12.3.09

Mensagens perdidas na caixa de entrada do meu celular

08/12/2007 - 01h02

Tararara, tararara
Tararara, tararara



Meu aniversário. Tudo começou quando eu e Ricardo resolvemos tomar uma no City Bar. Lá pelas tantas a Cíntia chegou. Lá pelas tantas a Cosmic Girl chegou. Depois de bebermos muito - os moços - resolvemos que eu merecia um bolo. Fomos então a uma padaria muito chique, na qual compramos um bolo de chocolate. Comemos o bolo na embalagem mesmo, sobre a mesa, com garfos de plástico. Ricardo quase incendiou o bolo e a padaria. Foi esse o momento da mensagem. Cíntia disse era a música da pantera cor-de-rosa. Tomamos cerveja alemã, caríssima. Produzimos um lindo wikipoema em um guardanapo. Ao pagarmos, uma certa pessoa subtraiu balas Wonka do caixa e saímos rindo como crianças. Fomos comer um lanche no Piu-Piu. Brincamos de um jogo no qual tínhamos que encontrar músicas que contivessem uma tal palavra escolhida em sua letra. Ricardo e Cosmic Girl terminaram a noite cantando todas as músicas do Guilherme Arantes - eu e Cíntia cantamos as que sabíamos -, e concluímos todos que esse cara é realmente fabuloso. Enfim: uma noite mais fabulosa do que o Guilherme Arantes.



O Wikipoema, tirado do guardanapo todo imundo, porque as pessoas resolveram assinar com o polegar sujo de cobertura de chocolate:

Fabianinho, Fabianão
vai crescendo de montão
essa minha emoção
sem noção, sem noção

Você é coisa fina
de molhada gosta de piscina
de secão gosta do João

Fabianinho, Fabianão
de agora em diante grisalhão, lobão
ninguém mais vai segurar esse homenzarrão
bonito, esperto, camarada e amigão
você é o sonho das mina
dos amigos você é a sina
dos malacos você é o chefão

Fabianinho, Fabianão
aceite este lindo poema
feito com amor e a 6 mãos
que este dia valha a pena
porque está com seus irmãos.

21.2.09

Carnaval

O Carnaval de Bandeira é quase um anti-carnaval. É um carnaval das formas internas, do extasiamento consigo, da deflexão da turba. É o carnaval de quem (já) não (mais) precisa de carnaval, ou de quem não o reconhece ou jamais o reconheceu. É um menos carnaval no carnaval; um carnaval que deveria ser; um carnaval necessariamente de poucos.


Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão constratado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.

Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.

A turba, ávida de promiscuidade,
Acotevelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negro, negros...
mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria...

14.2.09

Nina Simone - Cherish

É assim... impressionante demais.



Se não funcionar. o link é este: http://www.youtube.com/watch?v=6Ha4iFG4nVU.

Merece a letra:

Cherish is the word I use to describe
All the feeling that I have hiding here for you inside
You don't know how many times I've wished that I had told you
You don't know how many times I've wished that I could hold you
You don't know how many times I've wished that I could
Mold you into someone who could
Cherish me as much as I cherish you
Perish is the word that more than applies
To the hope in my heart each time I realize
That I am not gonna be the one to share your dreams
That I am not gonna be the one to share your schemes
That I am not gonna be the one to share what
Seems to be the life that you could
Cherish as much as I do yours
Oh I'm beginning to think that man has never found
The words that could make you want me
That have the right amount of letters, just the right sound
That could make you hear, make you see
That you are drivin' me out of my mind
Oh I could say I need you but then you'd realize
That I want you just like a thousand other girls
Who'd say they loved you With all the rest of their lies
When all they wanted was to touch your face, your hands
And gaze into your eyes
Cherish is the word I use to describe
All the feeling that I have hiding here for you inside
You don't know how many times I've wished that I had told you
You don't know how many times I've wished that I could hold you
You don't know how many times I've wished that I could
Mold you into someone who could
Cherish me as much as I cherish you
And I do cherish you
And I do cherish you
Cherish is the word

13.2.09

Imanência e transcendência

Há um ano meio mais ou menos, em um dia no qual fui buscar o João no futsal, um menino com pouco mais de dez anos me abordou na porta do colégio:

- Hei, é você o pai do João não é?
- Sou sim, por quê?
- Ah, ele já vem vindo. É que eu vi o caminho que vocês fazem pra voltar e vocês passam em frente à minha casa.
- Hã.
- Eu vou com vocês tá? Assim a gente vai conversando.

E como ele conversava. E como ele falava. E como era engraçado o Jonatan. Perspicaz até o fim, já foi logo no primeiro dia tratando de coisas esdrúxulas para um menino de dez anos:

- Por que é que só você vem buscar o João no futebol?
- Como assim?
- Cadê a mãe dele? Vocês são separados?
- É isso, somos.
- Ah, e você tem a guarda dele?
- Não. Ele ficou comigo depois da separação, e só.
- Ah, porque esse negócio de guarda é muito complicado. Meus pais são separados também e eles estão quebrando o maior pau por causa da minha guarda.
- Você mora com quem?
- Moro com a minha mãe.
- Tá.
- Mas meu pai quer que eu more com ele. Semana que vem tem audiência e eu vou poder falar. Acho que vou dizer que quero ficar um pouco com meu pai. Vou dizer isso pro juiz.

Naquele semestre o Jonatan voltou com a gente quase todas as quartas e sextas, dias do futsal. Sempre mantinha a média: quanta abobrinha, quanta piada feita sem querer falava o Jonatan. No outro ano, o ano passado, ele sumiu. Mudou o horário do futsal porque seu pai havia conseguido a guarda. Foi morar com o pai, como queria. Como se manteve na escola, entretanto, encontrava com ele sempre. Falava oi, e ele vinha com aqueles cumprimentos doidos feitos com as mãos, comuns às crianças.

Na terça-feira cheguei do trabalho e o João estava meio estranho.

- Você ficou sabendo pai?
- Do quê?
- Do Jonatan. Lembra do Jonatan?
- Claro que eu lembro. O do futsal, né?
- Ele morreu.
- Hã?
- Ele tava com o pai dele, de moto, e eles foram ultrapassar um caminhão. Alguma coisa deu errado e eles foram parar embaixo do caminhão. O caminhão passou em cima deles. Hoje a sala dele nem teve aula. Foram pro enterro.

E então eu sentei; fiz cara de quem está pensando em algo mas não consegue articular nada. Olhei pro teto e soltei o clássico "que merda". Há coisas difíceis de se acreditar, e quando elas acontecem não adianta uma tentativa de racionalização: tudo, mas tudo mesmo, perde o sentido. O mundo passa a uma atonia sem fim. E esperamos o tempo passar, com aquela sensação esquisita, ruim demais, e só - só isso é possível. Que merda...

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Tenho três manias, apenas três. Uma delas, que carrego desde pequeno, é a de ficar lendo dicionário. Leio dicionários como se fossem bons romances. A segunda é a de saber quanto medem as pessoas. Nem quero entender o motivo disso, mas me pego às vezes procurando saber quanto media, sei lá, o Ricardo Montalbán. A terceira é a de ler o obituário do jornal. Não só o leio. Faço sempre uma redistribuição de vida. Não acho justo que alguns morram com 95 e outros com 33. Então repasso os anos. Em Campinas as pessoas morrem, normalmente - segundo o que vejo - bem velhas. Mas há sempre alguém que se vai com trinta e poucos e deixa filhos. Então passo cinco anos desse aqui pra cá. Tiro dois desse aqui e passo pra lá também, e tento pensar que assim poderia resolver o problema. No dia 10/02 daria pra conseguir, fácil, mais sessenta anos pro Jonatan, e todo mundo daquela data morreria certo, em uma época na qual se pode morrer. É difícil conseguir admitir que crianças morram. Eu não consigo, mas as coisas assim acontecem. Que merda...

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Sou ateu, mas se acreditasse em algo, iria com Veríssimo: Existe um ser superior que dirije os nossos destinos, só não se sabe como ele conseguiu passar no teste psicotécnico.

12.2.09

La gaya scienza

Vivo em minha própria casa
Jamais imitei algo de alguém
E sempre ri de todo mestre
Que nunca riu de si também.



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7.2.09

A moralidade adversativa

Tese sobre o desenvolvimento da moralidade é coisa que não falta no mercado. Todas com suas belas divisões etárias, suas interpretações sobre a anomia e a autonomia, suas digressões canhestras - na maioria das vezes - a respeito da internalização da lei moral e da própria lei moral. Observações, fichas técnicas e estatísticas: veja só, este menino é ainda um heterônomo, pobre coitado.

Modos de compreender à parte, o Centro Fabianesco de Estudos sobre o Homem tem chegado a ótimas conclusões fazendo uso de uma técnica menos constrangedora: a leitura gramatical. Como o único pesquisador do centro soy yo, passo rapidamente às percepções e conclusões. E a coisa é a seguinte: enquanto o sujeito continuar usando conjunções adversativas em frases iniciadas com pronomes pessoais na primeira pessoa, a coisa ainda não anda bem. Aliás, a coisa está longe de andar bem.

O verdadeiro ser moral é capaz de frases curtas e diretas das do tipo Eu fiz, e ponto, ou seja, sem trelelés. O verdadeiro ser moral não recorre a conjunções coordenativas que o salvem depois da coisa feita, que o justifiquem fazendo da linguagem, da oração sendo mais específico, uma balança que tenta se equilibrar, pois é nisso que ela se transforma quando a conjunção é colocada. Vejamos os exemplos:

Eu quebrei o braço do Zequinha, mas ele tinha passado a mão nos meus fundilhos.

Peguei o dinheiro sim, contudo eu não sabia de quem era.

Eu fui canalha até o fim, mas ela fez por merecer porque deu mole prum sujeito naquela festa.

Eu sequer olhei na cara dele, porém ele foi injusto comigo.



Pois então: ficou clara a questão da balança?

Em um primeiro momento, o pré conjunção, você joga o motivo pelo qual você poderia ser culpado; a balança então pende para o seu lado e apita: errado é você. Eis então que surge a bela e límpida conjunção coordenativa adversativa para salvar a sua pele, seja da ira dos outros, seja da sua mesmo. Mas, porém, todavia, contudo, entretanto há algo a ser dito e que pode aliviar a coisa. E aí surge o momento pós conjunção, que é aquele no qual você revela o podre dos outros ou no qual inventa um fato em um delírio desesperado, fazendo entender que aquele erro justifica o seu, isto é: fornece razão a sua ação, equilibrando a contenda e horizontalizando a balança.

Essa forma de expressão moral, a que eu nomeio de moralidade adversativa, é comumente usada por adultos não tão adultos assim, e isto dependendo da sua expectativa a respeito da chamada autonomia moral. É só prestar um pouco de atenção que vocês perceberão exemplos a todo momento, o que lhes permitirá um certo cuidado no trato destes seres com M.A, evitando transtornos futuros.

No mais, se vocês acharem tudo isso balela e pensarem que eu esteja falando besteira, OK, eu posso até estar errado sobre estas questões de desenvolvimento da moralidade, mas Piaget também estava.

4.2.09

Candy

É o seguinte: essa banda aqui é muito, mas muito legal mesmo. Vocês têm que vê-la ao vivo. E essa moça aí, essa moça que canta pra cacete, ela é muito especial sabe. Ela mora no meu coração, e eu nem ligo de parecer jacu ao dizer isto.

O site da banda é http://www.bandabluegas.com.br/. A moça faz participações especiais, bem especiais. Mas ela é especial mesmo quando canta Baby I love you, da Aretha Franklin, sozinha, com seu violão.

1.2.09

Rua Neto de Araújo Silva, 107

Eu fui.
E ao ir, fiquei horas a pensar em coisas que poderia dizer e que me fizessem parecer uma figura interessante. Nas falas que me tornariam um ser afável e desejável. Nas tiradas, nas ironias, nas metáforas esdrúxulas que causariam bons risos juntos.

Eu voltei.
Não lhe disse mais do que uma dezena de palavras.
Sequer tchau eu disse.

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Conheci pessoas ótimas. Trocamos e-mails. Relações de amizade que podem frutificar.

Quem eu fui conhecer, desconheci.


21.1.09

Desiderium

Pessoa já dizia que somos o intervalo entre o nosso desejo e aquilo que o desejo dos outros fizeram de nós. Para Freud o desejo é algo puramente ligado à memória: só podemos desejar aquilo que já foi vivenciado e causou prazer - se não formos masoquistas, claro -: todo o novo, assim, tende a ser apenas repetição. Já Lacan... Bem, pra Lacan, somos o resultado do desejo do Outro, e só. Para Hobbes, a felicidade se encontra no caminho para a realização do desejo. Assim que o desejo é satisfeito, corremos atrás de outro porque então tudo já ficou sem graça.

Eu só sei que desejo e que não consigo fazer com que este desejo flutue. Aceitar que certas coisas definitivamente não funcionam e ligá-lo a algo que o faça valer, que o aceite e dele faça bom uso. Eu quero que o desejo dos outros atue sobre mim e que me torne um objeto a ser por ele modelado. Quero que meu desejo diga qualquer coisa nova sobre a qual já sei. Que trilhas se refaçam todas as vezes que isso for possível.

Sigo tentando.

15.1.09

Outro do Contardo

Existem alguns textos que deveriam ser obrigatórios: nasceu, viveu um tanto pra compreender, tem que ler. Alguns sujeitos conseguem escrever um bom tanto deles. Contado Calligaris se enquadra nesta categoria. Leiam!!!

Ah: e qualquer semelhança com você, seu vizinho ou primo, não será mera coincidência...


"Closer - Perto Demais": por que somos infelizes em amor?

Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas "Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.

O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.

Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a "Closer - Perto Demais".

1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?

Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).

O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?

Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.

Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.

Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.

2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.

Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.

A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar - não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.

Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.

Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.

3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um
jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.

Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.

4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de
dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.

5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.

Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?

O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.

Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.

14.1.09

Quem é o babaca, mesmo?

Leiam primeiro, depois eu comento e peço algo. Do Correio Popular de hoje:

A babaquice infesta a música pop. Leio hoje nos jornais que o astro Elton John, que fará dois shows no Brasil, exigiu que seu camarim fosse decorado com cinco rosas vermelhas e duas brancas. Até aí tudo bem. O detalhe fabuloso é o seguinte: as astes das rosas devem medir exatamente 112 milímetros.

Em seu staff pessoal virá um camarada designado apenas para fazer a medição das hastes. Se as mesmas não apresentarem o tamanho desejado pelo artista, ele promete dar chilique e ameaça não subir no palco - o que, cá para nós, não seria nada mau.

Contudo, a produção não revelou o que Elton John fará com as hastes de 112 milímetros após o espetáculo. Particularmente, acho as medidas muito pequenas para o histórico do cantor.


E então: chocados? Abismados? Embasbacados? Pois é: este texto foi publicado numa coluna do caderno de cultura do grande jornal de Campinas, que deve ser o maior em tiragem do interior de SP.

Foi escrito, por acaso, pelo mesmo sujeito que escreveu aquele texto mequetrefemente bizarro sobre a questão Israel/ Palestina. Normalmente ele escreve sobre sambas e botecos. Agora anda exercitando a sua anencefalia em outras áreas.

Uma das questões que me deixam estupefato e que deve ser retomada é a seguinte: que alguém escreva com a articulação mental e preconceitos de um quiabo, vá lá, mas e aquele que trata das coisas que devem ser ou não impressas - não deveria ter um mínimo de bom senso?

Ora, temos aqui um texto que nada informa, que não possui sequer uma linha crítica - no sentido cordato da palavra - e que além e acima de tudo é declaradamente e, desculpem a expressão mas não há como dizer de outra forma, nojentamente homofóbico.

O que fazer?

Estou encaminhando este texto para a editora do caderno "cultural" do jornal. Pra quem quiser reclamar, ou fazer o mesmo, o endereço é: daniela@rac.com.br.

Pra terminar, um videozinho pra gente se lembrar de como Elton John é realmente um artista péssimo. E nem vou comentar o fato de sempre ter achado de que se trata de um dos sujeitos de comportamento mais respeitável e digno do todo o mundo pop. Deixa isso pra lá: não vem ao caso.

12.1.09

Feito!


A filosofia é capaz de propiciar, a quem aceita e trabalha o suficiente para isso, o desenvolvimento de uma relação muito, mas muito peculiar entre o iniciado, entre aquele se dispõe a encará-la, e os textos a partir dos quais ela se apresenta. Eu diria sem ressalvas que se trata de uma relação quase psicótica, na qual ocorre uma espécie de fundição entre aquilo o que Kant chama de sujeito transcedental, somadas aí as experiências preenchedoras deste sujeito, e os dados dos texto. E quando digo dados não afirmo apenas o conteúdo semântico mais geral como também as relações gramaticais, as ondulações discursivas, o ritmo, a simpatia - sim! - e tudo o mais o que um escrito teórico pode comportar.

Lembro-me da minha primeira leitura esquizofrênica de um texto. Foi em 1994. Fausto Castilho - e que professor era, e é, Fausto! que cabeça poderosa tem esse homem! - pedia como trabalho semestral uma paráfrase das meditações cartesianas. Quem já teve o prazer de atravessar uma Meditatio que seja sabe que o texto já é pra lá de embrumador. É como se Descartes pegasse na mão do leitor e, através de rigorosas deduções, o fizesse caminhar por um espaço qualquer. É esta a sensação ao final da leitura: de deslocamento, de passagem. É a lógica atuando como poesia. Sentei-me no segundo andar da biblioteca às 9h. Saí para almoçar às 13h e retornei às 15h. Às 19h30 mais ou menos começou a me bater um pavor. Eu havia me misturado ao texto. Eu era Descartes, eu era a cêra, eu era o gênio maligno embusteiro, eu era eu mesmo, a folha branca, o texto em latim da página ao lado, Deus, o ergo sum.

Levantei a cabeça completamente apavorado, com um medo terrível daquilo. Aconteceria de novo? O que foi: Hume, Hobbes, Kant, Platão, Montesquieu, Schopenhauer, Nietzsche, Bachelard, Hegel, blá, blá, blá, blá. Até que resolvi estudar filosofia da psicanálise; até que resolvi tentar compreender o que aquele tal de Freud dizia e o que estava em jogo ali para a história das idéias. Hummm: que embaraço!

Lidar com os escritos freudianos através de uma leitura filosófica não é fácil. Alguns que aqui aparecem o sabem. É uma porrada na cara atrás de outra. Espetos no cérebro. Agulha sob as unhas. Pau-de-arara. Uma terapia das mais cruéis pelas quais se pode passar. Talvez a pior delas. Uma simbiose extremamente doentia. Os psicanalistas mesmo admitem esta posição, e se sentem acuados frente a ela.



Escrevo este texto porque finalmente eu consegui. Porque finalmente eu ultrapassei algo que por pouco não me venceu. Sim, sim: eu senti cada linha de Inibição, sintoma e angústia. Demorei 1 ano para completar as suas 70 páginas, e para isso tive que enfrentar as minhas resistências mais duras. Avançava dez páginas e voltava. Tinha fortes crises de tremor em muitas delas. Olhava pro texto e tinha vontade de chorar. Eu não olhava pro texto: eu olhava pra mim, que era picotado em tiras pelas linhas impressas. Pisoteado por parágrafos. Para todas as minhas inibições, para boa parte do meus sintomas. As angústias...
bem...

Foi isso meu caros, mas agora passou. Estou finalmente a salvo. Posso seguir pela vida com muito mais donaire e segurança. Andar lépido e intrépido por aí, com estes novos chumbos instalados nos calcanhares.

Key to Reserva: Martin Scorsese, Alfred Hitchcock, Herrmann

Ah: eu tive que postar novamente...

11.1.09

4.1.09

Bandeira branca, amor...

Pra começar bem o ano, a absurda tenuidade de um Bandeira.*


Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.




*Para o meu amigo Ricardo, que em nossas saudosas conversas citybareanas - quando estávamos pra lá de Punjab - dividia comigo - e quiçá tornará a dividir - a entusiasmada percepção de que Manuel é, realmente, foda.