
Criava lacunas que explorava com lascívia
E graça.
Boca dos palavrões.
De contornos tão delicados que quase sempre
Os batons estragam.
Boca da minha vontade que, pela falta, como a um
Fármaco podre faz a minha amargar.
Boca do meu amor.
19.11.11
16.11.11
Vozeferando
Ao cantar arrematas de uma vez o mar de seus olhos
E o sol e o céu todo.
Tua voz manuseia a natureza e a
Arremessa contra os mais incolores incautos.
Os eucaliptos se alucinam e se negam a mexer,
Mexendo-se.
Os cantos vazios dos riachos se preenchem
A passos largos de um tilintar que te acompanha,
Assim como os vapores e as chuvas apercebem-se
E se adequam.
Eu ouço sua voz diferente.
Os lufares graves se unem às suas pernas
Aos pés e dedos e lábios e braços e coxas e pêlos claros,
Ao cheiro de pitangas e ao sorriso fácil.
Não que eu consiga agir de uma maneira
Diferente das coisas inertes.
Mas sei-me tomado, ou melhor dito:
Consciente do peito tangido.
Ao cantar arrematas de uma vez tudo o que
Há sobre e sob meus ossos trêmulos,
que são como o mundo todo.
E o sol e o céu todo.
Tua voz manuseia a natureza e a
Arremessa contra os mais incolores incautos.
Os eucaliptos se alucinam e se negam a mexer,
Mexendo-se.
Os cantos vazios dos riachos se preenchem
A passos largos de um tilintar que te acompanha,
Assim como os vapores e as chuvas apercebem-se
E se adequam.
Eu ouço sua voz diferente.
Os lufares graves se unem às suas pernas
Aos pés e dedos e lábios e braços e coxas e pêlos claros,
Ao cheiro de pitangas e ao sorriso fácil.
Não que eu consiga agir de uma maneira
Diferente das coisas inertes.
Mas sei-me tomado, ou melhor dito:
Consciente do peito tangido.
Ao cantar arrematas de uma vez tudo o que
Há sobre e sob meus ossos trêmulos,
que são como o mundo todo.
21.9.11
Em setembro
Por sobre o piso branco de nuvens
A sombra de uma nuvem ainda mais alta e
Solitária.
Sob o piso branco de nuvens
... Meu filho, meu amor e
Todo o barulho do mundo.
Sigo impassível dentro do
Charuto metálico. Máscaras de oxigênio
Não caem do teto quando algo dá errado
Na vida.
A sombra de uma nuvem ainda mais alta e
Solitária.
Sob o piso branco de nuvens
... Meu filho, meu amor e
Todo o barulho do mundo.
Sigo impassível dentro do
Charuto metálico. Máscaras de oxigênio
Não caem do teto quando algo dá errado
Na vida.
11.8.11
Muitos claros
Das nossas piadas internas
A que mais sinto falta é a de quando
Dizíamos que você tem os
Olhos muitos claros.
Porque nesses momentos você me olhava
Daquele jeito de me fazer passar mal,
E eu sorria e ficava nervoso por dentro
E compreendia e sabia o quão belo eles são (olhos-poema).
Acho que seus olhos muitos claros não desejam mais olhar pra mim.
Eu acabei aqui no escuro, com essa lembrança enquadrada,
Lacrimejando como os via ficar quando
Você estava ao meu lado,
E olhava pro sol, e sorria.
A que mais sinto falta é a de quando
Dizíamos que você tem os
Olhos muitos claros.
Porque nesses momentos você me olhava
Daquele jeito de me fazer passar mal,
E eu sorria e ficava nervoso por dentro
E compreendia e sabia o quão belo eles são (olhos-poema).
Acho que seus olhos muitos claros não desejam mais olhar pra mim.
Eu acabei aqui no escuro, com essa lembrança enquadrada,
Lacrimejando como os via ficar quando
Você estava ao meu lado,
E olhava pro sol, e sorria.
15.7.11
Ciências sociais e exatas
A distinção entre as chamadas ciências naturais e as ciências do homem ocorre de forma tão arraigada que parece encontrar base em um princípio dado a priori, próximo do campo da metafísica.
Tal recorte, de cunho epistemológico sim, mas também, ou mais ainda, social, reflete-se dentro das universidades, das publicações de caráter científico, e do mesmo modo e por que não pensar nisso, na valoração e na conseqüente aplicação de recursos em determinadas áreas do saber. Ao menos no que diz respeito aos campi nacionais, é muito clara e ocorre a olhos vistos a ascensão econômica dos departamentos de química, biologia ou física, enquanto que as chamadas humanidades sucumbem em uma deterioração contínua.
Os motivos que levariam a essa separação? Colocando as coisas a partir de um senso comum, distante em alguns pontos de estar errado, podemos dizer que ciências ditas humanas não se transformam tão rapidamente em tecnologia, o que significa que suas descobertas ou clarificações não apresentam potencial necessário para se converterem em itens de mercado. Isso acontece, também e porque, as ciências naturais são exatas, cumulativas, e seus resultados oferecem predições importantes e de certa maneira infalíveis para a vida dos indivíduos. A delimitação entre as “ciências” se apresenta, desta forma, como algo estrutural, o que pode significar que ela sempre existiu e sempre existirá. Mas será mesmo que as coisas se passam ou se passarão sempre desta forma?
É preciso, ao menos, que duvidemos disso, e alguns bons argumentos não nos faltam. Aqueles apresentados por Thomas Kuhn em seu artigo As ciências naturais e as ciências humanas são exemplos. Para que possamos compreendê-los com mais precisão é necessário, entretanto, que passemos rapidamente por um artigo publicado pelo filósofo canadense Charles Taylor, texto a partir do qual Kuhn fará o arranjo de seus contrapontos.
Interpretação e as ciências do homem
O artigo que abre o segundo volume dos Escritos Filosóficos de Taylor está longe de se fazer através de malabarismos conceituais. O texto é claro, e a linha demarcatória que ele deseja incluir é a seguinte: há ciências hermenêuticas, nas quais a interpretação dos documentos ou fatos é tão importante quanto o material que anuncia as pesquisas ou descobertas; em contrapartida, há aquelas ciências que lidam tão somente com dados brutos, que são definidos como unidades de informação não derivadas do julgamento, isto é: informações que não têm em si nenhum elemento de leitura ou interpretação.
O que se pratica em uma ciência hermenêutica é a tentativa de fazer com que o significado expresso pelo autor se torne explícito. Isto significa criar um sentido que perpassa várias subjetividades: a do autor, a do intérprete e as daqueles que os lerão e darão seqüência ao trabalho.
A dificuldade aqui é que, para tanto, uma intrincada rede de estruturas interpretativas se arma, e esta leva em conta elementos de um campo prolixo: o dos desejos humanos, dos sentimentos, das emoções. Considerando que estas construções da subjetividade se erguem também a partir das relações dos indivíduos com aqueles que o cercam, teremos por fim que as interpretações se ligam a um tipo de cultura, o qual, por sua vez, é inseparável das distinções e categorias marcadas pela língua falada pelo povo do qual o leitor/pesquisador faz parte. Os entrelaçamentos são, desta maneira, infindáveis. Não é à toa, pois, que os resultados encontrados nas ciências humanas sejam muitas das vezes problemáticos e, até certo ponto, escassos.
No caso da física, por exemplo, é certo argumentar que se um indivíduo não aceita uma teoria, ou ele não foi apresentado a um número suficiente de evidências (ou estas ainda não existem), ou ele não pôde aprender e aplicar alguma linguagem formalizada, necessária à leitura dos dados. Já em uma ciência hermenêutica uma certa medida de compreensão é necessária, e essa compreensão acaba sendo comunicada à coleta do que deveriam ser seus dados brutos. O que se abre a partir destas transcrições de conhecimento é o que Taylor chamará de lacuna intuitiva, isto é: quando alguém não pode compreender os tipos de autodefinição nos quais os argumentos se montam, isso porque a linguagem no qual eles são propostos é subjacente a uma determinada sociedade ou conjunto de instituições.
Está sempre à espreita, conseqüentemente, aos que lidam com as ciências hermenêuticas, a impossibilidade de compreender o campo de significação na qual suas questões se inscrevem.
Além dessa diferença capital entre as ciências naturais e humanas, Taylor levanta ainda três dificuldades que se apresentam ante o estabelecimento das ciências do homem. A primeira delas é de que não há como blindar certos domínios humanos, como os psicológicos, os econômicos ou políticos, de interferências externas. Ou seja: estes domínios não podem ser tratados como sistemas fechados para análise, e não há como reproduzi-los de maneira isolada e repetidas vezes.
Uma segunda dificuldade é de que uma ciência interpretativa não pode alcançar graus de exatidão como aqueles que se tornam possíveis a partir dos dados de uma ciência natural. Isso porque diferentes nuances de interpretação devem levar a diferentes predições em determinadas circunstâncias.
O último e mais complexo entrave nasce do fato de o homem ser uma criatura que se autodetermina ininterruptamente. As mudanças em sua autodeterminação significam mudanças em o quê este homem é. Resultado: as chaves de interpretação dos fenômenos humanos são alteradas com elevada constância.
Ao contrário disso, o sucesso da predição em ciências naturais está ligado ao fato de que todos os estados do sistema, passado e futuro, podem ser descritos em uma mesma classe de conceitos, ou seja: a partir das mesmas variáveis. Por isso uma teoria é, nesse lado da divisão da ciência, capaz de predizer um evento tão facilmente como explicou eventos passados, já que se tratariam sempre de um mesmo processo, já elucidado.
A crítica e as aproximações de Kuhn
Em seu livro O caminho desde A estrutura, Thomas Kuhn retoma certos posicionamentos de Taylor a fim de indicar a sua não concordância com alguns dos pontos do artigo de 1985 . O primeiro deles, e que será retomado em diferentes formatações ao longo de As ciências naturais e as ciências humanas , será justamente o que diz respeito ao caráter hermenêutico das ciências humanas. Kuhn diverge, de fato, quanto a não extensão dessa característica às ciências naturais, o que significa dizer que esta não seria uma linha demarcatória entre as duas empreitadas.
A fim de ilustrar a sua afirmação, o pensador edifica um exemplo: o da observação do céu. Quando olhamos para cima, não vemos o mesmo céu que os gregos viam. Isso não acontece, todavia, porque os objetos observados são diferentes, mas sim porque as taxonomias celestiais das quais fazemos uso são bastante diferentes. Os gregos antigos classificavam os objetos celestes em três categorias: as estrelas, os meteoros e os planetas. O Sol, Marte, Júpiter ou a Lua, pertenciam ao grupo dos planetas. Já a Via Láctea ocupava o conjunto dos meteoros, juntamente com o arco-íris e as estrelas cadentes. Isso quer dizer que, quando falamos de objetos que são os mesmos, estamos propondo-os através de esquemas interpretativos distintos. Há, portanto, uma hermenêutica subjacente a esta ordenação, e que atua sobre a nossa forma de perceber os elementos e os fenômenos da natureza.
O que Taylor e seus adeptos poderiam argumentar neste momento é que essas interpretações diferentes do mundo celeste seriam, na verdade, meras crenças a respeito de um mesmo objeto, e que essas não são constitutivas dos mesmos. Ao apontar ou calcular as posições dos astros, por exemplo, tais crenças se esvairiam, não fariam mais sentido frente ao dado bruto.
Em contrapartida, essa distinção entre objeto e interpretação não existiria, como já foi dito aqui, nas ciências humanas. Uma descrição qualquer sobre um fato antropológico conteria já uma hermenêutica. O evento seria colado à sua interpretação, e os dois atuariam conjuntamente em uma espécie de fusão. O resultado disso é que os conceitos sociais dariam forma ao mundo que esclarecem. Acabariam por se tornar, de certa forma, como que uma representação direta desse mundo; se transfigurariam na coisa explicada.
Na análise do pensador canadense os conceitos das ciências naturais não são capazes, como os das ciências humanas, de “moldar o mundo a que são aplicados”. E mais: não dependem da cultura na qual são gestados. Kuhn não irá concordar nem com uma afirmação, nem com a outra.
O argumento para o contraste, baseado no trabalho de Wiggins , é o seguinte: para que um certo dado seja recolhido ou, seguindo o exemplo, um objeto celeste seja analisado, é necessário que a ele voltemos nosso olhar por várias vezes, sistematicamente. Os olhares que se seguem ao primeiro já carregam em si uma tipologia, uma classificação, algumas determinações. Não há como estudar algo sem que uma conceituação deste já esteja minimamente definida, pois o segundo encontro com o objeto a analisar traz em si os elementos captados na primeira empreitada. Assim acontece nas ciências humanas, e assim acontece também nas ciências naturais. E por mais que haja nas segundas uma tentativa de descrição neutra, uma busca de uma linguagem devidamente calibrada, é impossível que seus dados se projetem isentos da cultura na qual são ou gestados, ou analisados.
Seriam as ciências sociais e naturais diferentes, ou estariam apenas em diferentes estados?
Tendo assegurado a não existência de uma linha demarcatória, Kuhn pode então se perguntar se as diferenças que podem ser vistas entre as ciências naturais e sociais são de princípio, ou se ligam ao grau de desenvolvimento de ambas.
A resposta a essa questão começa no argumento anterior: o de que os conceitos nas ciências naturais também são produtos hermenêuticos e, portanto, históricos. Sendo desta forma, o que acontece é que tais conceitos são transmitidos aos iniciados, muitas vezes a partir de um processo de genealogia das idéias, que tenta fazer com estas sejam compreendidas de maneira aproximada em diferentes culturas e momentos históricos. Ou seja: os diversos períodos das histórias das ciências seriam marcados por diferentes bases hermenêuticas de compreensão de seus conteúdos. Ora: isto estaria muito próximo a um dos mais importantes e caros conceitos kuhnianos: o de paradigma.
O que acontece nas ciências naturais é que, ofertada uma base hermenêutica, podendo essa ser considerada um paradigma, os pesquisadores não realizam hermenêutica sobre hermenêutica, interpretação sobre interpretação: eles buscam solucionar quebra-cabeças, resolver os problemas da ciência a partir de um mesmo sistema interpretativo, aperfeiçoando a correspondência entre a teoria e a experiência. A produção de novos paradigmas ocorre, mas não de forma intencional e sim como resultado de uma espécie de saturação do paradigma anterior, que em dado momento é incapaz de dar conta de certas peculiaridades surgidas durantes as pesquisas. As ciências naturais produzem hermenêuticas, mas este não é o seu papel.
Já as ciências humanas, ao menos na leitura feita por Taylor - e talvez seja essa mesmo a atual situação de seu modo de operar – fazem da busca de novas e mais densas interpretações o seu objetivo de trabalho.
Devemos questionar, então, se seria este mesmo o papel das ciências humanas, se ela estará sempre atrelada a essa produção infinita de hermenêuticas, ou se com a crescente especialização dentro desse campo, poderão ser desenvolvidos paradigmas mais fixos e, portanto, viabilizadores de uma pesquisa normal, mais atrelada à solução de problemas.
Kuhn levantará aqui duas vias de resposta. A primeira é de que, ao observarmos a história das ciências naturais, veremos que áreas como a química ou a biologia já se depararam com as mesmas dificuldades encontradas hoje pelas ciências humanas. O que houve, e espera-se que o mesmo ocorra com os estudos do homem e da sociedade, é que haja a possibilidade de que certos paradigmas devidamente estanques sejam produzidos, e que esses permitam a entrada de certos campos do saber na produção daquilo a que chamamos de pesquisa normal. É possível, inclusive, que tal estado epistemológico já tenha encontrado lugar na psicologia e na economia, por exemplo.
O que talvez impossibilite que tal via seja tomada por algumas das ciências humanas diz respeito a um problema corretamente apontado por Taylor. O céu, sobre o qual certos paradigmas foram desenvolvidos, e para o qual alguns deles se mostraram devidamente estáveis para o desenvolvimento de uma pesquisa normal, permaneceu praticamente o mesmo desde os gregos. Essa constância, entretanto, não pode ser esperada e é praticamente impossível em determinadas unidades de estudo. Nestas, constantes reinterpretações e, por conseguinte, as reintegrações culturais dos conceitos e leituras podem ser necessárias.
A resposta à pergunta que inaugura esse texto fica, pois, não exatamente em aberto. Há semelhanças onde o que se viam eram diferenças, mas há determinadas peculiaridades que podem não ser superadas. Não sabemos, também, se é exatamente ruim que as coisas se passem desta maneira.
Tal recorte, de cunho epistemológico sim, mas também, ou mais ainda, social, reflete-se dentro das universidades, das publicações de caráter científico, e do mesmo modo e por que não pensar nisso, na valoração e na conseqüente aplicação de recursos em determinadas áreas do saber. Ao menos no que diz respeito aos campi nacionais, é muito clara e ocorre a olhos vistos a ascensão econômica dos departamentos de química, biologia ou física, enquanto que as chamadas humanidades sucumbem em uma deterioração contínua.
Os motivos que levariam a essa separação? Colocando as coisas a partir de um senso comum, distante em alguns pontos de estar errado, podemos dizer que ciências ditas humanas não se transformam tão rapidamente em tecnologia, o que significa que suas descobertas ou clarificações não apresentam potencial necessário para se converterem em itens de mercado. Isso acontece, também e porque, as ciências naturais são exatas, cumulativas, e seus resultados oferecem predições importantes e de certa maneira infalíveis para a vida dos indivíduos. A delimitação entre as “ciências” se apresenta, desta forma, como algo estrutural, o que pode significar que ela sempre existiu e sempre existirá. Mas será mesmo que as coisas se passam ou se passarão sempre desta forma?
É preciso, ao menos, que duvidemos disso, e alguns bons argumentos não nos faltam. Aqueles apresentados por Thomas Kuhn em seu artigo As ciências naturais e as ciências humanas são exemplos. Para que possamos compreendê-los com mais precisão é necessário, entretanto, que passemos rapidamente por um artigo publicado pelo filósofo canadense Charles Taylor, texto a partir do qual Kuhn fará o arranjo de seus contrapontos.
Interpretação e as ciências do homem
O artigo que abre o segundo volume dos Escritos Filosóficos de Taylor está longe de se fazer através de malabarismos conceituais. O texto é claro, e a linha demarcatória que ele deseja incluir é a seguinte: há ciências hermenêuticas, nas quais a interpretação dos documentos ou fatos é tão importante quanto o material que anuncia as pesquisas ou descobertas; em contrapartida, há aquelas ciências que lidam tão somente com dados brutos, que são definidos como unidades de informação não derivadas do julgamento, isto é: informações que não têm em si nenhum elemento de leitura ou interpretação.
O que se pratica em uma ciência hermenêutica é a tentativa de fazer com que o significado expresso pelo autor se torne explícito. Isto significa criar um sentido que perpassa várias subjetividades: a do autor, a do intérprete e as daqueles que os lerão e darão seqüência ao trabalho.
A dificuldade aqui é que, para tanto, uma intrincada rede de estruturas interpretativas se arma, e esta leva em conta elementos de um campo prolixo: o dos desejos humanos, dos sentimentos, das emoções. Considerando que estas construções da subjetividade se erguem também a partir das relações dos indivíduos com aqueles que o cercam, teremos por fim que as interpretações se ligam a um tipo de cultura, o qual, por sua vez, é inseparável das distinções e categorias marcadas pela língua falada pelo povo do qual o leitor/pesquisador faz parte. Os entrelaçamentos são, desta maneira, infindáveis. Não é à toa, pois, que os resultados encontrados nas ciências humanas sejam muitas das vezes problemáticos e, até certo ponto, escassos.
No caso da física, por exemplo, é certo argumentar que se um indivíduo não aceita uma teoria, ou ele não foi apresentado a um número suficiente de evidências (ou estas ainda não existem), ou ele não pôde aprender e aplicar alguma linguagem formalizada, necessária à leitura dos dados. Já em uma ciência hermenêutica uma certa medida de compreensão é necessária, e essa compreensão acaba sendo comunicada à coleta do que deveriam ser seus dados brutos. O que se abre a partir destas transcrições de conhecimento é o que Taylor chamará de lacuna intuitiva, isto é: quando alguém não pode compreender os tipos de autodefinição nos quais os argumentos se montam, isso porque a linguagem no qual eles são propostos é subjacente a uma determinada sociedade ou conjunto de instituições.
Está sempre à espreita, conseqüentemente, aos que lidam com as ciências hermenêuticas, a impossibilidade de compreender o campo de significação na qual suas questões se inscrevem.
Além dessa diferença capital entre as ciências naturais e humanas, Taylor levanta ainda três dificuldades que se apresentam ante o estabelecimento das ciências do homem. A primeira delas é de que não há como blindar certos domínios humanos, como os psicológicos, os econômicos ou políticos, de interferências externas. Ou seja: estes domínios não podem ser tratados como sistemas fechados para análise, e não há como reproduzi-los de maneira isolada e repetidas vezes.
Uma segunda dificuldade é de que uma ciência interpretativa não pode alcançar graus de exatidão como aqueles que se tornam possíveis a partir dos dados de uma ciência natural. Isso porque diferentes nuances de interpretação devem levar a diferentes predições em determinadas circunstâncias.
O último e mais complexo entrave nasce do fato de o homem ser uma criatura que se autodetermina ininterruptamente. As mudanças em sua autodeterminação significam mudanças em o quê este homem é. Resultado: as chaves de interpretação dos fenômenos humanos são alteradas com elevada constância.
Ao contrário disso, o sucesso da predição em ciências naturais está ligado ao fato de que todos os estados do sistema, passado e futuro, podem ser descritos em uma mesma classe de conceitos, ou seja: a partir das mesmas variáveis. Por isso uma teoria é, nesse lado da divisão da ciência, capaz de predizer um evento tão facilmente como explicou eventos passados, já que se tratariam sempre de um mesmo processo, já elucidado.
A crítica e as aproximações de Kuhn
Em seu livro O caminho desde A estrutura, Thomas Kuhn retoma certos posicionamentos de Taylor a fim de indicar a sua não concordância com alguns dos pontos do artigo de 1985 . O primeiro deles, e que será retomado em diferentes formatações ao longo de As ciências naturais e as ciências humanas , será justamente o que diz respeito ao caráter hermenêutico das ciências humanas. Kuhn diverge, de fato, quanto a não extensão dessa característica às ciências naturais, o que significa dizer que esta não seria uma linha demarcatória entre as duas empreitadas.
A fim de ilustrar a sua afirmação, o pensador edifica um exemplo: o da observação do céu. Quando olhamos para cima, não vemos o mesmo céu que os gregos viam. Isso não acontece, todavia, porque os objetos observados são diferentes, mas sim porque as taxonomias celestiais das quais fazemos uso são bastante diferentes. Os gregos antigos classificavam os objetos celestes em três categorias: as estrelas, os meteoros e os planetas. O Sol, Marte, Júpiter ou a Lua, pertenciam ao grupo dos planetas. Já a Via Láctea ocupava o conjunto dos meteoros, juntamente com o arco-íris e as estrelas cadentes. Isso quer dizer que, quando falamos de objetos que são os mesmos, estamos propondo-os através de esquemas interpretativos distintos. Há, portanto, uma hermenêutica subjacente a esta ordenação, e que atua sobre a nossa forma de perceber os elementos e os fenômenos da natureza.
O que Taylor e seus adeptos poderiam argumentar neste momento é que essas interpretações diferentes do mundo celeste seriam, na verdade, meras crenças a respeito de um mesmo objeto, e que essas não são constitutivas dos mesmos. Ao apontar ou calcular as posições dos astros, por exemplo, tais crenças se esvairiam, não fariam mais sentido frente ao dado bruto.
Em contrapartida, essa distinção entre objeto e interpretação não existiria, como já foi dito aqui, nas ciências humanas. Uma descrição qualquer sobre um fato antropológico conteria já uma hermenêutica. O evento seria colado à sua interpretação, e os dois atuariam conjuntamente em uma espécie de fusão. O resultado disso é que os conceitos sociais dariam forma ao mundo que esclarecem. Acabariam por se tornar, de certa forma, como que uma representação direta desse mundo; se transfigurariam na coisa explicada.
Na análise do pensador canadense os conceitos das ciências naturais não são capazes, como os das ciências humanas, de “moldar o mundo a que são aplicados”. E mais: não dependem da cultura na qual são gestados. Kuhn não irá concordar nem com uma afirmação, nem com a outra.
O argumento para o contraste, baseado no trabalho de Wiggins , é o seguinte: para que um certo dado seja recolhido ou, seguindo o exemplo, um objeto celeste seja analisado, é necessário que a ele voltemos nosso olhar por várias vezes, sistematicamente. Os olhares que se seguem ao primeiro já carregam em si uma tipologia, uma classificação, algumas determinações. Não há como estudar algo sem que uma conceituação deste já esteja minimamente definida, pois o segundo encontro com o objeto a analisar traz em si os elementos captados na primeira empreitada. Assim acontece nas ciências humanas, e assim acontece também nas ciências naturais. E por mais que haja nas segundas uma tentativa de descrição neutra, uma busca de uma linguagem devidamente calibrada, é impossível que seus dados se projetem isentos da cultura na qual são ou gestados, ou analisados.
Seriam as ciências sociais e naturais diferentes, ou estariam apenas em diferentes estados?
Tendo assegurado a não existência de uma linha demarcatória, Kuhn pode então se perguntar se as diferenças que podem ser vistas entre as ciências naturais e sociais são de princípio, ou se ligam ao grau de desenvolvimento de ambas.
A resposta a essa questão começa no argumento anterior: o de que os conceitos nas ciências naturais também são produtos hermenêuticos e, portanto, históricos. Sendo desta forma, o que acontece é que tais conceitos são transmitidos aos iniciados, muitas vezes a partir de um processo de genealogia das idéias, que tenta fazer com estas sejam compreendidas de maneira aproximada em diferentes culturas e momentos históricos. Ou seja: os diversos períodos das histórias das ciências seriam marcados por diferentes bases hermenêuticas de compreensão de seus conteúdos. Ora: isto estaria muito próximo a um dos mais importantes e caros conceitos kuhnianos: o de paradigma.
O que acontece nas ciências naturais é que, ofertada uma base hermenêutica, podendo essa ser considerada um paradigma, os pesquisadores não realizam hermenêutica sobre hermenêutica, interpretação sobre interpretação: eles buscam solucionar quebra-cabeças, resolver os problemas da ciência a partir de um mesmo sistema interpretativo, aperfeiçoando a correspondência entre a teoria e a experiência. A produção de novos paradigmas ocorre, mas não de forma intencional e sim como resultado de uma espécie de saturação do paradigma anterior, que em dado momento é incapaz de dar conta de certas peculiaridades surgidas durantes as pesquisas. As ciências naturais produzem hermenêuticas, mas este não é o seu papel.
Já as ciências humanas, ao menos na leitura feita por Taylor - e talvez seja essa mesmo a atual situação de seu modo de operar – fazem da busca de novas e mais densas interpretações o seu objetivo de trabalho.
Devemos questionar, então, se seria este mesmo o papel das ciências humanas, se ela estará sempre atrelada a essa produção infinita de hermenêuticas, ou se com a crescente especialização dentro desse campo, poderão ser desenvolvidos paradigmas mais fixos e, portanto, viabilizadores de uma pesquisa normal, mais atrelada à solução de problemas.
Kuhn levantará aqui duas vias de resposta. A primeira é de que, ao observarmos a história das ciências naturais, veremos que áreas como a química ou a biologia já se depararam com as mesmas dificuldades encontradas hoje pelas ciências humanas. O que houve, e espera-se que o mesmo ocorra com os estudos do homem e da sociedade, é que haja a possibilidade de que certos paradigmas devidamente estanques sejam produzidos, e que esses permitam a entrada de certos campos do saber na produção daquilo a que chamamos de pesquisa normal. É possível, inclusive, que tal estado epistemológico já tenha encontrado lugar na psicologia e na economia, por exemplo.
O que talvez impossibilite que tal via seja tomada por algumas das ciências humanas diz respeito a um problema corretamente apontado por Taylor. O céu, sobre o qual certos paradigmas foram desenvolvidos, e para o qual alguns deles se mostraram devidamente estáveis para o desenvolvimento de uma pesquisa normal, permaneceu praticamente o mesmo desde os gregos. Essa constância, entretanto, não pode ser esperada e é praticamente impossível em determinadas unidades de estudo. Nestas, constantes reinterpretações e, por conseguinte, as reintegrações culturais dos conceitos e leituras podem ser necessárias.
A resposta à pergunta que inaugura esse texto fica, pois, não exatamente em aberto. Há semelhanças onde o que se viam eram diferenças, mas há determinadas peculiaridades que podem não ser superadas. Não sabemos, também, se é exatamente ruim que as coisas se passem desta maneira.
9.5.11
De João
O primeiro poema que o João escreve e tem coragem de me mostrar.
Afundei feio outra vez
Essas coisas acontecem
Como num jogo de xadrez.
Embora saiba jogar
Você erra feio
O pior mesmo é que
Não tem freio.
Não importa a idade
Não importa o assunto
Não importa a jogada.
O que importa
É o que tem no fundo.
Você sempre aprende
Com seus erros,
E não com
Seus acertos.
Mas se aprende
Você entende
Como se joga,
E como se sente.
Afundei feio outra vez
Essas coisas acontecem
Como num jogo de xadrez.
Embora saiba jogar
Você erra feio
O pior mesmo é que
Não tem freio.
Não importa a idade
Não importa o assunto
Não importa a jogada.
O que importa
É o que tem no fundo.
Você sempre aprende
Com seus erros,
E não com
Seus acertos.
Mas se aprende
Você entende
Como se joga,
E como se sente.
28.4.11
3.4.11
10.12.10
Poema novo, 16 anos depois
Vendetta
Suas belas pernas, devidamente cortadas em 72 pedaços,
serão arremessadas aos peixes do jardim japonês.
Eu não terei o que ver com o assunto,
a não ser a preocupação com a saúde dos anfíbios
que talvez disputem os nacos.
Bem... de certa forma há sim uma mentira aí porque antes disso tudo, antes que nada me ligue ao caso e aos peixes e tal, terei escrito palavras ou representações aleatórias de sons nos 72 cortes-decomposição de teus membros inferiores.
Sem ter a menor noção das coisas, mas agora de verdade mesmo, os peixes, ao comer os tecos, hão de compor um poema dadaísta com estes pedaços teus.
Tuas belas pernas serão versos desconexos na boca de salmões, tainhas e pintados. Não, não: não faço a menor idéia de quais peixes habitam normalmente um jardim japonês. Mas eu não preciso saber já que nada tenho com isso.
A minha única e elevada preocupação - além daquela dos anfíbios - é querer que suas pernas se transformem em um poema dadaísta, com um certo acento italiano se possível, e que depois acabem como coco de peixe.
Ho di niente te contro non Io.
Suas belas pernas, devidamente cortadas em 72 pedaços,
serão arremessadas aos peixes do jardim japonês.
Eu não terei o que ver com o assunto,
a não ser a preocupação com a saúde dos anfíbios
que talvez disputem os nacos.
Bem... de certa forma há sim uma mentira aí porque antes disso tudo, antes que nada me ligue ao caso e aos peixes e tal, terei escrito palavras ou representações aleatórias de sons nos 72 cortes-decomposição de teus membros inferiores.
Sem ter a menor noção das coisas, mas agora de verdade mesmo, os peixes, ao comer os tecos, hão de compor um poema dadaísta com estes pedaços teus.
Tuas belas pernas serão versos desconexos na boca de salmões, tainhas e pintados. Não, não: não faço a menor idéia de quais peixes habitam normalmente um jardim japonês. Mas eu não preciso saber já que nada tenho com isso.
A minha única e elevada preocupação - além daquela dos anfíbios - é querer que suas pernas se transformem em um poema dadaísta, com um certo acento italiano se possível, e que depois acabem como coco de peixe.
Ho di niente te contro non Io.
17.10.10
Das coisas estúpidas do Facebook
De um jornalista que até chegou a escrever bastante aqui em Campinas:
Eu estava no Rio, no meio de uma multidão na festa do Círio de Nazaré, lá na minha querida Tijuca. A igreja lotada, as pessoas nas barraquinhas na rua, todos festejando. Em um dado momento dois helicopteros da polícia passaram bem baixo, os policiais com seus fuzis pra fora. Ninguém ligou! Então pensei: se fosse em São Paulo todo mundo já tinha saído correndo e a festa tinha acabado. São Paulo é tão Regina Duarte!!!
Entenderam?
Até agora duas pessoas já haviam "curtido isso", e há um comentário aprovando (é claro).
P.S: outra pérola - Por mim eu jogava a igreja no lixo, não serve para nada!
É de uma sensatez e de uma sensibilidade histórico-sociológica de dar medo. Além de: não serve pra nada, mas freqüenta?
Eu estava no Rio, no meio de uma multidão na festa do Círio de Nazaré, lá na minha querida Tijuca. A igreja lotada, as pessoas nas barraquinhas na rua, todos festejando. Em um dado momento dois helicopteros da polícia passaram bem baixo, os policiais com seus fuzis pra fora. Ninguém ligou! Então pensei: se fosse em São Paulo todo mundo já tinha saído correndo e a festa tinha acabado. São Paulo é tão Regina Duarte!!!
Entenderam?
Até agora duas pessoas já haviam "curtido isso", e há um comentário aprovando (é claro).
P.S: outra pérola - Por mim eu jogava a igreja no lixo, não serve para nada!
É de uma sensatez e de uma sensibilidade histórico-sociológica de dar medo. Além de: não serve pra nada, mas freqüenta?
16.10.10
Sutilezas calligarianas
No que prometia ser um belo dia de primavera de meados dos anos 1970 em Paris, um jovem psicanalista trabalhava no plantão de uma enfermaria psiquiátrica.
Considerando a exiguidade do salário que ele recebia, seria mais correto dizer que ele estagiava. De qualquer forma, ele não estava ali pelo dinheiro, mas para enriquecer sua experiência dos caminhos pelos quais a gente enlouquece e sofre.
O jovem psicanalista estava sempre disposto a topar uma parada que pudesse lhe ensinar algo novo. Naquele dia, embora esta não fosse sua atribuição, ele, com um psiquiatra e dois enfermeiros, embarcou na ambulância que respondia a um chamado da polícia do bairro 13. O comissariado recebera o telefonema angustiadíssimo de um homem que acabava de encontrar sua mulher e sua filha de um jeito que não conseguia descrever, mas que, ele gritava, não era normal.
A ambulância chegou antes dos policiais. O marido, desculpando-se por não ter a coragem de voltar lá dentro, apontou na direção da porta do banheiro do apartamento.
O jovem psicanalista foi o primeiro a entrar e descobriu uma jovem mulher, deitada nua na banheira, cantando feliz enquanto brincava com seu bebê na água. A jovem mulher não pareceu perceber a chegada do estranho e o jovem psicanalista se deu conta de que o bebê era curiosamente inerte, rígido e branco: ele estava morto há tempo.
O jovem psicanalista nunca esqueceria o corpinho que ele apertou contra si, como se houvesse uma chance de esquentá-lo de volta para a vida.
Engravidar e dar à luz (apesar de ser o cotidiano da espécie) são experiências tão extremas que elas podem enlouquecer algumas mulheres, em geral temporariamente, logo após o parto.
A internação da mulher de nossa história durou pouco: ela foi declarada não imputável por razão de insanidade e recuperou a dita sanidade rapidamente.
Durante sua internação, soube-se que, dois anos antes, um irmão do bebê morto na banheira também tinha falecido, aos três meses, de morte súbita e inexplicada. A equipe do hospital se perguntou: não seria legítimo esterilizar compulsoriamente as mulheres que matassem seus bebês numa psicose desencadeada pelo parto? De fato, existe um risco estatístico de recidiva caso elas deem à luz outra vez.
A discussão não chegou a conclusão alguma; ficou suspensa entre o respeito pela esperança de uma mãe que quer tentar uma nova gravidez, a dificuldade de garantir o direito à vida dos nascituros e nossa incapacidade de prever, prevenir e intervir a tempo. Pouco importa, pois nisto eu acredito mesmo: todas as discussões que valem a pena são inconclusas.
Bastante tempo depois, o jovem psicanalista, que não trabalhava mais naquele hospital, recebeu um telefonema do psiquiatra que estivera com ele na ambulância. A jovem mulher da banheira pedira uma consulta na mesma enfermaria onde ela fora internada dois anos antes: ela estava grávida e queria saber se corria o risco de enlouquecer de novo e assassinar seu bebê no berço. Que ela perguntasse era um bom sinal, mas insuficiente para responder com segurança. O que fazer? Encorajá-la a abortar ou a apostar que nada aconteceria? Quem sabe sugerir que levasse a gravidez a termo e se engajasse a entregar o bebê, na hora do parto, para a assistência pública?
Não sei a resposta certa e é por isso que me lembrei dessa história.
Uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja. Numa eleição, as pessoas precisam ser a favor ou contra.
Ora, as pretensas discussões entre "a favor" e "contra" me inspiram o mesmo mal-estar que sinto quando assisto a uma cena de violência. Faz sentido porque, nessas discussões, ninguém argumenta, cada um apenas reafirma abstratamente sua identificação: em "eu sou a favor" e "eu sou contra", o que mais importa é reforçar o "eu". Com isso, inevitavelmente essas discussões menosprezam, atropelam e violentam a vida concreta de todos.
Depois desse preâmbulo, talvez eu consiga, numa coluna futura, escrever sobre a questão do aborto. Enquanto isso, eis uma leitura que recomendo a todos os que preferem pensar a gritar: "O Drama do Aborto: Em Busca de um Consenso", de dois médicos, A. Faúndes e J. Barzelatto (Komedi). Sobre o tema, talvez esse seja o escrito mais honesto, menos tendencioso e mais generoso que já li.
Considerando a exiguidade do salário que ele recebia, seria mais correto dizer que ele estagiava. De qualquer forma, ele não estava ali pelo dinheiro, mas para enriquecer sua experiência dos caminhos pelos quais a gente enlouquece e sofre.
O jovem psicanalista estava sempre disposto a topar uma parada que pudesse lhe ensinar algo novo. Naquele dia, embora esta não fosse sua atribuição, ele, com um psiquiatra e dois enfermeiros, embarcou na ambulância que respondia a um chamado da polícia do bairro 13. O comissariado recebera o telefonema angustiadíssimo de um homem que acabava de encontrar sua mulher e sua filha de um jeito que não conseguia descrever, mas que, ele gritava, não era normal.
A ambulância chegou antes dos policiais. O marido, desculpando-se por não ter a coragem de voltar lá dentro, apontou na direção da porta do banheiro do apartamento.
O jovem psicanalista foi o primeiro a entrar e descobriu uma jovem mulher, deitada nua na banheira, cantando feliz enquanto brincava com seu bebê na água. A jovem mulher não pareceu perceber a chegada do estranho e o jovem psicanalista se deu conta de que o bebê era curiosamente inerte, rígido e branco: ele estava morto há tempo.
O jovem psicanalista nunca esqueceria o corpinho que ele apertou contra si, como se houvesse uma chance de esquentá-lo de volta para a vida.
Engravidar e dar à luz (apesar de ser o cotidiano da espécie) são experiências tão extremas que elas podem enlouquecer algumas mulheres, em geral temporariamente, logo após o parto.
A internação da mulher de nossa história durou pouco: ela foi declarada não imputável por razão de insanidade e recuperou a dita sanidade rapidamente.
Durante sua internação, soube-se que, dois anos antes, um irmão do bebê morto na banheira também tinha falecido, aos três meses, de morte súbita e inexplicada. A equipe do hospital se perguntou: não seria legítimo esterilizar compulsoriamente as mulheres que matassem seus bebês numa psicose desencadeada pelo parto? De fato, existe um risco estatístico de recidiva caso elas deem à luz outra vez.
A discussão não chegou a conclusão alguma; ficou suspensa entre o respeito pela esperança de uma mãe que quer tentar uma nova gravidez, a dificuldade de garantir o direito à vida dos nascituros e nossa incapacidade de prever, prevenir e intervir a tempo. Pouco importa, pois nisto eu acredito mesmo: todas as discussões que valem a pena são inconclusas.
Bastante tempo depois, o jovem psicanalista, que não trabalhava mais naquele hospital, recebeu um telefonema do psiquiatra que estivera com ele na ambulância. A jovem mulher da banheira pedira uma consulta na mesma enfermaria onde ela fora internada dois anos antes: ela estava grávida e queria saber se corria o risco de enlouquecer de novo e assassinar seu bebê no berço. Que ela perguntasse era um bom sinal, mas insuficiente para responder com segurança. O que fazer? Encorajá-la a abortar ou a apostar que nada aconteceria? Quem sabe sugerir que levasse a gravidez a termo e se engajasse a entregar o bebê, na hora do parto, para a assistência pública?
Não sei a resposta certa e é por isso que me lembrei dessa história.
Uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja. Numa eleição, as pessoas precisam ser a favor ou contra.
Ora, as pretensas discussões entre "a favor" e "contra" me inspiram o mesmo mal-estar que sinto quando assisto a uma cena de violência. Faz sentido porque, nessas discussões, ninguém argumenta, cada um apenas reafirma abstratamente sua identificação: em "eu sou a favor" e "eu sou contra", o que mais importa é reforçar o "eu". Com isso, inevitavelmente essas discussões menosprezam, atropelam e violentam a vida concreta de todos.
Depois desse preâmbulo, talvez eu consiga, numa coluna futura, escrever sobre a questão do aborto. Enquanto isso, eis uma leitura que recomendo a todos os que preferem pensar a gritar: "O Drama do Aborto: Em Busca de um Consenso", de dois médicos, A. Faúndes e J. Barzelatto (Komedi). Sobre o tema, talvez esse seja o escrito mais honesto, menos tendencioso e mais generoso que já li.
12.10.10
Agressividade em épocas de eleição
Começarei a postar uns textos curtos sobre a eleição. Já que todo mundo se acha no direito de ficar fazendo campanha no Facebook, por que é que eu não posso usar um espaço onde os que eu conheço visitam por escolha para tecer algumas considerações, não é mesmo?
Mas a primeira coisa sobre a qual gostaria de comentar, e rapidamente, é a agressividade que se encontra na Internet em época de eleição. Que o fanatismo produz estúpidos em série, e que nos surpreendemos com o que ele faz com certos indivíduos que consideramos ter uma boa capacidade intelectual, isso já sabíamos. Mas a virtualidade tem adicionado um outro elemento aí: a boçalidade apedrejante. Qualquer comentário simples, mas que possa demonstrar uma discordância de opinião, é recebido a pedradas, tapas e pontapés. Só se aceita a afirmação: "- Eu a apóio; - Ah, eu também a apóio: nós somos demais!; - Eu também a apóio, sou demais como vocês! Posso republicar isso?". Ai se alguma pergunta tola qualquer, do tipo: "mas por que apóia?" é feita... Porrada!
Tive um papo ótimo via e-mail com um amigo, e a conversa democrática na Internet nessas eleições parou por aí. Nem um mais argumento sequer. Só falta de educação. Aliás: quando algum tipo de argumento aparece, e não é para responder perguntas, a coisa é de uma tristeza sem fim. Vi alguns doutores em filosofia se valendo de deduções que os fariam reprovar no pré-primário. Com foi acima, já sabemos o motivo.
Um dia desses eu volto. Espero que seja amanhã.
Mas a primeira coisa sobre a qual gostaria de comentar, e rapidamente, é a agressividade que se encontra na Internet em época de eleição. Que o fanatismo produz estúpidos em série, e que nos surpreendemos com o que ele faz com certos indivíduos que consideramos ter uma boa capacidade intelectual, isso já sabíamos. Mas a virtualidade tem adicionado um outro elemento aí: a boçalidade apedrejante. Qualquer comentário simples, mas que possa demonstrar uma discordância de opinião, é recebido a pedradas, tapas e pontapés. Só se aceita a afirmação: "- Eu a apóio; - Ah, eu também a apóio: nós somos demais!; - Eu também a apóio, sou demais como vocês! Posso republicar isso?". Ai se alguma pergunta tola qualquer, do tipo: "mas por que apóia?" é feita... Porrada!
Tive um papo ótimo via e-mail com um amigo, e a conversa democrática na Internet nessas eleições parou por aí. Nem um mais argumento sequer. Só falta de educação. Aliás: quando algum tipo de argumento aparece, e não é para responder perguntas, a coisa é de uma tristeza sem fim. Vi alguns doutores em filosofia se valendo de deduções que os fariam reprovar no pré-primário. Com foi acima, já sabemos o motivo.
Um dia desses eu volto. Espero que seja amanhã.
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