21.5.07

A Virada Cultural do ponto de vista de um ancião

Talvez eu escreva mais posts sobre isso, mas a Virada Cultural pra mim não passou de um bom posto de observação. Um lugar onde me diverti muito gostando de nada. Um lugar onde o mundo da imagem se mostrou com tanta força que eu acho melhor começar a pensar melhor sobre isso. Bem, vamos ao momentos dos quais me lembro e das questões que me suscitaram.

1. Cupinzeiro - todo mundo já ouviu falar do Cupinzeiro. Todo mundo fala bem do Cupinzeiro. Por quê? Porque é "in", porque é "cult", porque "resgata a história da nossa cultura" subdesenvolvida. A formação é péssima, os sujeitos tocam mal, as pessoas que colocam a voz são desafinadas e sequer sabem lidar com o microfone. Enfim, coisa pra antropólogo, etnólogo, como quase tudo o que aconteceu na tal Virada. Onde é que estava o Bons Tempos hein? Ah, o Bons Tempos não mistura piercing com tatuagem com roupa BG e faz pesquisa. Eles fazem o que músicos devem fazer, tocam e com alegria, e isto não cabe no nosso discurso progressivojeca, na nossa culturajeca.

Bem, ouvindo estes trastes eu tomei três cervejas e comprei um sabonete de uma moça que faz "pesquisas com essências naturais". Ao menos os sabonetes eram melhores do que o Cupinzeiro. Ela também faz sabonetes em forma de pinto e xoxota, o que eu achei legal. De qualquer forma, com tanta pesquisa, no ano que vem a Virada terá patrocínio do CNPq, acho eu...

2. Estação Cultura - perdi o show do Tom Zé que era a única coisa que eu queria ver. Quando lá cheguei já estava rolando um som com DJ's. Falaram da Negra Li mas se ela apareceu por lá eu não vi (olha só, fez até rima - se eu fosse o Marcelo Camelo diriam que eu estaria me aproximando muito do parnasianismo neste memomento). Tive uma conversa muito esclarecedora sobre um dos piores dias da minha vida e que me explicou muita coisa. Depois tomei mais 345 latas de cerveja e fiquei pensando que se aquele povo todo fosse composto por filhos meus eu cortaria o cabelo de todo mundo, colocaria uma roupa decente e botaria todos pra lerem Fausto, Eu, e um Mário Sá-Carneiro por exemplo, só pra começar (talvez fosse melhor Reinações de Narizinho, pensarei melhor sobre isso). Isto sim seria virada cultural. Fica aí meu filho, tenta enfiar alguma coisa neste oco acima do seu pescoço e amanhã a gente conversa. Vira a noite aí e vamos ver se seu vocabulário amanhã passa de 250 palavras.
Mas uma coisa, entretanto, é fato: todo mundo muito bem produzido com suas roupas huhu, seus cabelos huhu, suas tatoos e piercings huhu. Pensei também em pôr uma imã no teto da estação e de 30 em 30 minutos colar todo mundo lá em cima, via piercing. Hopi Hari de galera huhu.

Amanhã continuo a minha participação na Virada Cultural porque tenho que escrever mais dois textos pro site.

P.S sobre a noite - Ninguém ficava com ninguém porque ninguém sabia quem era o quê. Só as lésbicas ou bis femininas se beijavam porque, afinal de contas, ser bi ou lésbica também é ser cult, também é ser huhu. Então elas se acabaram como se também fossem, e talvez se tornaram, atrações da Virada (ali tem malabares, ali tem designers de luminárias, ali tem lanche natural e ali tem mulher se beijando). Individualismo e hedonismo à qualquer preço. E ainda querem fazer a revolução sem controle ou respeito do que lhe é mais próprio, ou seja, o corpo. Antes que falem de mim: não, não. Não sou retrógrado a este ponto não. O que me incomoda é o ato massificado e ingênuo, o imagético, o circo.

Huhu pra vocês e até... que agora eu vou fazer pesquisa.

18.5.07

But the sun is eclipsed by the moon...

Palavras sobre vida e morte. Palavras sobre imanência, transcendência, passado e aquilo que virá.

Vida 1 - Semana passada foi aniversário da minha avó. Aniversário da Dona Hilda. Ou como eu costumava chamá-la até pouco tempo atrás: vó Uda. Se pudesse classificá-la em alguma nosologia, diria que ela é a hiperativa mais tranqüila que eu já vi na vida. Do alto dos seus 78 anos não pára um segundo: acorda às 6h para a ginástica, às 8h já está indo para o centro onde trabalha de voluntária na farmácia da igreja, e volta somente às 16h pra casa, quando então faz as “suas” coisas. Some de vez em quando, deixa todo mundo louco (uma tia chorando aqui, a outra ligando pros hospitais), até que chega a já sabida ligação : - Olha, eu estou aqui em Curitiba viu, liguei pra vocês não se preocuparem. Curitiba, São Paulo, Florianópolis – ela simplesmente vai sem falar pra ninguém. No ano passado fez uma cirurgia em São Paulo, sumiu por três dias, e depois ligou pra dizer que “tinha dado tudo certo”. Lida com a vida de forma invejável: sempre sem estresse, sempre no pra tudo dá-se um jeito. Bem, pra quem criou cinco filhos sozinha e ainda manteve a sanidade, acho bom que comecemos a acreditar nesta história. Vó Uda, com todo meu amor, um feliz aniversário, ainda que atrasado.

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Vida 2 – Minha irmã, minha linda irmãzinha está grávida. E a família toda com os sorrisos encostando nas orelhas. Minha mãe não cabe em si e eu, eu mesmo, serei “tio”. Viva, viva, viva!!! O João também não se controla pelo fato de que terá um primo. Semana de comemoração e início da contagem regressiva. Em Janeiro mais um membro da família pra correr pela casa. Mais Papai Noel, mais recomeço. Beijo mana e Gary, e parabéns!


Perda – No Domingo, dia das mães, uma aluna minha, a Gabi, faleceu. Tinha problemas cardíacos, precisava de um transplante e não o conseguiu a tempo. A classe triste (segundo colegial), a escola triste, os professores abalados. Gabi fazia brigadeiros para o seu próprio aniversário quando começou a sentir-se mal. Não voltou mais pra casa, não voltará mais pras aulas. Existe toda uma estranheza, toda uma névoa que envolve a questão da morte. Mas o que me entristece, o que me preocupa, é aquilo que não foi vivido. É a pletora de experiências de que alguém com 16 anos é privado. Terá a Gabi amado? Terá a Gabi começado a compreender alguns dilemas pelos quais temos que passar? Terá a Gabi sentido e compreendido a felicidade de ter estar com amigos, ou ficado melancólica com as questões que não temos condição de responder? Talvez alguém o saiba.
Fique em paz menina...

11.5.07

11/05/2007

Noite de sexta-feira: meia barra de doce-de-leite, dois iogurtes de morango, trinta páginas de "O jovem Törless", trinta páginas de "Inibição, sintoma e angústia", 20 mg de diazepam e cama.

P.S - Também alguma coisa infrutífera, mas pela qual vou insistir um pouco.

10.5.07

Haroldo de Campos, poesia, povo...

Quem me conhece sabe de minha adoração pela poesia concreta e, mais especificamente, por Haroldo de Campos e suas Galáxias. Quem me conhece deve saber também de minha estranheza em relação a alguns poetas, Drummond por exemplo, que diz coisas simplórias de maneira simples, o que me faz perguntar qual a graça de seus textos, que são bem diferentes de um Bandeira, que está em um outro lugar, que expõe peculiaridades e finezas desconcertantes de modo simples, o que é bem diferente.

Bem, o fato é encontrei este texto do Régis Bonvicino que coloca algumas coisas em seus lugares, propondo uma análise muito perspicaz daquilo que vagava em minha cachola mas jamais havia conseguido elaborar direito. Aí vai:

Haroldo de Campos, morto no último dia 16 de agosto, aos 73 anos, foi um poeta que operou no paradigma internacional-erudito em contraposição ao nacional-popular, um dos vetores do século XX - um século onde os artistas perseguiram, como uma obrigação imposta pelos ideólogos marxistas, a idéia de "povo". Esta operação custou-lhe o preço, em vida, de ataques e muita incompreensão simultâneos a homenagens e reconhecimento, quase sempre provenientes do "exterior", onde, num paradoxo, não foi suficientemente traduzido. Desapareceu sem ter uma edição de seus poemas e textos críticos em inglês - a língua universal. Na verdade, o percurso de Haroldo revela-se, bastante, no confronto tenso entre estes dois paradigmas, com a prevalência irradiante do primeiro, o que o poderá projetar como um artista do século XXI, com a galopante relativização das fronteiras nacionais e com o fim à vista de muitas oposições como estética versus tecnologia etc. Apesar de que, pontue-se, seu internacionalismo se cruza, algumas vezes, com vieses nacionalistas, como, por exemplo, quando reivindica Gregório de Mattos como "poesia brasileira", quando não mais se aceita a idéia de "brasilidade" na colônia ou em qualquer outra época, conceito equivocado, já que não há, sobretudo, naquele período, nacionalidade brasileira distinta da portuguesa. Não há, na verdade, Brasil mas "província ultramarina". Gregório de Mattos, antes de ser um poeta "brasileiro", é, como me lembra Alcir Pécora, numa carta, "um caso bem sucedido de aplicação de modelos satíricos ibéricos no caso colonial. Não há nada no mesmo patamar em Portugal".

O internacional-erudito foi também o móvel inicial e fundante do modernismo brasileiro de 1922. Uma leitura, mesmo que rápida, do Prefácio Interessantíssimo, que abre a Pauliciéia Desvairada, primeiro livro modernista de Mário de Andrade, datado de 1921, patenteia-nos a vocação internacional do autor: "Você já leu São João Evangelista? Walt Whitman? Mallarmé? Verhaeren?" ou "Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. Tenho pontos de contacto com o futurismo". Oswald de Andrade escrevia, em 1928, em seu Manifesto Antropofágico, a confirmar a inflexão internacionalista do modernismo, que: "Só me interessa o que não é meu". Esta frase, de Oswald, sintetiza, igualmente, todo o percurso de Haroldo de Campos, poeta, tradutor e crítico. Sua primeira poesia, mesmo sendo um tanto antimodernista, apresentava, de plano, já um caráter de busca do internacional-erudito. Leia-se o verso do poema "Super Flumina Babylonis", do livro Auto do Possesso, datado de 1950: "Animei as estátuas. Babilônia,/ para dançar diante de ti...". Pouco anos depois, Haroldo estaria participando ativamente, como um de seus idealizadores, do movimento concretista, em meados dos anos 1950, que, além de libertá-lo de um tom, como já se disse, um tanto passadista de seu primeiro momento, projetá-lo-ia para mais adiante da fronteira nacional, em todos os aspectos. Vieram as traduções de James Joyce, Ezra Pound, o interesse por e.e. cummings, por Stéphane Mallarmé, a retomada dos princípios das vanguardas européias do início do século XX, sobretudo, dos das mais construtivistas e que se propunham como linha evolutiva da cultura e da arte e de aspectos do modernismo brasileiro, como a teoria da antropofagia, que se pode resumir com a frase de Oswald, retirada do manifesto já mencionado: "Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo".

O concretismo foi um movimento que repropôs o paradigma internacional-erudito, valendo-se, também, dos instrumentos da cultura popular mas não nacional: a ele interessava o poema cartaz e o design dos letreiros, o design da luz em movimento, o confronto da palavra com página branca. Haroldo escreveu pouquíssimos poemas concretos estrito senso, apesar da fama em direção oposta. Leia-se um deles (em diálogo aberto com Mondrian) que, décadas depois, inspiraria a canção Lua, 1974, de Caetano Veloso: "branco branco branco branco/ vermelho/ estanco vermelho/ espelho vermelho/ estanco branco". Veloso: "... Lua lua lua lua/ [...]/ Estanca/ [...]/ Branca branca branca branca...".

Há dois momentos altos , em minha opinião, na trajetória do Haroldo de Campos poeta, sempre mais questionado do que o crítico (a redescoberta de Sousândrade), pensador e tradutor (criou uma teoria própria da tradução), respeitado na maior parte das vezes, desde um Arte no Horizonte do Provável (1969), passando por Metalinguagem , reeditado depois domo Metalinguagem e Outras Metas (1992) e ideograma (1977) até uma Poesia Russa Moderna (1968), passando pelas traduções de Stephane Mallarmé (1974) e pelas traduções de Homero, estas últimas a acentuar que, na última quadra da vida, radicalizou no paradigma internacional-erudito, universalizante, distanciando-se um tanto, por exemplo, do tropicalismo, com o qual não só dialogou como se encantou/deslumbrou num determinado momento de sua carreira. Esses dois momentos altos são Galáxias (1963/1976) e Educação dos Cinco Sentidos (1985), este emblemático dos problemas de sua poesia, em algum sentido. Problemas: quando compara Gal Costa a Safo, por exemplo. Uma qualidade inédita: um despojamento nunca antes visto em seus textos, exceto nos raros poemas concretos ; um despojamento mais livre e intrínseco.

Numa definição precária, poderia chamar Galáxias, uma "proesia" forjada com o auxílio de várias línguas, de um caderno de viagens. Um caderno internacional, escrito por um brasileiro. Nele estampa-se, com nitidez, a vocação internacional-erudita do Haroldo poeta, como no fragmento onde percebe, crítica e duramente, a Espanha franquista dos anos de 1960: "[...] reza calla y trabaja em um muro de granada trabaja y calla y reza y calla y trabaja y reza em granada um muro da casa del chapiz ningún holgazán ganará el cielo olhando para baixo [...]". Holgazán quer dizer mandrião ou vadio. Neste pequeno trecho, registra-se a ditadura do General Franco e seu uso do catolicismo: nenhum vadio ganhará o céu! O traço popular aparece muitas vezes nos fluxos de Galáxias, mas mediado sempre pelo tom erudito - herdado, no âmbito brasileiro, das prosas de invenção de Mário e Oswald de Andrade e, depois, de Guimarães Rosa. É significativo o fragmento que se inicia desta maneira: "como quem escreve um livro como quem faz uma viagem como quem descer descer descer katábasis até tocar o fundo e depois subir...".

Perpetuou-se, infelizmente, no Brasil o conceito de que grandes poetas são nordestinos ou mineiros que migraram para o Rio de Janeiro e não até mesmo os cariocas ou fluminenses. Só um carioca, ligado à Bossa Nova, foi considerado um grande poeta no século XX: Vinícius de Moraes e ainda assim era chamado de "poetinha". Grandes poetas brasileiros são Manuel Bandeira ou João Cabral, pernambucanos no Rio, ou Drummond, mineiro no Rio. E agora Ferreira Gullar, maranhense no Rio. São Paulo precisou criar movimentos culturais para ser "aceito" na federação e, assim mesmo, até hoje, convive com a fama de que não produziu "grandes poetas": Mário e Oswald de Andrade, por exemplo, são considerados "grandes figuras". A idéia do "poeta" vinculou-se, no país, à daquele que, erudito, manteve sentimentalmente um elo com a idéia do popular e do nacional, com a idéia do puro, do não industrializado...

Em A Educação dos Cinco Sentidos encontra-se um Haroldo de Campos fascinado pelo popular. Ao mesmo tempo em que se lê poemas dedicados a Octavio Paz, o belíssimo "Transblanco" ("[...] tomei a mescalina de mim mesmo/ e passei esta noite em claro/ traduzindo BLANCO de octavio paz"), depara-se com, a propósito de Diana e do amor: "[...] Mas diz-lhe que me esgana/ passar tanta tortura/ e que desde a Toscana/ até o Caetano/ jamais beleza pura/ tratou com tal secura/ um pobre trovador [...]". Aqui, percebe-se com clareza o confronto tenso entre internacional-erudito e nacional-popular. É o Haroldo pressionado pelo sucesso da palavra falada (pela busca equivocada da brasilidade, um conceito equívoco, como já se disse...) em contraste com a solidão da palavra escrita. Toscana e Caetano, um ótimo letrista, compositor e cantor mas não um poeta como Eugenio Montale, por exemplo, mesmo que assim de Campos o tenha generosamente homenageado.
Sem declarar expressamente creio que Haroldo percebeu que, a partir de meados dos anos 1980, o concretismo fazia já pouco sentido, como movimento de renovação, e que o tropicalismo, outro movimento de cunho mais internacional, importante, que denunciara a "geléia geral brasileira", havia começado a integrar a ela, apesar da qualidade da produção de seus protagonistas, principalmente de Caetano Veloso e Tomzé. Assim, retomando o paradigma inicial, retornou ao internacional-erudito, findando seus dias ao lado de Homero, escrevendo uma poesia novamente de cunho um bocado passadista e já igualmente, a meu ver, distanciado da idéia de vanguarda, que abraçara com paixão no meio-dia e na tarde solar de sua existência.

Régis Bonvicino, 20 de agosto de 2003

30.4.07

Noites do final de semana

Sonho n. 1


Eu em uma espécie de parapeito a cerca de 40 metros de altura. O lugar onde me equilibro tem cerca de 30cm de largura. Mais abaixo, uma piscina. Uma piscina muito, muito profunda. O lugar é soturno: um complexo aquático, todo coberto, com suas luzes apagadas. Lá fora faz frio e o tempo está nublado. Há uma escada amarela que sai da piscina e termina logo abaixo de onde estou. Não consigo alcançar a escada. Um rapaz sobe a escada e pula na piscina. Está de sunga laranja. Vejo seu corpo afundar, afundar, até desaparecer. Depois de um dado momento ele retorna. O rapaz faz isso ininterruptamente enquanto eu continuo me equilibrando, angustiado, com medo de cair.

Sonho n. 2

Um quarto pequeno, acarpetado. O carpete é azul. Reginaldo está em pé, em um canto, perto de uma escada (escada que desce para a parte de baixo do apartamento). F. chega e fala um oi sem graça. Eu me angustio de novo. F. está vestindo uma calça bege e uma camisa com listras verdes e brancas. Penso que a camisa se parece muito com a camisa do Celtic (o inconsciente, como já disse, é brincalhão, ainda que a piada seja pesada). F. se deita em um colchão no meio do quarto. Vejo um trabalho seu. Ele me transtorna. Uma instalação feita dentro de uma caixa de acrílico vermelho. Na caixa há uma inscrição na tampa – Oi ou Ai – não me lembro bem. Dentro várias peças interessantes e um texto. Entro em uma cabine e fecho a cortina. Estamos todos muito cansados. O sonho se passa no instante em que é sonhado, ou seja, lá pelas cinco da manhã.

26.4.07

Oie...

Sim pessoas, me sinto melhor.

Melhor porque sou uma pessoa de sorte e tenho oportunidades que poucas tiveram.
Melhor porque sei que tenho trilhado meu caminho e, querendo ou não, ele tem dado certo.
Melhor porque tenho vocês que lêem isto aqui e me procuram.
Melhor porque cansei de regar espinhos ou, na verdade, estou sarando deste tipo de cultivo improdutivo, deste cultivo de doença. Cultivar maníacos não é realmente a melhor saída e, por isso, me retiro disto e recupero a minha saúde.

Beijos a todos

20.4.07

ST

Eu queria acordar amanhã e descobrir que tudo isso é mentira, que tudo isto é sonho, que tudo isto é sei lá o quê.
Eu queria acordar amanhã sem este pensamento atordoante, sem esta dúzia de imagens cortantes, sem este movimento incessante de braços e pernas que me fazem parecer um inseto descompassado.

Sim: estou cansado, muito cansado. Não estou dando conta: isto é fato. E o que é pedir ajuda? Quem pode me ajudar? Penso com o que me resta pra pensar e não encontro algo. Estou com medo.

16.4.07

Arnaldo...

Dia 17/04, às 19h30, no Dom Pedro, Arnaldo Antunes: mais um milagrezinho pra me tirar do buraco.

Depois eu conto do show, tecendo minhas considerações sobre a vida e a poesia.

9.4.07

Hoje

O médico disse que eu vou melhorar.
As pessoas à minha volta dizem o mesmo.

Eu me sento e aguardo (hanging on in quiet desperation..., já dizia o poeta inglês).

Noite retrasada fiquei por doze horas rente à cama velando o mais belo sono: cada detalhe, cada fio de cabelo, cada posição dos dedos, os lábios, seus pés.
Cílios do belo sono, celas para meu amor desgastado, meu amor silente por tanto erro – meu amor que ao invés de recriar-se e ser novo e ser de novo só sabe dizer não.

Ah amor besta e que para nada terá serventia, mortalhe-se!
E que venha então o novilíneo amor, o calmilínio amor, a retransfiguração do que findou-se e que deverá aguardar por sua vez na posta-restante.

Hoje um abraço trouxe-me pra casa, pôs-me no colo.
Um inesperado carinho inverteu minha dor.
Beijos familiares resgataram-me. E de repente eu vi almas que jamais deveriam ter sido afastadas executando gestos bailarinos, em contíguos e doces movimentos ensaiados em algum mundo anterior. Em algum Mundofada capaz de produzir aquarelas em nossa memória, em nossa existência.

Memóriaquarela, que eu te acesse pra sempre a cada novo fechar de olhos...
E que aquilo que tiver que se recriar, que seja recriado, só que então por novas cores de criança.

F41.2 Transtorno misto ansioso e depressivo

Esta categoria deve ser utilizada quando o sujeito apresenta ao mesmo tempo sintomas ansiosos e sintomas depressivos, sem predominância nítida de uns ou de outros, e sem que a intensidade de uns ou de outros seja suficiente para justificar um diagnóstico isolado. Quando os sintomas ansiosos e depressivos estão presentes simultaneamente com uma intensidade suficiente para justificar diagnósticos isolados, os dois diagnósticos devem ser anotados e não se faz um diagnóstico de transtorno misto ansioso e depressivo.

Este é o meu número no CID: qual é o seu?

8.4.07

Macte animo generose puer...

Sim, sim amigos: hoje é Páscoa.

Tudo o que quero é almoçar com meu filho e depois jogar-me no mar de águas gelatinosas, paralisantes, densas. O mar que tudo estaciona e faz o acima calar.

O ontem à noite ainda não passou. Não passará. Novos alfinetes na memória, novos cortes na história, novas infrutíferas canções de ninar.

O que me vem sobrando desde então são dúvidas - são espamos que vagam pelo meu corpo, são desconexões de cenas descontinuadas. Será que devo entender somente as boas passagens? Ou as paisagens duras é que deverão sentenciar?

A esperança continua não sei mais porquê, e está sentada há horas na beira da cama velando o mais belo e inesquecível sono.

6.4.07

Flectere si nequeo superos...

Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo.

Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo.

Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo.

4.4.07

Sonho

Pergunta da semana passada: e se aquilo que você mais quer, mais deseja, mais espera, não vier a acontecer - o que você vai fazer da vida?

Não sei.

Mas nesta noite, por cerca de uma hora, o sonho, funcionando como deve, tratou de me satisfazer.

E como foi bom!
E como eu não queria ter acordado!
E como eu fiz de tudo pra ter o sonho de volta...
E como eu não o tive, restou-me o sono do resto, o cansaço do desânimo, da opacidade do que há no entorno.

Serão estes caminhos?

31.3.07

Estes meus dias

Este é um pedido de desculpas feito por alguém que tem errado muito.

É, antes de mais nada, um acerto de contas comigo e para com você.

Sim, porque se você lê este blog é bem provável que eu tenha errado ou venha errando muito no que diz respeito à você também. Isto porque eu, e é bom que todos saibam, nos últimos tempos não tenho sofrido enxovalhos e calado: tenho cometido enxovalhos, muitos, e calado.

E quanta besteira, e quanta dor, e quanta mágoa eu tenho gerado. Passe na fila quem os quiser; conheçam-me os que tiverem vontade.
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Mas por quê? Por que tenho feito isto?

Não sei. Simplesmente não sei. Se soubesse talvez interrompesse o processo, colocasse as coisas em seus devidos lugares, ficasse mais leve. Será? Talvez...
Porém, de qualquer forma, não, não é isto que tem acontecido: Fabiano tem conseguido cometer erros sobre erros, enredá-los e enredar-se neles a ponto de sufocar a si e aos outros.

Êta Fabiano de merda!

Olha, eu não sou assim não viu, ao menos intencionalmente falando. O fato é que nunca havia me posicionado verdadeiramente na minha vida de uma forma tão ampla e agora, que eu tentei fazê-lo, vi que não nasci pra coisa. Nasci pra que a vida me leve mais do que eu a coordene. Nasci pra ser um tanto quanto espectador. Ao menos isso agora eu entendi.

Mas como desfazer-me dos nós que criei? Das imensas dores que tenho causado, incluindo nelas as minhas próprias...?

Não sei não. Parece-me que as minhas ficarão, se eu não conseguir resolvê-las mesmo, eternamente na minha consciência de culpa. Eternamente na minha história. Moldarão minha vida como uma condenação: sim meus caros, os desastrados também são condenáveis!

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Perdão, eu peço. E se você não sabe ainda o motivo do porquê deste perdão, como já disse, um dia saberá.
Estou realmente machucado pelos cortes que tenho feito, putrefato: a minha ferida é obviamente a soma das que produzi ou ainda produzo em todos.
E como algumas foram profundas! E como algumas foram duras! Talvez irrecuperáveis. Outras ainda o serão. Sei disso.

E então, por fim e por conta de tudo, peço um favor: leia o meu pedido de perdão na justeza das dores que causei. Saiba que entendo e sinto cada queimadura, cada enrijecimento, cada fechamento trazido pela minha fala, pelo meu ato confuso, pelo meu pedido, pelo meu pensamento, pela minha negação.

Não sei onde isto vai parar. Gostaria de ter coragem pra dizer tudo pra você, mas acredito que minha consciência baste.

Perdoar não é algo simples, sei disso. Mas jamais devemos dizer nunca, ainda que achemos que seja difícil – isto é o que tenho ouvido ressoar na minha caixa craniana.

O que me fica, de modo piegas assim, é a esperança.

25.3.07

Voltei

Antes de tudo quero deixar claro que continuo escrevendo aqui.

A questão do desaparecimento se deve a um fato isolado e simples: o micro que agora uso não tem capacidade suficiente para lidar com o blog. Fico então escravo das tentativas, da vontade de algo sem consciência me deixar fazer a coisas. Hoje parece que dará certo.

Tenho 5673 assuntos a comentar. Coisas das quais não darei conta. Coisas sobre as quais gostaria de escrever muitas e mais páginas, por isso desconverso de início já que a preguiça se antecipa.

E preguiça por desânimo antes de mais nada. Preguiça que me dá por lido na Caros Amigos, a revista-piada, que um sujeito de renome chamado Ricardo Antunes tem a inescrupulosidade de dizer que o governo de Chávez é a maior democracia da América Latina.

Preguiça de ver que histórias aqui se repetem de modo triste, como a de letrista = poeta = intelectual. Será que deveria haver censura pra isso?

Preguiça da opinião.

Fernando Pessoa, travestido de Bernado Soares, disse sobre coisas que fazem parte de uma chamada infância da inteligência. Pois bem, somos a nação Peter Pan. No máximo involuímos.

Lembram-se da época em que nos achamos espertos por, virando a realidade de cabeça pra baixo, acreditarmos descobrir a verdade? Pois bem, a coisa aqui anda assim. É só dizer o contrário que resolvemos o problema. Este é o único método da inteligência tupiniquim. Inverter e pronto. Dizer e pronto. Fantasiar e pronto. Êta criançada...

7.3.07

Ainda e sempre sobre...

Pra quem não está sabendo do assunto, há uma discussão correndo à solta por conta de um texto do Renato Janine sobre a morte do menino João.

Texto equivocado, esquisito, mas esperado por ter vindo de onde veio.

Neste Domingo a Folha publicou uma espécie de "resposta" do amigo da Marilena, juntamente com links para os textos ou de crítica ou de defesa.

Um dos textos foi escrito pelo Giacóia, e me chamou a atenção. Com certeza o mais bem construído deles, o de melhor conteúdo. Citações (de Nietzsche) muito precisas no que diz respeito à discussão em voga, e uma colocação muito pertinente sobre a questão da pena de morte no Brasil. Uma colocação não pautada em bobagens religiosas ou de cunho "humanitário", que é apenas o que se vê por aí.

Agora, o que me resta de comentário sobre todo este alarde é: por que não chamar logo gente com discernimento mínimo pra falar sobre o assunto, evitando tudo o que ocorreu? A resposta é óbvia e não precisa entrar aqui.
Mais uma vez se prova que é mais do que necessário dar voz a quem tem, e não a quem grita. E que quem grita está ficando velho e ficando pra trás (não, está não é uma relação de inerência). Convence apenas a alguns poucos, que estão perdidos perdidos. Uma prova estava lá, na mesma edição, com a corretíssima participação do Renato Mezan.

Uma outra possibilidade de resposta da minha pergunta pode ser dada pensando-se na venda dos jornais. Mas não, não acredito que seja isso. Ou então a capacidade de a filosofia brasileira pensar o país estaria sendo posta em xeque por conta de um acordo. Será eles tiveram coragem até disso?

Bem, coloco abaixo o texto do Giacóia.

5.3.07

O INSUPORTÁVEL não é a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido. João Hélio, morto aos seis anos, arrastado em macabra agonia pela Cidade Maravilhosa, nos confronta com a abominação. Tais espasmos de brutalidade repõem, com insistência, a antiga pergunta pelo "porquê" da insânia. Por que a atrocidade?

Revoltados e humilhados, assalta-nos o desejo e a busca pelo sentido. A reação indignada, até desesperada, exige razões e providências -pois, como se sabe, "razões aliviam".

Uma das reações mais compreensíveis é: "O que fazer?" De pronto, exigimos a paga, clamamos por vingança, como por justiça. A competência jurídica é, então, requisitada: penas mais drásticas, rebaixamento do limiar de imputação penal, repressão severa e ostensiva, pena de morte. Com a solidariedade humana na dor, mescla-se a inevitável preocupação com a segurança própria e a da sociedade. Não é admissível que a sociedade permaneça refém da criminalidade.

Não é meu intuito minimizar o pungente sofrimento que assola a família, os amigos de João Hélio, enfim, toda pessoa sensível. No entanto, por penoso que seja dizê-lo, o açodamento das reações emocionais não é um bom companheiro do prudente equilíbrio que deve balizar nosso juízo e discernimento nessas ocasiões. É justo que exijamos punições exemplares. Mas não que nossa indignação se nutra no desejo de vingança.

Exigir a paga do sofrimento na medida do "jus talionis" não me parece justo ou justificado. Suplantar o espírito da vingança, mesmo no direito, é talvez o difícil caminho de auto-superação que uma sociedade pode encetar.

A esse respeito, Nietzsche tem muito a nos dizer. Lê-se num de seus textos: "O último terreno conquistado pelo espírito da justiça é o terreno do sentimento reativo! Quando ocorre, de verdade, que o homem justo seja justo inclusive com quem o prejudicou (e não apenas frio, comedido, estranho, indiferente: ser justo é sempre um comportamento positivo), quando a elevada, clara, profunda e suave objetividade do olho justo, do olho julgador não se turva nem sequer sob o assalto de lesões, escárnio, imputações pessoais, isso constitui uma obra de perfeição e de suprema maestria sobre a terra".

Não é indiferença, mas justiça positiva. Não é tibieza, apatia, tolerância irresponsável, concessão ao fácil perdão de boca para o qual fomos adestrados por milênios de civilização. Não me refiro a essa fachada de tolerância, desfeita pela mais tênue ameaça de lesão ao interesse próprio.

O olho justo, capaz de exercer a sobre-humana tarefa do julgar, não pode ser turvado pela parcialidade, tem de afastar de seu caminho tudo o que confunde e ofusca o juízo e ser capaz de não retribuir a culpa com a culpa, a humilhação com a humilhação.

Justiça significa espiritualização da potência e, portanto, poder julgar sem ter de se defender, sem querer se vingar. "O filósofo tem de dizer, como Cristo: "Não julgueis!". E a última diferença entre as cabeças filosóficas e as demais seria que as primeiras querem ser justas, as demais querem ser juízes" (Nietzsche). Como dizia Zaratustra, justiça é o amor que todos absolve, exceto o julgador.

Com isso, defendo a confiança na missão pedagógica das instituições, que não podem ser vistas como fins em si, mas como meios para a estabilização das sociedades humanas. Defendo instituições fortes e flexíveis, um ordenamento jurídico seguro e eficiente. É necessária a certeza de todos sobre a eficácia do sistema penal --tanto da condenação quanto (e sobremaneira) de um escrupuloso e sensato regime de execução da pena.

Num Estado poderoso, instituições permitem e induzem o aperfeiçoamento dos cidadãos, de modo que, reciprocamente, no âmago da mentalidade deles se entranha o respeito pela "res publica". A reciprocidade legitima a coerção das liberdades individuais, equilibrando-a com o legítimo esforço pela ampliação dos espaços de criatividade e realização pessoais.

Sou radicalmente contrário à pena de morte, pois tenho em elevado conceito a missão de julgar. Antes de qualquer condenação, uma sociedade tem de conquistar o direito de julgar. Nossa sociedade hedonista e carcomida tem esse direito? Bagatelizamos o valor da vida a tal ponto que esta pouco se diferencia de qualquer outro produto. Quantos instantes de nossa existência podemos bendizer e acolher com desejo de perpetuação? Já não vivemos, consumimos nossas vidas, como desgastamos o mundo.

Para muitos de nós, uma vida nova é um fardo, um pesado encargo social --quando não uma mercadoria que encomendamos ao sabor de preferências narcisistas. Soterrou-se em nossa memória coletiva o encanto e o mistério com que acolhíamos cada novo advento. No dia em que pudermos exultar com ele, como com uma luz num mundo de trevas, então talvez possamos repetir um novo começo.

OSWALDO GIACOIA JUNIOR, doutor em filosofia pela Universidade Livre de Berlim (Alemanha), é professor associado do Departamento de Filosofia da Unicamp.

2.3.07

Comzstruimdo o coiesimemto

Quando fico muito tempo sem passar por aqui acumulo uma quantidade infindável de coisas as quais acho que tenho que dizer. A questão é o Alzheimer apaga quase tudo, e o que fica é só de o ontem, só o de anteontem, e talvez um pouquinho mais.

Mas vamos ao falar mal. Vamos rir um pouco.
Comecemos pelo construtivismo.

Há uns 10 anos atrás, um amigo meu disse que o construtivismo era algo ótimo, só que ninguém havia entendido a proposta direito, e que por isso ele não dava certo.
Adoro estas desculpas. Numa matéria que fiz em 2005 uns jiunguianos falavam a mesma coisa. É que Jung escreve difícil, complicado, embaraçado. Ou seja, trocando em míudos e pra gente esperta, Jung escrevia mal, além de escrever bobagens que hoje entram no campo da auto-ajuda, e só.

Bem, mas voltemos ao construtivismo. Quase na mesma época da fala do meu amigo uma bomba explodiu no colo dos pedagogos brasileiros. Descobriram que Piaget alterou grande parte dos dados de suas pesquisas empíricas para que elas se adaptassem às suas idéias. Ou seja, Piaget era um impostor.
E o que fizeram com esta informação? Ora, o sonho não podia acabar assim. Então, numa ação que é padrão, o que restou foi esconder o fato e fazer de conta que nada aconteceu. Assim o nosso progressismo intelectual avançou, e pudemos criar um bando de semi-analfabetos com os nossos avançados métodos de ensino.

Hoje todos os professores reclamam que seus alunos não sabem escrever, mas ninguém consegue (ou quer) pensar em uma relação de causa e efeito. Ninguém percebe que o défit começou a aparecer (é claro que o motivo não é apenas este) quando o construtivismo foi inserido nas escolas.

E o mais engraçado de tudo? O mais engraçado é que nós, que sempre ocupamos as últimas posições nas avaliações internacionais, somos um dos únicos lugares do mundo em que o tal do construtivismo ganhou espaço. Lugares onde a educação praticamente não funciona como Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Noruega, Canadá, ou outros subdesenvolvidos do conhecimento, não querem nem saber de construtivismo.
Mas é claro que somos diferentes, que não temos que seguir padrões que dão certo.
Somos um povo criativo, que faz carnaval e boa música. Somos sábios e morais de nascença, não é isso? Tanto acreditamos na nossa sabedoria transcedental que botamos o maior dos sábios no Palácio.

Abaixo o B + A = BA. Abaixo a lógica, e viva a nossa esbórnia.

24.2.07

Não governamentais que se sustentam com dinheiro do...

Mais virulentos que petralhas, segundo percebo, sãos os ongueiros. Por mim, estariam todos desempregados, quem sabe fazendo malabarismo em farol, já que a maioria resistiria a pegar no pesado e nem mesmo se esforçaria para vender chiclete, uma atividade ao menos produtiva, que faz circular o dinheiro...

Há ONGs sérias? Deve haver. No Brasil, a sua força avassaladora corresponde aos últimos, creio, dez anos. Reparem como o Brasil melhorou nesse período...

Bastou uma década de militância ativa dessa gente para que, por exemplo, a favela deixasse de ser alguma coisa que precisava acabar para se tornar uma produtora de valores alternativos. Sem dúvida, uma conquista e tanto!

A seriedade das ONGs, pra mim, se traduz numa evidência: quantas vítimas fatais vocês conhecem do alimento geneticamente modificado? Repito a pergunta: quantas pessoas já foram prejudicadas por milho ou soja transgênicos? Mostrem-me uma única reportagem relatando um caso.

Agora procurem saber — eu não sei: quantas são as ONGs existentes destinadas a combater os transgênicos. E depois tentem investigar quantas são as organizações não-governamentais voltadas ao combate da diarréia infantil, a principal causa da morte de crianças pobres no Brasil.

Eu sou capaz de jurar que há mais ONGs preocupadas com tartarugas do que ocupadas em combater a tuberculose, que mata muito mais do que AIDs e recebe bem menos recursos de entidades tanto públicas como privadas.

Morte-propaganda

Por que os meninos-João não têm o seu Chico Buarque?

Pela mesma razão por que você não vê cadáveres de crianças judias expostas em praça pública quando são mortas por terroristas árabes. Já as crianças palestinas que morrem vítimas do Exército israelense são exibidas como troféus. A isso se chama “ideologização da morte”.

Há os mortos influentes, e há as que não têm a menor importância.

Imaginem, por hipótese, o que teria acontecido se um cidadão de classe média, achacado num farol, como acontece a toda hora, tivesse arrancado com o carro e arrastado um dos “menores de rua” protegidos — em tese — pelas ONGs e pelos padres de passeata. O mundo viria abaixo, e o caso seria julgado pela OEA.
Outro exemplo?

Quem não se lembra da comoção nacional e internacional que provocou o assassinato da freira Dorothy Stang? Praticamente ao mesmo tempo, Luiz Pereira da Silva, um policial pernambucano, foi torturado e morto num assentamento do MST. Não houve um padre, um só que fosse, para prantear a sua morte . Fiz um teste: há 110 mil referências a “Dorothy Stang” no Google. E a Luiz Pereira? Cabem nos dedos das mãos, e sobram dedos.

20.2.07

Angst, anxiety, angoscia, angoisse

A angústia está aqui, bem aqui dentro e não há como ou para onde correr: esta é a descoberta da semana; esta é a percepção que eu precisava há muito, desde sempre.

Por isso este seja aquilo o que, talvez, permita com que tudo se rearranje, tudo se reinterprete, tudo se recrie.

Difícil me recordar de coisa mais importante. Difícil que coisa mais importante, relativa à percepção de si, ocorra.

Agora é pra valer. Encarar o dragão, tentar encontrar o que fazer com ele (guardá-lo um pouco aqui, escondê-lo um pouco acolá) sabendo que ele é eterno, que ele sempre estará, que ele é.

Pedaço grande do que sou o bicho: os que vieram antes de mim não souberam o que fazer com ele e se deram mal. Tentaram fugir do que é si mesmo e se tornaram ainda mais indefesos. Ao tentar correr deram as costas, se desesperaram. E como o monstro é rápido, estapafúrdias foram as lutas.

Tenho tudo em mãos pra fazer diferente. Espero que o faça. Não sei exatamente ainda se posso porque o bicho faz com que não se queira. A angústia é esperta, sorrateira. Hoje mesmo, agora, não soube o que fazer com ela e tentei jogá-la aqui. Não sei se deu certo, acho que não. Amanhã...

Muita força, é preciso muita força, sempre, e isso cansa (tá vendo ela virando o jogo?).
Preciso urgentemente de ansiolíticos. Quem os tiver, favor mandar aqui pra casa. Aceito de todas as cores e tamanhos.

Fico no aguardo de almas bondosas.

17.2.07

Lula, a Hannah Arendt dos quadrúpedes

Comentário do nosso presidente sobre a morte do menino João:

- Isso não está no racional da humanidade e do mundo animal. Está no irracional da humanidade e do mundo animal.

E pensar que mais de 60 milhões de votos apoiaram este nosso "líder".
Talvez o comentário também explique este fato.

11.2.07

Uma canção

Só porque hoje eu fui à casa do Carlão e eles tens uns cd´s ótimos de coletâneas.
Só porque agora eu estou levemente bebum.

Bem, no meio das coisas, eis que surge esta canção.

Fabiano 15 anos atrás, quando então cada verso atingia o seu ponto.

Tenho problemas pra postar coisas do YouTube, então se não funcionar, aqui vai o link:
http://www.youtube.com/watch?v=ePK3iP0sk5k

10.2.07

Do blog do Reinaldo

Aquele “menor”, bem maior do que o menino João, cujo corpo ele ajudou a espalhar pelas avenidas do Rio, vai ficar três anos internado. E depois será solto entre os meninos-João, por quem não se rezam missas de apelo social. Resta só a dor da família: privada, sem importância, sem-ONG, “sem ar, sem luz, sem razão”. Sobre o assassino, há de se derramar a baba redentora rousseauniana: ele nasceu bom; foram os insensíveis da classe média, à qual pertencia o menino João, que o tornaram um facínora. Simbolicamente, a culpa é de quem morre. Também notei que os jornalistas ficaram um tanto revoltados com a polícia, que obrigou os bandidos a mostrar o rosto. Não há dúvida: terrível ameaça à privacidade. Era só o que faltava: trucidar o menino João e ainda ser obrigado a expor a cara... Que país é este? Já não se pode mais nem arrastar uma criança num automóvel e permanecer no anonimato? Sabem do que morreu o menino João? De um ataque virulento de progressismo. Para o menino João, não tem ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), não. Não tem ONG, não. Não tem música do Chico, não. O menino João já nasceu sem perdão. É o guri dos sem-Chico Buarque.