17.9.08

Obituário I

Morreu ontem em São Paulo, aos 75 anos, o contista e cronista Lourenço Diaféria.

Não sei quanto a vocês, mas este foi um nome dos mais presentes em minha formação como leitor, e isto graças a uma boa quantidade de textos seus que se espalhavam pelos livros didáticos. E não só por isso: eu gostava dos textos de Lourenço Diaféria.

Como homenagem, vai um conto delicioso, que eu obviamente adorei quanto li: fala de um corintiano apedeuta, e do meu louvado Guarani.



Troquei meu televisor em branco e preto por um televisor em cores com controle remoto, para facilitar a vida de meus filhos, que agora, sabe como é, época de provas, estão se virando mais que pião na roda. Imaginem que outro dia um professor teve a coragem de mandar meu filho gavião-da-fiel fazer um trabalho sobre o Sócrates.
Fiquei uma arara.

Em todo caso, apanhei a revista Placar e recomendei que o garoto consultasse os arquivos esportivos aqui da Folha e do Jornal da Tarde. Não é por ser meu filho, mas o guri caprichou do primeiro ao quinto.

Tirou zero.

Puxa, assim também é demais. Resolvi levar um papo com o professor, ver se não era perseguição. O professor foi muito gentil, porém ninguém me tira da cabeça que ele é palmeirense disfarçado de sãopaulino. Garantiu-me que havia ocorrido um equívoco: O Sócrates que ele queria era um craque da redonda que tomou cicuta. Essa é boa. Por que não avisou antes? Como é que vou adivinhar que o homem jogava dopado?
Me manguei, mas o professor percebeu meu azedume. Disse que ia dar uma nova chance.
Falou e disse.

Preveni meu garoto que ficasse de orelha em pé, lá vinha chumbo. Dito e feito. O professor, deixando cair a máscara alviverde, deu uma de periquito campineiro e pediu um trabalho completo sobre o Guarani.

Deixa que eu chuto, falei a meu filho. Pode contar comigo na regra três. Eu mesmo cuido da pesquisa.

Peguei a escalação completa do Guarani, botei o Neneca no gol, fiz a maior apologia do time da terra das andorinhas. Pra me cobrir e não deixar nenhum flanco desguarnecido, telefonei pro meu amigo Antonio Contente, que transa em assuntos culturais e conexos, como seja a imprensa, e pedi por favor que ele me mandasse uma camisa oito autografada. Diretamente de Campinas e pelo malote.

Não é pra falar, mas o trabalho escolar ficou um luxo.

Sem falsa modéstia, estava esperando pro meu filho no mínimo aprovação cum laude e placa de prata, para não dizer medalha de honra ao mérito.
Pois deu zebra.

Começo a desconfiar que o tal professor me armou uma arapuca e entrei fácil, como um otário. O homem deve ser primo do Dicá. Sabem o que o mestre fez? Hem? Querem saber? Deu outro zero pro meu filho. O pior é que não devolveu a camisa oito autografada.
Essa não deixei barato. Fui de peito aberto, às falas.

- Ilustre - eu disse -, com o perdão da palavra, mas que diabo de safadeza vossa senhoria anda arrumando pro meu garoto gavião-da-fiel? Então eu perco tempo, pesquiso, consulto a história gloriosa da equipe campineira, faço a maior zorra com o time do Brinco da Princesa, e o garoto ganha cartão vermelho?
Que grande cínico! O homem me olhou com aqueles olhos de olheiras - acho que tem almoçado e jantado mal, sei lá dizem que professor padece um bocado-, coçou a cabeça, murmurou:
- Foi o senhor que fez a lição?

Fiquei meio sem jeito:
- Bem, fazer não fiz. Dei uma orientação didática. Pai é para essas coisas...

Ele não se comoveu. Ao contrário, foi até rude:
- Se aceita um conselho, para de dar palpite na lição de casa de seu filho. O senhor não conhece nada do Guarani.

Falar isso na minha cara! Tive de agüentar calado. Nunca soube que no diacho do time campineiro figurasse uma dupla de área chamada Peri e Ceci. E com essa constante mudança de técnicos, como podia sacar que o técnico atual é o Zé de Alencar?

- Tá bem - eu disse -, não vamos brigar por tão pouco. O professor pode dar outra oportunidade ao menino?

Deu. O professor quer agora os capítulos completos de um romance, por coincidência com o mesmo nome do time de Campinas: o Guarani. É qualquer coisa com índio sioux que de repente se vê obrigado a salvar uma mulher biônica das águas da enchente. Deve ser novela em cores. Mas só para complicar a vida de meu filho, o professor não revelou o horário. Porém desta vez ele não me ferra. Pela dica do enredo, que deixou escapar, deve ser mais uma dessas sucessões de cenas de violência que a gente é obrigado a engolir todas as noites na televisão. Estou de antena ligadona, meu chapa.

12.9.08

De 1996


De tanto sol queimando
Os cabelos e vento arrancando
A pele, e depois músculos,
Sabíamos do sorriso dos
Ossos pelo som e
Brilho dos olhos.

Mas do homem do canto,
Nada sabíamos.
Parecia carcomido em tudo
O que lhe havia também
abaixo do esqueleto.

Achávamos que este não
sorriria mais.

Sexual fetishism

Gardelina

Meu amigo de Ribeirão, que começa a fazer fama por lá, escreveu nesta semana um post falando da música platina. Reconheço que pouco sei, quase nada mesmo, sobre a mesma.

Entretanto, apesar da falha, me veio à mente que há aquela canção esplendorosa, inesquecível, de Gardel - Por una cabeza -, e que esta canção magnífica foi usada em uma cena, tão bonita, de um filme chamado Perfume de mulher.

Vai a coisa toda aí embaixo. E antes uma dica: ouçam primeiro a música - uma, duas, dez vezes. Deixem que ela tome o lugar que lhe é de direito em qualquer ser humano. Depois assistam à cena: talvez seja possível, então, bailar também às escuras.

11.9.08

Erroll Garner in Rome 1972: For once in my life

Hoje, há anos

Em 11 de setembro de 2001 eu acordei lá pelas 9h da manhã. Amassei uma banana, cortei um mamão em pedaços e fui dar o café ao João, que se levantou cerca de 10 minutos depois de mim. Estava sol, me lembro bem, e eu morava num apartamento que ficava logo atrás da Escola Americana.

Lá pelas 9h30 liguei para minha sogra a fim de combinar algo sobre deixar o João em sua casa para trabalhar à tarde. Foi neste momento que a primeira informação bombástica me foi passada: - Você viu que o prefeito de Campinas foi assassinado? Hã, o quê?

Um sensação estranha. A coisa tinha acontecido relativamente perto de casa, em uma avenida na qual eu costumava passar com certa constância. Desliguei o telefone e em seguida liguei a TV, a fim de saber mais sobre o crime. Neste momento, o Globo News já transmitia direto de Nova Iorque, com uma torre e meia fumegando. Eu não acreditei naquilo.

A torre sul já havia desabado. Repetia-se sem parar a imagem do avião batendo no outro edifício. Abismei. Aquilo não era verdade, era um filme, e eu fazia parte, estando longe de uma tragédia, e bem ao lado de outra. Informações vinham sobre os outros acontecimentos nos Estados Unidos. Não me lembro de algo ser dito sobre a morte do prefeito.

Liguei pra Flávia, que estava trabalhando, e falei sério: olha, vem pra casa porque o mundo tá acabando... não vejo muitos motivos pra você continuar aí. Ela achou que era brincadeira. Não tinha visto as imagens. Não estava sozinha em casa dando banana para uma criança de 2 anos enquanto um mundo bastante estranho se tornava bizarro, enquanto a realidade parecia que se transmutava em papel machê.

Desliguei o telefone de novo e a torre norte caiu. O João brincando no felpudo tapete azul-marinho da sala, as pessoas chocadas na TV, e eu me movendo numa existência gelatinosa.

Fiz o almoço assim. Troquei-me assim. Acabei deixando o João na escola assim. Fui trabalhar. Passei uns dois dias assim: com uma camada gosmenta entre mim e realidade, com uma percepção baça das coisas.

O engraçado da história é que no dia em que eu acreditei piamente que o mundo iria acabar eu fiz tudo do mesmo modo que faria em um dia comum. E ainda que acreditasse no dia seguinte que as coisas iriam verdadeiramente pro beleléu, fiz tudo de novo.

Hoje não creio mais que o mundo acabe, e a minha percepção há muito está limpa. Só fiquei com um pouco de uma gosma estranha e pegajosa entre os dedos, a qual me faz lembrar disso tudo a cada 11 de setembro.

8.9.08

Três poemas de Piva



De Paranóia - 1963


A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema
paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?

eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de
fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho
todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através do meus sonhos




Os anjos de Sodoma

Eu vi os anjos de Sodoma escalando
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando
prodígios para a criação não
perder o ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e
violentos aniquilando os mercadores,
roubando o sono das virgens,
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando a
loucura e o arrependimento de Deus




Visão de São Paulo à noite
Poema Antropófago sob Narcótico


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidâo e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo

5.9.08

O velho espertinho

Houve uma coisa nesta semana que me incomodou um tanto. Um tantão, na verdade, eu diria.

Tratou-se uma entrevista concedida pelo Ziraldo a um jornal de Campinas. O figura havia aparecido por aqui a fim de participar de um projeto sobre leitura, e resolveu doar um pouco do seu pensamento torto para a galera provinciana. Lá pelas tantas, o cabeça de capacete de algodão soltou a seguinte pérola: "O Maurício de Sousa ganha mais dinheiro do que eu porque ele é mais antigo e menos ideológico do eu".

Sobre a questão do "mais antigo" eu sinceramente não entendi, e na verdade não me preocupa o que ele quis dizer com isso. O que me chamou a atenção foi o resto... Ah, o resto...

Todo mundo aqui sabe que o Ziraldo é o tiozão da esquerda. Aquele povo que só pensa no coletivo, que não liga pra dinheiro, que é aprioristicamente bondoso. Pois bem: só o fato de Ziraldo andar tão preocupado com grana já seria algo - para os desavisados, digamos - esquisito. Mas o irritante aqui é a quantidade de coisas que estão escondidas no "menos ideológico que eu".

Primeiro: o espertalhão faz parecer que é algo menor não ser ideológico, quando na verdade é que isto que se espera, no mínimo, de quem lide com crianças. Ideologia para crianças é crime, apesar de a maioria de nossos educadores - que são da patota - acharem o contrário.

Segundo: foi justamente por ser tão, como ele mesmo disse, ideológico, que Ziraldo ganhou tanto dinheiro, sendo que parte dele saiu de nossos bolsos. Vejamos: Ziraldo é o que é porque participou do Pasquim. Não ponho em dúvida aqui a qualidade de seu trabalho, que se garantia também pela luta que assumiu. E então: ora, se Ziraldo é o que é por conta das coisas que fez contra a ditadura, podemos dizer que, de certa forma, ela não foi lá tão má assim para a sua carreira e, conseqüentemente, para o seu cofre.

E aí vocês podem se irritar comigo e pensar: mas como assim, Fabiano - você exagerou um pouco aqui! Dizer que alguém pode ter se aproveitado do sofrimento de toda uma nação para ganhar com isso? Pois é: e enquanto ganhou dinheiro trabalhando, sem problemas - fez o seu papel. Mas quero lembrar a vocês que em abril deste ano este senhor, que defende com unhas e dentes o seu comunismo, recebeu, dos cofres públicos, R$ 1.000.253,24. Junte a isto o fato de que a partir da mesma data o honorável terá direito também a um salário mensal de R$ 4.376,00. De onde saiu e sairá esse dinheiro? Como já disse acima - repetindo, portanto -, do seu, do nosso bolso, é claro. E por quê? Porque ele se achou prejudicado no exercício de seu trabalho durante os anos de repressão.

No dia em que a coisa foi decidida, o nosso aliciador de menores disse: "Eu quero que morra quem está criticando. Porque é tudo cagão e não botou o dedo na seringa. Enquanto eu estava xingando o Figueiredo e fazendo charge contra todo mundo, eles estavam servindo à ditadura e tomando cafezinho com o Golbery (do Couto e Silva, general, chefe da Casa Civil da Presidência no governo Geisel)".

Entenderam? É isso aí: Ziraldo recebeu uma indenização gigantesca porque pôde trabalhar durante a ditadura. Porque pôde exercer o seu papel. Porque pôde construir seu nome e ganhar muito bem o seu sustento com isso.

Agora pensemos um tanto, neste texto já repleto de dois pontos: o que dá para fazer com 1 milhão de reais e mais 50 mil por ano? Quantas casas se contrói, quanto leitos são atendidos, quantas crianças vão para a escola?

É esse o pensar no coletivo deste povo. É assim que se cria uma classe a que chamamos de burguesia do capital alheio, da qual Lula é seu maior expoente. É assim que ainda se faz graça, criticando quem ganha dinheiro com trabalho correto.

P.S - Por que será que o que Menino Maluquinho gosta de se vestir de Napoleão? Já começo a achar, pelo que disse o criador, que aquela imagem não é tão inofensiva assim. Do que será que Mao, Pol Pot, Pinochet ou Fidel brincavam quando eram crianças?

2.9.08

Carnaval! - Let the children play - Sonzaço!!!

Yo quiero la felicidad
Que da el carnaval...

Yo le digo caballero
Que los niños le quieren jugar
Ellos tienen que jugar
Ellos tienen que jugar...

O Físico e a Pororoca

Um tanto quanto longo, mas merece ser lido. Entrou nas aulas que dei para o terceiro ano sobre a Falácia post hoc, nas quais vimos exemplos vindos também da política e economia.


José Colucci Jr., Ph.D.

É notória a má-vontade dos especialistas para com os jornalistas que se encarregam da divulgação científica. É comum rotularem-se de superficiais as matérias sobre ciência e tecnologia, e de inconseqüentes as sobre medicina e saúde. O que dizer, no entanto, de matéria como a que publicou A Folha de S.Paulo (8/2/01) sobre a homeopatia? A repórter que a assina usou dados da associação máxima da especialidade, consultou profissionais credenciados e ouviu o relato de empresas e pacientes em apoio à homeopatia. O que faz o leitor crítico diante desta e de muitas outras reportagens sobre a medicina dita alternativa? É fácil acusar de levianas matérias que divulguem terapias obscurantistas e carentes de valor científico, mas o que dizer da que promove uma especialidade médica que tem a benção do Conselho Federal de Medicina e da Associação Médica Brasileira, é utilizada na rede pública, conta com 15 mil profissionais cadastrados no país e ganha adeptos a cada dia?

Pedir que a imprensa seja mais responsável do que as duas entidades oficiais citadas seria ingênuo, mas não descabido. Quando os interesses mercadológicos de uma categoria falam mais alto do que o interesse público, a imprensa deveria ser a primeira denunciá-los – porque só interesses mercadológicos explicam o reconhecimento oficial da homeopatia. Se a homeopatia estiver certa, e existir no universo um princípio cujo efeito seja maior quanto mais diluído esteja, estão erradas a química, a física e a medicina modernas. No resto deste artigo, convido o leitor que não esteja disposto a abandonar as conquistas do pensamento científico a considerar as bases físicas da homeopatia.


Hahnemann, Pai da Homeopatia

Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843), o criador da doutrina homeopática, foi um grande médico. Quando começou a formular os princípios da homeopatia (do grego homeo, semelhante, e pathos, sofrimento ou doença), em fins do século 18, o horror que nutria pela medicina tradicional de seu tempo era justificado. Entre os recursos médicos da época contavam-se a aplicação de sanguessugas, os enteroclismas (lavagens intestinais), as sangrias, a administração maciça de drogas perigosas e outros métodos invasivos que geralmente faziam mais mal do que bem. Hipócrates foi a inspiração de Hahnemann para a lei dos semelhantes. Disse ele: "Há doenças que são tratadas pelo similar, outras pelo contrário. Tudo depende da natureza da doença". A noção de que a maioria das doenças pode ser curada pelos mesmos agentes que a causam também é encontrada na medicina chinesa. Se a cura do semelhante pelo semelhante prenunciava-se em Hipócrates, em Paracelso ela era explícita. Foi ele o autor da frase similia similibus curantur, erroneamente atribuída a Hahnemann. Como Hahnemann conhecia perfeitamente o latim e o grego antigo, podemos crer que bebeu de primeira mão dessas fontes clássicas, embora haja quem discorde.

Partindo de observações feitas a partir do uso do extrato de quinino, que, usado em pessoas sadias, parecia produzir os mesmos sintomas da doença que era usado para tratar a malária – chamada então de febre dos pântanos –, Hahnemann formulou o primeiro axioma da homeopatia, conhecido como Lei dos Semelhantes. Outros dois axiomas da homeopatia são a Lei do Remédio Único, que estabelece que o remédio mais eficaz é a substância pura que produza os mesmos efeitos da doença a combater, aplicada em dose única; e a Lei da Dose Mínima, ou dos Infinitesimais, que diz respeito à diluição do princípio ativo, o famoso e controverso princípio do "quanto mais diluído mais forte".

Sem Paralelo

A diluição, chamada em homeopatia de potencialização ou dinamização envolve uma seqüência progressiva de diluição e agitação rítmica, a chamada sucussão. A primeira diluição é obtida adicionando-se uma parte do princípio ativo a nove partes de solvente, geralmente água ou álcool. Faz-se em seguida a sucussão percutindo-se ritmicamente o frasco com a solução contra um anteparo, geralmente uma tira de couro. A potência da solução obtida é de 1DH na escala decimal hahnemanniana, ou seja, uma parte em dez. Para obter-se a potência 2DH, no mesmo sistema decimal, mistura-se uma parte da solução anterior em nove de água, o que resulta em solução com uma parte de soluto em 100 (1 seguido de dois zeros) de solvente. Similarmente, obtém-se as potências seguintes, de 3DH até diluições extremas como 30DH, ou seja, 1/1030, uma parte de soluto em volume de solvente representado pelo número um seguido de trinta zeros.

Embora as diluições mais usadas estejam entre 6DH e 30DH, a coisa não pára por aí – há diluições ainda maiores. Além da escala decimal, representada por DH, existem outras. A escala centesimal hahnemanniana, por exemplo, representada por CH, é bastante usada. Na escala centesimal, uma solução 1CH é 1/100, 2CH é 1/10.000, 3CH é 1/1.000.000, e assim por diante. São comercializados remédios homeopáticos que vão até 200CH, ou 1/100200. Diluições tão altas escapam à compreensão, por não terem paralelo em nossa experiência comum. Os exemplos das seções seguintes talvez ajudem e surpreendam.

Hahnemann e Avogadro

Hahnemann foi contemporâneo de Amadeo Avogadro (1776-1856) mas certamente não conheceu o trabalho do grande químico e físico italiano. O Organon foi publicado um ano antes da formulação da hipótese de Avogadro; muitos anos antes, portanto, da determinação do número que veio a ser conhecido por Constante de Avogadro. Avogadro descobriu que o número de átomos ou moléculas em um mol de uma substância qualquer é constante. Esse número – determinou-se mais tarde – é igual a 6,022137 x 1023. Um mol, ou molécula-grama, é o equivalente em gramas da massa molecular da substância. A massa molecular da água, por exemplo, é 18, pois a molécula da água, H2O, contém dois átomos de hidrogênio, de massa atômica 1, e um átomo de oxigênio, de massa atômica 16. Assim, há exatamente 6,022137 x 1023 moléculas em 18 gramas de água.

As leis da química permitem determinar a solução mais diluída que pode ser preparada sem a eliminação completa da substância original. Estatisticamente, só é garantida a presença de pelo menos uma molécula do princípio ativo em soluções mais concentradas do que uma parte de soluto por volume equivalente à constante de Avogadro de partes de solvente, ou seja, 1 parte de soluto por 6,022137 x 1023 partes de solvente. Isso quer dizer que a partir das potências homeopáticas 24DH ou 12CH, ou 1 parte em 1024, a chance de existir uma única molécula do princípio ativo no medicamento é quase nula, e diminui ainda mais com a elevação da potência.

Sucussão da Pororoca

O Amazonas, maior rio do mundo, por onde passa um quinto de toda a água da superfície do planeta, descarrega no mar cerca de 175 mil metros cúbicos de água por segundo. O volume é tanto que a 150 km de sua foz as águas do mar ainda são menos salgadas devido ao enorme volume de água despejado pelo rio. Fazendo as contas, verificaremos que a vazão do Amazonas é igual a 1,75 x 1011 centímetros cúbicos por segundo. Um centímetro cúbico de água contém aproximadamente quinze gotas; a vazão em gotas por segundo é, portanto, de 2,63 x 1012. Na diluição homeopática 30DH, uma parte de princípio ativo – digamos, uma gota – é diluída em 1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 gotas de água. Para despejar essa quantidade de gotas, o Amazonas levaria cerca de 3,81 x 1017 segundos, ou seja, 12.079.920.756 anos. Imagine que fosse possível arranjar um meio de conter toda essa água, que é equivalente a milhares de vezes o volume de todos os oceanos da Terra. Para chegar à diluição 30DH seria só pegar um conta-gotas, ir até a foz do Rio Amazonas, no Pará, pingar uma gota de princípio ativo no rio e aguardar pouco mais de 12 bilhões de anos até a diluição final. E esperar que a pororoca se encarregue da sucussão.

O Pato de 20 Milhões de Dólares

Se o leitor ficou surpreso com o cálculo acima, apresento outro ainda mais surpreendente, este de Robert L. Park, físico da Universidade de Maryland, nos EUA. Um produto chamado Oscillococcinum, produzido a partir de fígado e coração de pato, é comercializado na potência 200CH. Se uma única molécula da substância original pudesse estar presente no produto final, sua diluição seria de 1 por 1 seguido de quatrocentos zeros – um número maior do que o número estimado de átomos em todo o universo conhecido, que não é mais do que um mísero googol, ou seja, 1 seguido de apenas 100 zeros. O Oscillococcinum é vendido como tratamento para os sintomas de gripes e resfriados. A revista americana U.S. News & World Report (17/2/97) observou que um único pato seria suficiente para fabricar o estoque anual do produto [o fígado de apenas um pato poderia, na verdade, servir para fabricar todo o estoque do produto até o fim dos tempos], cuja venda total foi de 20 milhões de dólares em 1996. Como se vê, a popularização do uso do Oscillococcinum não chega a ameaçar os patos de extinção.

Os remédios homeopáticos para uso interno são ingeridos na fórmula de glóbulos, tabletes, pó ou diretamente na forma de solução hidroalcóolica ou aquosa. As formas sólidas – glóbulos, tabletes e pós – são fabricadas pingando-se uma gota da solução diluída sobre um veículo inerte, geralmente sacarose ou lactose. Park calculou que, para ter certeza de ter ingerido uma única molécula da substância medicinal presente na potência 30DH, seria necessário ingerir dois bilhões de tabletes, cerca de mil toneladas de lactose mais as impurezas que a lactose porventura contenha.

Os fatos apontados acima são entendidos e aceitos pelos homeopatas. O próprio Hahnemann percebeu que provavelmente nenhuma molécula da substância original restaria após essas diluições extremas – as chamadas diluições ultramoleculares. Hahnemann acreditava, no entanto, que a ação vigorosa da sucussão deixa no solvente uma "essência espiritual imperceptível aos sentidos" que estimularia as "energias vitais" do corpo. Se hoje esse tipo de linguagem soa pouco científica, no tempo de Hahnemann ela podia-se justificar. Basta lembrar que seus colegas de profissão ainda falavam em extrair o sangue mau e balancear humores.

Mais do Que Uma Vaga Lembrança

Alguns proponentes atuais da homeopatia, incapazes de contestar a realidade física da constante de Avogadro, afirmam que mesmo quando desaparece a última molécula do principio ativo, sua "memória" permanece na solução. O assunto, antigo, ganhou vida nova em 1988 quando Jacques Benveniste e seus colegas publicaram na prestigiosa revista Nature um trabalho que parecia indicar que anticorpos diluídos em soluções de até 30DH – bem acima do limite teórico de Avogadro – ainda conseguiam produzir respostas biológicas (Nature 333: 816, June 30, 1988).

Benveniste atribuiu essa propriedade à "memória" da água, que, após a sucussão, ainda se "lembrava" dos anticorpos que encontrara antes embora não existisse uma molécula sequer deles na solução diluída. Diante do ataque da comunidade científica ao artigo, o editor da revista, John Maddox, disse em editorial duvidar do acerto das conclusões de Benveniste, mas que as publicara assim mesmo em nome do livre intercâmbio de idéias.

A controvérsia gerada levou a Nature a nomear uma comissão científica para investigar o caso. Concluiu-se que os procedimentos de Benveniste careciam dos procedimentos rigorosos que devem orientar a pesquisa científica. O experimento de Benveniste nunca foi reproduzido com sucesso por pesquisadores sérios e, com o tempo, Benveniste começou a cair em desgraça. Na percepção de seus colegas, Benveniste passou de cientista respeitado a doido varrido, perdendo verbas de pesquisa e seguidores fora do círculo de homeopatas radicais. O próprio Benveniste não coopera muito com os que tentam resgatar-lhe a imagem, pois sua última descoberta é que a vibração das moléculas pode ser captada, gravada e enviada por telefone, produzindo efeitos à distância. Por essa contribuição, Benveniste ganhou o Prêmio IgNobel da Universidade Harvard, atribuído anualmente a pesquisas estapafúrdias.

A Falta de Memória da Água

Concedendo o benefício da dúvida aos que acreditam que Benveniste seja mais um mártir da arrogância da ciência oficial, esforcemo-nos para acreditar, por um breve momento, que a água consiga, de alguma forma, "lembrar-se" de outras moléculas com que tenha tido contato. O que deveria nos surpreender neste caso não é a memória, mas a falta de memória da água. A água que existe no mundo já viu muita coisa; já foi nuvem, mar e rio; já foi arrastada em enxurradas desde a cidade de Ur na Mesopotâmia até a favela da Rocinha; já passou pela banheira de Cleópatra e pela bexiga de Júlio César; já escorreu pela fronte de Napoleão e pelas cachoeiras da Casa da Dinda. Espanta que tenha se esquecido de tudo o que viu. Continuemos, no entanto, a demonstrar a nossa boa vontade para com os homeopatas e assumir que a destilação faça a água "esquecer" as moléculas que tenha encontrado em seu passeio através dos tempos. Vamos também fazer de conta que a destilação elimina todas as substâncias dissolvidas na água, o que não é verdade. O que dizer então da contaminação no momento do preparo? O que acontecerá se uma partícula de impureza atingir a água no momento anterior à sucussão? É fácil imaginar como isso pode acontecer no laboratório de manipulação. Vamos a um exemplo.

A fabricação de semicondutores exige extrema atenção quanto ao nível de partículas presentes no ambiente. As salas limpas são classificadas como classes de pureza 1, 10, 100, 1000, 10.000 ou 100.000, dependendo do número de partículas de até 0.5 ?m por pé cúbico de ar. Para se ter uma idéia o que isso significa, o limite de visibilidade do olho humano é de 50 ?u, cerca de metade da espessura de um fio de cabelo. Semicondutores são fabricados em salas limpas de classe de pureza melhor do que 100, onde a exposição de qualquer parte do corpo humano não é tolerada. A razão dessa precaução somos nós humanos, animais sujos, que deixamos um rastro de resíduos por onde passamos. Estima-se que em sessenta segundos uma pessoa imóvel gere cerca de 100 mil partículas – fragmentos de pele, sal, gotículas de óleo, umidade, desodorante e cosméticos – de tamanho suficiente para danificar um circuito integrado em fabricação. Pois bem, ainda que os remédios homeopáticos fossem preparados numa sala limpa de classe de pureza máxima, a chance de haver mais partículas estranhas do que moléculas do princípio ativo na preparação final seria grande. E os laboratórios de manipulação, como se sabe, estão longe de rivalizar com a Intel em matéria de limpeza. Como é que a água sabe distinguir o que é princípio ativo e o que é uma molécula de enxofre do xampu da preparadora? Como distingue, na memória, a molécula do fígado de um pato das milhões de moléculas orgânicas que o preparador despeja no ar pelo mero ato de respirar?

É melhor retomarmos aqui o nosso ceticismo científico, pois a crença nos axiomas da homeopatia exige o abandono do pensamento que conduziu a ciência e a tecnologia a onde se encontram hoje. Retomemos também a reportagem da Folha de S.Paulo.

O Que Dizem os Homeopatas

Quanto a reação à crítica científica da especialidade, há homeopatas que dizem ter tirado de sua experiência clínica com a homeopatia demonstrações suficientes de sua eficácia como método terapêutico e há os que insistem em achar um arremedo de explicação científica para essa crendice do século dezenove. Os primeiros beneficiar-se-iam da revisão de alguns conceitos de estatística, método duplo-cego e efeito placebo. É fato conhecido que em experimentos duplo-cego – em que nem o experimentador nem os sujeitos do teste sabem quem está tomando o medicamento e quem está tomando o placebo – uma parte significativa dos que tomam o placebo apresentam melhora de seu quadro clínico. Quanto ao segundo tipo, os que tentam justificar cientificamente a homeopatia, não há o que dizer – a posição é insustentável. As explicações oferecidas para o mecanismo de ação da homeopatia não passam pelo escrutínio de um aluno de primeiro ano de física. Teorias difíceis e mal compreendidas como a física quântica e o princípio da incerteza de Heisenberg são misturadas a crendices extemporâneas e oferecidas como explicação. Isso quando não falam de "forças ainda não descritas pela ciência, que só agora começam a se compreender".

Os especialistas ouvidos pela Folha não parecem ser radicais e recomendam a homeopatia em associação com outros tratamentos. Esse é um bom conselho. O tratamento homeopático não oferece perigo algum quando se trata de gripe branda ou resfriado: o que medicina cura em uma semana, a homeopatia cura em sete dias, já que o tratamento convencional também é ineficaz para aqueles males. O caso é outro, porém, quando se usa a homeopatia para tratar de doenças que possam deixar sequelas ou mesmo causar a morte. Um dos websites homeopáticos que consultei para escrever este artigo aconselha, num raro momento de sabedoria: "Nas doenças infecciosas graves como na meningite, tuberculose, febre tifóide, é conveniente a utilização concomitante com os antibióticos". Não poderíamos deixar de concordar, com uma pequena mudança na redação. Em caso de doenças graves aconselha-se usar o remédio indicado pela medicina científica. Se a crença do paciente exigir, o tratamento pode ser complementado com homeopatia, simpatia, florais de Bach, promessas a Ossanha ou orações a Nossa Senhora de Aparecida.

29.8.08

Augusto de Campos - Pulsar (1975)

Especial 1.000 visitas

Estava pensando em fazer algo legal quando o blog completasse as mil visitas (entenda-se mil desde que eu coloquei este contador aí ao lado).

Pensei nisso mais por influência alheia do que por qualquer outra coisa. Sim, porque se o Pelé comemorou os seus mil gols, e o Romário arrumou mil gols pra poder comemorar, porque é que eu não posso achar que fazer mil qualquer-coisa-que-seja não tenha lá a sua importância? E por que é que eu não posso me empolgar também?

Pois então: para a comemoração das mil visitas, resolvi falar sobre algo desmesuradamente importante pra mim; a saber, a minha música favorita.

Sim, porque ela existe. Se me perguntarem sobre o livro teórico que eu considero mais importante, eu não vou conseguir citar um: no mínimo uns dez. A mesma coisa vale para romances - apesar de que O homem sem qualidades talvez esteja um tanto à frente dos outros. Para poesia, a mesma coisa.

Já no que diz respeito à música, tal classificação existe sem dúvida alguma que possa fazê-la desabar. Sem uma ponta sequer de desconfiança. Está lá, em primeiríssimo lugar, a Libestod de Tristão e Isolda, de Wagner.

Quem já presenciou a minha escuta deste trecho de ópera sabe do que estou falando. É como se todas as coisas possíveis de um ser humano sentir pudessem cohabitar um espaço mínimo de existência. É como se uma vida toda se compactasse em menos de 10min de sons devidamente coordenados. Eu saio destruído: chorando-rindo, fisicamente enfraquecido, com o espírito devidamente tonificado. Difícil pensar em algo que me tenha causado tanto impacto, mesmo que fora da arte.

Só há uma coisa (devo dizer), entretanto, que me extasia mais: a Libestod regida por Karajan. Mais exatamente ainda: a última apresentação de Karajan, na qual ele regeu a obra magnificamente, se é que isso não seja uma espécie de tautologia.

O video está aí embaixo. Notem como o maestro parece um compositor-bailarino: compositor porque se tem a impressão de que a música está brotando dele ali mesmo, numa espécie de parto. Bailarino porque ao enviar a música à orquestra, ao transmiti-la aos músicos, parece fazê-lo num bailado-parto alucinante, onde as notas parecem ser enviadas por algum tipo de onda àqueles que irão, finalmente, produzi-las.

Percebam ainda que, ao final, o maestro estufa o peito num último gigantesco suspiro, levantando os ombros, e que, ainda que a música já tenha terminado, as palmas não aparecem. Elas só surgirão quando o maestro abaixar guarda, dando a batalha como vencida. Maravilhoso!

É preciso dizer mais alguma coisa? Não: escutem, e vejam.

E feliz mil visitas pra todos nós!!!



24.8.08

Do filósofo-poeta, ou poeta-filósofo

Antonio Cicero, na Folha de ontem:

NÃO sou o primeiro e certamente não serei o último a criticar o abuso da palavra "elite" no Brasil. Como não fazê-lo? Em política, a imprecisão conceitual só serve aos oportunistas.

É sobretudo no vocabulário de quem se considera "de esquerda" que essa palavra costuma aparecer. Seu uso entre "soi-disant" marxistas resulta de um desleixo conceitual que mostra que nem mais eles levam a sério a teoria em que pretendem se basear.

O emprego da palavra "elite" na sociologia se estabeleceu a partir das obras de Vilfredo Pareto e de Gaetano Mosca. Sua pretensão era substituir o conceito marxista de "classe dominante". Pareto afirmava que há, em toda sociedade, um estrato inferior e um estrato superior. O estrato superior constitui a elite, que é composta pelos indivíduos mais capazes. Segundo Mosca, o domínio da minoria sobre a maioria se explica pela organização da primeira, que é composta por indivíduos que possuem um atributo, real ou aparente, altamente valorizado pela sociedade em que vivem.
Ao criticar as "teorias da elite", os marxistas atacaram tanto a pretensão, nelas embutida, de que a estratificação social seja supra-histórica, universal, eterna, quanto o fato de que elas desviam atenção do fundamental, que é a base econômica da sociedade.

Suponho que os marxistas brasileiros tenham ignorado essas e outras críticas em conseqüência, pelo menos em parte, da influência que sofreram de políticos e intelectuais não-marxistas, durante a luta contra a ditadura. Entre esses, destaca-se, por exemplo, o antropólogo Darcy Ribeiro, que não hesitava em falar da "maldade" da elite: "velha elite, feita de filhos e netos de senhores de escravos calejados na maldade; de ricaços descendentes de imigrantes que olham de cima, com desprezo, a quem não enricou também; e sobretudo desta casta de gerentes das multinacionais, só leais a seus patrões".

Segundo essa perspectiva, é por culpa de uma elite má que temos os problemas que temos. O Brasil, diz Darcy, é "um país que não deu certo, por culpa não do seu povo, mas das elites". "Maldade", "culpa": é fácil entender que também os teólogos da libertação – católicos – tenham se reconhecido nessa linguagem, excelente catalisadora de todo ressentimento difuso.

Tal tipo de "explicação" psicologista da realidade social é absolutamente incompatível com o pensamento de Marx, em que não entram em jogo "culpas" ou "maldades". Para Marx, a relação das diferentes classes sociais entre si é determinada em primeiro lugar pelo caráter das relações de produção vigentes na formação sócio-econômica em consideração.

De todo modo, não é difícil entender como, paradoxalmente, a vulgarização da teoria das elites –que havia sido introduzida na sociologia para enfrentar as teorias liberais e socialistas, e que era simpática ao fascismo – pôde dar subsídios exatamente para a execração das elites. É que, já que a dominação destas não se explica pela estrutura econômico-social, mas pela sua putativa superioridade, é concebível que essa "superioridade" se reduza ao maquiavelismo com que se supõe que elas submetem as massas, por meio da doutrinação, da violência, da intimidação, da intriga, da corrupção, do engodo: em suma, da "maldade".

Já a facilidade dessa inversão vulgar do sentido da teoria das elites seria suficiente para evidenciar sua inanidade teórica. Mas isso não é tudo. Além de não ser capaz de explicar coisa nenhuma, a noção de "elite" é vaga demais para ter qualquer eficácia cognitiva.

Essa ineficácia ficou comicamente clara no ano passado, quando o apresentador de programa de televisão Luciano Huck, ao ter seu relógio roubado, escreveu um artigo na Folha, queixando-se da insegurança das cidades brasileiras. Uma enxurrada de cartas à redação o atacou, alegando que, pertencendo à elite, ele não tinha qualquer direito de se queixar. Uma delas foi do cantor Zeca Baleiro. No dia seguinte, uma leitora escrevia: "Lamentável o comentário dele sobre o texto de Luciano Huck – como se Zeca Baleiro não fizesse parte dessa elite".

O fato é que, cada vez mais, também a classe média tem sido chamada de "elite" pela esquerda. Consequentemente, como as estatísticas indicam que o Brasil é cada vez mais um país de classe média, trata-se sem dúvida de um país em que, segundo a esquerda, quase todos fazem parte da elite. Será a pior elite do mundo, como muitos afirmam? Não sei; mas é certamente a mais autoflagelante.

18.8.08

E o Paulo Freire, é coisa nossa...

Estava lendo algumas páginas de "Pedagogia da Autonomia", do Paulo Freire, por sugestão de uma colega que citou o livro em seu blog.

Para ser sincero, bastante sincero, fiquei mais assustado do que qualquer coisa. O livro me pareceu bastante confuso no que diz respeito a algumas conceitualizações, e peca muito ao repetir algumas balelas ideológicas que não fazem o menor sentido quando contrastadas com dados, principalmente os da história recente. Isto tudo por um motivo: "Pedagogia da Autonomia" não é apenas um livro que trata sobre educação – a este respeito, coisas até interessantes são ditas – mas pretende ser um libelo marxista, um grande panfleto que mistura economia, ética e política, tudo devidamente lido nas chaves do materialismo histórico.

É de se destacar, entretanto, que estas chaves de leitura se apresentam fazendo uso também de inúmeros conceitos (ou pseudo conceitos) fenomenológicos, tão acessados que acabam por dar as cartas no que diz respeito à linguagem do texto. Isto faz com nos lembremos bastante (mutatis mutandis)da segunda fase do pensamento sartreano, e falo aqui de "Crítica da Razão Dialética".

Aliás, aproveitando a entrada, dialética é algo que não falta no livro: além do próprio termo ser usado algumas vezes, os seus afluentes estão em todos os lugares: não linearidade do caráter evolutivo, seja em qual área for; passagem da quantidade a qualidade; a negação da negação – tudo colocado de uma maneira que chega a parecer uma leitura didática da obra do barbudo. Aliás, barbas não mentem, não é? Hehe

Mas o que parece mesmo ser a preocupação de Freire - além das questões pedagógicas, inclusive - é estabelecer um enfrentamento com o famoso texto de Fukuyama sobre o fim da história. A partir deste posicionamento, toda a presepada é despachada já a partir da introdução. À opção óbvia pela concepção histórica de natureza humana se segue uma ética caduca, fruto claro desta pueril escolha, e que repete aquilo que já sabemos ser, empiricamente – e ele já tinha como saber também – uma piada: se você é vermelho você é bom, se você é azul você é mal. Tudo assim, posto como algo do campo das transcendências, tão péssimo quanto a análise que é feita da relação entre capitalismo e educação.

Outro ponto que me chamou a atenção foi o uso exacerbado do termo crítica. Longe do sentido kantiano, a "crítica" de Freire parece se referir ao simples ser do contra, ainda que este ser do contra seja a propedêutica do que ele chama de “curiosidade epistemológica”.

É uma pena que o próprio Freire tenha caído na armadilha de se utilizar não apenas de conceitos básicos problemáticos, mas que se tenha deixado levar pelas leituras mais estranhas destes conceitos. Tais conceitos e leituras acabaram por impedir uma observação menos bipartida do mundo, observação esta que não escamotearia todas as nuances da ética, da política, da economia, da ontologia e da própria educação. É preciso que, antes da “curiosidade epistemológica”, sejamos afetados por uma espécie de “curiosidade meta-epistemológica”, a fim de que uma leitura mais livre (autônoma?) do mundo seja possível.

P.S - Há passagens em que Freire diz poder ser lido como um ingênuo, mas que este não vem a ser o caso. Acho que tinha uma pulga atrás da orelha, e por isso este quase argumentum ad hominem. Mas a questão mesmo, como já disse, diz respeito ao que falei em outro lugar: há muito que possuímos ferramentas mais refinadas do que a foice e o martelo, e devemos usá-las.

17.8.08

E estava no Youtube!!!

Em 1990, alguém, talvez um produtor cujo nome é Rupert Hine, teve uma idéia genial: escolheu 250 músicos, gente de todo o mundo, e pediu para que cada um compusesse um trecho de obra, dando aos mesmos somente o tema - One world, one voice. Cada qual faria o que quisesse, ficando o pepino maior para quem fosse montar, dar forma final àquilo tudo, que ao cabo se transformaria em uma só música. A idéia era de atentar a humanidade para questões ambientais, coisa novíssima na época (e não é que, por incrível que pareça, não havia a chatice de hoje!).

Lembro-me de que o vídeo foi exibido na Cultura, em um domingo à noite, e que fiquei absolutamente extasiado com aquilo. A coisa me surgiu na memória agora, e fui correndo para o Youtube: e não é que tinha!!!

Aqui vai a última parte, que é uma mistura de tambores japoneses com a orquestra sinfônica de Leningrado: umas das coisas mais marcantes que eu já vi e ouvi na vida. Para quem quiser, as outras 11 partes podem ser encontradas. O único problema é a qualidade do som. Mas compensa.

Ouvindo isso, parece até que temos jeito...

One World One Voice part 12/12 et fin

Meu nome é Fabiano Conte, tenho 33 anos...

Aceitar um vício não é lá das coisas mais fáceis de se fazer. É preciso muita coragem e, sobretudo, muita cara-de-pau.

Hoje eu vim aqui a fim de fazer isso: de divulgar, de aceitar - melhor dizendo -, de contar a vocês sobre as coisas que me tiram o sono e que, invariavelmente, têm me feito mal: o meu vício em chutney de manga e em Tostitas.


O chutney

O minha primeira experiência com chutney de manga deu-se há uns 3 anos quando uma amiga, a Jany, levou um tanto para um festinha que dei em casa. Confesso que não foi amor à primeira vista, mas foi fácil perceber que havia uma ligação forte entre nós e que algum dia daria no que deu: não posso viver sem o troço. Como arroz, feijão, bife e chutney; macarrão com chutney; pão com queijo e chutney; bolacha água e sal com chutney. O meu recorde foi na terça-feira desta semana: Baconzitos com chutney às 3h da matina. Preciso contar o que aconteceu no dia seguinte?

A necessidade é tanta que aprendi a fazer. Ficava na dependência do meu irmão até descobrir que não é tão difícil assim. Aliás, é até fácil, e o meu ficou uma delícia. Pra quem quiser experimentar... Mas vejam: não me responsabilizo pelo dia seguinte, ou pelo resto de suas vidas.


As Tostitas

A minha relação com as Tostitas começou faz ao menos 20 anos. A questão é que eu apenas gostava delas, não era dependente como agora. Aliás, ser dependente de Tostitas é muito mais difícil do que ser dependente de chutney, e isso porque ela é uma bolacha que não se encontra em qualquer lugar. Na verdade, tenho somente um fornecedor, a quem visito umas duas vezez por semana. São cerca de quatro pacotes a cada 7 dias, comidos com um ritual preciso: primeiro eu tenho que comer a parte de fora da figura que há desenhada na bolacha, figura esta que vocês podem ver abaixo. Só depois, completada a ingestão do lado de fora do quase círculo, é que coloco todo o resto na boca. Preciso... e delicioso.



A única loucura que não fiz até agora foi comer Tostitas com chutney. Tenho medo do efeito, do prazer, da loucura que isto me traria. Pretendo não fazê-lo. O que desejo, agora, é tentar me livrar destas coisas medonhas que me acompanham diariamente, estas muletas sem as quais não consigo viver.

Meu nome é Fabiano Conte, tenho 33 anos, e sou chutnólatra e tostitólatra...

10.8.08

Father's eyes

Fiquei sem ver meu pai por cerca de dois anos. Os seus últimos dois anos. Não fui visitá-lo no hospital quando estava doente, não fui ao seu enterro.

Nunca culpei-me por isso, isso nunca fez com que me sentisse mal. Passei a vida toda atrás do afeto de alguém que era narcisista demais para poder dedicar-se a poucos. Ele precisava da atenção de todos, dos olhos de todos. Era carinhoso sim, mas ausente. No final, errou feio comigo, e cansei-me. Quem me conhece sabe que a minha principal virtude talvez seja a paciência. Tão presente que às vezes se parece com inércia. A questão é que quando as chances se esgotam, a coisa se quebra de vez, e não há volta. Com ele foi assim.

Meu pai era músico. Um bom músico. Provável que esta seja uma das únicas memórias que me fazem realmente sentir orgulho. Lembro-me, com os esfumaçamentos normais da lembrança, de estar em seu colo por muitas vezes enquanto tocava. Os salões cheios, as cabeças saltando, por vezes a escuridão: tudo visto de uma posição estranha, de um ângulo no qual o mundo parecia se elevar de um chão que tinha teclas brancas e pretas, e botões.

Em uma de minhas poucas recordações realmente claras da infância, daquelas com cheiro, temperatura e textura, a música está novamente presente junto a ele. Casa de um amigo, cortina colorida feita com tiras de tecido, quarto, um aparelho de som, pessoas sentadas no chão. Eu sentado entre as pernas de meu pai, que usava um jeans e uma camisa branca. Algumas pessoas fumavam. Algumas tomavam cerveja. Conversavam sobre uma composição interessante, que foi devidamente ouvida, retirada de um long-play.

Pois bem: óbvio que esta música hoje é uma máquina do tempo. Difícil conseguir ouvi-la sem que algo, ao menos em parte, seja retomado, reconstruído. Sensação de proteção, colo ou fascínio: por mais que eu tente impedir, invariavelmente algo volta. Samba pa ti é minha música com meu pai, música da época em que eu não compreendia, e não precisava compreender, como as coisas se passavam de verdade.

Post acima


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9.8.08

fabianescas - Especial Dia dos Pais

Comemoração do Dia dos Pais na escola. Amiguinho do João vem até ele e diz:

- João, vamos até ali brincar?
- Vamos sim... Ah, este aqui é o meu pai.
- Oi, tudo bem?
- Tudo...

Os dois saem papeando, e eu escuto:

- O que é que o seu pai faz?
- Ele é professor.
- Ah é: de quê?
- De filosofia.
- Nossa, e o que é filosofia?

A partir daí eu não ouvi mais. Nem sequer perguntei ao João o que ele respondeu: sei que ele é cara-de-pau e deve ter enrolado o garoto. Por isso, limitei-me a ficar muito, mas muito feliz mesmo, pelo fato de o menininho não ter feito a última pergunta pra mim.

2.8.08

The worm

Há um vírus em mim. Habita meu crânio uma bactéria, um verme, um fungo com o qual eu não agüento mais lidar.

Ele me consome diariamente enquanto durmo. Ele aparece em meus sonhos como um fantasma, um monstro que morde, corta, finca, rasga e, por fim, cospe pedaços meus que observo, que me observo, que me irritam, que destoam, que grudam em meus pés e não soltam.

Não sei mais o que fazer com este bicho. Faixa-preta, galinha preta, crucifixo: já tentei de tudo e não passa, e não sai. Cansei-me do mim mesmo quando estou com este animal. Os outros se cansarão também de mim. Haverá um momento, um tratamento eficaz, uma fuga?

O verme ri: finca a bocarra nos intestinos de minha memória e gargalha. Saio daqui para me encontrar com ele. De novo.

Já sei que pela manhã, antes até de acordar, aquilo que me diz quem sou doerá como uma úlcera.