31.12.07

Finale

A última, a final, a derradeira postagem de 2007!!!

E o assunto será: o que eu gostaria de fazer com este blog. Sim, porque tenho escrito coisas que podem ser escritas, algumas até que devem, mas não tenho liberdade para escrever aqui o que quero. Se isso fosse feito, estaria despedido de todos os empregos e preso por alguma coisa que não sei qual é.

Mas que vem me dando uma vontade enorme, vem dando sim. Arrisco?

É bem provável então que em 2008 eu seja preso. Uma boa troca para que algumas coisas sejam esclarecidas. Ademais, tenho direito à cela especial. Se puder levar todos os meus livros e um ventilador, não será nada muito diferente do que passo hoje.

E.C

Comi a autobiografia do Eric Clapton. É uma milagre que aquele homem ainda esteja vivo. Mas o importante do livro não foi isso. É a primeira vez que leio uma biografia, e este fato, por incrível que pareça, me ajudou um tanto. Comecei a colocar as minhas coisas em perspectiva, como se estivesse escrevendo a minha própria autobiografia.

É um bom modo de aprender a se dedicar às coisas importantes e não perder tempo com babela.

Feliz 2008!!!

P.S - Tenho umas 254 possibilidades para a última postagem musical do ano. Portanto, talvez passe de uma.

22.12.07

Da série: coisas que eu não entendo

Cruzeiro

Vi a foto de uma amiga minha num cruzeiro. Pessoas fazem cruzeiros.

Aí eu fiquei pensando nisso: o que é fazer um cruzeiro? E cheguei à seguinte definição:

- Fazer um cruzeiro é ficar trancafiado 7; 10; 15 dias num hotel que balança e que pode afundar.

E o que há de legal nisso?

O primeiro dia deve ser ótimo, mas depois eu não quero sequer imaginar.

A vantagem?

Bem, é chique. Dá status. E...

Ainda prefiro o meu ventinho de Pringles.

19.12.07

O funcionamento da classe

Depois vocês dizem que eu sou chato, que eu exagero, que eu fico pegando no pé da "classe artística".

Da Folha de hoje:

FOLHA - O governo já disse que não pára as obras. Como a sra. avalia isso?
LETÍCIA SABATELLA - A gente vê a decisão de dom Luiz de abrir mão da própria vida e de chamar a atenção para uma causa que vai atender às gerações futuras, e, ao mesmo tempo, vê o governo tão apegado à uma idéia de transposição e à idéia de modelo de desenvolvimento calcado no lucro de alguns.

FOLHA - A sra. acha que o governo Lula está fora da linha para a qual foi eleito?
SABATELLA - O Lula foi feito e construído através do empenho dele, é claro, e dos movimentos populares. Com a chegada do Lula, se acreditava numa democracia popular. Começou a ter isso num determinado momento, mas com o PAC, com essa política de aceleração do crescimento, vai aumentar o trabalho escravo, aumentar a prostituição infantil e não se faz uma reforma agrária. Com o PAC, há um retrocesso.

Percebam o tamanho da paçoca que esta mulher fez. É por isso que a "classe" sempre se identificou e defendeu o PT com unhas e dentes. A ordem do discurso é a mesma.

Se eu tivesse algum poder político obrigaria todo brasileiro a ler, decorar e fazer exercícios sobre o "Discurso sobre o método", de Descartes. Nada mais do que isso. Um livrinho de 100 páginas. Só. Não duvido que o país melhorasse uns 758% em duas gerações.

P.S - Bem, ao menos a moça é linda, disso ninguém pode reclamar. Quem sabe se o barba fosse mais bonitinho...

18.12.07

E aos 33 com o retorno de Júpiter...

Talvez alguém esperasse um texto sobre meu aniversário. Um texto bem escrito, paciente, colocador das coisas em seus lugares. Pois bem: simplesmente não há tempo para isso. Aos 33 anos não se tem muito tempo para repassar o que acontece na cachola.

O que o tempo me permite dizer é algo ralo, rápido, esfumaçado. Entretanto, não por isso, desconsiderável.

O período transcorrido entre os dias 08/12/06 e 08/12/07 foi o mais intenso destes anos todos. Leiam bem: anos todos. Nunca tantos acontecimentos agudos, exteriores e interiores, transcorreram com tanta freqüência e celeridade.

Muita alegria, muitos dias bons, muito sol. Muita doença, muita histeria, muita dor. Amigos novos, paixões novas, trabalho novo. Perdas doloridas porque perdas morais, readeqüações, tentativas, desistências.

Um filho novo porque mudado e uma mãe nova porque mais sábia - os anos farão com que os motivos desta fala sejam esquecidos; não ligo.

Comecei o ano com um amor que era amor, mas amor de amigo, e soubemos reconhecer, e talvez nos amemos mais agora e pra sempre.

Comecei o ano com o pé torcido.

Reconheci, definitivamente, o valor e o lugar dos meus amigos. Ganhei uma amizade nova, e das grandes.

Recoloquei minha cabeça no lugar, valorei outras coisas, e terminei o ano com o pé novamente torcido.

Terminei o ano com uma amizade que não é amizade, com algo que não vai dar em nada mas que é a minha mais nova perturbação del cuore.

Sim, meu coração se perturba. E agora é só isso.

O resto é leve, bem leve.

Quanto valeu a parada

Fabiano passeando feliz e lépido pelas ruas do centro de Campinas.

Lá, lá, lá, lá, lá - tchu tchururu tchutchu tchu tchururu tchuchu - Ah, que legal, faz tempo que eu não entro na Pontes!

Informação no mezanino - Qualquer livro a 10 pila. Hummm, será que tem coisa boa aí?
Olha, olha, olha - uns Engels, uns seres desconhecidos...
- Moço, tem mais estas caixas aqui ó, se quiser dar uma olhada...
- Ah tá, obrigado.
Hummm, interessante este - e põe o livro debaixo do braço. E mais este também. Hummm, e mais este.
Começa a desconfiança: mas será que estes aqui custam mesmo dez reais? Já sei, vou perguntar e passar vergonha porque é óbvio que eles não custam dez reais.
- Hei, estes também a dez reais?
- Sim, isso mesmo.

Uau, que maravilha - cambalhotas, beijo na boca da vendedora, coração desenhado com dedos no ar - três ótimos livros por trintinha!!!

Mas não basta pegar a oferta, tem que saber quanto se ganhou na coisa.
Chega em casa e vai pro micro - O Tambor/ Günter Grass - R$ 49,00 - Jung, A biography/ Deirdre Bair - R$ 49,80 - New Horizons in the Study of Language and Mind/ Noam Chomsky - R$ 74,00.
OK, 174 menos 30, 144.
Ô loco, por estar no lugar certo na hora certa, R$ 144,00!!!

E Fabiano sai pela sala feliz e lépido, imitando uma borboleta...

Key to Reserva: Martin Scorsese, Alfred Hitchcock, Herrmann

Fantástico!!!

Não deixem de ver...

4.12.07

Gisele Bündchen (texto atrasado)

Eu agora assino a Newsletter da agência Carta Maior. Sabem como é, né: não posso ficar lendo coisas vindas de um só lado. Na verdade, nunca fiz isso, o que me possibilitou a escolha pelo flanco mais lógico e coerente da batalha. Acontece que eu havia deixado a leitura do outro lado um pouco sem rédeas, à solta, sem a devida voracidade.

Resolvi mudar. Mudar para ser o mesmo. Leiam o texto abaixo e ficará fácil entender o porquê. Meus comentários vão depois.

De novo nossa imprensa comeu bola sobre a Venezuela. Em 2002 foi aquela vergonha dos nossos semanários e comentaristas saírem soltando foguetes na sexta-feira cantando em prosa e verso a queda de Hugo Chávez, enquanto no domingo à noite nele reentrava vitoriosamente no Palácio Miraflores reconduzido pelo povo e por militares legalistas que rejeitaram o tradicional papel sujo que as classes dirigentes sempre atribuíram às Forças Armadas na América Latina.

Desta vez foi o contrário. Embalados por bocas de urna duvidosas, comentaristas no domingo à noite e os jornais conservadores na segunda pela manhã anunciavam a vitória do “sim” no plebiscito venezuelano. As violas, violinos, guitarras, cellos e trombetas já se afinavam à torto e à direita. Seria uma vitória “apertada” numa “Venezuela dividida” e que permaneceria dividida enquanto Hugo Chávez permanecer no poder. Também se lançaria mão dos conhecidos acordes das “instituições em perigo”, do “enterro da democracia”, e por aí afora e adentro.

Pois o “não” ganhou. De repente, passou a importar pouco que as diferenças nas duas partes do plebiscito ficaram em torno de 1%, 1,5%. As manchetes do conservantismo proclamaram em uníssono: “A Venezuela”, assim em bloco, “A Venezuela disse não à reforma de Chávez”.
De quebra, ainda no domingo, falava-se da pesquisa sobre terceiro mandato no Brasil como se a rejeição a essa proposta fosse uma “derrota” para Lula. Enfim, é ainda a busca pelos derrotados em outubro do ano passado por impor alguma “derrota”, seja ela qual for, à vitória de Lula que tiveram de engolir.

Voltando à Venezuela. A vitória apertada do não e as reações subseqüentes confirmaram duas teses que estiveram presentes nas análises aqui da Carta Maior.

A primeiro é a de que o projeto de Chávez passava por dificuldades, que perdera apoios importantes e que as radicalizações do discurso do presidente venezuelano no plano externo visava provocar uma coesão que lhe faltava. Chávez embrulhou importantes e democráticas reformas no plano social com uma abertura para uma continuidade ilimitada no poder, o que provocou dois resultados complicados:

1) Perdeu apoio entre a intelectualidade e em setores do campo estudantil. Pode ser que setores universitários tenham se sentido ameaçados em suas prerrogativas pelas propostas igualitaristas que vinham no bojo do plebiscito. Mas houve uma perda de “impulso ideológico” que abriu espaço para posições contrárias às reformas. O plebiscito, tão complexo em sua totalidade, tendeu a se transformar na resposta a uma única questão, se Chávez poderia continuar indefinidamente na presidência, até que a morte os separasse (não são tolices as alegações de que ele possa ser assassinado), ou não. Isso “emparedou” o plebiscito e, se de um lado, mostrava a força do carisma do presidente, de outro expunha uma das fragilidades do movimento bolivariano, que é a dependência com exclusividade do comandante e do comando de Hugo Chávez. É verdade que, confirmando tese de Max Weber recentemente lembrada por José Luís Fiori em entrevista à Folha de S. Paulo, na América Latina tradicionalmente políticas inclusivas sempre foram bandeira de políticos carismáticos, de estilo acaudilhado e acaudilhantes, nunca dos nossos políticos liberais, que em geral representam aqueles que não se liberam jamais da visão de seus foros de privilégio e de benesses estatais chamadas de “investimento”. Vejam-se os exemplos históricos de Vargas, Perón e Cárdenas

2) A segunda tese presente em análises na Carta Maior foi comprovada, pelo menos de momento, pela reação do presidente Hugo Chávez ao resultado negativo no plebiscito. Ao contrário da direita venezuelana, que não aceitaria a vitória do “sim”, e da direita internacional, inclusive na imprensa, que já preparava a tese da fraude eleitoral, Chávez aceitou de pronto o resultado, ainda que declarasse que o projeto continua de pé. Sua declaração sobre a manutenção do projeto não contraria prática democrática nenhuma. Por exemplo, o projeto de independência ou de maior autonomia do Québec em relação ao restante do Canadá já foi plebiscitado duas vezes nos últimos 28 anos, sem que se levante um único comentarista irado dizendo que isso afronta a democracia. Na América Latina quem volta e meia não respeitou resultado eleitoral ou plebiscitário foi a direita, ou dando golpes depois ou mesmo antes, como nas recentes eleições mexicanas, seguindo o exemplo inaugurado pela “eleição” de Bush filho com a trucagem na Flórida. O comportamento de Chávez comprovou nosso comentário de que na Venezuela sim dividida entre uma massa popular permanentemente excluída da vida republicana e dos direitos da cidadania e uma minoria de privilegiados que patrocinavam um sistema político fechado e inextrincavelmente corrupto, Chávez é um ponto de equilíbrio, e não o contrário.

As manchetes conservadoras se perguntam com estardalhaço qual será agora o futuro de Hugo Chávez e de seu governo. É bom nos perguntarmos qual será o futuro da direita venezuelana, impulsionada por esta inesperada e até incômoda vitória no plebiscito de domingo passado. (Incômoda porque lhe traz a obrigação da democracia, o que é um peso para ela). Retomará sua inspiração golpista que pode lançar o país numa guerra civil?


Estou aqui

Vejam vocês o que é um texto modelo de passarela, um texto símbolo sexual: muito bonito, bem escrito mesmo, mas sem um mínimo de conteúdo. Tadinho!

Pra quem estava no mundo real neste domingo, e não no fantástico mundo de Bobby, a explicação para o comportamento da imprensa brasileira, quiçá mundial, é de uma de uma obviedade até chata.

A primeira notícia que eu, simples mortal (e todas a agências, inclusive a Reuters) recebi sobre o referendo foi a seguinte: pesquisas oficiais de boca de aurna anunciam a vantagem de 10% do Sim. Outros números foram anunciados mas tão logo Chávez soube das informações veio com a sua emblemática democracia: se divulgarem outros dados que não os fornecidos pelo governo, mando fechar o veículo divulgador, ou seja, o canal de rádio ou TV.

Daí se seguiu:

a) O Conselho Eleitoral deveria dar boletins de hora em hora sobre a
apuração, iniciando os trabalhos por volta de 21h ou 22h (horário do Brasil).
b) Esses boletins não foram divulgados e, no lugar deles, "porta-vozes" anônimos do governo começaram a divulgar loucamente os resultados da boca-de-urna e a afirmar que a oposição já sabia o resultado do referendo e deveria se comprometer a acatá-lo.
c) A oposição, ao menos desta vez, agiu inteligentemente e não mordeu a isca. Não gritou "fraude" — acho que era o que pretendia o governo, a fim de encontrar um meio de melar o jogo.
d) Por volta de 2h30 no Brasil, um "porta-voz" anônimo do Conselho Eleitoral anunciou misteriosamente que os resultados seriam entregues aos blocos (governo e oposição) antes de serem divulgados.
e) Menos de uma hora depois, subitamente, o Conselho Eleitoral divulgou a vitória do "Não", e Chávez reconheceu a derrota, mas com um detalhe importante: derrotado por enquanto, disse ele.

Agora outras coisas: a diferença de 1 e 1,5% é balela, porque metade da população venezuelana não compareceu às urnas. Por que será? Lembrando que a votação ocorreu por pacotes, sendo que aquele que continha o Sim para a principais mudanças, dentre elas a reeleição, também alterava a carga horária de 8 para 6 horas diárias. Falcatrua? Claro que não, isso é coisa da nossa mente pervertida que não entende a revolução democrática bolivariana.

Agora uma pergunta: e se o DEM resolve propor e agir aqui no Brasil da mesma forma que Chávez, como a moçada velha ou a velharada moça vai nomear as mudanças?

29.11.07

pOEmS

Este vai para o Rodrigo que, apesar das milhas de distância, soube indicar o carregamento de rosquinhas Mabel (ainda que auxiliado por JodJahn).


Amalgama a filigrama pernoitada por
Pernasticidas devastadores de membros
E paridores de homenscotocos que aguardam
Onibugias repletos de nojentificantes buços
Indicadores não de efloração mas de privation of
Alimentação educación masturbazione e maisquemia.

Fagocitando estrelas em busca de luz
Help me if you can ou se fores de intenso brilho
De minha janela relógios luminosos tvs sirenes chuva bicicletas partos pássar
E tudo o mais para o qual devolvo minha resignada nostalgia pré-bregolacrimosa.

Mademoiselles valsetes satiescas sacaneando saberão já
De seus embriões ressecados ou precisarão de horóscopo
Para informá-las que dada a coisa umaduasquatrosetemil vezes
Não haverá superego que dê conta nem um só pau e o resto é passar
o Silvester Settant'anni und sola em companhia apenas de grandes
lábios mais esgarçados que Orelhas de velhinhas com brincões
(brinquedos per versos do tempo).

M o v i m e n t o l e n t o
Nota sustentada
Prestidigitador tristeúrgico do centro da cidade morre de fomeleve
febrosa Para que o poema voe de um lado ao outro da cabeça que o
Depositará nos Dedos que apertarão o gatilho e lhe darão
Um fim e farão o poeta famósseo.
E n fim.

Carlos Santana

Baila Maria Caracoles!!!

Uma delícia...

26.11.07

Pernilongos genocidas

A notícia da última semana foi:

Duas equipes independentes de cientistas deram um salto nas pesquisas com célula-tronco ao conseguirem fazer com que células humanas adultas da pele "voltassem no tempo" e passassem a agir como se fossem as versáteis células-tronco embrionárias, conseguindo posteriormente se diferenciar em outros tecidos do corpo. A técnica surge com a promessa de que talvez, no futuro, possa substituir o uso das polêmicas células-tronco embrionárias. As CTEs são hoje as queridinhas dos pesquisadores por conta de seu potencial terapêutico. Como elas têm a capacidade de se transformar em qualquer outro tecido do organismo, podem, em tese, ser usadas para o tratamento de doenças degenerativas, como diabetes e mal de Parkinson. O problema é que, para obtê-las, é necessário destruir embriões, fato que enfrenta a resistência de grupos religiosos. Com o novo trabalho, a Casa Branca parabenizou os cientistas por resolverem problemas médicos "sem comprometer os elevados objetivos da ciência e o sagrada da vida humana".

Cientistas do Japão e dos EUA pegaram células da pele humana (fibroblastos) e induziram nelas a tão desejada pluripotência (versatilidade) da CTEs. Após essa reprogramação, elas não só assumiram uma aparência de CTEs como também um funcionamento semelhante ao delas, chegando a se diferenciar em neurônios e células cardíacas. "Estamos agora em posição de gerar células-tronco específicas para pacientes e doenças sem usar embriões", declarou Shinya Yamanaka, autor de um dos estudos, em comunicado. "Com essas células, poderemos compreender mecanismos de doenças, procurar por drogas eficientes e seguras e tratar pacientes com terapia celular."

My mind

Ouvi muita gente dizer que aqui estaria a solução para a questão ética da utilização das células tronco embrionárias.

Pra mim, a considerar a argumentação e a postura católica para o problema, o que teremos aqui, usando uma lógica radical, é o seguinte: se você pode modificar as células para que elas exerçam qualquer função, qualquer papel celular, você tem potencialmente uma célula embrionária em cada célula humana.

Para a igreja católica a vida começa na concepção, ou seja, quando pela fecundação do óvulo pelo espermatozóide cria-se a primeira célula do que virá a ser um novo indivíduo. O argumento católico é então sustentado por uma espécie de potencialidade: a vida já está lá, potencialmente, e vai se realizar pelo cumprimento do sentido teleológico que está embutido na célula (sim, bastante aristotélico).

Se radicalizarmos a questão e jogarmos a potencialidade das células para aquelas que por modificação podem se tornar embrionárias, não teremos então mais o direito de dispensar célula que for. Qualquer célula será, seguindo seu curso - agora antinatural - uma vida.

E agora José?

Agora se a problemática for levada a sério você estará proibido de coçar as costas, podendo por ter cometido esta heresia ser enviado diretamente ao inferno. Quantas criancinhas estarão sendo mortas, desperdiçadas pelo seu ato inconseqüente!

A descoberta medicinal da humanidade não será mais o antibiótico, mas o repelente. Já vou tentando descolar uma grana alta fundando uma ONG para financiar a compra de Autan.

O Greenpeace que se vire com os mosquitos.

20.11.07

She lives in Paris

Estava passeando pelo portal Terra quando me surgiu a seguinte questão fundamental: quais as revistas que o Terra disponibiliza? Cliquei lá - Revistas - e o primeiro nome da lista é Caros Amigos, aquele folhetim de humor que comento pra dar risada de vez em quando.

Ler Caros Amigos é voltar no tempo. No tempo cronológico e no tempo da inteligência. Tem blogs de articulistas com a seguinte chamada: Enquanto houver um explorado e um oprimido não haverá paz. Se um aluno meu, do primeiro ano, me dissesse isso, eu ficaria constrangido, daria pra ele um ponto negativo e perguntaria de qual banca de camiseta na feira hippie ele havia tirado a bobagem.

Mas o bonito não pára por aí. Olhem o texto de uma moça fina, que mora em Paris, mas que já viveu em Roma, Miami, Los Angeles e Havana (nesta última como embaixatriz francesa em Cuba). Por que ela não vendeu tudo, deu o dinheiro pro partido castrista em foi morar em Cuba eu não sei, mas que é uma árdua defensora do regime, isto ela é.
Vamos a um trecho do bonitão:

Recebi com grande choque as falsas informações publicadas numa revista brasileira em matéria sobre Ernesto Guevara, El Che.

Claro, não é algo novo, mas é algo que me toca.
Estive em Havana durante últimos três meses, elaborando uma exaustiva investigação, compilando materiais e entrevistas para o especial Che - Combatente e Intelectual, publicado pela Caros Amigos. Estive com os que estiveram com o Che e que estão vivos, trabalhei junto aos historiadores e especialistas do Centro de Estudos Che Guevara de Havana, que conserva todas as cartas, diários, notas, documentos dele. Em nenhum momento minhas conversas, nem minhas entrevistas foram censuradas, ao contrário, sentiam-se felizes em poder compartir informação.

Pena que os jornalistas de tal revista não tiveram o tato de incluir em suas pesquisas os cubanos de Cuba, que são 11.400.000 de pessoas prontas para uma boa conversa, e se limitaram a entrevistar uns e outros da notória máfia anticastrista de Miami, muitos, entre os quais, membros de uma organização chamada Fundação Cubana Americana, que aplicou métodos terroristas contra Cuba, alimenta grande parte das virulentas campanhas anti-revolucionarias, e financia senadores norte-americanos para elaborar leis contra Cuba.


Essa moça aí, como diria meu amigo reacionário, só pode ser uma fanfarrona. Vai visitar uma ditadura que mata sujeitos que não se adequam ao discurso e vem dizer que a fala dos pobres pode ser considerada como fonte? Que a documentação existente naquele lugar, e disponobilizada ao público, deve ser tomada como fonte? Pesquisa extensa em três meses? Tá doidja, bichim? É ser feliz demais né?

E o restante então? Olhem a paranóia:
máfia anticastrista de Miami... membros de uma organização chamada Fundação Cubana Americana, que aplicou métodos terroristas contra Cuba.


Minha querida, não há necessidade de se aplicar métodos terroristas contra Cuba. Ela já faz isso em si e por si mesma. Até o Saramago, o sempre cego, desistiu de Fidel há poucos anos quando soube que três desertores haviam sido recém chacinados pelo regime. Quantos foram antes? Mil, dois mil, dez mil, vinte mil?

Provavelmente a moça não sabe disso porque os felizes cubanos com quem ela compartilha informações não lhes disseram. Felizes é ótimo. Deviam estar rindo da cara da pobre e ela nem percebeu. Normal pra quem é da esquerda, aquele povo que precisa de tecla SAP pra piada e ironia.

Cada um tem a sua Disney, mas nem todo mundo percebe (ou tem idade psíquica pra perceber) que seu respectivo Mickey é de mentira.

17.11.07

freudianas

Faz 13 horas que minha mãe foi viajar. Isto significa que nosso superego para questões domésticas se encontra nesse instante na capital do Paraná.

O cadeado da cozinha em cima da garrafa de café: o primeiro sintoma. Almoço atrasado, o segundo. Agora eu e meu irmão já combinamos que não vamos arrumar as camas - a mãe é quem liga pra isso.

Outras decisões já tomadas: só comeremos frituras, faremos xixi de porta aberta e brincaremos com os animais atrasando as suas refeições. A casa é, finalmente, dos bárbaros!

Até terça, quando Dona Lúcia voltar, serão instalados no quarto pôsteres de mulheres nuas misturados aos do Ayrton Senna, das Ferraris, dos filmes de terror e de propaganda de cerveja.

Latas de cerva com bitucas de cigarro também serão benvindas.

Tá tudo dominado!

16.11.07

Extra, Extra, Extra!!!

Notícias de Curitiba: o bebê já está virado, encaixado, e minha irmã tendo contrações.

Guilherme chegará antes do esperado. Minha mãe arrumou as malas e está seguindo pra ajudar no parto - isto graças à residência que ela fez em frente à TV assintindo a cerca de 248 partos no Discovery Home & Health. Não há manobra ou patologia que ela desconheça.

Boa sorte pra todos. Os meninos ficarão por aqui esperando ansiosamente notícias sobre o mais novo membro do clã.

O vento das batatas

Vocês já perceberam que os tubos de Pringles vêm com excesso de ar?

Basta você tirar aquela tampa plástica de cima e lá está, inflado, o último obstáculo entre você e as batatas.

Pois bem: então você pega na aba e puxa, e ao puxar aquele papel um ventinho escapa rapidamente. Eu adoro aquele ventinho, não me perguntem o motivo. Sempre que compro uma Pringles coloco a cara bem próxima ao tubo e abro: cabelos esvoaçantes, cara de satisfação, propaganda de xampu - xampu de batatas.

O ser humano se satisfaz com umas coisas muito esquisitas.

3.11.07

A política e as rosquinhas

Em meio a toda aquela confusão, dos bate-bocas e do dar-em-nada do mensalão, uma figura apareceu só pra passar vergonha: Sandro Mabel. Este figura só pedia a palavra pra levar belas lambadas depois. Quando a situação ficou muito ruim pro lado da peça, com acusações irrespondíveis, ele sumiu.

Problema: as rosquinhas Mabel despareceram junto. E eu, um viciado em rosquinhas Mabel, fiquei a vagar pelo mundo de uma maneira muito mais infeliz. Eu não sei se os supermercados não quiseram ligar um produto de suas pratelheiras com a desfaçatez de um bobalhão e preferiram vender só as rosquinhas Panco (que não chegam aos pés da Mabel), ou se o tal do Sandro resolveu se vingar do mundo causando tristeza e sintomas de abstinência. Só sei meus caros, só sei que nada sei, que não quero saber, que quero minhas rosquinhas de volta.

Bring back, bring back, bring back my Mabel to me, to me
Bring back, bring back my Mabel to me...

fabianescas

Chegar em casa, encontrar seu filho fazendo tricô e sua mãe no Google Earth, tentar achar aquilo tudo normal e ir direto pro banho sem dizer palavra que seja.

P.S - Pai, vamos jogar futebol?
Vamos João, vou pegar a bola.
Ah, espera só um pouquinho que antes eu quero terminar esta carreira (e acelera o embate entre as agulhas)...

20.10.07

A bobagem às vezes está só no modo como se fala

Nesta semana ocorreu um caso interessante: um sujeito saltou dos livros de biologia e veio parar na vida real; e não foi só isso - veio parar porque falou besteira.

O caro Watson, amigo do Crick, com quem dividiu os méritos do desvelamento da estrutura do DNA, simplesmente chegou a um jornalista e disse: olha, os africanos ou negros são menos inteligentes.

Hummm... Bobagem? Racismo?

Talvez até tenha sido. Entretanto existe um sério problema nesta fala, problema que o behaviorismo ignora e que mostra toda a sua falta de alcance. E por quê? Porque se pode dizer uma coisa sem pensar minimamente no que se está dizendo, ou dizer a mesma coisa tendo passado por um processo de argumentação muito extenso.

O que eu acho no caso do senhor Watson? Que ele falou besteira mesmo. Há, entretanto, um modo de se chegar à mesma conclusão por caminhos mais espinhosos, mais elaborados e, pasmem, sem um pingo de racismo.

É o que tentarei fazer esta semana. Ou nas próximas. Pra quem quiser, é só acompanhar.

17.10.07

Poeminha de aniversário para o João

Pedaço meu
Eu inteiro.
Parte de mim
Maior que o
Todo de mim.
capim!
pudim!

Mão minha em miniatura.
Mão que escreve melhor do que a minha.
Boca que fala mais do que a minha.
Sorriso que brota mais fácil do que o meu
Em pernas que pensam bolear melhor
Do que as minhas (por enquanto eu deixo,
Até chegar sua vez de deixar).

Ser meu lançado no tempo.
Pipa alçada no espaço.
Laços que ponteiros afrouxam
e refaço.
assim!
pra mim!

Minha mão trêmula
Na miniatura da sua.
Sua mão trêmula na
Tremedura da minha.

Eu solto no tempo
E você alçando pipas
A corar meu outro
Diferente espaço.
fim!
sim!

Não,
Na sua parte
Renasço.


(E paro por aqui pra lhe dar um abraço)

15.10.07

Os mano pá...

Na Folha de hoje

A pluralidade e a revolução dos idiotas

REINALDO AZEVEDO

O empresário Ferréz, ao lado de Mano Brown, é um bibelô mimado pelas esquerdas e pelo pensamento politicamente correto



HÁ UMA revolução em curso: a dos idiotas. Eles começam agredindo a lógica e terminam justificando o assassinato. Voltarei a esse ponto.
Na semana passada, o escritor e rapper Ferréz escreveu um artigo neste espaço em que tratou do assalto de que Luciano Huck foi vítima. Lê-se: "No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes". Ele não pode ser mal interpretado porque não pode ser bem interpretado: fez a apologia do crime, o que é crime. Será este jornal tão pluralista que admite alguém como Ferréz? Será este jornal tão pluralista que admite alguém como eu? Lustramos ambos o ambiente de tolerância desta Folha? A resposta é "não".

O artigo do tal é irrespondível. Vou eu lhe dizer que o crime não compensa? Ele tem motivos para acreditar que sim. Lênin mandaria que lhe passassem fogo -não sem antes lhe expropriar o relógio. Apenas sugiro ao jornal que corrija seu pé biográfico: ele é um empresário; o bairro do Capão Redondo é seu produto, e a voz dos marginalizados, o fetiche de sua mercadoria. Ir além na contestação de seu libelo criminoso seria reconhecê-lo como voz aceitável na pluralidade do jornal. Eu não reconheço.
Na democracia, o direito à divergência não alcança as regras do jogo. Um democrata não deve, em nome de seus princípios, conceder a seus inimigos licenças que estes, em nome dos deles, a ele não concederiam se chegassem ao poder. Ao publicar aquele artigo, a Folha aceita que potencialmente se solapem as bases de sua própria legitimidade. Errou feio.
O poeta Bruno Tolentino é autor de um verso e tanto: "A arte não tem escrúpulos, tem apenas medida". O mesmo vale para a ação política.
Idealmente, há quem ache que o mundo seria melhor sem propriedade privada -eu acredito que, sem ela, estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos.
Posso acalentar quantos sonhos quiser, sem escrúpulos. Mas o regime democrático tem medidas. Uma delas é o respeito às leis -inclusive às leis que regulam a mudança das leis. Se admitimos a voz do assalto, por que não a da pedofilia, a do terrorismo, a da luta armada, a do racismo? Aceito boas respostas.
O empresário Ferréz, ao lado de Mano Brown, é um bibelô mimado pelas esquerdas e pelo pensamento politicamente correto, para quem o crime é uma precognição política a caminho de uma revelação.
Tal suposição, somada à patrulha que tentou transformar Luciano Huck no verdadeiro culpado pelo assalto, contribuiu para esconder um fato relevante. A cidade de São Paulo teve 49,3 homicídios por 100 mil habitantes em 2001. Em 2006, 18,39 (uma redução de 62,69%). Em 2001, havia presas no Estado 67.649 pessoas; em 2006, 125.783 (crescimento de 85,93%). Não é espantoso? Quanto mais bandidos presos, menos crimes. Quanto mais eficiente é a polícia, menos mortos.
Eis que, no dia 11, abro esta mesma página e dou de cara com um artigo de Sérgio Salomão Shecaira. Escreve: "(...) O Estado de São Paulo concentra quase a metade dos cerca de 419 mil presos brasileiros (...). Enquanto, no Brasil, existem 227,63 presos por 100 mil habitantes, em São Paulo essa relação salta para 341,98 por 100 mil habitantes". Ele está descontente.
Quer prender menos: "Enquanto, no Estado de São Paulo, em 2005, houve 18,9 homicídios por 100 mil habitantes, no Rio de Janeiro a cifra foi de 40,5, e, em Pernambuco, de 48. No entanto, nesses dois últimos Estados, o número relativo de presos é bem menor que o paulista".
Shecaira é mestre e doutor em direito penal e professor associado da Faculdade de Direito da USP. Mas ainda não descobriu a lógica, coitado!
Ora, por que será que São Paulo tem, por 100 mil, menos da metade dos homicídios que tem o Rio e quase um terço do que tem Pernambuco? Porque há mais bandidos na cadeia!
Mas ele quer menos. Logo... Em vez de Ferréz se alfabetizar politicamente no contato com Shecaira, é Shecaira quem se analfabetiza no contato com Ferréz.
A tragédia não é recente. Aconteceu com a universidade: em vez de ela fornecer teoria aos sindicatos, foram os sindicatos que lhe forneceram táticas de greve. Em vez de Marilena Chaui ensinar ao companheiro as virtudes do pensamento, foi o companheiro que explicou a Marilena por que pensar é uma bobagem.
A minha pluralidade não alcança tolerar idiotas que querem destruir o sistema de valores que garantem a minha existência. E, curiosamente, até a deles.

12.10.07

Sobre os vídeos, e mais...

Coisas rápidas sobre o que foi abaixo:

1. O Air apareceu na minha vida sem querer. Estava ouvindo um disco do Jamiroquai que meu irmão havia gravado e, de repente: nossa, que som interessante! Que coisa diferente este álbum do Jamiroquai! Bem, não era Jamiroquai, era esta dupla de franceses que faz este som esquisito. O único problema do Air é a inconstância: produz coisas fantásticas como Eletronic Performers, e coisas bizarras e horríveis. Baixem um CD e confiram. No mais, acho que Erik Satie gostaria de Air.

2. A lenda do pianista do mar é um dos meus filmes prediletos. Quando o vi, no cinema, tive a certeza de que ali estava algo grandioso. Acho que acertei. Esta cena, junto com aquela em que o piano valseia pelo salão de baile do navio são marcos. Lindo de dar raiva.

3. Meu desejo ficou estacionado em algum lugar. Precisa ser reelaborado, recriado, reposto. Isso é possível? Por enquanto, ao invés de buscá-lo, prefiro ouvir antigas canções madrugada afora.