Estava lendo algumas páginas de "Pedagogia da Autonomia", do Paulo Freire, por sugestão de uma colega que citou o livro em seu blog.
Para ser sincero, bastante sincero, fiquei mais assustado do que qualquer coisa. O livro me pareceu bastante confuso no que diz respeito a algumas conceitualizações, e peca muito ao repetir algumas balelas ideológicas que não fazem o menor sentido quando contrastadas com dados, principalmente os da história recente. Isto tudo por um motivo: "Pedagogia da Autonomia" não é apenas um livro que trata sobre educação – a este respeito, coisas até interessantes são ditas – mas pretende ser um libelo marxista, um grande panfleto que mistura economia, ética e política, tudo devidamente lido nas chaves do materialismo histórico.
É de se destacar, entretanto, que estas chaves de leitura se apresentam fazendo uso também de inúmeros conceitos (ou pseudo conceitos) fenomenológicos, tão acessados que acabam por dar as cartas no que diz respeito à linguagem do texto. Isto faz com nos lembremos bastante (mutatis mutandis)da segunda fase do pensamento sartreano, e falo aqui de "Crítica da Razão Dialética".
Aliás, aproveitando a entrada, dialética é algo que não falta no livro: além do próprio termo ser usado algumas vezes, os seus afluentes estão em todos os lugares: não linearidade do caráter evolutivo, seja em qual área for; passagem da quantidade a qualidade; a negação da negação – tudo colocado de uma maneira que chega a parecer uma leitura didática da obra do barbudo. Aliás, barbas não mentem, não é? Hehe
Mas o que parece mesmo ser a preocupação de Freire - além das questões pedagógicas, inclusive - é estabelecer um enfrentamento com o famoso texto de Fukuyama sobre o fim da história. A partir deste posicionamento, toda a presepada é despachada já a partir da introdução. À opção óbvia pela concepção histórica de natureza humana se segue uma ética caduca, fruto claro desta pueril escolha, e que repete aquilo que já sabemos ser, empiricamente – e ele já tinha como saber também – uma piada: se você é vermelho você é bom, se você é azul você é mal. Tudo assim, posto como algo do campo das transcendências, tão péssimo quanto a análise que é feita da relação entre capitalismo e educação.
Outro ponto que me chamou a atenção foi o uso exacerbado do termo crítica. Longe do sentido kantiano, a "crítica" de Freire parece se referir ao simples ser do contra, ainda que este ser do contra seja a propedêutica do que ele chama de “curiosidade epistemológica”.
É uma pena que o próprio Freire tenha caído na armadilha de se utilizar não apenas de conceitos básicos problemáticos, mas que se tenha deixado levar pelas leituras mais estranhas destes conceitos. Tais conceitos e leituras acabaram por impedir uma observação menos bipartida do mundo, observação esta que não escamotearia todas as nuances da ética, da política, da economia, da ontologia e da própria educação. É preciso que, antes da “curiosidade epistemológica”, sejamos afetados por uma espécie de “curiosidade meta-epistemológica”, a fim de que uma leitura mais livre (autônoma?) do mundo seja possível.
P.S - Há passagens em que Freire diz poder ser lido como um ingênuo, mas que este não vem a ser o caso. Acho que tinha uma pulga atrás da orelha, e por isso este quase argumentum ad hominem. Mas a questão mesmo, como já disse, diz respeito ao que falei em outro lugar: há muito que possuímos ferramentas mais refinadas do que a foice e o martelo, e devemos usá-las.
18.8.08
17.8.08
E estava no Youtube!!!
Em 1990, alguém, talvez um produtor cujo nome é Rupert Hine, teve uma idéia genial: escolheu 250 músicos, gente de todo o mundo, e pediu para que cada um compusesse um trecho de obra, dando aos mesmos somente o tema - One world, one voice. Cada qual faria o que quisesse, ficando o pepino maior para quem fosse montar, dar forma final àquilo tudo, que ao cabo se transformaria em uma só música. A idéia era de atentar a humanidade para questões ambientais, coisa novíssima na época (e não é que, por incrível que pareça, não havia a chatice de hoje!).
Lembro-me de que o vídeo foi exibido na Cultura, em um domingo à noite, e que fiquei absolutamente extasiado com aquilo. A coisa me surgiu na memória agora, e fui correndo para o Youtube: e não é que tinha!!!
Aqui vai a última parte, que é uma mistura de tambores japoneses com a orquestra sinfônica de Leningrado: umas das coisas mais marcantes que eu já vi e ouvi na vida. Para quem quiser, as outras 11 partes podem ser encontradas. O único problema é a qualidade do som. Mas compensa.
Ouvindo isso, parece até que temos jeito...
Lembro-me de que o vídeo foi exibido na Cultura, em um domingo à noite, e que fiquei absolutamente extasiado com aquilo. A coisa me surgiu na memória agora, e fui correndo para o Youtube: e não é que tinha!!!
Aqui vai a última parte, que é uma mistura de tambores japoneses com a orquestra sinfônica de Leningrado: umas das coisas mais marcantes que eu já vi e ouvi na vida. Para quem quiser, as outras 11 partes podem ser encontradas. O único problema é a qualidade do som. Mas compensa.
Ouvindo isso, parece até que temos jeito...
Meu nome é Fabiano Conte, tenho 33 anos...
Aceitar um vício não é lá das coisas mais fáceis de se fazer. É preciso muita coragem e, sobretudo, muita cara-de-pau.
Hoje eu vim aqui a fim de fazer isso: de divulgar, de aceitar - melhor dizendo -, de contar a vocês sobre as coisas que me tiram o sono e que, invariavelmente, têm me feito mal: o meu vício em chutney de manga e em Tostitas.
O chutney
O minha primeira experiência com chutney de manga deu-se há uns 3 anos quando uma amiga, a Jany, levou um tanto para um festinha que dei em casa. Confesso que não foi amor à primeira vista, mas foi fácil perceber que havia uma ligação forte entre nós e que algum dia daria no que deu: não posso viver sem o troço. Como arroz, feijão, bife e chutney; macarrão com chutney; pão com queijo e chutney; bolacha água e sal com chutney. O meu recorde foi na terça-feira desta semana: Baconzitos com chutney às 3h da matina. Preciso contar o que aconteceu no dia seguinte?
A necessidade é tanta que aprendi a fazer. Ficava na dependência do meu irmão até descobrir que não é tão difícil assim. Aliás, é até fácil, e o meu ficou uma delícia. Pra quem quiser experimentar... Mas vejam: não me responsabilizo pelo dia seguinte, ou pelo resto de suas vidas.
As Tostitas
A minha relação com as Tostitas começou faz ao menos 20 anos. A questão é que eu apenas gostava delas, não era dependente como agora. Aliás, ser dependente de Tostitas é muito mais difícil do que ser dependente de chutney, e isso porque ela é uma bolacha que não se encontra em qualquer lugar. Na verdade, tenho somente um fornecedor, a quem visito umas duas vezez por semana. São cerca de quatro pacotes a cada 7 dias, comidos com um ritual preciso: primeiro eu tenho que comer a parte de fora da figura que há desenhada na bolacha, figura esta que vocês podem ver abaixo. Só depois, completada a ingestão do lado de fora do quase círculo, é que coloco todo o resto na boca. Preciso... e delicioso.

A única loucura que não fiz até agora foi comer Tostitas com chutney. Tenho medo do efeito, do prazer, da loucura que isto me traria. Pretendo não fazê-lo. O que desejo, agora, é tentar me livrar destas coisas medonhas que me acompanham diariamente, estas muletas sem as quais não consigo viver.
Meu nome é Fabiano Conte, tenho 33 anos, e sou chutnólatra e tostitólatra...
Hoje eu vim aqui a fim de fazer isso: de divulgar, de aceitar - melhor dizendo -, de contar a vocês sobre as coisas que me tiram o sono e que, invariavelmente, têm me feito mal: o meu vício em chutney de manga e em Tostitas.
O chutney
O minha primeira experiência com chutney de manga deu-se há uns 3 anos quando uma amiga, a Jany, levou um tanto para um festinha que dei em casa. Confesso que não foi amor à primeira vista, mas foi fácil perceber que havia uma ligação forte entre nós e que algum dia daria no que deu: não posso viver sem o troço. Como arroz, feijão, bife e chutney; macarrão com chutney; pão com queijo e chutney; bolacha água e sal com chutney. O meu recorde foi na terça-feira desta semana: Baconzitos com chutney às 3h da matina. Preciso contar o que aconteceu no dia seguinte?
A necessidade é tanta que aprendi a fazer. Ficava na dependência do meu irmão até descobrir que não é tão difícil assim. Aliás, é até fácil, e o meu ficou uma delícia. Pra quem quiser experimentar... Mas vejam: não me responsabilizo pelo dia seguinte, ou pelo resto de suas vidas.
As Tostitas
A minha relação com as Tostitas começou faz ao menos 20 anos. A questão é que eu apenas gostava delas, não era dependente como agora. Aliás, ser dependente de Tostitas é muito mais difícil do que ser dependente de chutney, e isso porque ela é uma bolacha que não se encontra em qualquer lugar. Na verdade, tenho somente um fornecedor, a quem visito umas duas vezez por semana. São cerca de quatro pacotes a cada 7 dias, comidos com um ritual preciso: primeiro eu tenho que comer a parte de fora da figura que há desenhada na bolacha, figura esta que vocês podem ver abaixo. Só depois, completada a ingestão do lado de fora do quase círculo, é que coloco todo o resto na boca. Preciso... e delicioso.

A única loucura que não fiz até agora foi comer Tostitas com chutney. Tenho medo do efeito, do prazer, da loucura que isto me traria. Pretendo não fazê-lo. O que desejo, agora, é tentar me livrar destas coisas medonhas que me acompanham diariamente, estas muletas sem as quais não consigo viver.
Meu nome é Fabiano Conte, tenho 33 anos, e sou chutnólatra e tostitólatra...
10.8.08
Father's eyes
Fiquei sem ver meu pai por cerca de dois anos. Os seus últimos dois anos. Não fui visitá-lo no hospital quando estava doente, não fui ao seu enterro.
Nunca culpei-me por isso, isso nunca fez com que me sentisse mal. Passei a vida toda atrás do afeto de alguém que era narcisista demais para poder dedicar-se a poucos. Ele precisava da atenção de todos, dos olhos de todos. Era carinhoso sim, mas ausente. No final, errou feio comigo, e cansei-me. Quem me conhece sabe que a minha principal virtude talvez seja a paciência. Tão presente que às vezes se parece com inércia. A questão é que quando as chances se esgotam, a coisa se quebra de vez, e não há volta. Com ele foi assim.
Meu pai era músico. Um bom músico. Provável que esta seja uma das únicas memórias que me fazem realmente sentir orgulho. Lembro-me, com os esfumaçamentos normais da lembrança, de estar em seu colo por muitas vezes enquanto tocava. Os salões cheios, as cabeças saltando, por vezes a escuridão: tudo visto de uma posição estranha, de um ângulo no qual o mundo parecia se elevar de um chão que tinha teclas brancas e pretas, e botões.
Em uma de minhas poucas recordações realmente claras da infância, daquelas com cheiro, temperatura e textura, a música está novamente presente junto a ele. Casa de um amigo, cortina colorida feita com tiras de tecido, quarto, um aparelho de som, pessoas sentadas no chão. Eu sentado entre as pernas de meu pai, que usava um jeans e uma camisa branca. Algumas pessoas fumavam. Algumas tomavam cerveja. Conversavam sobre uma composição interessante, que foi devidamente ouvida, retirada de um long-play.
Pois bem: óbvio que esta música hoje é uma máquina do tempo. Difícil conseguir ouvi-la sem que algo, ao menos em parte, seja retomado, reconstruído. Sensação de proteção, colo ou fascínio: por mais que eu tente impedir, invariavelmente algo volta. Samba pa ti é minha música com meu pai, música da época em que eu não compreendia, e não precisava compreender, como as coisas se passavam de verdade.
Nunca culpei-me por isso, isso nunca fez com que me sentisse mal. Passei a vida toda atrás do afeto de alguém que era narcisista demais para poder dedicar-se a poucos. Ele precisava da atenção de todos, dos olhos de todos. Era carinhoso sim, mas ausente. No final, errou feio comigo, e cansei-me. Quem me conhece sabe que a minha principal virtude talvez seja a paciência. Tão presente que às vezes se parece com inércia. A questão é que quando as chances se esgotam, a coisa se quebra de vez, e não há volta. Com ele foi assim.
Meu pai era músico. Um bom músico. Provável que esta seja uma das únicas memórias que me fazem realmente sentir orgulho. Lembro-me, com os esfumaçamentos normais da lembrança, de estar em seu colo por muitas vezes enquanto tocava. Os salões cheios, as cabeças saltando, por vezes a escuridão: tudo visto de uma posição estranha, de um ângulo no qual o mundo parecia se elevar de um chão que tinha teclas brancas e pretas, e botões.
Em uma de minhas poucas recordações realmente claras da infância, daquelas com cheiro, temperatura e textura, a música está novamente presente junto a ele. Casa de um amigo, cortina colorida feita com tiras de tecido, quarto, um aparelho de som, pessoas sentadas no chão. Eu sentado entre as pernas de meu pai, que usava um jeans e uma camisa branca. Algumas pessoas fumavam. Algumas tomavam cerveja. Conversavam sobre uma composição interessante, que foi devidamente ouvida, retirada de um long-play.
9.8.08
fabianescas - Especial Dia dos Pais
Comemoração do Dia dos Pais na escola. Amiguinho do João vem até ele e diz:
- João, vamos até ali brincar?
- Vamos sim... Ah, este aqui é o meu pai.
- Oi, tudo bem?
- Tudo...
Os dois saem papeando, e eu escuto:
- O que é que o seu pai faz?
- Ele é professor.
- Ah é: de quê?
- De filosofia.
- Nossa, e o que é filosofia?
A partir daí eu não ouvi mais. Nem sequer perguntei ao João o que ele respondeu: sei que ele é cara-de-pau e deve ter enrolado o garoto. Por isso, limitei-me a ficar muito, mas muito feliz mesmo, pelo fato de o menininho não ter feito a última pergunta pra mim.
- João, vamos até ali brincar?
- Vamos sim... Ah, este aqui é o meu pai.
- Oi, tudo bem?
- Tudo...
Os dois saem papeando, e eu escuto:
- O que é que o seu pai faz?
- Ele é professor.
- Ah é: de quê?
- De filosofia.
- Nossa, e o que é filosofia?
A partir daí eu não ouvi mais. Nem sequer perguntei ao João o que ele respondeu: sei que ele é cara-de-pau e deve ter enrolado o garoto. Por isso, limitei-me a ficar muito, mas muito feliz mesmo, pelo fato de o menininho não ter feito a última pergunta pra mim.
2.8.08
The worm
Há um vírus em mim. Habita meu crânio uma bactéria, um verme, um fungo com o qual eu não agüento mais lidar.
Ele me consome diariamente enquanto durmo. Ele aparece em meus sonhos como um fantasma, um monstro que morde, corta, finca, rasga e, por fim, cospe pedaços meus que observo, que me observo, que me irritam, que destoam, que grudam em meus pés e não soltam.
Não sei mais o que fazer com este bicho. Faixa-preta, galinha preta, crucifixo: já tentei de tudo e não passa, e não sai. Cansei-me do mim mesmo quando estou com este animal. Os outros se cansarão também de mim. Haverá um momento, um tratamento eficaz, uma fuga?
O verme ri: finca a bocarra nos intestinos de minha memória e gargalha. Saio daqui para me encontrar com ele. De novo.
Já sei que pela manhã, antes até de acordar, aquilo que me diz quem sou doerá como uma úlcera.
Ele me consome diariamente enquanto durmo. Ele aparece em meus sonhos como um fantasma, um monstro que morde, corta, finca, rasga e, por fim, cospe pedaços meus que observo, que me observo, que me irritam, que destoam, que grudam em meus pés e não soltam.
Não sei mais o que fazer com este bicho. Faixa-preta, galinha preta, crucifixo: já tentei de tudo e não passa, e não sai. Cansei-me do mim mesmo quando estou com este animal. Os outros se cansarão também de mim. Haverá um momento, um tratamento eficaz, uma fuga?
O verme ri: finca a bocarra nos intestinos de minha memória e gargalha. Saio daqui para me encontrar com ele. De novo.
Já sei que pela manhã, antes até de acordar, aquilo que me diz quem sou doerá como uma úlcera.
23.7.08
As férias, o coma-andante, o pão e o sistema educacional
Para quem ainda não viu, há ali no canto direito do blog, um pouco abaixo, na categoria "Merecem uma visita", um link chamado "Um blog direto de Cuba". Acredito já ter feito um comentário sobre ele. Convido-os novamente para que visitem. Os textos são deliciosos, perspicazes, e nos ajudam a entender o tom das coisas na ilha. Reproduzo aqui um deles, mostrando todos os desvãos e angústias de uma mãe cubana, além da imagem do tal "diploma".
Termina el curso escolar y ya veo peligrar mi pan del racionamiento. Mi hijo estará durante dos meses sin ir a la escuela y, en la ansiedad de las vacaciones, podría comerse hasta las bisagras de las puertas. No se conformará con el harinoso ejemplar de 80 gramos que recibe por la libreta y de seguro arremete contra mi cuota de pan o la de su papá.
Me preparo desde ahora para las preguntas del tipo ¿Mami, no vamos a visitar a la familia de Camagüey? y yo intentando explicarle que la cola para los ómnibus interprovinciales demora tres días y ya están vendiendo los pasajes para la segunda quincena de julio. Tampoco lo calmará saber que los precios de moverse en las estrechas Yutong, hacia el centro de la Isla, vienen a ser la mitad del salario de cualquier trabajador.
Pero trataré de complacerlo y le cederé mi pan, dormiré tres días en la fila por un pasaje a Camagüey y hasta puede que le alquile un par de horas el Play Station de un vecino. Todo eso porque ha terminado séptimo grado con buenas notas y hay que agasajarlo. El sábado pasado fue el acto de fin de curso y regresó a casa con su diploma y lanzó su grito de guerra desde la puerta “¡Estoy de vacaciones!”.
Sólo que no sé bien de qué se ha graduado mi hijo, si de séptimo grado o de la Escuela del Partido Comunista “Ñico López”. La confusión ha comenzado cuando miré el diploma, que aquí les dejo para que puedan comprobar de dónde viene mi desconcierto. ¿Qué creen ustedes?
Termina el curso escolar y ya veo peligrar mi pan del racionamiento. Mi hijo estará durante dos meses sin ir a la escuela y, en la ansiedad de las vacaciones, podría comerse hasta las bisagras de las puertas. No se conformará con el harinoso ejemplar de 80 gramos que recibe por la libreta y de seguro arremete contra mi cuota de pan o la de su papá.
Me preparo desde ahora para las preguntas del tipo ¿Mami, no vamos a visitar a la familia de Camagüey? y yo intentando explicarle que la cola para los ómnibus interprovinciales demora tres días y ya están vendiendo los pasajes para la segunda quincena de julio. Tampoco lo calmará saber que los precios de moverse en las estrechas Yutong, hacia el centro de la Isla, vienen a ser la mitad del salario de cualquier trabajador.
Pero trataré de complacerlo y le cederé mi pan, dormiré tres días en la fila por un pasaje a Camagüey y hasta puede que le alquile un par de horas el Play Station de un vecino. Todo eso porque ha terminado séptimo grado con buenas notas y hay que agasajarlo. El sábado pasado fue el acto de fin de curso y regresó a casa con su diploma y lanzó su grito de guerra desde la puerta “¡Estoy de vacaciones!”.
Sólo que no sé bien de qué se ha graduado mi hijo, si de séptimo grado o de la Escuela del Partido Comunista “Ñico López”. La confusión ha comenzado cuando miré el diploma, que aquí les dejo para que puedan comprobar de dónde viene mi desconcierto. ¿Qué creen ustedes?
20.7.08
cris-gris
Respondendo à minha amiga Cris: o Paulo Roberto Martins eu não conheço, nunca tinha ouvido falar. Já o Laymert Garcia dos Santos foi meu professor em um curso que fiz na economia e no qual, aliás, lemos Marx. Posso dizer que é um ótimo professor, ótimo mesmo, com uma leitura interessante e menos ideológica do marxismo.
Não sei ainda o motivo da pergunta, mas se eles acreditam que a ciência é uma questão que se resolve também no campo da política e da ética, melhor. Se não, não posso fazer nada, hehe.
Aliás, há algumas coisas a serem ditas sobre isso. Ficam para o próximo post.
Não sei ainda o motivo da pergunta, mas se eles acreditam que a ciência é uma questão que se resolve também no campo da política e da ética, melhor. Se não, não posso fazer nada, hehe.
Aliás, há algumas coisas a serem ditas sobre isso. Ficam para o próximo post.
19.7.08
SBPC: Sociedade de Bundinhas e Petralhas Comunas
Hoje visitei rapidamente a SBPC. Como tinha que tratar do meu reingresso a fim integralizar a licenciatura, aproveitei e fui dar uma olhada. Resultado: depois as pessoas se perguntam porque é que Wittegenstein foi ser porteiro e jardineiro na Áustria e Nietzsche decidiu ser enfermeiro na guerra franco-prussiana. Aquilo é uma chatice só, uma chatice ditada por um agenda no mínimo estúpida.
Do lado de fora, milhões de camisetas do Che e um pessoal vendendo um jornaleco comunista. Olha o que esse povo dizia: que não temos que deixar de acreditar na revolução, e que o neoliberalismo do governo FHC blá blá blá blá blá blá... Se eu estivesse irritado iria arrumar uma confusão, botar fogo naquela merda toda, fazer a barba de todo mundo, trocar os bonezinhos de anarquista por viseiras, arrumar emprego de verdade pra galera (quem sabe guardar os carros), além de arrumar análise coletiva, pra ver se esse povo sai da tal "infância do pensamento". Se o Getúlio estivesse lá, no mínimo umas bicudas sairiam (putz cara, agora não dá mais).
A princípio, fiquei com vergonha de pertencer às tais ciências humanas. Putz, os caras ali dentro falando de ciência, e os coiós aqui querendo fazer a revolução: nem ler um autor tosco como Marx os caras conseguem, e os outros falando de luz síncrotron. Ora, ora, Fabiano tolinho. Bastaram 20min na tenda e mais um tanto na ginásio para ver claramente que a agenda do povo exato era ditada pelo lado jacu do povo das humanas.
Sim, eu li Nietzsche, eu li Adorno e Horkheimer, eu li Habermas: técnica e ciência como ideologia, eu já sabia. Mas tudo ficou muito claro naquele momento. Como um pensamento de fundo tão despreparado pode ditar caminhos para uma quantidade gigantesca de pesquisas? Parecia um encontro de ONG´s dispostas a salvar a tartaruguinha caolha e barrabenta de Mossoró: caceta!
É impressionante como a extrema tecnicização das ciências exatas acabou produzindo indivíduos que não fazem a mínima idéia de seus lugares no mundo, quiçá o de suas pesquisas. O ditame é fornecido pelo levante do interesse geral e, por assim, pela boniteza do ato científico. Se ele é capaz de emocionar as pessoas, de fazê-las suspirarem, é algo que deve ser pensado. Um exemplo? O nome do projeto que ganhou o prêmio cientistas do amanhã: Teste de disponibilização da produção do biodiesel para pequenos produtores de forma artesanal através de gordura animal. E bota o MST pra produzir biodiesel, hahaha... Só não pensaram no fato de que agora não é mais in comer animais.
Outros ganhadores:
Microbiologia Democrática - das gêmeas Ana Cláudia e Ana Clara Cassanti – Trata do ensino da microbiologia a partir de experimentos e jogos para escolas que não possuem laboratório.
Parâmetros analisados da água de Londrina após a utilização e tratamento de esgoto - Júlia Carvalho (Londrina) – Análise de parâmetros e conscientização da importância dos rios. Integra o projeto da prefeitura de Londrina “O rio da minha rua”.
Enquanto isso os jovens do resto do mundo desenvolvem Napsters, criam formas de aproveitamento de água salgada e barateiam diversas formas de tecnologia, "democratizando-as".
Confundimos ciência e tecnologia com educação básica e projetos sociais caducos: alguém aí quer algo mais alinhado com o fato de sermos um país quem tem um presidente apedeuta e aético, e ainda se orgulha disso?
Infelizmente, esta é a nossa Weltanschauung.
Do lado de fora, milhões de camisetas do Che e um pessoal vendendo um jornaleco comunista. Olha o que esse povo dizia: que não temos que deixar de acreditar na revolução, e que o neoliberalismo do governo FHC blá blá blá blá blá blá... Se eu estivesse irritado iria arrumar uma confusão, botar fogo naquela merda toda, fazer a barba de todo mundo, trocar os bonezinhos de anarquista por viseiras, arrumar emprego de verdade pra galera (quem sabe guardar os carros), além de arrumar análise coletiva, pra ver se esse povo sai da tal "infância do pensamento". Se o Getúlio estivesse lá, no mínimo umas bicudas sairiam (putz cara, agora não dá mais).
A princípio, fiquei com vergonha de pertencer às tais ciências humanas. Putz, os caras ali dentro falando de ciência, e os coiós aqui querendo fazer a revolução: nem ler um autor tosco como Marx os caras conseguem, e os outros falando de luz síncrotron. Ora, ora, Fabiano tolinho. Bastaram 20min na tenda e mais um tanto na ginásio para ver claramente que a agenda do povo exato era ditada pelo lado jacu do povo das humanas.
Sim, eu li Nietzsche, eu li Adorno e Horkheimer, eu li Habermas: técnica e ciência como ideologia, eu já sabia. Mas tudo ficou muito claro naquele momento. Como um pensamento de fundo tão despreparado pode ditar caminhos para uma quantidade gigantesca de pesquisas? Parecia um encontro de ONG´s dispostas a salvar a tartaruguinha caolha e barrabenta de Mossoró: caceta!
É impressionante como a extrema tecnicização das ciências exatas acabou produzindo indivíduos que não fazem a mínima idéia de seus lugares no mundo, quiçá o de suas pesquisas. O ditame é fornecido pelo levante do interesse geral e, por assim, pela boniteza do ato científico. Se ele é capaz de emocionar as pessoas, de fazê-las suspirarem, é algo que deve ser pensado. Um exemplo? O nome do projeto que ganhou o prêmio cientistas do amanhã: Teste de disponibilização da produção do biodiesel para pequenos produtores de forma artesanal através de gordura animal. E bota o MST pra produzir biodiesel, hahaha... Só não pensaram no fato de que agora não é mais in comer animais.
Outros ganhadores:
Microbiologia Democrática - das gêmeas Ana Cláudia e Ana Clara Cassanti – Trata do ensino da microbiologia a partir de experimentos e jogos para escolas que não possuem laboratório.
Parâmetros analisados da água de Londrina após a utilização e tratamento de esgoto - Júlia Carvalho (Londrina) – Análise de parâmetros e conscientização da importância dos rios. Integra o projeto da prefeitura de Londrina “O rio da minha rua”.
Enquanto isso os jovens do resto do mundo desenvolvem Napsters, criam formas de aproveitamento de água salgada e barateiam diversas formas de tecnologia, "democratizando-as".
Confundimos ciência e tecnologia com educação básica e projetos sociais caducos: alguém aí quer algo mais alinhado com o fato de sermos um país quem tem um presidente apedeuta e aético, e ainda se orgulha disso?
Infelizmente, esta é a nossa Weltanschauung.
18.7.08
Loro Beto Conte, o meu irmão verde
Como alguns de vocês sabem, eu tenho um papagaio. O nome dele é Loro Roberto Conte, vulgo Loro Beto.
Loro Beto tem 39 anos e fala pouquíssimas coisas. Ele é bom mesmo é de imitar sons: cachorro grande, cachorro pequeno, ronco, falatório e tosse. É só meu avô abrir a porta do quarto que ele começa a tossir, sacaneando. Já avisei que qualquer dia desses ele leva uma porrada. Claro que não adiantou.
Escrevo sobre ele hoje por um motivo estranho: Loro Beto está se humanizando. Sim, senhores: Loro Beto acha que é uma pessoa, e não vejo mais motivos para que não seja considerado como tal. Tudo começou quando minha mãe, acho que porque fui morar fora, resolveu substituir o filho.
Com isso, Loro Beto começou a ficar na sala, a almoçar com a família, a dormir quase no quarto. A situação, na verdade, é a seguinte: quando minha mãe acorda, pega o Loro e o coloca na sala. Lá ele assiste à Ana Maria Braga e aos desenhos globais. Enquanto faz isso, ganha um naco de pão e meia banana de café da manhã. Como já disse, almoça conosco, o que inclui comer macarrão, arroz, e até batata frita.
Aliás, a questão “alimentação” é um caso à parte: já disse que deve ser o primeiro caso de colesterol alto e, por conseguinte, infarto, da história dos papagaios. Ele é vidrado por: Fandangos, pizza, macarrão, pão, pastel, esfirra do Habib’s e qualquer outra junkie food que você coma na frente dele. Se você não dá, ele berra. Simples.
A única coisa ligada à natureza que Loro Beto faz é dar umas voltas na árvore que há no meu quintal no finalzinho da tarde. Às 18h ele é colocado de novo na cozinha, para o lanche-jantar, e depois volta para a sala, para assistir às novelas. E quando volta para a sala, há um porém: considere que a gaiola é colocada em frente ao sofá, o que faz com que ocupe uma posição no móvel, o que lhe dá, logo, o status de membro da família.
Acredito que chegue o momento no qual Loro Beto começará a usar o vaso sanitário e fuçar aqui no micro. Talvez eu tente um RG e um CPF. Se eu desse à Aristóteles as características psicológicas do Loro, ele teria que admitir que existem, sim, pessoas verdes e com penas.
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Devo achar que é sorte o fato do Loro estar se humanizando. O meu mais novo vizinho também tem um papagaio, só que lá a coisa parece estar se invertendo: a pessoas estão de papagaizando. As ouço, constantemente, passar pelo corredor falando assim: perau folitó perstiraolhaquibo fortlastes pricaranha uergranamas... sendo que o papagaio lhes responde na mesma língua papagaiesa. Estou prestes a chamar o IBAMA.
Loro Beto tem 39 anos e fala pouquíssimas coisas. Ele é bom mesmo é de imitar sons: cachorro grande, cachorro pequeno, ronco, falatório e tosse. É só meu avô abrir a porta do quarto que ele começa a tossir, sacaneando. Já avisei que qualquer dia desses ele leva uma porrada. Claro que não adiantou.
Escrevo sobre ele hoje por um motivo estranho: Loro Beto está se humanizando. Sim, senhores: Loro Beto acha que é uma pessoa, e não vejo mais motivos para que não seja considerado como tal. Tudo começou quando minha mãe, acho que porque fui morar fora, resolveu substituir o filho.
Com isso, Loro Beto começou a ficar na sala, a almoçar com a família, a dormir quase no quarto. A situação, na verdade, é a seguinte: quando minha mãe acorda, pega o Loro e o coloca na sala. Lá ele assiste à Ana Maria Braga e aos desenhos globais. Enquanto faz isso, ganha um naco de pão e meia banana de café da manhã. Como já disse, almoça conosco, o que inclui comer macarrão, arroz, e até batata frita.
Aliás, a questão “alimentação” é um caso à parte: já disse que deve ser o primeiro caso de colesterol alto e, por conseguinte, infarto, da história dos papagaios. Ele é vidrado por: Fandangos, pizza, macarrão, pão, pastel, esfirra do Habib’s e qualquer outra junkie food que você coma na frente dele. Se você não dá, ele berra. Simples.
A única coisa ligada à natureza que Loro Beto faz é dar umas voltas na árvore que há no meu quintal no finalzinho da tarde. Às 18h ele é colocado de novo na cozinha, para o lanche-jantar, e depois volta para a sala, para assistir às novelas. E quando volta para a sala, há um porém: considere que a gaiola é colocada em frente ao sofá, o que faz com que ocupe uma posição no móvel, o que lhe dá, logo, o status de membro da família.
Acredito que chegue o momento no qual Loro Beto começará a usar o vaso sanitário e fuçar aqui no micro. Talvez eu tente um RG e um CPF. Se eu desse à Aristóteles as características psicológicas do Loro, ele teria que admitir que existem, sim, pessoas verdes e com penas.
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Devo achar que é sorte o fato do Loro estar se humanizando. O meu mais novo vizinho também tem um papagaio, só que lá a coisa parece estar se invertendo: a pessoas estão de papagaizando. As ouço, constantemente, passar pelo corredor falando assim: perau folitó perstiraolhaquibo fortlastes pricaranha uergranamas... sendo que o papagaio lhes responde na mesma língua papagaiesa. Estou prestes a chamar o IBAMA.
13.7.08
Ai que chatice!
“Levanto-me quando os cabelos brancos de V. Exa. passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas coisas que saem dele, confesso, não me merecem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V.Exa. precisa menos cinqüenta anos de idade, ou então mais cinqüenta de reflexão."
Adoro este texto acima. Foi escrito pelo poeta lusitano Antero de Quental (1842-1891) para alfinetar um outro poeta, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875).
Primeiro, o que se vê é muita ironia. E depois, uma infeliz verdade. Que chatice é uma criança querendo se passar por adulto. Que horrendo é um velhinho dando uma de bacana. Os dois são espetáculo fácil na TV. Carregam o tom do inusitado, do diferente, do bom. O que haverá de bom nisso? Pra mim é só tolice.
E vem o menininho de 8 anos falar de política, de economia, de religião. E vem o velhinho dar cambalhotas, tocar bumbo e jogar bola com sua roupa brilhante.
Ambos vindo do campo dos horrores como a mulher barbada, o homem elástico, os anões siameses.
Tudo até que suportável se o horror não tivesse hoje se transformado em objetivo cultural, virado moda.
- Vai Pedrinho, analisa a queda do Renan Calheiros.
- Aí bisavô, me empresta essa regata colada e os alteres.
Hummm, e eu tranco as portas para o mundo. Hummm, e eu dou uma de Antero de Quental. Menos idade ou menos reflexão pra mim? Ainda não sei, mas tirem estes moleques logo da minha frente pelo amor de Deus!
Adoro este texto acima. Foi escrito pelo poeta lusitano Antero de Quental (1842-1891) para alfinetar um outro poeta, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875).
Primeiro, o que se vê é muita ironia. E depois, uma infeliz verdade. Que chatice é uma criança querendo se passar por adulto. Que horrendo é um velhinho dando uma de bacana. Os dois são espetáculo fácil na TV. Carregam o tom do inusitado, do diferente, do bom. O que haverá de bom nisso? Pra mim é só tolice.
E vem o menininho de 8 anos falar de política, de economia, de religião. E vem o velhinho dar cambalhotas, tocar bumbo e jogar bola com sua roupa brilhante.
Ambos vindo do campo dos horrores como a mulher barbada, o homem elástico, os anões siameses.
Tudo até que suportável se o horror não tivesse hoje se transformado em objetivo cultural, virado moda.
- Vai Pedrinho, analisa a queda do Renan Calheiros.
- Aí bisavô, me empresta essa regata colada e os alteres.
Hummm, e eu tranco as portas para o mundo. Hummm, e eu dou uma de Antero de Quental. Menos idade ou menos reflexão pra mim? Ainda não sei, mas tirem estes moleques logo da minha frente pelo amor de Deus!
4.7.08
Lições sobre morte e imortalidade
Então povo: segundo meu avô, que por conta do fato acendeu uma vela e quase pôs fogo na casa, ontem fez 17 anos que minha avó morreu. Estranho pensar que agora, aos 33, posso dizer que passei mais da metade da vida sem a presença física daquela que me foi a principal referência. Física digo não porque acredite em espíritos, mas porque a memória vai-se esvaindo e por vezes fica só o principal, só a estrutura, uma lembrança boa que é quase um lapso. Se eu fosse uma fenomenólogo, talvez tivesse mais coisas a dizer sobre isso. Como não... vai um texto que escrevi há um tempinho atrás.
Beijos vó...
Ontem choveu granizo. E granizo me lembra Dona Elza, a avó que me colocava sobre a mesa antes do almoço pra fritar bifes de fígado que segundo ela me tornariam mais forte. A avó que que me colocava sobre a mesa durante a tarde pra fazer bolinhos de chuva em formato de charutos, aqueles que tinham um sabor diferente e os quais nunca mais vou voltar a comer na minha vida. A avó que fazia jarros e jarros de suco de laranja.
Dona Elza foi-se cedo. Acho que com 63 anos. A reincidência de um tumor a levou. Da primeira vez que ficou doente passei meses na cama ao seu lado. Da segunda, tinha tanto medo que ela se fosse que não conseguia vê-la. Arrependo-me por isso.
Dona Elza foi a pessoa mais importante da minha infância. Filha de um português e de uma espanhola, tinha o carisma de um e a força do outro. Era viva, inteligente, irônica, engraçada, esplendorosa e linda. Fazia amigos como quem troca de meias. Ainda sou parado nas ruas por quem, como eu, sente saudades dela.
Sempre que chovia granizo, corríamos pra porta da cozinha pra pegar algumas pedras. Segundo ela, gelo celeste faz bem à pele. Passávamos aquilo no rosto, morríamos de rir, e voltávamos pra sala.
Fazemos isso até hoje, só que agora com o João junto. Devo acreditar que a coisa funciona. Quando ela morreu parecia ter 40 anos, ou 35. Não se encontrava uma ruga no rosto risonho.
Da última vez que a vi, algumas horas antes de ir, num quarto de hospital, com sede e sem poder se alimentar, disse que quando sairia dali tomaria um balde de laranjada e enfiaria um sorvete na testa pra que ele escorresse até a boca. Não deu.
Entretanto, toda vez que chove granizo passamos umas pedras no rosto e ela insiste em colocar umas na boca. Digo a ela que faz mal. Dona Elza não liga, ela é teimosa, e voltamos pra sala, agora os três, rindo à toa.
Beijos vó...
Ontem choveu granizo. E granizo me lembra Dona Elza, a avó que me colocava sobre a mesa antes do almoço pra fritar bifes de fígado que segundo ela me tornariam mais forte. A avó que que me colocava sobre a mesa durante a tarde pra fazer bolinhos de chuva em formato de charutos, aqueles que tinham um sabor diferente e os quais nunca mais vou voltar a comer na minha vida. A avó que fazia jarros e jarros de suco de laranja.
Dona Elza foi-se cedo. Acho que com 63 anos. A reincidência de um tumor a levou. Da primeira vez que ficou doente passei meses na cama ao seu lado. Da segunda, tinha tanto medo que ela se fosse que não conseguia vê-la. Arrependo-me por isso.
Dona Elza foi a pessoa mais importante da minha infância. Filha de um português e de uma espanhola, tinha o carisma de um e a força do outro. Era viva, inteligente, irônica, engraçada, esplendorosa e linda. Fazia amigos como quem troca de meias. Ainda sou parado nas ruas por quem, como eu, sente saudades dela.
Sempre que chovia granizo, corríamos pra porta da cozinha pra pegar algumas pedras. Segundo ela, gelo celeste faz bem à pele. Passávamos aquilo no rosto, morríamos de rir, e voltávamos pra sala.
Fazemos isso até hoje, só que agora com o João junto. Devo acreditar que a coisa funciona. Quando ela morreu parecia ter 40 anos, ou 35. Não se encontrava uma ruga no rosto risonho.
Da última vez que a vi, algumas horas antes de ir, num quarto de hospital, com sede e sem poder se alimentar, disse que quando sairia dali tomaria um balde de laranjada e enfiaria um sorvete na testa pra que ele escorresse até a boca. Não deu.
Entretanto, toda vez que chove granizo passamos umas pedras no rosto e ela insiste em colocar umas na boca. Digo a ela que faz mal. Dona Elza não liga, ela é teimosa, e voltamos pra sala, agora os três, rindo à toa.
28.6.08
Gostei!
Do blog do Reinaldo:
Tio Rei exercita o seu lado legiferante e exige teste de bafômetro para dirigir o país.
Tio Rei exercita o seu lado legiferante e exige teste de bafômetro para dirigir o país.
17.6.08
Textinho do Click
Quando a filosofia trata da questão do tempo, dificilmente ele aparece como o conhecemos: aquele tempo do relógio, dos segundos após segundos; aquele tempo como a gente usa na física, mensurável, e com o qual é possível medir outras coisas, como velocidade ou espaço.
O tempo na filosofia surge para tratar de questões de outra ordem, com outros significados. Vamos a um exemplo: o tempo em Kant.
Para Kant, o tempo é algo cuja representação, cuja percepção, é algo que temos a priori. Parece que estou falando grego, não é?
Calma que eu explico melhor: para Kant, o tempo – assim como espaço - é algo anterior a qualquer percepção que temos das outras coisas.
Para um exemplo, imagine, pense numa bola. Ao pensar numa bola, esta bola estava onde? Estava em algum lugar, não estava?
Ainda que você imagine um fundo preto e coloque a bola neste lugar, a bola é pensada em algum lugar no espaço. Pois bem: quando Kant diz que o espaço é uma representação a priori, é isto que ele quer dizer. Que sempre pensamos o espaço antes de pensarmos nos outros objetos do mundo, e que quando pensamos estes objetos, é impossível que eles não estejam no espaço.
Pois bem: com o tempo acontece a mesma coisa. A mesma bola que você pensou estando em algum lugar teve que estar neste lugar em um determinado momento, em um determinado espaço de tempo. É impossível que a gente pense em um objeto estando ele em momento algum.
Será que você conseguiria fazer isso? Pensar um objeto fora do tempo? Eu não consigo.
Já para um outro filósofo, Husserl, o tempo diz respeito à percepção que temos das coisas em nossa consciência, não precisando que este tempo corresponda àquele do mundo externo à nossa mente.
Um exemplo disso?
Você já se deve ter perguntado: por que alguns momentos passam tão rápido e outros demoram tanto para passar? Mas ora, o tempo não é sempre o mesmo?
Pois então: segundo Husserl, o tempo é uma questão de percepção, uma questão de consciência.
Isso significa que o tempo possui divisões diferentes, e que você pode viver muito tempo em um momento mínimo, ou nada em um momento enorme. O que define o tempo é portanto o que se passa na mente, a forma como percebemos as coisas, e não o cuco que está na parede.
O tempo da física serviria então só para questões práticas, como não chegar atrasado a um lugar ou medir uma velocidade. Aliás, quando você está em um carro, na estrada, você percebe a velocidade sempre da mesma maneira?
Até a próxima semana!
O tempo na filosofia surge para tratar de questões de outra ordem, com outros significados. Vamos a um exemplo: o tempo em Kant.
Para Kant, o tempo é algo cuja representação, cuja percepção, é algo que temos a priori. Parece que estou falando grego, não é?
Calma que eu explico melhor: para Kant, o tempo – assim como espaço - é algo anterior a qualquer percepção que temos das outras coisas.
Para um exemplo, imagine, pense numa bola. Ao pensar numa bola, esta bola estava onde? Estava em algum lugar, não estava?
Ainda que você imagine um fundo preto e coloque a bola neste lugar, a bola é pensada em algum lugar no espaço. Pois bem: quando Kant diz que o espaço é uma representação a priori, é isto que ele quer dizer. Que sempre pensamos o espaço antes de pensarmos nos outros objetos do mundo, e que quando pensamos estes objetos, é impossível que eles não estejam no espaço.
Pois bem: com o tempo acontece a mesma coisa. A mesma bola que você pensou estando em algum lugar teve que estar neste lugar em um determinado momento, em um determinado espaço de tempo. É impossível que a gente pense em um objeto estando ele em momento algum.
Será que você conseguiria fazer isso? Pensar um objeto fora do tempo? Eu não consigo.
Já para um outro filósofo, Husserl, o tempo diz respeito à percepção que temos das coisas em nossa consciência, não precisando que este tempo corresponda àquele do mundo externo à nossa mente.
Um exemplo disso?
Você já se deve ter perguntado: por que alguns momentos passam tão rápido e outros demoram tanto para passar? Mas ora, o tempo não é sempre o mesmo?
Pois então: segundo Husserl, o tempo é uma questão de percepção, uma questão de consciência.
Isso significa que o tempo possui divisões diferentes, e que você pode viver muito tempo em um momento mínimo, ou nada em um momento enorme. O que define o tempo é portanto o que se passa na mente, a forma como percebemos as coisas, e não o cuco que está na parede.
O tempo da física serviria então só para questões práticas, como não chegar atrasado a um lugar ou medir uma velocidade. Aliás, quando você está em um carro, na estrada, você percebe a velocidade sempre da mesma maneira?
Até a próxima semana!
11.6.08
O que eu ando fazendo, ou, porque não escrevo mais com freqüência neste blog
O manuscrito K, anexado à carta datada em 1 de janeiro de 1896 , e cujo subtítulo é Um conto de Natal, compõe-se basicamente no mesmo modelo esquemático e pelos mesmos dados que irão ser apresentados em Novas observações.... O texto, contudo, não é idêntico, e traz, assim como o manuscrito H, certas tentativas de entendimento das afecções que acabaram sendo omitidas no artigo publicado, sendo que uma delas é realmente expressiva para a nossa questão, e isso por conta do papel que ela desempenhará na evolução das idéias de Freud sobre o tema.
Estamos falando obviamente de uma hipótese levantada sobre a paranóia, e que diz respeito tanto àquilo que é reprimido por projeção quanto às conseqüências desta repressão para a formação dos sintomas.
Ainda no início do texto Freud aventa a possibilidade – e aqui está o passo adiante deste escrito - de que em um caso de paranóia apenas o afeto seja reprimido por projeção, sendo mantidas na consciência as representações a ele ligadas, ou seja, o conteúdo da vivência desprazerosa. Ocorrência puramente conjetural, pois não há um caso que comprove tal possibilidade. Acontece que, para que possamos entender como as coisas se dão neste momento e quais as questões que aqui surgem, devemos nos ater em outro ponto – e este grandemente delicado e significante, a saber: como se configura no exterior, e aparece ao eu, o conteúdo representacional projetado. Voltemos, pois, aos textos analisados sobre a projeção para um melhor vislumbre do problema.
No texto publicado, quando da análise do trâmite do conteúdo das representações - e aí tanto na histeria quanto na neurose obsessiva - a afirmação é clara: em ambos os casos o conteúdo, ao ser reprimido, se encontra ausente da consciência. Já no que diz respeito à paranóia, a lembrança da cena originária se encontrará presente, mas projetada. A questão que surge aqui é: ora, mas como isto se daria concretamente? O conteúdo seria plenamente mantido, com a preservação das imagens, só que agora instauradas através das interpretadas falas alheias?
Freud, em nenhum momento e em nenhum dos textos, é claro sobre a questão. A estrutura da neurose é consecutivamente, ou seja, em ambos os textos anteriormente analisados, reiterada, e nela a projeção aparece como o mecanismo que gera o sintoma primário. Este, por sua vez, parece ser sempre algo do campo afetivo, ou seja: não há referência às lembranças quando Freud trata do primärsympton, somente auto-acusações transfiguradas. Os delírios, então, ocorreriam não mais do que como formas de adequação da realidade externa à realidade psíquica: uma forma de dar sentido à sensação de ser perseguido. As representações começariam pois a surgir apenas quando a doença se instalasse concretamente, sendo que as alucinações apareceriam como fatos reajustados pela formação de compromisso.
Para articular as questões postas aqui em jogo, a fim de que na projeção afeto e conteúdo representacional fossem tratados com igual aprofundamento e que ainda se esclarecessem as suas relações com a formação dos sintomas, algo teria que mudar de estatuto como, por exemplo, a atuação da formação de compromisso já no aparecimento do sintoma primário. E não é isso o que Freud, ao que nos parece, faz no manuscrito K. Vejamos nesta longa citação:
“O sintoma primário formado é a desconfiança... o conteúdo da experiência retorna sob a forma de um pensamento que ocorre ao paciente como alucinação visual ou sensorial. O afeto reprimido parece retornar invariavelmente nas alucinações auditivas.
As partes das lembranças que retornam sofrem uma distorção ao serem substituídas por imagens análogas, extraídas do momento presente - isto é, são simplesmente distorcidas por uma substituição cronológica, e não pela formação de um substituto. As vozes, igualmente, lembram a autocensura, como sintoma de compromisso, e o fazem, em primeiro lugar, distorcidas em seu enunciado a ponto de se tornarem indefinidas e de se transformarem em ameaças; e, em segundo lugar, relacionadas não com a experiência primária, mas justamente com a desconfiança - isto é, com o sintoma primário.
Como a crença foi separada da autocensura primária, ela assume o comando irrestrito dos sintomas de compromisso. O eu não os considera como estranhos a si mesmo, mas é impelido por eles a fazer tentativas de explicá-los, tentativas que podem ser descritas como delírios assimilatórios.
Nesse ponto, com o retorno do recalcado sob forma distorcida, a defesa fracassa de vez; e os delírios assimilatórios não podem ser interpretados como sintomas de defesa secundária, mas como o início de uma modificação do eu, expressão do fato de ter sido ele subjugado.”
Tal pendência, conforme apontada por nós, terá de esperar alguns anos para que possa ser, ainda que não totalmente, resolvida.
Estamos falando obviamente de uma hipótese levantada sobre a paranóia, e que diz respeito tanto àquilo que é reprimido por projeção quanto às conseqüências desta repressão para a formação dos sintomas.
Ainda no início do texto Freud aventa a possibilidade – e aqui está o passo adiante deste escrito - de que em um caso de paranóia apenas o afeto seja reprimido por projeção, sendo mantidas na consciência as representações a ele ligadas, ou seja, o conteúdo da vivência desprazerosa. Ocorrência puramente conjetural, pois não há um caso que comprove tal possibilidade. Acontece que, para que possamos entender como as coisas se dão neste momento e quais as questões que aqui surgem, devemos nos ater em outro ponto – e este grandemente delicado e significante, a saber: como se configura no exterior, e aparece ao eu, o conteúdo representacional projetado. Voltemos, pois, aos textos analisados sobre a projeção para um melhor vislumbre do problema.
No texto publicado, quando da análise do trâmite do conteúdo das representações - e aí tanto na histeria quanto na neurose obsessiva - a afirmação é clara: em ambos os casos o conteúdo, ao ser reprimido, se encontra ausente da consciência. Já no que diz respeito à paranóia, a lembrança da cena originária se encontrará presente, mas projetada. A questão que surge aqui é: ora, mas como isto se daria concretamente? O conteúdo seria plenamente mantido, com a preservação das imagens, só que agora instauradas através das interpretadas falas alheias?
Freud, em nenhum momento e em nenhum dos textos, é claro sobre a questão. A estrutura da neurose é consecutivamente, ou seja, em ambos os textos anteriormente analisados, reiterada, e nela a projeção aparece como o mecanismo que gera o sintoma primário. Este, por sua vez, parece ser sempre algo do campo afetivo, ou seja: não há referência às lembranças quando Freud trata do primärsympton, somente auto-acusações transfiguradas. Os delírios, então, ocorreriam não mais do que como formas de adequação da realidade externa à realidade psíquica: uma forma de dar sentido à sensação de ser perseguido. As representações começariam pois a surgir apenas quando a doença se instalasse concretamente, sendo que as alucinações apareceriam como fatos reajustados pela formação de compromisso.
Para articular as questões postas aqui em jogo, a fim de que na projeção afeto e conteúdo representacional fossem tratados com igual aprofundamento e que ainda se esclarecessem as suas relações com a formação dos sintomas, algo teria que mudar de estatuto como, por exemplo, a atuação da formação de compromisso já no aparecimento do sintoma primário. E não é isso o que Freud, ao que nos parece, faz no manuscrito K. Vejamos nesta longa citação:
“O sintoma primário formado é a desconfiança... o conteúdo da experiência retorna sob a forma de um pensamento que ocorre ao paciente como alucinação visual ou sensorial. O afeto reprimido parece retornar invariavelmente nas alucinações auditivas.
As partes das lembranças que retornam sofrem uma distorção ao serem substituídas por imagens análogas, extraídas do momento presente - isto é, são simplesmente distorcidas por uma substituição cronológica, e não pela formação de um substituto. As vozes, igualmente, lembram a autocensura, como sintoma de compromisso, e o fazem, em primeiro lugar, distorcidas em seu enunciado a ponto de se tornarem indefinidas e de se transformarem em ameaças; e, em segundo lugar, relacionadas não com a experiência primária, mas justamente com a desconfiança - isto é, com o sintoma primário.
Como a crença foi separada da autocensura primária, ela assume o comando irrestrito dos sintomas de compromisso. O eu não os considera como estranhos a si mesmo, mas é impelido por eles a fazer tentativas de explicá-los, tentativas que podem ser descritas como delírios assimilatórios.
Nesse ponto, com o retorno do recalcado sob forma distorcida, a defesa fracassa de vez; e os delírios assimilatórios não podem ser interpretados como sintomas de defesa secundária, mas como o início de uma modificação do eu, expressão do fato de ter sido ele subjugado.”
Tal pendência, conforme apontada por nós, terá de esperar alguns anos para que possa ser, ainda que não totalmente, resolvida.
6.6.08
Um texto dos bons, com argumentos dos bons, para calar os bocós
O sujeito que escreveu o texto abaixo, Gustavo Ioschpe, costuma produzir umas coisas bem das ruizinhas. Mas neste aqui ele acertou. Aliás, acho que deixou tudo o que tinha para acertar para usar de uma cacetada só. Não deixem de ler...
Virou consenso no Brasil associar o nosso fracasso educacional com as maquinações do sistema capitalista/neoliberal. Segundo essa leitura, calcada em Marx, interessaria aos "poderosos", à "elite", que o proletariado não fosse instruído ou, no máximo, recebesse uma educação totalmente "alienante", para que não questionasse suas mazelas nem incomodasse o status quo e apenas continuasse fornecendo sua mão-de-obra barata para a manutenção do sistema. Essa leitura da situação se tornou absolutamente hegemônica: vai da imprensa à academia, dos mais louvados pensadores do tema à correspondência enviada a este articulista por professores dos grotões do Brasil. Vejamos alguns exemplos. De Emir Sader: "A educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: ‘fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes’. Em outras palavras, tornou-se uma peça do processo de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que torna possível a reprodução do injusto sistema de classes. (...) No reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital (...)". Lucyelle Pasqualotto: "Podemos analisar que a educação como vem sendo, historicamente, organizada está para atender ao capital, numa sociedade inerentemente excludente e contraditória. (...) Oferece diferentes níveis, modalidades, métodos educacionais, a fim de dar continuidade ao seu elemento diferenciador e, ao mesmo tempo, apregoando o discurso da unificação e universalização da educação. Discurso este que, em uma sociedade capitalista, onde os meios de produção, inclusive o conhecimento[,] são propriedade privada, quanto muito pode proporcionar uma educação mercantilizada, excludente e diferencial". Amelia Hamze: "Proporcionar a qualidade de ensino e a gestão democrática da escola levaria a invalidação da sustentação do poder amparada pelo estado capitalista".
Essas teses, como de costume, são apenas frutos da verborragia dos "pesquisadores" que as produzem. Não vêm embasadas por nenhuma tentativa de comprovação quantitativa – até porque a maioria de seus autores se confunde com qualquer operação matemática ou estatística que requeira sofisticação maior do que calcular o troco do táxi e costuma, convenientemente, mascarar essas deficiências sob um discurso ideológico segundo o qual a própria quantificação, do que quer que seja, seria uma vitória da superestrutura neoliberal, mercantilista. É pena, porque essa teoria – de que o capitalismo requer a falta de educação, ou a educação de baixa qualidade – é facilmente conversível em uma hipótese testável. Se esses pensadores estiverem certos, espera-se que os países mais capitalistas sejam aqueles com os piores e mais excludentes sistemas educacionais, enquanto aqueles em que o capitalismo não conseguiu estender seus tentáculos malévolos deveriam ter populações formadas por cidadãos altamente instruídos e intelectualizados.
Em realidade, o que ocorre é exatamente o oposto: quanto mais capitalista o país, melhor e mais abrangente é o seu sistema educacional. Cruzei os dados referentes a educação e capitalismo de 167 países. Usando o instrumento da estatística de regressão, descobre-se que o desempenho educacional explica, por si só, 47% da posição de um país na escala do capitalismo. A relação é estatisticamente fortíssima: a probabilidade que a percebida ligação entre as duas variáveis seja fruto de erro é inferior a 0,00000001%. Essa robustez não é casual: indica que o sistema capitalista exige sociedades com alto nível educacional, e, quanto mais instruída é a população, mais capitalista o país tende a ser, e vice-versa.
Por que no Brasil ainda se acredita no oposto? É a junção do mofo intelectual com a vigarice. Marx já cometia erros de interpretação da realidade quando escrevia seu Manifesto Comunista e O Capital, há 150 anos. O que se aplicava àquela realidade histórica, porém, não se aplica à nossa – o capitalismo mudou, e muito, neste século e meio. O período do início da Revolução Industrial era, sim, uma época em que a competência necessária ao trabalhador era mínima e sua jornada de trabalho era desumana. Para apertar parafusos em uma linha de montagem esfumaçada por dezesseis ou vinte horas por dia, em repetição incessante, era apenas necessário alguém que soubesse ler, se tanto. O capitalismo do século XXI, porém, é outro. O conjunto de habilidades e conhecimentos necessários é muito maior – até para trabalhar em uma linha de montagem de uma fábrica é preciso capacidade analítica para lidar com um maquinário cada vez mais sofisticado. E, quanto mais capitalista e desenvolvido um país se torna, mais diminui a importância das áreas fabril e de produção de commodities e aumenta o peso de setores de serviço e de alta tecnologia, em que o principal insumo é o cérebro das pessoas. Não é por acaso que alguns campeões do capitalismo, como Coréia do Sul e Estados Unidos, hoje se aproximam da massificação da matrícula de ensino universitário, com taxas beirando os 90%. O profissional de sucesso do mercado internacional de hoje é a antítese do proletário da Inglaterra de Marx: precisa ser altamente capacitado em sua área e, ao mesmo tempo, ter uma formação multidisciplinar e abrangente. Enquanto isso, nossos pensadores continuam recebendo soldo dos nossos impostos para suas análises em que até hoje, quase vinte anos depois da falência do socialismo, tentam mostrar como Marx tinha razão. A essa incapacidade de alguns, soma-se o oportunismo de muitos. Esse tipo de análise reverbera no professorado porque o seu corolário é simples: o insucesso educacional é resultado de uma sociedade corrompida pelo capitalismo. Eu quero ensinar, mas a superestrutura não me permite. A única maneira de produzir uma mudança efetiva na educação é através da revolução social, e acreditar que o esforço individual de um professor ou diretor pode fazer qualquer diferença diante de forças sociais e históricas tão poderosas já seria uma rendição ao espírito atomista, ilusório, que é a marca do capitalismo. A falência intelectual pavimenta o caminho do conformismo e cinismo de cada um.
Essa prisão mental em que nos encontramos acaba por prender em amarras o próprio país. Esperando pela revolução social, abandonamos a possibilidade da revolução mais maravilhosa que existe: a que se dá pelo conhecimento. Silenciosa e pacífica, é a verdadeira redentora: perto de dominar a eternidade representada pelo saber, desapropriar uma fábrica ou fazenda parece brincadeira de criança.
E essa é uma revolução em que não há perdedores. Todos os setores se beneficiam de uma população mais instruída. Em um mundo globalizado, a idéia de que a elite gostaria de confinar a população à ignorância para não ver sua posição ameaçada é fajuta. Se o empresário não tiver trabalhadores competentes, será destruído pela competição das empresas de outros países, com gente qualificada. Só há, estranhamente, um único tipo de organização, que eu saiba, que se beneficie de uma população iletrada: são os partidos de esquerda. Nas últimas eleições presidenciais, segundo o Datafolha, Lula só perdeu em um grupo: o dos eleitores com ensino superior. Entre eles, em pesquisa de 17 de outubro – doze dias antes da eleição, portanto – Lula tinha 40% das preferências, contra 50% de Alckmin. Felizmente, para ele, a maioria de nossa população só tem ensino fundamental, grupo em que o petista liderava por 57% a 28%.
Virou consenso no Brasil associar o nosso fracasso educacional com as maquinações do sistema capitalista/neoliberal. Segundo essa leitura, calcada em Marx, interessaria aos "poderosos", à "elite", que o proletariado não fosse instruído ou, no máximo, recebesse uma educação totalmente "alienante", para que não questionasse suas mazelas nem incomodasse o status quo e apenas continuasse fornecendo sua mão-de-obra barata para a manutenção do sistema. Essa leitura da situação se tornou absolutamente hegemônica: vai da imprensa à academia, dos mais louvados pensadores do tema à correspondência enviada a este articulista por professores dos grotões do Brasil. Vejamos alguns exemplos. De Emir Sader: "A educação, que poderia ser uma alavanca essencial para a mudança, tornou-se instrumento daqueles estigmas da sociedade capitalista: ‘fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes’. Em outras palavras, tornou-se uma peça do processo de acumulação de capital e de estabelecimento de um consenso que torna possível a reprodução do injusto sistema de classes. (...) No reino do capital, a educação é, ela mesma, uma mercadoria. Daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital (...)". Lucyelle Pasqualotto: "Podemos analisar que a educação como vem sendo, historicamente, organizada está para atender ao capital, numa sociedade inerentemente excludente e contraditória. (...) Oferece diferentes níveis, modalidades, métodos educacionais, a fim de dar continuidade ao seu elemento diferenciador e, ao mesmo tempo, apregoando o discurso da unificação e universalização da educação. Discurso este que, em uma sociedade capitalista, onde os meios de produção, inclusive o conhecimento[,] são propriedade privada, quanto muito pode proporcionar uma educação mercantilizada, excludente e diferencial". Amelia Hamze: "Proporcionar a qualidade de ensino e a gestão democrática da escola levaria a invalidação da sustentação do poder amparada pelo estado capitalista".
Essas teses, como de costume, são apenas frutos da verborragia dos "pesquisadores" que as produzem. Não vêm embasadas por nenhuma tentativa de comprovação quantitativa – até porque a maioria de seus autores se confunde com qualquer operação matemática ou estatística que requeira sofisticação maior do que calcular o troco do táxi e costuma, convenientemente, mascarar essas deficiências sob um discurso ideológico segundo o qual a própria quantificação, do que quer que seja, seria uma vitória da superestrutura neoliberal, mercantilista. É pena, porque essa teoria – de que o capitalismo requer a falta de educação, ou a educação de baixa qualidade – é facilmente conversível em uma hipótese testável. Se esses pensadores estiverem certos, espera-se que os países mais capitalistas sejam aqueles com os piores e mais excludentes sistemas educacionais, enquanto aqueles em que o capitalismo não conseguiu estender seus tentáculos malévolos deveriam ter populações formadas por cidadãos altamente instruídos e intelectualizados.
Em realidade, o que ocorre é exatamente o oposto: quanto mais capitalista o país, melhor e mais abrangente é o seu sistema educacional. Cruzei os dados referentes a educação e capitalismo de 167 países. Usando o instrumento da estatística de regressão, descobre-se que o desempenho educacional explica, por si só, 47% da posição de um país na escala do capitalismo. A relação é estatisticamente fortíssima: a probabilidade que a percebida ligação entre as duas variáveis seja fruto de erro é inferior a 0,00000001%. Essa robustez não é casual: indica que o sistema capitalista exige sociedades com alto nível educacional, e, quanto mais instruída é a população, mais capitalista o país tende a ser, e vice-versa.
Por que no Brasil ainda se acredita no oposto? É a junção do mofo intelectual com a vigarice. Marx já cometia erros de interpretação da realidade quando escrevia seu Manifesto Comunista e O Capital, há 150 anos. O que se aplicava àquela realidade histórica, porém, não se aplica à nossa – o capitalismo mudou, e muito, neste século e meio. O período do início da Revolução Industrial era, sim, uma época em que a competência necessária ao trabalhador era mínima e sua jornada de trabalho era desumana. Para apertar parafusos em uma linha de montagem esfumaçada por dezesseis ou vinte horas por dia, em repetição incessante, era apenas necessário alguém que soubesse ler, se tanto. O capitalismo do século XXI, porém, é outro. O conjunto de habilidades e conhecimentos necessários é muito maior – até para trabalhar em uma linha de montagem de uma fábrica é preciso capacidade analítica para lidar com um maquinário cada vez mais sofisticado. E, quanto mais capitalista e desenvolvido um país se torna, mais diminui a importância das áreas fabril e de produção de commodities e aumenta o peso de setores de serviço e de alta tecnologia, em que o principal insumo é o cérebro das pessoas. Não é por acaso que alguns campeões do capitalismo, como Coréia do Sul e Estados Unidos, hoje se aproximam da massificação da matrícula de ensino universitário, com taxas beirando os 90%. O profissional de sucesso do mercado internacional de hoje é a antítese do proletário da Inglaterra de Marx: precisa ser altamente capacitado em sua área e, ao mesmo tempo, ter uma formação multidisciplinar e abrangente. Enquanto isso, nossos pensadores continuam recebendo soldo dos nossos impostos para suas análises em que até hoje, quase vinte anos depois da falência do socialismo, tentam mostrar como Marx tinha razão. A essa incapacidade de alguns, soma-se o oportunismo de muitos. Esse tipo de análise reverbera no professorado porque o seu corolário é simples: o insucesso educacional é resultado de uma sociedade corrompida pelo capitalismo. Eu quero ensinar, mas a superestrutura não me permite. A única maneira de produzir uma mudança efetiva na educação é através da revolução social, e acreditar que o esforço individual de um professor ou diretor pode fazer qualquer diferença diante de forças sociais e históricas tão poderosas já seria uma rendição ao espírito atomista, ilusório, que é a marca do capitalismo. A falência intelectual pavimenta o caminho do conformismo e cinismo de cada um.
Essa prisão mental em que nos encontramos acaba por prender em amarras o próprio país. Esperando pela revolução social, abandonamos a possibilidade da revolução mais maravilhosa que existe: a que se dá pelo conhecimento. Silenciosa e pacífica, é a verdadeira redentora: perto de dominar a eternidade representada pelo saber, desapropriar uma fábrica ou fazenda parece brincadeira de criança.
E essa é uma revolução em que não há perdedores. Todos os setores se beneficiam de uma população mais instruída. Em um mundo globalizado, a idéia de que a elite gostaria de confinar a população à ignorância para não ver sua posição ameaçada é fajuta. Se o empresário não tiver trabalhadores competentes, será destruído pela competição das empresas de outros países, com gente qualificada. Só há, estranhamente, um único tipo de organização, que eu saiba, que se beneficie de uma população iletrada: são os partidos de esquerda. Nas últimas eleições presidenciais, segundo o Datafolha, Lula só perdeu em um grupo: o dos eleitores com ensino superior. Entre eles, em pesquisa de 17 de outubro – doze dias antes da eleição, portanto – Lula tinha 40% das preferências, contra 50% de Alckmin. Felizmente, para ele, a maioria de nossa população só tem ensino fundamental, grupo em que o petista liderava por 57% a 28%.
2.6.08
fabianescas
1 - Ficar muito, mas muito feliz mesmo, com o sorriso até a nuca, por ter descoberto - em um domingo gelado e depois de meio quilo de jujuba - que Feuerbach também fez uso da lei de Haeckel (a ontogênese repete invariavelmente as etapas da filogênese).
2 - Abrir uma Fanta Mundo Tailândia pra comemorar.
2 - Abrir uma Fanta Mundo Tailândia pra comemorar.
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